Novo Livreto: Polêmicas com o Maoismo

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Introdução

Muito se fala dos rachas das correntes trotskistas, mas a verdade é que a pressão da luta de classes atua sobre todas as forças do espectro político e produz dissidências na forma de se pensar e agir. E tais pressões são tão presentes e profundas que afetam até mesmo organizações que operam sob regimes de rígido controle burocrático, como é o caso dos grupos stalinistas. O presente livreto é dedicado ao maoismo, corrente que constitui uma variação do stalinismo – o qual, segundo as análises de Leon Trotsky, constituía a expressão política dos interesses materiais da burocracia soviética.

A experiência da Terceira Revolução Chinesa teve diversas particularidades em relação à Revolução Soviética e o Estado operário burocraticamente deformado da República Popular da China, uma existência para além de mero satélite de Moscou. Portanto, não é de se espantar que a casta governante de Pequim tenha desenvolvido algumas ideias próprias e, a partir de determinado momento de sua existência, lutado por elas ao ponto de rachar os partidos comunistas mundo afora e criar uma rede internacional de partidos alinhados a si.

Não obstante as diferenças entre maoistas e outros tipos de stalinistas – como o “revisionismo krushovista” tão criticado por Mao – os artigos que se seguem demonstram que aqueles tem por pilares fundamentais a mesma estratégia etapista, o mesmo programa de caráter nacional reformista e, consequentemente, a mesma prática de colaboração de classes do stalinismo “clássico” e daquele que se seguiu à morte de Stalin. Pois, no fundo, são todos “expressões políticas dos interesses materiais” de castas burocráticas que visava(m) defender seus privilégios.

O grupo A Nova Democracia

Depois da morte de Mao, em 1976, a burocracia governante da República Popular da China se dividiu em duas alas. Uma delas, o “Bando dos Quatro”, reivindicava toda a trajetória do “Grande Timoneiro” (inclusive os projetos econômicos desastrosos como o Grande Salto Adiante). Outra, formada ao redor de Deng Xiaoping, vaticinava a necessidade de reformas econômicas de abertura parcial ao capitalismo. Após a vitória dessa última, o conjunto de Partidos Comunistas associados ao governo da China, que haviam rompido com as organizações que seguiam o governo da URSS, entrou em crise. Parte desses partidos seguiu apoiando o governo chinês (e essa corrente praticamente desapareceu nos dias de hoje). Um grupo passou a apoiar o governo da Albânia, dirigido por Enver Hoxha, que se opunha tanto à URSS quanto ao giro dos chineses. E ainda alguns grupos passaram a reivindicar uma orientação maoista “independente”.

Ao realizarmos a crítica histórica e programática do maoismo ao longo deste livreto, nos focamos na principal expressão atual dessa corrente no Brasil – o jornal A Nova Democracia e as frentes e militantes que se organizam ao seu redor. AND se inspira nas formulações da “Fração Vermelha” do Partido Comunista do Peru (o grupo Sendero Luminoso) e na figura de seu líder histórico, o “Presidente Gonzalo” (Abimael Guzmán). O Sendero Luminoso foi uma dessas organizações que seguiu uma orientação maoista independente. Segundo AND, Gonzalo teria sido responsável por sintetizar os supostos gigantescos aportes do Presidente Mao como maoismo, como nova, terceira e superior etapa do desenvolvimento do marxismo, dando origem ao que chamam esdruxulamente de marxismoleninismomaoismoPensamento Gonzalo (120 anos do nascimento do Presidente Mao Tse-tung, Núcleo de Estudos do Marxismo-leninismo-maoísmo, AND N. 124, de janeiro de 2014).

Foi o PCP dirigido pelo “Presidente Gonzalo” que formulou muitas posições defendidas hoje pelos maoistas brasileiros e que não se encontram sequer no pensamento de Mao, muito menos no leninismo. Um exemplo é a rejeição por princípio em se utilizar das eleições burguesas como tática de denúncia do capitalismo, que A Nova Democracia usa como critério para se diferenciar do restante da esquerda marxista. O Sendero Luminoso também tinha uma forte tendência gangsterista e cometia atos de violência (incluindo assassinatos) contra adversários políticos na esquerda peruana, como militantes do grupo guerrilheiro Movimento Revolucionário Túpac Amaru (MRTA) e sindicalistas. Nem é preciso mencionar o forte culto à personalidade de Gonzalo. AND reivindica, portanto, uma variante particularmente degenerada do maoismo, conforme ficará mais claro pelas críticas que se seguem.

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