Os vaivéns centristas da Fração Trotskista

Os vaivéns centristas da Fração Trotskista

Da FIT argentina ao #MRTnoPSOL 

Rodolfo Kaleb, novembro de 2015

Há cerca de dois anos, publicamos uma longa polêmica com a Fração Trotskista [1], organização internacional do PTS argentino e cuja seção no Brasil é o MRT (antiga LER-QI) [2]. Essa polêmica tratava da construção do partido revolucionário e do que, para nós, consiste na estratégia centrista da Fração Trotskista nesse terreno: apostar na aproximação e no amálgama com correntes oportunistas da “família do trotskismo”. Essa postura se revela nas suas publicações, ao longo dos anos, de recorrentes chamados de unidade endereçados a vários grupos revisionistas. Nessas publicações da FT, geralmente são ignoradas ou minimizadas as muitas vezes em que esses grupos renegaram a independência de classe e os princípios do marxismo.

Conforme discutimos a fundo em tal polêmica, a FIT (Frente de Esquerda e dos Trabalhadores) da Argentina tem sido o principal cenário para aplicação dessa política pelo PTS nos últimos anos. A FIT é uma coalizão eleitoral entre o PTS e duas outras organizações que reivindicam o trotskismo – o Partido Obrero (PO) e a Esquerda Socialista (IS – seção argentina da corrente morenista UIT). 

Reconhecemos que a FIT não é um bloco de colaboração de classes, se diferenciando, portanto de uma “frente popular” com partidos burgueses. Dessa forma, em casos específicos, o apoio eleitoral crítico à FIT seria válido. Por outro lado, ela também não é, diferentemente do que a FT afirma em certas ocasiões (e nega em outras), um mero bloco eleitoral com o propósito limitado de viabilizar candidaturas proletárias nas eleições burguesas. Porém, como demonstramos naquela polêmica, o PTS pretende da FIT um trampolim para a unidade política com as outras correntes, especialmente o Partido Obrero de Jorge Altamira. O PTS frequentemente pressiona os outros grupos para manter essa unidade para além das eleições, na forma de uma frente permanente. De forma emblemática, reiteradas vezes o PTS e o MRT afirmaram encarar a FIT como uma “frente revolucionária”, como um embrião de um partido revolucionário.

Desde que escrevemos nossa crítica, tivemos muitas conversas com militantes da Fração Trotskista  no Brasil (então organizados na LER-QI) sobre esse assunto. Uma resposta que comumente recebemos foi de que a intenção do PTS não era se aproximar dos grupos revisionistas, mas que a FIT era uma “frente única”, uma simples colaboração prática, com o objetivo de superar a legislação eleitoral restritiva da Argentina, e concorrer às eleições com uma chapa classista. Significativamente, essa posição já foi divulgada pela seção alemã da Fração Trotskista, conforme apontamos em nossa polêmica anterior:

Outra característica importante para a formação da FIT é a questão de frentes eleitorais como uma frente única temporária baseada em acordos parciais em uma situação concreta, em oposição a projetos de longo prazo, baseados em acordos mais profundos em termos de programa, estratégia e prática. A FIT não é de forma alguma um projeto que foi designado em termos de um alinhamento de longo prazo do PTS com o PO, mas sobre a necessidade concreta de uma frente única dos trabalhadores contra a repressão burguesa…”. [3]

Certamente que não haveria nada de errado com isso, não fossem as afirmações claras do próprio PTS de que a FIT não é isso. Recentemente, a FIT tem passado por uma dura divisão em relação à formação da chapa para as eleições presidenciais. Nesse contexto, aqui está uma resposta da liderança do PTS à afirmação de Altamira (PO), feita no fim do ano passado, de que a FIT era uma “frente única”:

A FIT é um bloco de agitação de três partidos que se reivindicam trotskistas que defendem um programa de reivindicações transitórias, a independência da classe e propõem um governo dos trabalhadores. Isso não é uma ‘frente única’, e sim um reagrupamento de formações de esquerda que se reivindicam revolucionárias que ainda não são partidos grandes e seu objetivo é agitar um programa revolucionário em comum nos processos eleitorais. O programa da FIT, mais que o de ‘frente única’, abre o caminho para o debate da necessidade de um partido revolucionário, proposta que temos feito em várias oportunidades e à qual os nossos aliados lamentavelmente tem se negado sistematicamente.” (nossa ênfase)

O Partido Obrero no Luna Park e o discurso de Jorge Altamira, 9 de novembro de 2014. Disponível em:

http://tinyurl.com/ofbu7tt


Essa declaração da liderança do PTS deixa explícito aquilo que dizíamos, e que alguns militantes da FT sempre negaram: que a atuação do PTS na FIT é buscar a unidade, uma aproximação política, com correntes reconhecidamente oportunistas.

Outra resposta (verbal) que recebemos à nossa polêmica foi o reconhecimento de que, sim, a Fração Trotskista faz convites para discussões de unidade a essas correntes oportunistas (o que fica evidente lendo a citação acima). Mas que isso nada mais seria que uma “tática” para incidir sobre a base desses grupos. Ou seja, o objetivo seria mostrar que o PTS não se recusa ao debate, que não é um grupo sectário. Isso implicaria que a FT não pretende, de fato, unidade com os grupos que corteja, mas que afirma isso somente como uma forma de disputar seus militantes.

Temos sérios problemas com essa “explicação”. Antes de tudo, porque ela é dissimulada. A “tática” da FT seria desonesta com a base das correntes oportunistas ao proclamar uma coisa (o desejo de aproximação ou discussão de unidade) tendo outro interesse por trás. Além do mais, se realmente fosse essa a intenção da Fração Trotskista, essa seria uma “tática” muito ruim para o propósito de convencer esses militantes. A FT faz muitas críticas acertadas às posições oportunistas do PO e dos morenistas da Esquerda Socialista. Porém, joga fora a sua consistência quando, volta e meia, considera que eles “defendem um programa de reivindicações transitórias, a independência da classe e propõem um governo dos trabalhadores” (como afirma que fazem na FIT).

Para ganhar a base de um grupo oportunista, é necessário demonstrar cabalmente os problemas incorrigíveis da sua direção. Afinal, todo militante dedicado permaneceria em sua organização (mesmo que nela visse problemas e erros) se considerasse que eles são solucionáveis. Deve-se explicar calmamente à base dessas correntes como a política de seus dirigentes conduz ou conduziria o proletariado a derrotas, e não fazer concessões ou chamados de unidade. Como disse Trotsky, “Se um livro de física contiver, ainda que fosse só duas linhas sobre Deus como a causa primeira, estaria no meu direito concluir que o autor é um obscurantista” [4]. De nada adiantam as críticas muitas vezes corretas que a Fração Trotskista faz a esses grupos oportunistas se ela afirma (em bem mais de duas linhas) que os três partidos da FIT (Partido Obrero e Esquerda Socialista, além do próprio PTS) defendem um “programa revolucionário em comum” e então demanda unidade política com os mesmos.


Quantas vezes esses grupos não cruzaram a independência de classe? Vem à mente as várias vezes em que o PO apoiou candidaturas burguesas nas eleições [5]. Ou quando a IS defendeu a vitória de uma “revolução” em unidade com a OTAN na Líbia em 2011 [6]. Em 2012, o PO levantou no contexto da Grécia a proposta de um “governo da esquerda” para assumir o Estado burguês [7]. E que dizer então dos morenistas, que viram uma “revolução vitoriosa” no Egito enquanto os militares subiam ao poder em 2013 [8]? A FT conhece muito bem todos esses exemplos, pois os criticou. Portanto, a sua afirmação de que esses partidos defendem a “independência de classe” e “propõem um governo dos trabalhadores”, é umacapitulação centrista. Centrista porque, não obstante criticar tais grupos em diferentes ocasiões, são quase que periódicos os chamados à construção de organizações “revolucionárias” junto com eles, seja no âmbito argentino, via PTS, seja internacional. Veja-se esse exemplo de chamado do PTS, de 2009:

Na Argentina, o PTS está chamando as correntes trotskistas que não adotaram a política de dissolver-se ou de aliar-se com setores da centro-esquerda (como o Partido Obrero e aquelas que, como a Esquerda Socialista e o MAS, nas últimas eleições nacionais formaram junto com o PTS o FITS) a abrir a discussão para avançar na construção de um partido comum marxista revolucionário, com centralismo democrático, que supõe a liberdade de tendências, e numa intervenção comum na luta de classes, que permita mediante a experiência e a discussão, superar a dispersão atual das forças que nos reivindicamos do marxismo revolucionário.”

Que partido para qual estratégia?, 23 de fevereiro de 2009. Disponível em:
http://tinyurl.com/nef63aa

Ou, ainda mais significativa, a campanha iniciada pela Fração Trotskista cerca dois anos atrás, em prol de um “Movimento por uma Internacional da Revolução Socialista” (a qual ela acabou abandonando silenciosamente após certo estardalhaço de alguns meses). Essa campanha partia de um manifesto onde se chamava ao “reagrupamento” uma série de grupos oportunistas sem qualquer consistência, baseando-se em posições bastante isoladas acerca de uma série de fenômenos importantes da luta de classes que então ocorriam mundo afora, em especial aqueles relacionados à “Primavera Árabe” e à luta de classes na Grécia:

Chamamos especialmente os companheiros do Novo Partido Anticapitalista (NPA) da França, tanto os que integram conosco a ‘Plataforma Z’ como aqueles que se agrupam na ‘Plataforma Y’ (…) e os companheiros do ex-Secretariado Unificado (SU) de outros países que enfrentam a orientação majoritária de generalizar este tipo de blocos com reformistas (…); os companheiros do Partido Obrero da Argentina e a Coordenação pela Refundação da Quarta Internacional (CRCI), com quem integramos na Argentina a Frente de Esquerda dos Trabalhadores (FIT) e temos coincidido em diversos fatos da luta de classes nacional e internacional; os grupos da esquerda trotskista grega que combatem a adaptação ao Syriza; e a todas aquelas organizações da esquerda revolucionária ou da vanguarda operária e juvenil que busquem o caminho à revolução.”

Manifesto por um Movimento por uma Internacional da Revolução Socialista, agosto de 2013. Disponível em:http://tinyurl.com/qetl3tn

Em todos esses casos, a Fração Trotskista dizia querer construir um partido conjunto com as organizações revisionistas do trotskismo. Para nós, diferente das duas supostas explicações que mencionamos acima para esses chamados de aproximação e de unidade, há uma terceira que realmente faz sentido.

Alguns dirigentes da FT parecem compreender essas propostas como um tipo de “manobra”. Porém, essa manobra não pode ter a intenção de disputar a base das correntes oportunistas, pois o efeito só poderia ser enfraquecer suas críticas diante desse público, conforme explicamos. Essa manobra se destina aos próprios dirigentes dos grupos oportunistas, com o objetivo de atrair essas correntes a uma aproximação. Daí o seu formato mais comum ser uma carta ou carta aberta, com a intenção de pressionar os dirigentes a debater o assunto. Por sua vez, muitos militantes da Fração Trotskista ou ignoram a existência desses chamados ou são convencidos pela desculpa de que se trata de “táticas” para disputar a base dos centristas.

Os líderes da FT estão errados em achar que podem manobrar ou influenciar os dirigentes de grupos oportunistas a uma fusão onde seu programa tenha alguma chance de prevalecer. Via de regra, esses dirigentes são muito pouco ingênuos e bastante experientes nesse tipo de jogada. Além disso, fazer essa aposta implica também acreditar na capacidade desses dirigentes de efetivamente assumir o programa do marxismo revolucionário, ainda que sob algum tipo de indução ou pressão, o que é uma ilusão. Como apontamos em nossa polêmica de dois anos atrás, essa era precisamente a expectativa dos velhos pablistas com relação aos stalinistas e reformistas, com a diferença de que a FT quer fazer isso com grupos da “família trotskista”.

Hoje o PO argentino, ontem o PSTU brasileiro

Se hoje em dia o PTS faz elogios e propostas de unidade ao PO/IS, enaltecendo a FIT enquanto um bloco com um “programa revolucionário em comum”, quase dez anos atrás a FT preferia fazer isso com os morenistas do PSTU brasileiro. Daí a “carta aberta aos militantes do PSTU e da LIT”, que eles publicaram em 2006: 

Nossa corrente, assim como a LIT, vem corretamente criticando o giro à direita da maioria das correntes do trotskismo internacional, fenômeno que vocês chamam de ‘vendaval oportunista’. (…) Recentemente, o PO dá passos no mesmo caminho e chama a votar na Frente Popular de Evo Morales na Bolívia, e depois, em Romano Prodi na Itália. Consideramos que, assim como nós, os companheiros do PSTU e da LIT tiveram o mérito de não cometer nenhuma dessas capitulações citadas e são esses acordos políticos que nos levam a propor abrir uma discussão nacional e internacional.”

Carta aberta aos militantes do PSTU e da LIT, 5 de maio de 2006. Disponível em:
http://tinyurl.com/opzzca6

Isso só mostra que não se trata de um fenômeno novo ou isolado. Em 2014, os companheiros da FT aparentemente haviam “se esquecido” dessas posições oportunistas do PO e afirmaram que ele defendia a independência de classe e um governo de trabalhadores. Em 2006, por sua vez, a antiga LER-QI “se esquecia” de toda a história oportunista do morenismo, seu apoio também recorrente a frentes populares com a burguesia, incluindo o PT brasileiro, que o PSTU havia apoiado eleitoralmente apenas quatro anos antes [9]. A então LER-QI via “acordos políticos que nos levam a propor abrir uma discussão nacional e internacional” com os morenistas.

Certamente as intenções da FT foram frustradas com o giro à direita no próprio PSTU, que nos últimos anos apoiou uma série de quedas de governo hegemonizadas por partidos burgueses ou pelo próprio imperialismo como supostas “revoluções democráticas vitoriosas” (Líbia, Ucrânia, duas vezes no Egito). Mas podemos seriamente esperar que esses chamados de unidade não voltarão a se repetir diante de um realinhamento político? Os revolucionários precisam ser a “memória política” da vanguarda proletária para orientá-las diante das armadilhas reformistas e oportunistas. Mas nesse caso, a FT não lembrava (ou melhor, fingia não lembrar – o que é ainda pior) do que eles próprios escreveram.

Há algo de novo na criação do MRT?

A recente transformação da LER-QI em MRT indicou uma intenção em realizar um giro de massas, dando um salto qualitativo em sua situação organizativa, a qual ainda era em grande parte a de um grupo de propaganda. Isso implicou também a transformação do site da organização num portal de notícias mais amplo, o Esquerda Diário[10]

Em seu congresso (julho passado), o MRT deu uma nova forma a esse giro através de sua decisão de pedir o ingresso no PSOL. Depois dos últimos resultados eleitorais do PSOL, o MRT considerou-o como “um partido que pode expressar crescentemente parte importante das tendências de massas que se desenvolverão à esquerda da crise do PT” [11]. Ao pedir sua entrada à direção do partido, o MRT fez algumas críticas ao rumo que ela tem tomado, apontando como tem sido incapaz de tirar vantagem do enorme desgaste do PT com a classe trabalhadora e outros setores populares, e expressando em seguida o desejo de tornar-se uma tendência interna com liberdade programática. A direção do PSOL recusou a entrada do MRT até esse momento, apontando que ela só poderia dar-se por aprovação do congresso partidário em 2016, o que o MRT denunciou como antidemocrático. Isso fez com que lançasse uma campanha pelas redes sociais com o slogan #MRTnoPSOL.

Não há nenhuma questão de princípios que impeça a entrada (temporária) de organizações que se reivindicam revolucionárias em partidos reformistas mais amplos, como uma tendência de esquerda. Os trotskistas europeus e americanos, por exemplo, realizaram nos anos 1930 um movimento (que ficou conhecido como “entrismo”) de adesão organizativa aos partidos socialdemocratas de massas, que recentemente haviam ganho muitos setores jovens e radicalizados da classe trabalhadora. Somos contra a crítica ultraesquerdista que considera qualquer tática dessa natureza como uma “traição” imediata.

Porém, é inegável que há entradas oportunistas, assim como revolucionárias. O objetivo dos trotskistas com táticas de entrada é polarizar um setor ao redor do programa revolucionário para posteriormente construir um partido marxista independente. Nisso, como sempre, é preciso plena independência programática do oportunismo. Um exemplo pela negativa é a atuação de muitas correntes da ala de esquerda do próprio PSOL (algumas das quais se reivindicam trotskistas). Apesar de criticarem os passos mais abusivos da direção desse partido em questões de falta de democracia interna e posturas oportunistas de colaboração de classe (dentre as quais está, mais recentemente, de querer fazer uma “frente de esquerda” com o PT/PCdoB e outros partidos burgueses [12] [ver o ADENDO ao final deste artigo para os fatos mais recentes]), acabam se adaptando a uma convivência com tal direção.

As principais correntes que compõem o “bloco de esquerda” do PSOL chamaram a votar na candidata do partido, Luciana Genro, mesmo sabendo que ela havia recebido financiamento de campanha de empresas. Também fazem elogios e uma verdadeira tietagem com figuras parlamentares como Marcelo Freixo, cujas posições políticas passam longe de qualquer ideal socialista. Veja-se o “apoio crítico” que Freixo deu ao projeto das UPP e a propaganda eleitoral que fez para Dilma no segundo turno das eleições em 2014.

O que surpreende na decisão do MRT de entrar no PSOL é porque se dá num momento em que nenhum setor combativo da juventude ou da classe trabalhadora brasileira caminha em direção a esse partido. Os movimentos de “entrismo” originais foram motivados por uma grande leva de militantes radicais (assim como de jovens e interessantes grupos centristas) que adentravam a socialdemocracia. Nenhum movimento desse tipo existe no PSOL brasileiro nesse momento.

O crescimento eleitoral (pouco expressivo) do PSOL foi o principal argumento usado pelo MRT para sua decisão. Mas esse resultado não implicou, nem necessariamente o fará, nenhuma perspectiva de crescimento qualitativo do seu corpo militante (em número e em radicalidade política), que é o que interessa para construção do partido. As correntes que se reivindicam “trotskistas” no PSOL estão adaptadas à direção do partido, conforme ficou patente com o seu respeito à disciplina partidária mesmo depois que o último congresso foi ganho com base em delegados eleitos fraudulentamente pela corrente majoritária de Randolfe Rodrigues.

Impressiona também a mudança de tom do MRT com relação ao PSOL. Em dezembro de 2013, a então LER-QI afirmava com bastante certeza que, embora pudesse crescer eleitoralmente, o PSOL só poderia aprofundar o seu eleitoralismo, que era “incapaz de romper com a tradição petista”: 

O PSTU faliu como alternativa revolucionária, e o PSOL…. nunca se colocou essa perspectiva. Quando dizemos que faliram, não quer dizer que não podem até vir a crescer (coisa que não se deu qualitativamente pós junho), por exemplo, capitalizando eleitoralmente (nas eleições burguesas, mas também nos sindicatos) a mudança da consciência das massas pós junho. Mas isso se dará aprofundando os problemas que aqui apontamos, pois não poderão resistir às pressões de adaptação, como se expressou em junho, pois fazem parte de uma tradição arraigada. (…) E seguirá sendo assim, pois são incapazes de romper com a tradição petista, o que só poderia se dar fazendo uma ruptura com sua própria tradição, marcada pelo sindicalismo e eleitoralismo.”

O PSOL e o PSTU não passaram a prova de junho, 11 de dezembro de 2013. Disponível em:http://tinyurl.com/obadk2y

Agora, parece que é fundamental que o PSOL “concentre forças” a favor da classe trabalhadora, o que é apresentado com uma aposta válida, na qual os revolucionários deveriam colocar esforços:

Para que a luta dos trabalhadores seja consequente, é necessário que o PSOL, com seus militantes e parlamentares, concentre forças a favor das lutas e da organização da classe trabalhadora e da juventude, abrindo portas para as organizações revolucionárias que queiram fazer parte dessa perspectiva.”

Manifesto do MRT em campanha pelo #MRTnoPSOL, 6 de agosto de 2015. Disponível em: http://tinyurl.com/og75csl 

É claro que não há como saber de antemão como será (caso seja concretizada) a atuação da tendência do MRT no PSOL. Mas com base na sua estratégia centrista de buscar unidade com correntes oportunistas, imaginamos que não se daria no sentido de polarizar um setor do partido contra a direção (e de forma independente do atual “bloco de esquerda”). Ao contrário, podemos prever chamados de unidade a certas correntes revisionistas da “família trotskista” da esquerda do partido, semelhantes aos que a Fração Trotskista já faz regularmente do lado de fora. Inclusive, uma das correntes do “bloco de esquerda” do PSOL é a morenista CST (Corrente Socialista dos Trabalhadores), organização irmã da IS argentina à qual o PTS já endereça os seus chamados.

Apesar do seu novo nome, o MRT brasileiro é herdeiro dessa política, já que nunca fez uma crítica à mesma, demonstrando claro alinhamento com a linha centrista da direção internacional da FT. Assim como todos os centristas que oscilam entre uma política pretensamente revolucionária e posições abertamente oportunistas, também a FT realiza vaivéns na sua posição em relação aos grupos revisionistas do trotskismo. Ora crítica acertada, ora capitulação e desejo de unidade. Mas não se pode reconstruir a Quarta Internacional com “manobras” desse tipo. Somente uma crítica certeira e consistente ao oportunismo pode avançar para a reconstrução do partido mundial da revolução socialista.

ADENDO

Desde que a versão preliminar deste artigo ficou pronta, o PSOL formou a “Frente Povo sem Medo”, em conjunto com o MTST e setores governistas do PT e do PCdoB, organizados na CUT, na CTB, na UNE, e em outros agrupamentos menores. O objetivo dessa frente seria o de enfrentar as medidas de austeridade do governo e a ameaça de impeachment que a direita está lançando contra ele, mas blindando Dilma e o PT, ao focar as críticas somente em Levy (como se fossem coisas diferentes!). Em resposta a esse giro à direita por parte do PSOL, o MRT deixou de lado a postura mais “branda” que vinha adotando e lançou duras críticas ao partido [13]. Ademais, parece ter removido de sua agitação cotidiana a campanha #MRTnoPsol, que vinha priorizando em sua atuação pública. Não podemos prever de antemão se o MRT irá manter o pedido de entrada no PSOL ou se presenciaremos um novo zigezague na orientação política dessa organização, mas está clara a confusão que gera a sua orientação estratégica que aqui criticamos.

NOTAS

[1] Fração Trotskista e sua ruptura incompleta com o morenismo (maio de 2013). Disponível em: http://tinyurl.com/nkbz9bl

[2] Nós do Reagrupamento Revolucionário possuímos com as companheiras e companheiros do MRT outras diferenças estratégicas que nos separam. Desde 2013, algumas de nossas diferenças políticas se aprofundaram ou se mantiveram, sobretudo com relação à política nos processos de guerra civil e intervenção imperialista no Oriente Médio e Norte da África (caso da Líbia e da Síria), onde observamos um abandono do princípio de defesa das nações oprimidas e uma aproximação com o oportunismo morenista de apoiar setores desse processo independentemente de seu conteúdo de classe. Veja Os rebeldes na Líbia e na Síria e a posição revolucionária (janeiro de 2014), disponível em http://tinyurl.com/oubqhar . E também em questões nacionais, como quando a então LER-QI chamou “voto crítico” no PSTU “onde este partido não estivesse coligado com o PSOL” (nacionalmente). Isso sendo que o PSTU estava coligado com o PSOL nos principais estados do país, inclusive em São Paulo e, no Rio Grande do Sul, onde era parte de uma campanha que recebeu dinheiro de financiamento capitalista. Veja Os comunistas e as eleições de 2014(setembro de 2014), disponível em: http://tinyurl.com/oh34asr .

[3] A campanha eleitoral da FIT na Argentina, 27 de julho de 2011, disponível em inglês em: http://tinyurl.com/no6ebjg

[4] De um arranhão ao perigo de gangrena (janeiro de 1940). Disponível em: http://tinyurl.com/pwue93x

[5] Conforme nossa crítica em PCO, Partido Obrero e as frentes populares (fevereiro de 2013). Disponível em:http://tinyurl.com/n9r9zbg

[6] La revolución árabe y el final de Kadafi. 

Disponível em: http://tinyurl.com/p8twb53 Para nossa crítica à posição semelhante tomada pelo PSTU brasileiro, ver PSTU, Fração Trotskista e a defesa da Líbia contra o imperialismo (novembro de 2011), disponível em:http://tinyurl.com/od7f3e5

[7] La pulseada entre el FMI y Syriza. Disponível em: http://tinyurl.com/ngbjezc Para a crítica publicada pelo PTS argentino, ver Los revolucionarios y la cuestión del “gobierno de izquierda”, disponível em: http://tinyurl.com/oao8toq

[8] Egipto: la movilización revolucionaria derribó a Mursi! Disponível em: http://tinyurl.com/pac6u7n Para nossa crítica à posição semelhante tomada pelo PSTU brasileiro, ver O golpe militar no Egito e a posição escandalosa do PSTU/LIT (outubro de 2013), disponível em:http://tinyurl.com/o6vjpnh

[9] PSTU chama voto em Lula (outubro de 2002). Disponível em: http://www.pstu.org.br/node/3435 Para uma crítica nossa à prática do morenismo e do PSTU em apoiar frentes populares, ver PSTU “justifica” seu bloco com PSOL e PCdoB (agosto de 2012), disponível em:http://tinyurl.com/qbau88k

[10] O MRT está claramente experimentando neste giro. Pouco antes da mudança de nome, havia dado um tom muito mais superficial aos materiais publicados em seu jornal Palavra Operária – um clássico erro em tentar atingir as massas reduzindo o programa, contra o qual Trotsky advertira seus camaradas franceses em 1935 (em um texto que recomendamos fortemente aos membros do MRT e do qual citamos abaixo um trecho). Depois, extinguiram o jornal impresso para lançar o portal de notícias online Esquerda Diário, tendo apenas recentemente voltado com uma versão impressa do Palavra Operária, dessa vez com um tom mais parecido com o original, com matérias se diferenciando de grupos adversários e fazendo polêmicas.

Mas, muito frequentemente, a impaciência revolucionária (que facilmente se transforma em impaciência oportunista) leva à seguinte conclusão: as massas não vem até nós porque nossas ideias são complicadas demais e nossas palavras de ordem avançadas demais – ou seja, deve-se jogar fora alguns entulhos. Basicamente, isso significa: nossas palavras de ordem devem corresponder não à situação objetiva, não à relação de classes analisada pelo método marxista, mas a observações subjetivas (e extremamente superficiais e inadequadas) sobre o que as “massas” podem e não podem aceitar. Mas quais massas? A massa não é homogênea. Ela se desenvolve. Ela sente a pressão dos eventos. Ela aceitará amanhã o que não aceita hoje. Nossos quadros vão desbravar o caminho com crescente sucesso para nossas ideias e palavras de ordem, as quais vão se mostrar corretas porque são confirmadas pela marcha dos eventos e não por observações subjetivas e pessoais.” (Leon Trotsky, O que é um jornal de massas? Novembro de 1935, disponível emhttp://tinyurl.com/pqou98n)

[11] Congresso do MRT aprova proposta de entrada no PSOL, 20 de julho de 2015, disponível em: http://tinyurl.com/q5466nb .

[12] Negociação avança e frente de esquerda é batizada de “Grupo Brasil”, 27 de junho de 2015, disponível em:http://folha.uol.com.br/#noticia/567616

[13] Uma Frente pra deixar Dilma e o PT sem medo, de 13 de outubro de 2015, disponível em:http://www.esquerdadiario.com.br/Uma-frente-pra-deixar-Dilma-e-o-PT-sem-medo

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