O Planeta sem Visto

O Planeta Sem Visto

Por Leon Trotsky. Trecho do Capítulo 45 de sua autobiografia, Minha Vida (1930). Traduzido do espanhol pelo Reagrupamento Revolucionário em dezembro de 2016, a partir da versão disponível em https://www.marxists.org/archive/trotsky/1930/mylife/ch45.htm.

Confesso que meu apelo às democracias europeias, nessa busca pelo direito de asilo, me valeu de passagem muitos momentos de graça. Às vezes, me parecia que estava assistindo à encenação de uma espécie de comédia “pan-europeia” em um ato, intitulada “Os princípios da democracia”. Uma comédia que podia ter sido escrita por Bernard Shaw [dramaturgo satírico], caso se adicionasse a esse líquido “fabiano” que corre em suas veias uma boa dose do sangue de Jonathan Swift [romancista satírico, autor de As Viagens de Guilliver]. Mas, qualquer que fosse seu autor, não se pode negar que a comédia, cujo subtítulo poderia ser “Europa sem visto”, tinha muito de instrutiva. E não falemos dos Estados Unidos! Os Estados Unidos não só tem o privilégio de ser o país mais forte do mundo, mas também o mais temeroso. Não faz muito tempo que [o presidente dos EUA Herbert] Hoover explicou a sua paixão pela pesca, ressaltando o caráter democrático desse esporte. Se é assim – e eu duvido que o seja – a pesca é uma das poucas relíquias da democracia que ainda restam nos Estados Unidos. O direito de asilo já faz tempo que os ianques tem removido de seus códigos legais. De modo que o subtítulo pode ser ampliado: “Europa e América sem visto”. E como estes dois continentes regem o resto do mundo, a conclusão é indiscutível: “O planeta sem visto”.

Por vários lados me explicaram que minha descrença na democracia é meu maior pecado. Quantos artigos e até mesmo livros foram escritos sobre isso! Mas quando eu peço para receber uma breve aula prática de democracia, não há voluntários. Não há um único país em todo o planeta que se disponha a estampar um visto em meu passaporte. E querem me convencer que esse outro pleito, imensamente mais importante, que é o pleito entre os proprietários e os que não tem posses, será decidido com a observância estrita das formas e rituais da democracia?

Mas, vamos aos fatos: a ditadura revolucionária deu os frutos que dela se esperavam? A essa pergunta, que se ouve constantemente, não pode ser respondida a não ser através da análise dos resultados da revolução de outubro, enfocando-se as perspectivas que se abrem ante ela. Uma autobiografia não é, como compreenderão, o lugar mais adequado para levar a cabo esse exame. Procurarei realiza-lo em um livro consagrado especialmente ao problema [A Revolução Traída, 1936], no qual já toquei em meu exílio na Ásia central. Compreendo, não obstante, que não posso finalizar o relato de minha vida sem falar, ainda que em algumas poucas linhas, porque sigo incondicionalmente no caminho em que sempre estive.

O panorama que se desenvolveu ante os olhos da minha geração – a que agora está entrando nos anos maduros ou declinando rumo à velhice – pode ser descrito esquematicamente como segue: no decorrer de umas décadas – de fins do século XIX ao começo do XX – a população europeia foi submetida à disciplina inexorável da indústria. Todos os aspectos da educação social tiveram que se render ao princípio da produtividade do trabalho. Isso trouxe consigo enormes consequências e parecia abrir uma série de novas possibilidades para o Homem. Na realidade, o que fez foi desencadear uma guerra. É claro que a guerra teve que convencer a humanidade de que ela não estava degenerada, como tanto clamara lamentavelmente a anêmica filosofia, mas, ao contrário, que estava cheia de vida, de forças, de ânimos e de espírito empreendedor. E a guerra serviu também para evidenciar para a humanidade, com uma potência jamais conhecida, o seu enorme poder técnico. Foi como se o Homem, posto diante de um espelho, ensaiasse fazer um corte no pescoço com a navalha de barbear, como forma de se assegurar de que sua garganta estava sã e forte.

Ao término da guerra de 1914-18, se proclamou que, a partir daquele momento, era dever um dever moral sagrado direcionar todas as energias a estancar aquelas mesmas feridas que, pelo espaço de quatro anos, se defendeu que era um dever moral produzir. O trabalho e a poupança não apenas se veem restaurados em seus antigos direitos, como apoiados pela mão de ferro da racionalização. As assim chamadas “reparações” são levadas à cabo pelas mesmas classes, pelos mesmos partidos e até pelas mesmas pessoas que foram responsáveis pela devastação. E onde se implantou uma mudança de regime político, como na Alemanha, quem conduz o movimento de construção são personagens que na campanha de destruição figuravam em segundo ou terceiro escalão. A isso se reduz toda a mudança, em pureza. Poder-se-ia dizer que a guerra ceifou toda uma geração apenas para que se produzisse um lapso na memória dos povos e para que a nova geração não compreenda de forma muita clara que o que o se está fazendo é, na verdade, ainda que se trate de uma fase historicamente superior e com consequências que serão, portanto, muito mais dolorosas, voltar aos velhos hábitos.

Na Rússia, a classe trabalhadora, guiada pelos bolcheviques, tentou transformar a vida para ver se era possível evitar que se repetissem periodicamente esses acessos de loucura da humanidade e, ao mesmo tempo, para construir as bases de uma cultura superior. Foi esse o sentido da revolução de outubro. É indubitável que a missão a que se propôs ainda não está cumprida, pois se trata de um problema que, por razão natural, só se pode ver resolvido ao longo de muitos anos. E digo mais: digo que é necessário considerar a revolução russa como o ponto de partida de uma nova história da humanidade em sua totalidade. Ao término da Guerra dos Trinta Anos, foi possível que o movimento alemão em prol da Reforma tivesse todo o aspecto de um tumulto desencadeado por homens fugidos de um manicômio. E de certa forma assim o era, pois a Europa acabara de sair de dos claustros da Idade Média. E, não obstante, como conceber a existência dessa Alemanha moderna, da Inglaterra, dos Estados Unidos e de toda a atual humanidade, sem levar em conta aquele movimento da Reforma, com as inúmeras vítimas que devorou? Se está justificado que haja vítimas – e não sabemos de quem teria que se obter, de fato,  a permissão – nunca está tão justificado como quando as vítimas servem para levar a humanidade a um avanço. E cabe dizer o mesmo da Revolução francesa. O reacionário e pedante Taine imaginava ter descoberto uma grande coisa quando dizia que, alguns anos depois de se ter decapitado Luís XVI, o povo francês vivia mais pobre e menos feliz que sob o Antigo Regime. Feitos como os da grande Revolução francesa não se podem medir pela régua de “alguns anos”.  Sem a Grande Revolução, a França de hoje seria inconcebível e o próprio Taine teria terminado seus dias como o escriba de algum grande senhor do velho regime, ao invés de se dedicar a insultar a revolução à qual deve sua carreira.

Pois bem: a revolução de outubro deve ser julgada com uma distância histórica maior. Apenas tolos ou pessoas de má fé podem acusa-la de, em doze anos, não ter trazido paz e bem estar para todos. Vista sob o mesmo critério da Reforma ou da Revolução francesa, que representam, em um distância de uns três séculos, duas etapas do caminho da sociedade burguesa, não se pode senão se admirar que um povoado tão atrasado e solitário como a Rússia se tenha conseguido assegurar à massa do povo, doze anos após a sacudida, uma média de vida que, ao menos, não é inferior ao que existia às vésperas da guerra. Apenas isso, por si só, é um milagre. Mas, claro está que não é aí que se deve buscar o sentido e a razão de ser da revolução russa. Estamos diante de uma tentativa de mudança da ordem social. É possível que essa tentativa se modifique e transforme, talvez fundamentalmente. É seguro que deve adotar um caráter totalmente distinto sobre a base da nova técnica. Porém, passarão algumas dezenas de anos, passarão alguns séculos, e a ordem social que rege olhará para a revolução de outubro tal qual hoje o regime burguês faz com a Revolução francesa e a Reforma. E isso é tão claro, tão evidente, tão indiscutível, que até os professores de História o compreenderão; ainda que apenas depois de uns tantos anos.

“Bem, e sobre tudo ocorreu à sua pessoa nesse processo, o que me dizes?” Já quase consigo ouvir essa pergunta, na qual a ironia se mescla com a curiosidade. Não há muito mais o que dizer sobre ela do que aquilo que eu já disse ao longo desse livro. Não entendo essa lógica de medir um processo histórico com a régua das vicissitudes individuais de uma pessoa. Meu sistema é o inverso: não só penso objetivamente o destino pessoal que me coube, como também, ainda que subjetivamente, não sou capaz de vive-lo se não for de forma indissociável dos caminhos da evolução social.

Quantas vezes, desde a minha expulsão [da URSS], tive que ouvir os jornais falarem e discorrerem sobre minha “tragédia”! Não reconheço nenhuma tragédia pessoal. O que há, simplesmente, é uma mudança de capítulo na revolução. Um jornal norte-americano publicou um artigo meu, acompanhando-o da engenhosa observação de que o autor, apesar de todos os reveses sofridos, não havia perdido – como o artigo demonstrava – o equilíbrio da razão. Não posso senão me assombrar com essa tentativa filisteia de estabelecer uma relação entre a clareza de juízo e ter um cargo no governo, entre o equilíbrio moral e as circunstancias da atualidade. Jamais conheci semelhante relação de causalidade. No cárcere, com um livro à minha frente ou uma pena na mão, vivi momentos de prazer tão radiantes como os que pude desfrutar naquelas reuniões das massas durante a revolução. E quanto à mecânica do poder, me pareceu sempre mais como um encargo inevitável do que uma satisfação espiritual. Mas sobre isso talvez seja melhor ouvirmos algumas palavras já ditas por outros. No dia 26 de janeiro de 1917, Rosa Luxemburgo escreveu na prisão a uma amiga, dizendo:

“Isso de se entregar por completo às misérias de cada dia que passa é para mim algo inconcebível e intolerável. Veja, por exemplo, a fria serenidade com a qual se elevava Goethe por sobre as coisas. E, não obstante, não acreditava que não havia de passar por amargas experiências. Pense naquilo que ele viveu: a grande Revolução francesa, que, vista de perto, certamente tinha o aspecto de uma força sangrenta e sem nenhum objetivo e, logo após, uma sucessão de guerras que vão de 1793 a 1815… Não te peço que escreva poesias como Goethe, mas sua forma de abraçar a vida – aquele universalismo de interesses, aquela harmonia interior – está ao alcance de qualquer um, ainda que seja apenas como aspiração. E se me disser, por acaso, que Goethe podia ser assim porque não era um lutador politico, te responderei que precisamente um lutador é quem mais tem que se esforçar em ver as coisas desde acima, caso não queira cair de bruços a cada passo contra todas as pequenices e misérias… sempre e quando, naturalmente, que se trate de um lutador de verdade…”

Que palavras magníficas! As li pela primeira vez não fazem muitos dias e elas me fizeram ter ainda mais afeto e carinho pela figura de Rosa Luxemburgo do que antes.

No que diz respeito a doutrinas, caráter ou ideologia, não há em Proudhon – essa espécie de Robinson Crusoé do socialismo – nada com o que eu simpatize. Mas Proudhon era, por natureza, um lutador; era, intelectualmente, generoso; sentia um grande desdém pela opinião pública oficial e nele ardia uma chama inextinguível do desejo agudo e universal pelo saber. Isso o permitia estar por cima dos vaivéns da vida pessoal e por cima da realidade que o cercava. No dia 26 de abril de 1852, Proudhon escreveu na prisão a um amigo:

“O movimento, sem dúvidas, não é normal e nem sege uma linha reta; mas a tendência se mantém constante. Tudo o que é feito pela revolução é algo que não pode mais ser desenraizado; o que se tenta contra ela passa direto como uma nuvem. Eu gosto de ver esse espetáculo, do qual entendo cada figura; assisto a essa evolução da vida no universo como se desde o alto descendesse sobre mim sua explicação; o que a outros destrói, a mim eleva mais e mais, me inspira e me fortalece. Como, então, você quer que eu acuse o destino, que eu reclame das pessoas e as acuse? Eu rio do destino. E quanto aos homens, são por demais ignorantes, por demais escravizados, para que eu me irrite com eles.”

Ainda que essas palavras certamente tenham uma eloquência eclesiástica, são belas palavras. Eu assino embaixo delas.

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