Reflexões sobre os atos bolsonaristas do dia 07 de setembro

Se intenção dos atos bolsonaristas deste 7 de Setembro era mostrar força,  terminaram por revelar isolamento e fragilidade |

Bof , 15 de setembro de 2021

Findou o dia 7 de setembro. Afinal, não houve golpe. Não se pode dizer que isto é por conta de alguma demonstração de força popular.

Os atos contra Bolsonaro foram, quando muito, simbólicos, com algumas poucas milhares de pessoas. Nenhum setor organizado e importante de trabalhadores realizou demonstrações antes ou durante (por ser feriado). Sindicatos expressivos como CUT não mobilizaram nada além de algumas bolas infláveis e bandeirolas no Anhangabaú.

Os atos bolsonaristas concentraram suas forças em São Paulo e Brasília. Apesar de inflado o anúncio dos números (disseram 150 mil), conseguiram chegar a casa de muitas dezenas de milhares. Isso, no entanto, não é sinal de retomada do apoio, mas de um grau cristalizado (e, também, pago) de apoio em setores brutalizados de trabalhadores e arruinados da classe média urbana. Não houve enorme presença de setores do agronegócio (a maioria assinando manifesto contra o discurso golpista).

No fundamental, as frações dominantes dos patrões não tem nada a ganhar com aventuras golpistas. Com a economia em decadência e uma estagflação (inflação altíssima e crescimento estagnado, ou em queda) aparecendo na esquina, o que anseiam é estabilidade, o oposto do que oferece Bolsonaro acuado como está.

Em um discurso raivoso, Bolsonaro apresenta os métodos de animal encurralado: põe as costas na parede e mostra os dentes. Mas estes dentes, mesmo com a miragem de apoio, não podem morder seus adversários reais. Fala de não ser preso e acuar o STF pois sabe que pode estar chegando a hora de ser descartado, como antes tentaram com Temer. Hoje deu demonstração de uma base raivosa, mas de isolamento e estancamento. Daqui em diante Bolsonaro não tem pra onde crescer: é só ladeira abaixo.

Infelizmente, não existe movimento de trabalhadores organizado ameaçando os interesses da patronal. E isso em anos em que esses interesses cobraram milhões de desempregados e centenas de milhares de vidas pela epidemia.

Os sindicatos petistas, PCdoBistas e afins traíram os peões como poucos sindicatos já fizeram em toda a história da classe trabalhadora. Deixaram-nos morrer sem ar num corredor lotado de hospital.
Tinham dentes para morder, mas seus dirigentes se negaram e preferiram usá-los pra abocanhar os privilégios e mamatas que vem dos cargos sindicais.

No fundamental, de 2017 pra cá, os patrões ganharam todas e, sobretudo, conseguiram desarmar sindicatos e fragmentar os peões.

Essa história de golpe é uma manobra narrativa para obter chantagem eleitoral e, assim, dar ao PT base de apoio para eleger Lula com e para as mesmas raposas que derrubaram Dilma em 2016.

A onda conciliatória se ergue, ganhando além da esquerda liberal e domesticada, nomes burgueses de peso, de Delfim Netto a Meirelles, do agronegócio aos industrialistas, do mercado financeiro aos gigantes do Comércio. It’s all business, afinal. E o que importa em negócios é a estabilidade para lucrar.
O preço? Condições sub-humanas de vida para a massa de peões, preço da força de trabalho (salários) cada vez menor, lucros exorbitantes, manutenção das reformas contra o povo e genocídio da epidemia seguindo.

Diante de uma situação econômica deteriorada, essas são as únicas margens do Rio pelo qual Lula, encarnando a conciliação, pode navegar.

Existir quem hoje aponte esta realidade, que Bolsonaro está acuado pelo limite de suas forças e pelos setores de patrões que o colocaram lá – e que hoje já o vêm mais como problema do que solução – , além de mencionar a operação ao redor da conciliação de classes, que trará a mentira de um novo governo Lula como o salvador da pátria, é condição essencial de uma política revolucionária.

Quando vierem os ataques comandados pelas raposas e executados pelo PT, inevitáveis dado o cenário econômico, este grupo da esquerda revolucionária poderá se ligar a indignação que vai surgir entre os trabalhadores enganados.

Não fazer isso e não se preparar, indo viver a vida e luta nas quebradas e locais de trabalho mais precários, é entregar estes peões de novo para o colo da extrema direita.

Assim, se pavimenta o caminho para um novo Bolsonaro surgir, vendendo a si mesmo como antissistema e “a mudança”, para enganar uma classe trabalhadora confusa e montar no desespero da classe média.