Liga Espartaquista (EUA) na beira do penhasco – que os trotskistas saiam já! (1985)

A estrada para Jimslândia

Liga Espartaquista (EUA) na beira do penhasco – que os trotskistas saiam já!

Foto dos “Vingadores Vermelhos” publicada no jornal Young Spartacus de dez.1984/jan.1985

[Artigo originalmente publicado no Boletim da Tendência Externa da tendência Espartaquista Internacional (ET/iSt) n. 4, de maio 1985, pelo grupo que daria origem à Tendência Bolchevique (hoje Tendência Bolchevique Internacional, TBI). Tradução para o português realizada pelo Reagrupamento Revolucionário em fevereiro de 2017 a partir da versão disponível em http://www.bolshevik.org/ETB/Rtj.html ]

Em Novembro de 1984, quadros da Liga Espartaquista dos EUA (SL) vestiram chapéus de bruxa, narizes falsos, máscaras de porco e itens nazistas e desfilaram ao redor da Universidade Estadual de San Francisco, se apresentando como os “Vingadores Vermelhos (Red Avangers) da Liga Espartaquista Jovem clandestina” [a SYL, na sigla em inglês, era a juventude da SL]. Com isso, a liderança SL anunciou para a esquerda, para suas próprias fileiras e a quem mais estivesse interessado que a gradual transformação molecular da sua organização em uma seita obediente (um processo que estava em curso há alguns anos) tinha chegado ao ponto de não retorno. Enquanto isso, nas docas do outro lado da cidade, a Liga Espartaquista estava fazendo o seu melhor para destruir um boicote de 11 dias a cargas da África do Sul – a greve política mais importante de qualquer seção do proletariado americano em décadas. Esses dois eventos são resultado de uma longa série de desvios políticos em relação ao trotskismo. Tomadas em conjunto, eles demonstram que, mantendo-se formalmente “ortodoxa” em uma vasta gama de questões políticas historicamente derivadas, no mundo real a ruptura da SL com seu passado revolucionário está qualitativamente completa.

A SL de hoje não é mais aquilo que ela era quando surgiu – e o mesmo vale para aqueles que viveram a sua evolução. Grande parte dos últimos seis anos foram gastos em moer metodicamente os quadros da organização – se livrar de muitos e tentar quebrar moralmente aqueles que permaneceram. As poucas frações sindicais que chegaram a adquirir alguma raiz têm sido amplamente desmanteladas no processo. O produto desta operação de demolição interna é uma militância que é bastante desmoralizada e muito passiva. Assim, quando a “virada” para a loja de fantasias foi anunciada, houve pouca oposição aberta – ou ao menos pouco entusiasmo – da parte dos quadros.

A ênfase peculiar de grande parte do material dos “Vingadores Vermelhos” em clitoridectomia, castrações, sonhos molhados e “quem vai foder quem” nos lembra da propaganda de uma década atrás da Fração Nacional das Comissões Trabalhistas (NCLC) de Lynn Marcus – hoje um ultradireitista. (Depois que sua esposa o deixou por um jovem “trotskista” na Inglaterra, Marcus dedicou a maior parte de uma edição da sua revista teórica a considerar a impotência do trotskismo.) A SL hoje não foi tão longe quanto o NCLC de meados dos anos 1970, mas isso significa que a SL ainda tem muito mais para cair. As “brincadeiras” revoltantes sobre o “fim dos negócios” de uma fêmea de tubarão e as referências às adversárias feministas negras como fascistas e doberman pinschers no cio certamente recordam as “polêmicas” do NCLC e sugerem uma patologia semelhante.

Devido à sua composição fortemente pequeno-burguesa, o seu isolamento da classe trabalhadora organizada e seu caráter socialmente marginal, a esquerda nos EUA tem sido historicamente sujeita a manifestações idiossincráticas de vários tipos. A SL não é nem a primeira e, para uma esquerda que gerou a Workers League de Tim Wohlforth (WL) e o NCLC, nem a pior. Mas é a mais importante. A Liga Espartaquista não foi apenas um entre muitos – foi a cristalização da oposição de esquerda à destruição política do revolucionário Socialist Workers Party (SWP) pelo revisionismo pablista – um partido construído por James P. Cannon e treinado por Leon Trotsky para levar adiante o bolchevismo no meio da destruição da Internacional Comunista pela sífilis do stalinismo.

Mesmo antes de ter sido expulsa do SWP, a Tendência Revolucionária (RT), progenitora da SL, sofreu uma cisão. Gerry Healy, líder da Socialist Labour League britânica (SLL) e outrora mentor da TR, ordenou seus seguidores a se comprometerem com uma mentira. A maioria do grupo, liderada por James Robertson, recusou-se a fazê-lo. Eles romperam com quase metade da sua tendência à custa de reduzir substancialmente as suas chances de ganharem uma seção dos quadros do SWP, porque dizer a verdade era mais importante. Foi um início honroso.

Por duas décadas, a Liga Espartaquista defendeu as posições programáticas essenciais do leninismo – muitas vezes de forma isolada. Em muitas ocasiões, a “ortodoxia estéril” da SL [como era difamada pelo SWP] foi poderosamente confirmada pelos eventos. No auge do nacionalismo negro nos EUA, a SL lutou por uma perspectiva de integracionismo revolucionário. Quando a Unidad Popular de Salvador Allende chegou ao poder no Chile em 1970, a Liga Espartaquista alertou que isso poderia acabar em um banho de sangue. Mais recentemente, a SL ficou sozinha na esquerda em oposição a Khomeini e a seus mulás antes de terem chegado ao poder no Irã; na defesa da intervenção soviética no Afeganistão; e na hostilidade intransigente aos reacionários clericais capitalistas-restauracionistas do Solidariedade polonês. Então, o que deu errado?

O começo dos anos 1970 – Ascenso

No final dos anos 1960, praticamente todos os quadros fundadores da RT tinham partido e Jim Robertson foi deixado sozinho no topo. Os quadros que permaneceram na organização, especialmente após a saída de Dave Cunningham e Cia., em 1972, foram os produtos da radicalização da década de 1960, e tinham praticamente sido moldados por Robertson. A SL havia se tornado “o grupo de Jim”, ou pelo menos um grupo em que a autoridade e a experiência de Robertson superavam amplamente a de todos os outros. Ao contrário de Trotsky na Quarta Internacional ou Cannon no SWP, ele passou a gostar dessa situação.

Por um longo tempo já havia sementes do presente regime autoritário na SL. Mas também havia sementes de um grande número de outros desenvolvimentos potenciais. A desintegração da New Left na década de 1970 abriu um período de crescimento explosivo, tanto qualitativa quanto quantitativamente, para a SL. Em três anos, a organização triplicou de tamanho. Muitos daqueles que se juntaram neste período eram pessoas maduras, com substancial experiência política prévia. O Communist Working Collective de Los Angeles, por exemplo, insistiu para que a SL se comprometesse em estabelecer uma imprensa regular, frações sindicais e uma base negra como as condições de fusão.

A fundação do jornal Workers Vanguard (WV) em 1971 foi uma parte fundamental do processo referido como a “transformação” da SL. As normas de filiação, antes frouxas, foram reforçadas; o funcionamento do centro nacional foi profissionalizado; e, talvez mais importante, a SL começou uma intervenção sistemática no proletariado. Houve abertura política considerável no grupo naquela época e, apesar de não ter ocorrido formação de frações, havia debates instrutivos sobre uma variedade de questões, algumas das quais encontraram seu caminho nos boletins internos. Neste período, o regime de Robertson foi manifestamente empurrando o trabalho do grupo para a frente, ganhando dezenas de novos quadros para o trotskismo e, programaticamente, estava essencialmente correto sobre todas as questões decisivas com as quais se confrontou.

A centralização da Liga Espartaquista inicialmente representou um avanço significativo em relação ao caráter organizacional amorfo da década de 1960. Ela permitiu à SL se tornar um grupo de propaganda de combate eficaz e um fator real na esquerda dos EUA pela primeira vez. As transferências massivas de membros, inicialmente decorrentes do giro industrial da organização, também proporcionaram uma oportunidade para a liderança central moldar e controlar a composição de cada seção local. Um cuidado especial foi tomado em unir as lideranças locais. Em si, este procedimento não era burocrático, ele era parte do mandato da liderança para a criação de novas seções locais. No entanto, ele estabeleceu um precedente que rapidamente se tornou uma norma. Figuras-chave nas seções locais foram transferidas regularmente, cooptadas e rebaixadas por sugestão do centro. Em pouco tempo a seleção de lideranças locais (e posteriores internacionais) tinha se tornado efetivamente uma prerrogativa de Nova York.

E até mesmo no topo, o aspecto democrático do “centralismo democrático” na SL foi atrofiado consideravelmente durante os anos 1970. No auge da transformação, nos dois anos anteriores à partida do agrupamento de Cunningham em 1972, o Bureau Político (PB, o corpo que supostamente deve constituir a liderança política do dia-a-dia do grupo) se reuniu 39 vezes, ou uma vez a cada duas semanas e meia. Dez anos mais tarde, durante o mesmo período de tempo, ele reuniu-se em média de uma vez a cada dois meses. Deixando de lado o conteúdo das reuniões, que em si mesmos refletem a despolitização da vida interna da SL, isso significa que a função de liderança eleita da SL era simplesmente a de ratificar as decisões da liderança real – Robertson e quem ele escolhesse para “consultar.”

Apertando os parafusos

Em meados da década de 1970, enquanto as coisas estavam desacelerando nos EUA, a SL passou a investir uma grande quantidade de recursos, tanto humanos como materiais, na construção internacional de pontos de suporte. Em 1978, havia grupos potencialmente viáveis ​​com algum acúmulo real de quadros na Grã-Bretanha, Alemanha e, em menor medida, na França. Os franceses foram prejudicados pela existência de grupos adversários centristas que reivindicavam o trotskismo e possuíam tamanho considerável, mas os grupos alemães e especialmente o britânico pareciam ter grandes oportunidades no horizonte.

No entanto, nos EUA, as coisas estavam bastante estagnadas. A militância estava diminuindo e não havia perspectivas de grandes avanços por parte das frações sindicais. Em um artigo sobre um encontro nacional de sindicalistas da SL, WV relatou que:

“Falando na sessão plenária de abertura, o presidente nacional da SL, James Robertson, francamente abordou a ‘crise de expectativas’ dessa camada de camaradas, pessoas idealistas, anteriormente jovens, formadas centralmente pela radicalização da era da guerra do Vietnã, cuja experiência na política não formou nenhuma sensibilidade para os fluxos e refluxos da luta de classes.

“A ‘crise de expectativas’ tendia a pesar mais fortemente nos elementos mais vulneráveis ​​e submersos da SL, nossos sindicalistas.”

WV n. 144, de 11 de fevereiro de 1977.

Um artigo associado a esse observava que: “a prática da SL de recrutar em uma base política sólida e estabelecer metas organizacionais realistas lhe permitiu sobreviver ao atual período sem uma grande luta de facções, racha ou sangria de quadros.” Mas isso era claramente o que estava preocupando a liderança – eles acreditavam que a SL possuía todos os ingredientes essenciais para uma erupção de frações de algum tipo. A resposta? Apertar os parafusos.

Em um artigo escrito logo depois que ele foi eliminado como o líder da Workers League, em 1974, Tim Wohlforth descreveu o centralismo democrático a la Healy de seguinte forma:

“Abrir discussão e luta política era algo desencorajado, pela tendência do camarada Healy em empurrar todas as discussões ao ponto mais extremo e procurar quebrar a pessoa que não concordava com o camarada Healy.”

The Workers League and the International Committee

Isso é mais ou menos como as coisas funcionavam na SL, bem como nas raras ocasiões quando alguém ousava discordar do camarada Robertson. Por exemplo, no início de 1978, um membro do Bureau Político da SL, Liz Gordon, sugeriu em uma reunião do conselho editorial do WV que um projeto de artigo que Robertson tinha co-autorado fosse talvez um pouco “desequilibrado” sobre a questão da mulher. Ela também teve a ousadia de pedir que Robertson não a interrompesse enquanto ela estava falando (uma prática que denota ordem de hierarquia na SL – Robertson rotineiramente interrompe todos e ninguém o interrompe). Robertson, que não estava acostumado a ser contrariado em nada, entrou em frenesi. Ele acusou Gordon de ser uma mentirosa e doente mental, cuspiu no chão e saiu da sala. Isto foi seguido por ameaças de um racha – isto é, um expurgo de seus críticos. Numa subsequente reunião do Comitê Executivo Internacional, com os membros que vieram de seções no exterior, Gordon e outros que tinham compartilhado suas críticas foram devidamente destruídos como um exemplo para todos os outros que pudessem contemplar a ideia de lesa-majestade no futuro. Todo o incidente foi considerado tão “educativo” que foi impresso como parte de um boletim interno.

O expurgo dos clones e a “segunda transformação”

Se Robertson não fez mais do que humilhar e ameaçar se livrar dos quadros que produziam o WV, ele sentiu menos inibições em lidar com a equipe editorial da Young Spartacus (YSp), o jornal da juventude. Seis meses após a explosão com o WV, Robertson lançou um expurgo dos jovens escritores do sexo masculino de YSp (apelidados de “clones”), a quem ele via como uma base potencial para a formação de uma fração abaixo da linha hierárquica. O expurgo dos clones deu início à “segunda transformação” da SL. De muitas maneiras, nada havia mudado – por anos o grupo tinha sido mais ou menos dirigido por decreto de Jim. No entanto, este expurgo abusivo e destrutivo representou algo novo. Por um lado, a liderança admitiu abertamente que foi algo “subpolítico.” Mais importante, a caça aos clones foi feita visando deliberadamente a destruição e expulsão de toda uma camada de talentosos jovens quadros. Este foi um significativo novo desenvolvimento. Em pouco tempo, o tratamento dado aos “clones” foi usado em outros elementos dos quadros. Inicialmente, os mais afetados foram os sindicalistas. O denominador comum de quem foi levado à guilhotina foi que se pensou que eles seriam ​​capazes de se tornarem oposicionistas em alguma data futura.

A base do grupo subitamente foi considerada como cheia de “merdas”, “porcos […] homens chauvinistas” e “manipuladores sexuais”. “Provas” para essas acusações foram fabricadas indo-se ao redor da militância coletando pedaços de conversas, observações casuais, ou mesmo impressões sobre as atitudes das pessoas – qualquer coisa que poderia ser usada em algum tipo de “caso” contra os alvos designados. Quando nenhuma “evidência” era descoberta, ela era inventada. Normalmente, a liderança conseguia se livrar de quem quisesse, sem ter que recorrer a processos disciplinares. Apenas para “casos difíceis”, como Fred Riker, que foi falsamente acusado de trair suas convicções e depois julgado sem estar presente, é que era necessário fabricar acusações formais como um pretexto para a expulsão.

A cobertura feita pelo WV dos expurgos e da sangria que vinha ocorrendo no Socialist Workers Party de Jack Barnes tinha todo o frescor e conhecimento de causa que vem com a íntima familiaridade com o assunto. Um gaiato observou que os artigos tinham a qualidade de uma mensagem de biscoito da sorte: “Socorro, eu estou preso em uma fábrica de biscoitos chineses.” Muitos ex-membros da SL ficaram impressionados com o quão perto as projeções escabrosas da vida em “Barneslândia” correspondiam à realidade de “Jimslândia”. O seguinte relato dos preparativos da camarilha de Barnes para se livrar da velha-guarda do SWP fornece uma descrição perfeita de como os expurgos são feitos na SL. Eles:

“tiveram que ser precedidos por uma boa dose de sinistro e conspiratória atividade de enquadramento […] Abordagens tinham que ser feitas individualmente, provavelmente para qualquer um que fosse ‘alguém’ […] Aqueles que não pegavam as pistas e não conseguiam sorrir e zombar nos lugares certos simplesmente eram colocados em uma lista de inimigos secretos marcados para serem eliminados mais tarde.

“No meio disso, a pegajosa operação de panelinha, sentindo os quadros, alinhando os que estavam prontos, demarcando os outros para o machado quando o tempo fosse propício.”

WV n. 353, 27 de abril de 1984.

Este mesmo artigo critica Barnes pelo “seletivo ‘re-recadastramento’ da militância do SWP em 1983”. Mas ele não menciona que a SL tem usado procedimentos semelhantes nos seus próprios expurgos internos. A diferença é que Barnes é mais direto. Na SL, recadastramento ocorre sob o pretexto de criação de uma fração pró-partido; aqueles que não estão autorizados a participar são expulsos da organização e depois disso a “fração” é dissolvida.

Treinamento para obediência na SL

A maioria das técnicas empregadas nos expurgos na SL não tiveram que ser improvisadas – as reuniões internas, mais parecidas com pesadelos, tinham sido por muito tempo uma característica do grupo. O que era diferente era a sua intenção e, consequentemente, a tensão. Pela primeira vez as “lutas” visavam eliminar politicamente os quadros visados, não apenas faze-los se ajoelharem. Assim, a SL, que há muito tempo vinha operando na margem healyista do que poderia ser considerado “centralismo democrático”, foi completamente para fora dos parâmetros de prática leninista e tomou a estrada para Jimslândia.

Cannon observou uma vez que, se você puser algumas pessoas em uma sala por tempo suficiente, elas podem se convencer de praticamente qualquer coisa. Essa observação guiou cada vez mais a liderança conforme a vida política interna da SL se atrofiou e a sua degeneração seguiu, desde o final dos anos 1970. As “lutas” tornaram-se brigas psicológicas descaradas. Entre maoístas, esta técnica era conhecida como “crítica / auto-crítica.”

Veja como ela funciona na SL. Uma reunião é convocada e um dado camarada é chamado a responder por erros alegadamente cometidos. Cada item na lista de elementos é grosseiramente exagerado e extrapolado; motivações pérfidas (políticas e / ou pessoais) são atribuídas aos erros. Críticas pessoais aos maneirismos da pessoa, a seu estilo de vida ou comportamento individual são lançadas em boa medida. Aqueles que conduzem o ataque costumam fazer uma boa dose de gritos histriônicos e gesticulação, a fim de criar a atmosfera emocionalmente carregada adequada aos propósitos. Da militância reunida se espera que forneça o refrão: repetindo e embelezando as acusações. (A relutância em participar é punível, sendo tal comportamento o próximo ponto na pauta.) As tentativas do acusado para concordar com a substância das acusações são inicialmente rejeitadas como falsas e insinceras, a menos que a “estrela” infeliz do processo esteja preparada para exceder todos os outros em difamar a si mesmo. Não há possibilidade de escapar das acusações. Se você puder provar que algumas das alegações são falsas, novas são rapidamente inventadas. Ou você é acusado de utilizar “argumentos de advogado” e de tentar obscurecer o quadro geral usando de tergiversações sobre “detalhes”. Em alguns casos, a recusa de indivíduos envolvidos em “vir a limpo com o partido” (isto é, confessar as acusações) é em si tomada como evidência de uma atitude anti-liderança. Afinal, se você não concorda com as acusações, você deve pensar que a campanha contra você é uma atrocidade burocrática!

Rodada após rodada, reunião após reunião, a “luta” continua até que o objeto do exercício desiste e entrega sua carta de renúncia, ou confessa de uma forma considerada adequadamente abjeta e contrita. Ter um colapso nervoso e chorar é geralmente algo tomado como prova de sinceridade, especialmente em homens. A “luta” é em seguida concluída com a passagem unânime de alguma moção duramente condenatória. Qualquer um sortudo a ponto de ser considerado digno de uma última oportunidade pode esperar passar pelo menos alguns meses como um pária. Eventualmente há uma nova vítima e, com sorte, o alvo anterior pode gradualmente recuperar seu status como um membro regular. Mas a “lição” não é esquecida rapidamente.

As técnicas de terapia de choque da liderança são deliberadamente intencionadas a quebrar a autoconfiança pessoal e política das pessoas submetidas a elas. Normalmente, as “lutas” destinam-se a potenciais “criadores de confusão” – os idiotas e aqueles que sempre dizem “sim senhor” geralmente podem ser integrados sem dificuldade. A escolha colocada: rastejar ou sair do grupo (também conhecida como optar por uma “existência biológica”) só é difícil para aqueles que levam a política a sério.

Estas práticas criam enormes pressões dentro da organização. Eles provaram ser extremamente eficazes na formação e moldagem (isto é, atomização e intimidação) da militância da SL. Isto, por sua vez, promove entre muitos o desejo de congraçar-se com a liderança, uma constante necessidade de ter certeza que eles estão “indo bem” e uma aguda sensibilidade a dicas sutis sobre como fazê-lo.

A vida interna envenenada da SL

Diz-se que Stalin falou para os loverstonistas [ala do PC dos EUA] em Moscou, em 1929, que: “quando vocês voltarem para os EUA, ninguém vai ficar com vocês, exceto suas esposas”. Robertson é mais ambicioso. Frequentemente, no curso dos expurgos da SL, esforços extraordinários são dirigidos à divisão de casais e a fazer um testemunhar contra o outro. Por outro lado, aqueles que se recusam a se separar dos seus em-breve-ex-camaradas, sabem que não vão sobreviver por muito tempo na organização. Certa vez, uma mulher que se voltou contra seu companheiro por sugestão do partido ganhou um chervonets de ouro [moeda soviética]. (Os chervonets, ou “biscoito de cachorro de ouro”, são o equivalente da Ordem de Stalin na SL. São concedidos por Robertson a qualquer membro cujas ações lhe agradaram em particular.)

Os expurgos na SL deram a um monte gente miúda a chance de extravasar suas frustrações e “acertar contas” com seus problemas mesquinhos (reais ou imaginários) contra as vítimas. Alguns se juntaram na empreitada com um sentimento misto de medo e excitação, felizes por não estarem no lado acusado e ansiosos para demonstrarem a sua lealdade ao regime. Os elementos mais degradados adquiriram novas habilidades – acusação interpretativa e cavalheiresco desrespeito pela verdade. Eles se tornaram mestres da arte da denúncia estridente e histérica, e avidamente se esforçaram para serem os primeiros a cada rodada a pularem nas costas das vítimas. Pessoas mais experientes e decentes não acreditavam muito nesses processos, mas mantiveram o foco no “quadro geral” e tentaram não sujar suas mãos mais do que o necessário. Elas suprimiram os seus escrúpulos e tentaram se concentrar em quaisquer grãos de verdade que poderiam encontrar nas acusações. Além disso, diziam a si mesmos, a SL é o único partido revolucionário no mundo e esses processos não justificam sair dele.

Entre as vítimas da “segunda transformação” esteve o histórico de honestidade mantido por muito tempo pela imprensa da SL. Hoje a vida interna envenenada da organização se reflete na disposição cínica e descarada de WV em mentir, assim como Challange, Bulletin ou Daily World [órgãos de imprensa de outros grupos dos EUA].

Os histéricos e gritadores que compõem uma proporção cada vez maior da SL / SYL igualmente aprenderam a avaliar a verdade e a mentira à luz da “questão do partido” (isto é, “está tudo bem, contanto que sejamos nós a fazer isso, porque sabemos que somos revolucionários”). Uma vez amplamente considerada pela esquerda reformista e centrista como um grupo honesto, sério e “ortodoxo”, a SL hoje é percebida com igual justiça como um grupo desonesto, desagradável e amalucado.

“Integrando” a Internacional

A recomposição da militância rapidamente se estendeu da SL às suas seções satélite. Aqui, Robertson enfrentou problemas especiais. Os quadros europeus reagrupados pela SL geralmente eram altamente politizados e geralmente possuíam uma experiência considerável como oposicionistas de esquerda em suas organizações anteriores. Eles dificilmente eram pré-dispostos ao dirigismo da “internacional” espartaquista. Além disso, como muitos desses camaradas passaram anos trabalhando juntos, não necessariamente se poderia contar com eles para realizar toda e qualquer instrução de Nova York. Eles haviam sido ganhos para a política formal da tendência Espartaquista, mas não haviam sido “integrados” organizativamente.

Por um tempo, Robertson procurou resolver este problema homogeneizando pessoalmente a sua internacional. Para este fim, ele tinha um assento de “Secretariado Internacional” nos comitês centrais de ambos os grupos alemão e britânico, criado especialmente para ele, ao mesmo tempo em que mantinha seu posto como Presidente Nacional da SL / EUA. Em dado momento o jet lag de ficar viajando para lá e para cá se mostrou pesado demais, então ele optou por uma série de expurgos brutais e pseudopolíticos, que eliminaram a maior parte dos quadros experientes e asseguraram que cada seção tivesse uma liderança em que ​​predominassem confiáveis “levantadores de mão”. Isso “resolveu” o problema das diferenças políticas que surgiam nas franquias no exterior.

Hoje, a tendência Espartaquista internacional [iSt – atualmente nomeada Liga Comunista Internacional, ICL] é uma “internacional” construída em torno da obediência a um único indivíduo. Ela mantém congressos com uma frequência parecida com aquela do Comintern de Stalin. Não há disciplina para a liderança privilegiada da seção dos EUA (que funciona como a liderança internacional), enquanto completa obediência é exigida a todos os outros, até nos detalhes organizacionais mais triviais.

No final dos anos 1970, o entusiasmo inicial para “construir a internacional” tinha desaparecido e a SL adotou um novo lema: “caridade começa em casa”. A torneira foi fechada e os fundos da organização foram vertidos para um novo projeto – “a construção” que, se nada mais, representa segurança para alguém na velhice.

Robertsonismo x Cannonismo

Robertson sempre se esforçou em sua pretensão de representar a continuidade do cannonismo na esquerda americana contemporânea [a “herança” de James Cannon, histórico dirigente do SWP dos EUA]. Na medida em que a SL aderiu ao programa trotskista, havia uma base substancial para tal afirmação. Mas Robertson sempre quis dizer mais especificamente que ele representava a continuidade das técnicas de organização de Cannon, e nisso ele faz uma injustiça com Cannon. Cannon era um fracionalista sério. Ele lutou duro e, em dadas ocasiões, foi sem dúvida culpado de ter ido longe demais. Mas suas técnicas organizacionais não eram as de Robertson, e a vida no SWP era uma experiência muito diferente do que é na SL. Isto é evidente até mesmo por uma leitura casual dos documentos internos do SWP, e pode ser confirmado ao se falar com veteranos do SWP ou ler sua correspondência interna. Da formação da Communist League of America, em 1928, ao racha de 1940 com os shachtmanistas e ao expurgo da RT em 1963, a organização de Cannon teve uma vida interna vibrante. Havia muitas tendências, várias frações, bem como um grande número de disputas políticas dentro da organização que não chegaram a assumir forma organizada. Oehler, Goldman-Morrow, Johnson-Forest, Cochran-Clarke, Vern-Ryan, Marcy e ainda outros casos, todos se sentiam livres para fazerem críticas duras e contundentes à liderança. Em muitos casos, fizeram-no por anos. No partido de Cannon, as diferenças não eram suprimidas como na SL, mas disputadas politicamente. Em alguns casos, isto levou a rachas, em outros não. Cannon dirigia um grupo com um regime firme, mas democrático, que reconhecia que a luta política interna era inevitável e mesmo necessária, e que tratava suas minorias lealmente. Jim Cannon poderia viver com um pouco de discordância. Em seu partido, até a expulsão da TR, você tinha que fazer algo sério para ser expulso.

Robertson adotou a concepção que Cannon apresentou em The Struggle for a Proletarian Party, segundo a qual as diferenças organizativas frequentemente mascaravam diferenças políticas latentes, mas com um corolário conveniente, obtido a partir de Healy – de que queixas organizativas, na ausência de diferenças “políticas” formais, só são levantadas por sabotadores anti-partido, visando formar blocos podres. Esta fórmula útil se resume à proposição de que a questão organizativa não é uma questão política – especialmente quando se trata de crítica à liderança. Por conseguinte, é uma questão sem princípios sobre a qual lutar, e aqueles que fazem essas críticas merecem ser esmagados. Dentro da SL, o argumento de que a questão organizacional não é uma questão política tem funcionado como uma licença da liderança para abusar da militância.

Cannon sabia que a construção de um movimento real significaria que inevitavelmente existiriam diferentes tipos de matizes. Ele não os combatia a menos que eles tivessem começado a se expressar na forma de um programa contraposto. Não era que Cannon nunca tivesse pensado em fazer as coisas à maneira de Robertson – é que ele não quis.

“É perfeitamente possível para os líderes escorregadios escrever dez constituições garantindo a liberdade de crítica em um partido para, em seguida, criarem uma atmosfera de aterrorização moral na qual um camarada jovem ou inexperiente não queira abrir a boca por medo de que ele vá ser feito de bobo, ou pisoteado, ou acusado de algum desvio político que de forma alguma existe em sua mente”.

— The SWP in World War II, p. 329

Robertson realizou precisamente este tipo de operação. Inicialmente ela foi concebida para enganar a história curto-circuitando as perdas fracionais que geralmente resultam da luta política afiada em uma organização revolucionária. Resolvendo evitar tais perdas em sua operação, Robertson passou uma grande parte do tempo farejando potenciais adversários e os abatendo antes que eles pudessem causar qualquer dano – especialmente depois que descobriu, em 1972, que uma seção inteira da liderança da SL estava descontente e planejando um motim.

A questão organizativa como uma questão política

Tais técnicas têm um preço. Eles não só afetam a qualidade de vida política no grupo, mas também tendem a desenvolver uma dinâmica própria. Os dissidentes de amanhã aprendem com a experiência de hoje e, portanto, qualquer expressão de diferença política tende a se tornar cada vez mais secreta. Ao fim e ao cabo, o “atalho” usado na SL tornou-se seu oposto, conforme as técnicas que foram concebidas para evitar divisões custosas, minimizar a perda de quadros e salvaguardar a integridade programática da organização acabaram em uma hemorragia maciça da militância.

A vida interna cada vez mais burocrática e, eventualmente, anti-política da SL (já se passaram dezessete anos desde a última disputa fracional) foi tanto a primeira forma de seu distanciamento do leninismo, como o quadro que permitiu todos os desvios revisionistas subsequentes. Uma organização com a política formalmente correta e com uma liderança centralmente preocupada em manter sua própria autoridade absoluta, e disposta a recorrer a práticas internas anti-democráticas e abusivas, é uma formação profundamente contraditória. Ao longo do tempo, a tensão entre a máscara e a face precisa se expressar inevitavelmente em revisões programáticas que não se enquadram na questão organizativa, porque o centralismo democrático numa organização leninista não é uma opção desejável, mas uma necessidade indispensável. A Liga Espartaquista de hoje, prejudicada por anos de supressão de toda e qualquer opinião dissidente, perdeu a capacidade de corrigir os erros da liderança numa situação em que ela começa a atacar as bases programáticas do movimento.

O desenvolvimento de um estilo rígido e autoritário de liderança em uma organização comunista revela tanto uma falta de confiança na militância, quanto, em última instância, no potencial revolucionário do proletariado. Um quadro espartaquista de longa data recentemente nos escreveu dizendo o seguinte: “Lembro-me de Robertson uma vez me dizendo que a sua organização ideal consistia de uma liderança flexível, que poderia dar giros e ‘fazer acontecer’, e uma base ‘espumosa’ (suas palavras)”. Isto casa com o aforismo de Robertson, segundo o qual “bons católicos fazem bons comunistas”, isto é, eles estão familiarizados com a doutrina da infalibilidade da liderança. O líder nacional da SL, que já foi ouvido gritando “EU DEVERIA SER O GOVERNANTE DO MUNDO” enquanto rugia de fúria pela sede do grupo, tem uma estimativa um tanto quanto baixa das capacidades dos seus seguidores. Em uma reunião pública em Nova York em 1978, ele apontou que esteve muitas vezes inclinado a pensar na militância da SL como “um grande saco de merda.” Os militantes são encorajados a pensar em si mesmos em termos semelhantes. A noção de que “no fundo eu sou realmente um elemento podre, anti-partido, que teme a ameaça de guerra anti-soviética e não vende jornais suficientes” é constantemente inculcado em cada membro da SL.

Claro que, em um sentido histórico, é anômalo existir uma organização de esquerda burocrática minúscula e sem relações com a sociedade na qual ela existe. Isso sempre deu aos seguidores de [Gerry] Healy uma conveniente “prova” axiomática de que a sua organização não poderia ser burocrática. Um artigo em WV (31 de janeiro 1975) observou que:

“[Tim] Wohlforth [líder do grupo de Healy nos EUA durante seus primeiros anos de existência] sempre rejeitou as alegações da tendência Espartaquista sobre as práticas grosseiramente burocráticos dos regimes de Healy / Wohlforth com demandas presunçosas para que demonstrássemos sobre qual estrato materialmente privilegiado o regime da WL [Workers League] é baseado.”

Na primeira polêmica (interna) contra a Tendência Externa da tendência Espartaquista internacional [ET/iSt na sigla em inglês], o líder da SL, Al Nelson, respondeu à nossa acusação de burocratismo na SL como segue:

“Nosso partido não é burocrático. Burocratismo, no sentido marxista, surge quando novas políticas e programas que representam forças de classe externas contradizem o programa e as tradições do partido revolucionário. A fim de impor tais políticas sobre o partido, a liderança é obrigada a suprimir a democracia partidária, para elaborar a linha através de coerção burocrática, e concentrar todo o poder no aparelho do partido.”

SL Internal Discussion Bulletin n. 40, p. 63.

Vê-se o quão próximo é o argumento de Nelson com aquele de Wohlforth. Ambos insistem que as práticas burocráticas dentro de minúsculos agrupamentos socialistas devem refletir alguma força de classe externa. Muito limpo e arrumado esse argumento. Sem espaço para o desenvolvimento de cultos mini-personalistas ou megalomanias de grupos pequenos. Mas a vida é mais complexa – e é por isso que temos os Posadas, Healys e Robertsons (para não mencionar os Marcus).

Nelson também se ocupa do complicado problema do regime de Healy de meados dos anos 1960:

“Há sempre uma consonância entre o programa e regime do partido. ‘Mas como explicar Healy por volta de 1966 …’, gritam os membros da ET/iSt, alegando ter encontrado as exceções que quebram a regra. Em 1967, um ano após nossa expulsão na conferência de Londres do Comitê Internacional, o Healyistas saíram em apoio político a Mao e suas Guardas Vermelhas […]”.

Isso está longe de ser uma explicação. O revisionismo da SLL [Socialist Labor League, grupo de Healy na Inglaterra] em 1967 dificilmente explica a natureza do seu regime no ano anterior. A demanda de Healy, em 1962, de que cada membro da RT [Tendência Revolucionária do SWP dos EUA, predecessora da SL] se perjurasse como condição para permanecer na corrente internacional da SLL é prova irrefutável de que não há necessidade de haver sempre uma consonância entre programa formal e regime partidário. Mesmo dentro da iSt, a liderança afirma ocasionalmente ter descoberto regimes abusivos e/ou burocráticos [nas outras seções] que, no entanto, funcionaram por anos sem manifestações programáticas evidentes. Burocratismo é, em última instância, contraposto ao programa revolucionário e deve, eventualmente, expressar-se politicamente. Mas desvios programáticos formais não precisam necessariamente preceder a degeneração burocrática, como a própria SL reconheceu, na época, em seu comentário sobre sua expulsão do CI em 1966:

“A máquina Healy-Banda subordina questões políticas reais de acordo e desacordo às exigências de questões organizacionais e políticas de prestígio pessoal. Essa tendência organizacional é em si uma questão política de primeira ordem.”

Spartacist n. 6, 1966.

A intervenção da Tendência Externa

A Tendência Externa [ET/iSt] foi formada em 1982 por ex-membros da tendência Espartaquista internacional [iSt]. Como dissemos em nosso documento fundador, a SL era, à época, uma organização em contradição:

“O aspecto crítico do atual estágio de desenvolvimento da iSt é que é uma organização com uma profunda contradição entre uma visão de mundo e um programa marxista, coerente e racional, e um regime interno cada vez mais abusivo (e irracional). E o processo através do qual esta contradição será resolvida está incompleto.”

Projetamos um curso de trabalho para gerar uma luta política dentro da iSt,  para restaurar a saúde revolucionária da organização, e mantivemos em aberto a possibilidade de que o grupo – ou, pelo menos, uma parte significativa do mesmo – seria passivo de salvação. Estávamos bem conscientes de que a SL era naquela altura altamente burocrática e tinha muitas características de seita, mas também reconhecemos que, pelo menos externamente, ainda representava uma aproximação considerável de um grupo de propaganda trotskista.

Nós martelávamos a SL cada vez que ela se desviava de sua herança trotskista, fosse ignorando os piquetes na greve da PATCO [sindicato dos controladores de voo], carregando as bandeiras da frente popular de El Salvador, nomeando seus apoiadores de “Brigada Yuri Andropov” [em homenagem ao burocrata soviético] ou desmantelando suas frações sindicais. Em cada caso, a liderança SL defendeu ardorosamente seus erros como uma questão de prestígio e intimidou os membros a não se alinharem conosco.

Muitos dos críticos da SL, observando a adulação de Yuri Andropov em WV, concluíram que a organização tinha se tornado definitivamente stalinofílica [que capitula ao stalinismo]. No entanto, quando os soviéticos justificadamente derrubaram o voo espião norte-americano KAL 007, em setembro de 1983, a reação imediata da SL foi deixar de lado a defesa incondicional da União Soviética. WV proclamou que, se os soviéticos soubessem que havia passageiros civis a bordo, então “apesar do dano potencial militar de tal missão de espionagem aparente”, derruba-lo teria sido “pior do que uma atrocidade bárbara”. Esse vacilo covarde estava muito mais perto do “socialismo de Departamento de Estado” do que de stalinofilia, e ilustrou que, ao romper com seu passado revolucionário, a SL tinha se tornado profundamente instável politicamente. Tais oscilações programáticas irregulares em resposta a interesses imediatamente percebidos são característicos do banditismo político – uma forma peculiar, e particularmente cínica, do centrismo.

A reação covarde de WV ante o ataque que levou à demolição do quartel dos Marines dos EUA em Beirute, em outubro de 1983, constituiu mais uma demonstração gráfica da extensão da erosão da vontade revolucionária na cúpula da SL / EUA. A resposta automática de qualquer socialista decente para o destino dos Marines no Líbano deveria ter sido “que se dane, eles não deveriam estar lá para início de conversa”. Em vez de se aliar com as vítimas da intervenção imperialista, a liderança da SL levantou o chamado social-patriótico para salvar os Marines sobreviventes. Com isso, foi se tornando claro que o que estava em causa na batalha política entre a ET/iSt e a liderança da SL não era a melhor forma de aplicar o programa trotskista, mas o próprio programa.

A SL respondeu à pressão política da ET/iSt com uma torrente de calúnias e abusos. Al Nelson definiu o tom em sua polêmica interna, ao vilanizar os membros da ET/iSt como sendo :“mentirosos, traidores, apologistas do racismo e do genocídio, burocratas mesquinhos, frente-populistas anti-soviéticos e sabotadores”. A base da SL foi instruída a responder a nós com “ódio fanático” e os membros foram encorajados a disputar entre si para ver quem nos difamava mais. Quando a nossa crítica do slogan “Marines Vivos” ressoou em uma seção dos membros da SL, a liderança respondeu com uma provocação grotesca. Em um massivo piquete na empresa Greyhound, em San Francisco, em dezembro de 1983, vários membros da SL acusaram aos gritos nossos apoiadores de serem “amantes de nazistas” e “fura-greves”, em uma flagrante tentativa de incitar militantes no meio da multidão a nos atacarem. Quando isso não funcionou, dois bem conhecidos apoiadores da SL começaram a dar cotoveladas em um dos nossos.

Em uma tentativa de chegar aos membros que estavam desconfortáveis ​​com o claro movimento de afastamento da liderança em relação ao trotskismo, nós fizemos um pedido formal de retornar para a iSt, como uma tendência interna. Este desafio à ficção da SL de que possui uma vida interna democrática representou um problema difícil para Robertson e Cia. Eles não queriam parecer politicamente amedrontados por um pequeno grupo de ex-membros, e eles não tinham passado os últimos cinco anos expurgando todos os críticos em potencial, para então darem meia volta e permitirem uma tendência opositora voltar. Então eles começaram a escalar a campanha de difamação, com insinuações sujas de que o nosso protesto contra o seu comportamento em São Francisco derivava de alguma forma da COINTELPRO [agência de inteligência do governo] e que, portanto, tinha alguma ligação sombria com o FBI.

A finalidade de tal calúnia na esquerda, seja ela praticada por stalinistas, Healystas ou Robertsonistas, é sempre a mesma – desacreditar os adversários sem ter que responder politicamente às suas críticas. Também tem o efeito de “manter dentro” aqueles membros que participam. Toda vez que alguém se envolve em difamação ou violência contra um adversário, ele fica muito mais perto dos líderes degenerados que ordenaram a medida. Mesmo quando as pessoas rompem com tal organização, a maioria sente-se tão profundamente comprometida por sua própria participação em tais práticas que eles tendem a deixar a política completamente. Essa foi sempre uma técnica importante em manter a coesão na Workers League, e historicamente impediu todos, exceto um pequeno punhado, de atravessarem o caminho da SL.

A Liga Espartaquista como uma “aldeia Potemkin”

A Liga Espartaquista está se tornando cada vez mais uma “aldeia Potemkin”, falsamente revolucionária [“aldeia Potemkim” é uma expressão utilizada para indicar algo que busca se passar por muito maior do que realmente é, originada da construção de falsas “aldeias móveis” na Criméia, quando da visita da czarina russa Catarina II, em 1787, por ideia do príncipe Grigori Potemkim, que desejava impressioná-la com seu trabalho de “reconstrução” da região após a conquista russa]. Eventos no “grande mundo” são de interesse cada vez menor. O que realmente importa é que a base de pagadores de cotas permaneça intacta. Isso se reflete em uma imprensa que é muitas vezes cheia de notícias “internas” sobre atividades e eventos da SL, a cobertura dos quais é realizada a níveis absurdos. A SL passou a ter grande orgulho da sua abstenção em muitas das mobilizações importantes do resto da esquerda. Em 1982, eles boicotaram uma significativa manifestação anti-nazi, iniciada pela comunidade negra em Oroville, Califórnia. Eles também boicotaram as maciças manifestações de 1983 contra Cruise, no Canadá. No último verão, quando milhares de manifestantes se reuniram para protestar contra Jerry Falwell e a sinistra “Maioria Moral” em São Francisco, durante a semana da Convenção Democrática, a SL se recusou a participar. Contingentes espartaquistas também têm sido consistentemente ausentes da maioria das recentes manifestações contra a intervenção dos EUA na América Central.

Não é estupidez ou preguiça que mantém a SL longe de tais manifestações – essa política é um concomitante necessário em gerir uma “aldeia Potemkin”. O que os novos recrutas (que estão se juntando ao que a liderança lhes garante ser o único grupo legítimo na esquerda) pensariam se a SL participasse de ações conjuntas com outras organizações, todas as quais supostamente estão envolvidas em uma obscura trama, mentiras e repletas de policiais infiltrados, contra “o partido”?

A “segunda transformação” da SL também envolveu a sua retirada dos sindicatos. Isso começou com a remoção, em 1980, dos principais porta-vozes do setor de telefonia e estivagem/armazenagem (os dois sindicatos em que as colaterais da SL tinham ganhado reconhecimento como a principal oposição aos burocratas). Em 1983, todos os representantes sindicais da SL no sindicato dos telefônicos renunciaram a seus postos citando pretextos atrás de pretextos. Enquanto isso, a organização pulou fora dos sindicatos de automóveis e já não tem mais nada nos de siderurgia.

O que resta de trabalho sindical é caracterizado por fortes oscilações entre o sectarismo esquerdista e o oportunismo rampante. A SL descaradamente tentou destruir o boicote de 11 dias do sindicato de estivadores (ILWU) contra o recebimento de cargas sul-africanas, em novembro passado, em São Francisco, simplesmente porque apoiadores da ET/iSt desempenharam um papel fundamental na sua organização. Baseando-se diretamente no “Manual de Gerry Healy”, a SL elevou questões táticas secundárias a “princípios”, em um esforço cínico para fornecer uma cobertura de “esquerda” para suas tentativas de inviabilizar toda a ação.

Nas eleições locais do sindicato de operadores de trânsito de Nova York, em 1983, foi uma história diferente. O “esquerdismo” foi colocado em banho-maria, conforme apoiadores da SL realizaram um acordo de não-competição com Arnold Cherry, um sindicalista negro corporativista, que WV admitiu abertamente não ser melhor do que o então líder do sindicato. Daí tivemos o espetáculo de sindicalistas da SL fazendo exatamente o que sempre tinham castigado a esquerda oportunista por fazer – tentar pegar uma carona na aba de um popular burocrata sem cargo.

Truques e manobras

Em vez de lutar pela hegemonia política no seio da esquerda e do movimento sindical, a liderança SL tem procurado como substituto uma série de manobras e truques, cada um dos quais supostamente levará a um avanço espetacular em um futuro próximo. Quando um deles falha em produzir o resultado projetado, então fica para o próximo, conforme a antiga tradição de todos os falsificadores.

A primeira vez que a SL recorreu a um desses esquemas do estilo “fique rico rápido” foi em 1979, quando o próprio Robertson anunciou a campanha objetivamente irrealizável de “200 recrutamentos”, lançada na sequência do expurgo dos clones. Em 1981, houve outra campanha fracassada de recrutamento, essa no contexto dos “Contingentes Anti-imperialistas”. Dessa vez houve alguns sucessos de curto prazo, mas os ganhos foram rapidamente desperdiçados.

Em novembro de 1982, a SL removeu todos os freios e mobilizou vários milhares de trabalhadores negros e jovens em uma bem-sucedida manifestação anti-Klan, em Washington DC. Este foi o clímax de três anos de mobilizações anti-fascistas lideradas pela SL. Com base no ato na capital, a liderança decidiu que o recrutamento de negros era um atalho fácil para o sucesso. Enquanto continuava a enterrar as frações sindicais, a liderança anunciou uma “virada” em direção ao trabalho negro – pelo menos nas páginas de WV. Na prática, o giro negro consistiu principalmente em anunciar a criação de frentes fantasmas (as “Ligas de Combate Operárias/Negras” – LBSLs) e, em seguida, sentar e esperar que elas se enchessem de membros. Contudo, mesmo com cotas de 25 centavos por mês, não houve adesão às LBSLs. O “partido de 70% de negros” projetado na Conferência Nacional de 1983 continua predominantemente branco.

Com as LBSLs natimortas, a liderança fez um mini-giro em direção a correr atrás de greves na primavera [do hemisfério norte] de 1984. A militância da SL foi enviada em uma excursão de verão para encontrar militantes sindicais isolados em áreas periféricas que, esperava-se, leriam algumas edições de WV e, em seguida, inundariam a SL a fim de ter aulas sobre como “jogar duro”. Isso também acabou por ser um fracasso. Um trabalho de apoio a greves eficaz requer uma base sindical sólida. Sair à cata de greves não pode substituir a longa e difícil luta para forjar uma liderança revolucionária nas organizações de massa do proletariado.

Os truques e os esquemas do tipo “fique rico rápido”, o cinismo e a calúnia, são indicativos de uma profunda desmoralização política na cúpula da SL. Como a maioria do restante de sua geração política, Robertson foi profundamente marcado pelo período de derrotas para a esquerda na década de 1950. Em um momento de espontaneidade, ele fez a seguinte observação:

“[…] minha fraqueza vem do fato de que, em certo sentido, eu nunca transcendi os primeiros dez anos da minha experiência política, em um pequeno grupo no meio da caça às bruxas, onde tudo estava contido em discussão oral, então eu nunca desenvolvi o hábito da escrita. Mesmo se isso não fosse verdade, sou incapaz de sair de um estado político ambíguo: sou um produto da caça às bruxas, e é uma fraqueza que eu carrego comigo […]. Eu tenho um cuidado político bastante profundo, eu tenho Lições de Outubro em alta estima por conta disso; tenho a sensação de que você não pode ganhar, depois de ano após ano de pessoas que abandonam o movimento. Na minha experiência, isso é normal. Eu tento lutar contra isso.”

Expanded Political Bureau Minutes, 25 de junho de 1972.

Por um longo tempo Robertson de fato “combateu” isso, mas hoje as perspectivas de ver um avanço em sua vida devem parecer mais distante do que nunca. Ele está exaurido como revolucionário. Mas ele ainda tem algumas centenas de seguidores, uma imprensa estabelecida, um estilo de vida extremamente confortável e algumas propriedades imobiliárias valiosas – tudo mantido unido por uma história política que significa cada vez menos para ele. Poderia muito bem desfrutar as coisas antes de bater as botas.

Robertson optou pelos prazeres consideráveis ​​de ser um peixe grande em sua própria pequena lagoa. Ele é livre para curtir sua fantasia conforme queira – sendo Hugh Hefner [editor da Playboy] um dia e Robert de Bruce [rei escocês que combateu os ingleses pela independência], ou “O Poderoso Chefão”, no outro. E quando ele diz para colocar os narizes de bruxa, os membros da SL que “entendem a questão do partido” (o eufemismo cínico para inquestionável obediência à liderança), os colocam sem sequer um murmúrio de protesto.

Deslizando para baixo no eixo vertical

Ao traçar tendências políticas, é tradicional situá-las em um eixo esquerda / direita. No entanto, para os odores estranhos gerados pela esquerda norte-americana, praticamente se faz necessário outro eixo – um eixo vertical, de correspondência com a realidade social. Nessa escala, a SL se moveu tão para baixo quanto se moveu para a direita no eixo horizontal. Grupos de esquerda que se movem para a direita geralmente o fazem porque parece algo “inteligente” a se fazer – ao menos no curto prazo. Mas muito do que a SL tem tramado ultimamente não é inteligente sob qualquer critério que seja – é simplesmente bizarro.

As previsões de julho passado em WV, sobre um iminente fascismo nos EUA (com a convenção do Partido Democrata fornecendo a Reagan um pretexto ao estilo “incêndio no Reichstag”) e a oferta bizarra de uma dúzia de guardas de defesa da SL para evitar essa “ameaça” foram ambos tão absurdos que ninguém, incluindo os quadros da SL, realmente acreditou neles. Defensores caninos do regime partidário mais pensativos tentaram explicar o cenário histérico de sua liderança como uma manobra. Em certo sentido, eles estavam certos. Mas esse tipo de “manobras” tem uma lógica política. A oferta da SL em atuar como guardas de segurança para Mondale, assim como o vacilo na defesa do espaço aéreo soviético frente ao furor acerca do voo KAL 007 e o chamado social-patriótico para salvar os Marines em Beirute, tinham a intenção de indicar ao Estado burguês que, apesar de sua postura comunista dura, a SL é, no fundo, apenas uma seita inofensiva.

Poucos meses após a loucura sobre o suposto golpe Reaganista, a liderança fez seus quadros correrem por São Francisco vestidos como porcos, bruxas e nazistas, em resposta a outra “trama” – esta supostamente inventada pelo FBI e pelo Conselho Estudantil de São Francisco contra a SYL.

SL à beira do abismo

Os limites dentro dos quais Robertson historicamente teve de operar foram esticados progressivamente até um ponto onde não há mais qualquer controle eficaz sobre ele dentro da organização. No entanto, o culto à Robertson, o Grande Homem / Líder-gênio é peculiar na medida em que não se manifesta na atividade pública do grupo (para além de posições ocasionais bizarras e idiotas). Ele é pessoalmente afeiçoado a uma analogia com a Alemanha Oriental, onde tudo é feito conforme as regras e uma fachada de liderança coletiva é mantida, em oposição à Coreia do Norte, onde a Sucessão Divina está literalmente escrita na constituição. Mas Robertson tem definitivamente levado a organização a um “modelo coreano” nos últimos anos. “O partido” passou a significar “Robertson.” Mas até agora ninguém diz isso em voz alta dentro da SL.

A SL não pode mais ser vista como uma espécie de organização revolucionária errante com um regime burocrático. Pelo contrário, é o equivalente político do grupo de Healy do final dos anos 1960, antes de seu giro pró-Qaddafi; bandidos políticos ex-trotskistas e cínicos, mantidos juntos por obediência a um líder máximo autoritário. Claro que a história nunca se repete exatamente e, apesar do rumo seguido pelos Healyistas em direção ao esquecimento político ser a rota provável da SL, não há uma correspondência exata em todos os níveis. Healy nunca fez seus quadros superiores vestirem chapéus de bruxas. E ele não se engajou publicamente em balbuciação psicossexual, tão típica das seitas dos EUA. A tagarelice misógina dos panfletos dos Vingadores Vermelhos lembra mais a retórica demente do grupo de Lynn Marcus (NCLC).

A conversa sobre “clitoridectomia/castração” dos Vingadores Vermelhos parece sinalizar um movimento da parte da liderança para findar com a lacuna existente entre a sua linha política formal e algumas das características mais tipicamente de seitas da vida interna da SL. Durante vários anos, Robertson teve seu pequeno bando de groupies sexuais, com seus próprios rituais de iniciação bizarros. Elas fizeram uma estréia semi-oficial internamente quando, vestidas de preto e carregando velas, apareceram como “o Coral Susanna Martin”, em um encontro social realizado durante a Conferência Nacional de 1983 da SL (Susanna Martin foi uma “bruxa” dos primórdios dos EUA). No relato da Conferência, que apareceu em WV (n. 342, de 18 de novembro de 1983), observou-se que a “performance [do coral] foi recebida com aclamação selvagem e esmagadora”. O que não foi relatado é que a organização de uma “associação informal de interesses” como essa, como WV timidamente nomeou o coral, é prerrogativa exclusiva de Robertson dentro da SL. WV também não mencionou que ser uma das groupies de Jim confere grande autoridade “informal” no seio do grupo.

Nos velhos tempos, uma das histórias frequentemente contadas na SL para ilustrar o burocratismo ilimitado e o caráter desagradável da vida dentro da Workers League foi como Wohlforth certa vez expulsou vários de seus membros porque ele foi posto para dormir em um sofá quando visitou uma determinada regional do grupo. Hoje em dia na iSt, camaradas de regionais europeias visitadas por Robertson às vezes tem que passar vários dias à procura de um hotel de luxo com um quarto grande o suficiente para acomodar duas camas de casal. Ninguém ousa sugerir que Jim passe uma noite no sofá!

A luta pela continuidade trotskista

A SL ainda é capaz de apresentar uma fachada de ortodoxia trotskista em sua imprensa quando quer. No entanto, isso não é tão surpreendente – a SLL de Healy foi durante anos caracterizada por um macabro regime interno a la Calígula e ainda manteve a capacidade de produzir polêmicas consideravelmente boas, bastante “trotskistas” em conteúdo, para ocasiões cerimoniais. A teoria revolucionária passou a desempenhar essencialmente o mesmo papel na iSt – um dogma que justifica abstratamente a existência da organização, mas que tem cada vez menos relação com a sua atividade real.

Um critério para julgar a saúde de uma organização que se reivindica comunista é a sua capacidade de produzir quadros revolucionários. A Liga Espartaquista, hoje, é uma organização que só pode produzir cínicos. Subserviência à autoridade virou um substituto da consciência política entre a militância, que, literalmente, não sabe que idiotice ou traição eles serão obrigados a defender da próxima vez. Tudo aquilo que aqueles treinados na nova escola de espartaquismo podem realmente ter como certeza é que o trotskismo é tudo o que a liderança diz que é. E isso pode ser exatamente o oposto amanhã. O que conta é fazer o que lhe mandam.

Muitos membros da Liga Espartaquista foram seriamente danificadas por suas experiências sob o regime de Robertson e muitos estão acabados como revolucionários. Mentiras demais. Subserviência demais. Mas há outros que incorporam a contradição entre o passado da SL e seu presente. Alguns desses companheiros se mantém no grupo, sem dúvida, por conta da expectativa de uma futura luta interna, a produzir um racha saudável. Mas não há nada que garanta que esse caminho seja trilhado de fato. Isso nunca aconteceu na Organização Comunista Internacionalista de Pierre Lambert, nem na SLL de Healy.

Durante muito tempo, a SL levou um tipo de existência Dorian Gray. O rosto que foi apresentado ao mundo nas páginas de WV permaneceu saudável, vigoroso e limpo, enquanto a realidade doente e escabrosa era apenas aparente para os de dentro. Nesse sentido, o afastamento cada vez maior da Liga Espartaquista em relação ao seu passado revolucionário é uma coisa boa, uma vez que tende a acabar com a alegação da SL de representar a continuidade do trotskismo. No entanto, nós não tripudiamos da autodestruição da SL. Ela só pode amargar e desmoralizar as pessoas decentes que permanecem dentro do grupo. Mais importante, a atividade da SL desacredita o trotskismo antirrevisionista aos olhos das pessoas de esquerda, trabalhadores, estudantes, militantes negros e outros que estão expostos a ele.

A grande tragédia da Liga Espartaquista é que, depois de duas décadas nadando contra a corrente, a sua liderança central acabou por ter a política revolucionária como apenas mais um cínico jogo de máscaras. Nós respeitamos a contribuição política enorme que Robertson e seus colaboradores fizeram em manter viva a chama do marxismo revolucionário em nosso tempo. No entanto, sob a pressão do isolamento e fracasso, esses mesmos indivíduos foram transformados em um obstáculo à criação de uma verdadeira vanguarda bolchevique.

A degeneração da outrora revolucionária liderança da SL não é de forma alguma um acontecimento único na história:

“Com base em uma longa experiência histórica, pode ser escrito como uma lei que quadros revolucionários, que se revoltam contra seu ambiente social e organizam partidos para liderar uma revolução, podem – se a revolução é atrasada por muito tempo – se degenerarem sob a influência contínua das pressões deste mesmo ambiente […].

“Mas essa mesma experiência histórica mostra também que há exceções a esta lei. As exceções são os marxistas que permanecem marxistas, os revolucionários que permanecem fiéis à bandeira. As ideias básicas do marxismo, apenas sobre as quais um partido revolucionário pode ser construído, são contínuas na sua aplicação e tem sido aplicadas por cem anos. As ideias do marxismo, que criam partidos revolucionários, são mais fortes que os partidos que criam, e nunca deixam de sobreviver a sua queda. Elas nunca deixam de encontrar representantes nas velhas organizações para conduzir o trabalho de reconstrução.”

— James P. Cannon, The First Tem Years of American Communism, p. 29-30.

Conforme a Liga Espartaquista se decompõe em Brigadas Yuri Andropov, Corais Susanna Martin, Esquadrões de Defesa Fritz Mondale e Vingadores Vermelhos em seu mergulho em direção à irrelevância política, resta à Tendência Externa lutar para garantir que a herança que a SL carregou a partir do SWP de Cannon não seja perdida. A tarefa crítica que se coloca à nossa frente para o próximo período é a de reagrupar os quadros necessários para reconstruir o núcleo de uma autêntica organização bolchevique nos EUA e internacionalmente, uma organização que seja digna da tradição heroica de Cannon, Trotsky e Lenin.

Rumo ao renascimento da Quarta Internacional!

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