Arquivo Histórico: Destruição da Alemanha Oriental

Relatos de uma Testemunha Ocular
O Colapso da RDA
Os dois artigos a seguir foram originalmente impressos em “1917” #8, jornal da então revolucionária Tendência Bolchevique Internacional, no primeiro semestre de 1990. A tradução para o português foi realizada pelo Reagrupamento Revolucionário em setembro de 2012.

10 DE MARÇO ― Uma das coisas mais impactantes sobre os eventos na RDA [República Democrática Alemã] é a quase completa ausência de atividade dos trabalhadores com alguma consciência de classe, ou seja, enquanto trabalhadores. Para entender o porquê, é preciso saber algo sobre a realidade sócio-política na RDA. Parece que a consciência elementar dos trabalhadores enquanto classe é muito menor na RDA do que na República Federal [RFA].

Muitos trabalhadores da RDA não tem ideia de como o capitalismo funciona, ou que trabalhadores e capitalistas tem interesses contrários. Uma pesquisa recente mostrou que 56 por cento das pessoas na RDA acreditam que apenas limitações legais mínimas deveriam ser impostas aos capitalistas. Na RFA apenas 39 por cento achavam que controles legais mínimos eram o suficiente. A oposição organizada, os protestos de massas, o “movimento dos cidadãos” após novembro e os partidos políticos em gestação não tem um caráter proletário independente. A liderança de todos os partidos, da esquerda à direita, estava e continua estando nas mãos da pequeno-burguesia: médicos, acadêmicos, pastores, artistas e advogados. Mesmo os ativistas da Esquerda Unida [Vereinigte Linke (VL)] são estudantes ou acadêmicos. A onda de greves que ocorreu no fim de janeiro e no começo de fevereiro se desarticulou. As reivindicações eram limitadas e variáveis: salários mais altos, exigências pela destituição de administradores do SED (o partido stalinista) e por separação das fábricas da Kombinat e do controle econômico (interesses proletários setoriais).

A restauração capitalista e o sindicalismo na RDA

Alguns conselhos de trabalhadores foram formados, mas eles são ou como associações ou então formações sindicais nascentes. O nível máximo de organização proletária até agora foi um raivoso e confuso crescimento de atividade sindical. A FDGB (corpo sindical dominado pelos stalinistas) rapidamente se livrou da sua velha liderança (muitos se demitiram sem pressão), e está tentando reconstruir um movimento sindical com um programa sindicalista limitado, defensivo.

A desconfiança com a velha FDGB (que não havia feito nada por 40 anos) levou ao surgimento de sindicatos aburguesados com interesses restritos. Professores, policiais e trabalhadores ferroviários começaram a pedir para se tornarem Beamtenstatus (como na RFA). Essa é uma categoria especial de trabalhadores públicos que aceitam perder seus direitos de greve em troca de salários fixos e estabilidade no emprego. Quando o sindicato independente dos professores pediu proteção social garantida pelo Estado, ou seja, plano de saúde, auxílio creche e custo de vida (apenas para si próprios), ele recebeu a rude resposta do novo vice-ministro da educação de que os trabalhadores só têm essas garantias no socialismo, e de que socialismo significa ditadura. A ideologia do movimento sindical é copiada diretamente da DGB [movimento sindical da RFA] e do SPD [partido socialdemocrata da RFA], que estão guiando diretamente e tentando controlar o movimento sindical na RDA.

A DGB está aparentemente tendo algum sucesso em persuadir a FDGB de que os delegados sindicais devem se desligar da base e ter representantes pagos pela empresa, não pelo sindicato, em tempo integral. Isso é racionalizado como se fosse dar amplo escopo à democracia proletária, mas na realidade tem o objetivo de separar os funcionários sindicais da base, e limitar as reuniões nos locais de trabalho (sejam reuniões da direção ou de todos os trabalhadores) a assuntos econômicos. É um mecanismo para estabelecer uma estrutura sindical extremamente burocratizada, alheia a qualquer controle da base, que iria realizar reuniões sem nenhuma frequência.

O parlamento da RDA fez uma emenda à proposta de lei básica proibindo os locautes e garantindo o direito irrestrito à greve. A lei consagra Mitbestimmung, que não significa simplesmente que trabalhadores e empregadores devam sentar e conversar, mas também que ambas as partes tem interesses comuns em uma produção eficiente e sem interrupções, e devem agir juntas para a paz social. Essa é a base legislativa e ideológica do movimento sindical na RFA. A lei proposta sobre o movimento sindical na RDA incluía frases que implicavam poder de veto sindical sobre prerrogativas administrativas como joint-ventures, venda de fábricas, entrada das empresas na bolsa de valores, etc. Isso foi rejeitado pelo parlamento. Esse direito de veto, por sinal, é o programa sindical máximo levantado pelo SPD da Alemanha Ocidental e pela DGB. A legislação, que se tornou parte da constituição da RDA pelo voto de dois terços do parlamento, passou apesar das objeções de alguns parlamentares da UDC (RDA) [democracia cristã].

A lei sindical da RDA tem alguns paralelos com o Ato Norris La Guardia dos Estados Unidos (também chamado Carta Magna do Trabalho) aprovada nos anos 1930. O PC norte-americano, assim como o SWP [Partido dos Trabalhadores Socialistas, então seção da Quarta Internacional] se opuseram à lei como uma extensão do “direito” do Estado capitalista de intervir e exercer controle sobre as lutas dos trabalhadores. O PC rapidamente capitulou, mas o SWP trotskista não. É claro que a situação aqui é diferente porque ainda se trata de um Estado operário deformado.

O fato de que a nova lei não impõe limites ao direito de greve resultou em uma tempestade de raiva dos capitalistas da RDA, e ameaças de que não dariam “ajuda” econômica a não ser que a lei mudasse para garantir ao menos as restrições existentes na lei da RFA (que em alguns sentidos é mais restritiva que a dos Estados Unidos). O candidato do SPD a primeiro ministro na RDA, Boehm, declarou vagamente que essa lei será “sujeita a discussão”. Há um grande ódio no que é visto como uma tentativa do PDS (antigo SED) de atender a interesses da classe trabalhadora e impedir a rápida restauração do capitalismo.

Mas o avanço restauracionista parece muito forte. Se, depois das eleições, um governo pró-capitalista se consolidar e a propriedade estatal for privatizada, novas emendas à lei sindical serão rapidamente impostas para diminuir o espaço de ações proletárias defensivas “legais”. A Mitbestimmung estabelece o mecanismo de colaboração de classes envolvendo os sindicatos. Um tipo de precedente para isso já existe na RFA. Representantes eleitos dos trabalhadores frequentemente tem acesso legal aos arquivos e relatórios financeiros e comerciais do empregador, mas são proibidos de dizer aos trabalhadores de base ou oficiais sindicais. A violação disso pode levar a punições severas.

O legado do stalinismo prussiano

Por que isso aconteceu? Quarenta anos de stalinismo resultaram em uma profunda despolitização da classe trabalhadora na RDA. Os trabalhadores não tinham nem organizações independentes e nem os mais limitados direitos sindicais. Todos os benefícios vinham de cima, do partido. O principal bordão do SED não envolvia o “proletariado”, mas sim “Volk”, que pode ser traduzido como “povo”, mas também carrega conotações extremamente nacionalistas de raça, cultura e sangue. Tudo era o Volk: parlamento do povo, exército do povo, polícia do povo. De fato, o velho elitismo prussiano foi levado a todas as instituições. Acadêmicos e profissionais parecem ter tido muito mais influência do que os trabalhadores no aparato econômico e estatal; graduandos de universidade automaticamente se tornavam oficiais. Os trabalhadores só podiam aspirar a serem soldados. Acadêmicos com doutorados ocupavam quase todas as posições de liderança, exceto por um punhado de membros do Politburo.

Era um Estado com um estilo de organização não-capitalista prussiano e de intolerância e presunção pequeno-burgueses. A pequeno-burguesia é bem significativa. Oitenta mil pequenos estabelecimentos privados (limitados a dez trabalhadores) estão em operação, desde bares e restaurantes e pequenos serviços de conserto até pequenas fábricas. Há cerca de um milhão de pessoas na RDA trabalhando para negócios privados fora do setor da economia de propriedade coletivizada. Esses pequenos empresários, junto com clérigos e acadêmicos, constituíam os quadros dos movimentos e partidos que lutavam pela reunificação e restauração capitalista. A eles se juntaram rapidamente a maioria dos administradores e burocratas da área econômica.

A ideologia política não existia na RDA exceto na forma crua do stalinismo prussiano. Poucas pessoas (incluindo os membros do SED) defendiam completamente ou sequer acreditavam nessa visão de mundo. As pessoas simplesmente foram para casa assistir à TV da RFA (a não ser nos arredores de Dresden). Enormes pressões sociais haviam sido erguidas, e quando os protestos de massa começaram, uma quantidade de escritores e intelectuais tentou dar expressão a uma visão de “socialismo democrático” para o futuro da RDA. Essa visão muito rapidamente foi varrida e substituída com uma visão da economia de mercado e reunificação capitalista como o caminho a seguir.

O regime virtualmente desmoronou. O secretariado político (Politburo) do SED se demitiu, e a conferência do SED removeu todo o comitê central sem indicar substitutos. Muitos funcionários do SED deixaram o partido e abandonaram seus postos no governo. Surgiu um vácuo político e econômico. O mais importante ministério, o ministério da economia, deixou de funcionar. O planejamento central (ou mesmo ministerial) entrou em colapso ou foi abandonado. A Kombinat e a administração do trabalho foram deixadas sem poder ou sem instruções; corpos de governo regionais caíram por demissão ou por falta de “legitimidade”. No campo político, muitos funcionários estatais do SED foram inicialmente substituídos por ministros dos quatro partidos do bloco, e ministros sem pasta foram indicados desde a Mesa Redonda da oposição. Estes vieram principalmente dos partidos de “centro”. O PDS está em minoria no conselho de ministros. Um número significativo de partidos está batendo na porta do SPD.

A maior parte dos administradores econômicos e industriais começou a pedir pela legalização da propriedade capitalista. Alguns poucos administradores da Kombinat estão fazendo apelos hesitantes em defesa do patrimônio público na indústria pesada, mas claramente sujeito às pressões do mercado. Em toda a parte, formações de Mesa Redonda surgiram e estão assumindo poderes administrativos. Estas frequentemente incluem o PDS, que parece sempre capitular à maioria. Essas formações de Mesa Redonda indicaram grupos de trabalho para estudar, fazer recomendações, e assumir o controle de funções administrativas, construções, comunicações, imprensa e da propriedade da antiga Stasi [a polícia secreta na RDA, que foi desmontada].

O canto inicial “nós somos o povo” foi rapidamente substituído pelo slogan “nós somos um povo”. A orgia nacionalista é mais difundida e histérica do que na RFA. O vácuo ideológico programático está preenchido quase completamente a partir da RFA. Capitalismo, reunificação nacional e slogans anticomunistas, assim como expresso pelos partidos da RFA, foram adotados por completo, e estão refletidos em forma de palavras de ordem simplistas por quase todos os grandes partidos influentes da RDA. O nacionalismo alemão domina. “Nossos irmãos e irmãs alemães não nos permitirão sofrer, mas irão rapidamente nos incorporar no bem sucedido capitalismo da RFA, com os seus extensivos amortecedores sociais. Afinal, somos todos alemães!”. A televisão mostra reuniões de fábrica e em locais de trabalho na RDA onde os trabalhadores pedem conselhos sobre como construir o capitalismo, ou então os trabalhadores estão apaixonadamente atacando os membros do antigo SED e dizendo: “Só poderemos avançar quando nos livrarmos de tudo que é vermelho”. Parece que, no momento, as condições na RDA estão mais favoráveis para um crescimento rápido de grupos e ideologia neofascistas do que na RFA. O regime da RDA sempre foi extremamente nacionalista. O fascismo era sempre caracterizado como primariamente anticomunista. Na região do campo de concentração de Buchenwald, não há memóriais ou informações sobre o grande número de judeus que foram aprisionados ou mortos. Na escola, as crianças aprendem muito pouco sobre o Holocausto. O regime de Ulbricht era abertamente antissemita. Um número considerável de comunistas judeus voltou para a RDA depois de 1945. Muitos foram perseguidos, e muitos judeus deixaram a RDA nos anos seguintes. A RDA supostamente tem apenas 400 pessoas com antecedentes judeus (o pai de Gysi [líder do PDS] era um comunista judeu alemão). Cerca de 0,8 por cento da população é composta de residentes não-alemães, a maior parte estudantes ou trabalhadores do Vietnã, Polônia, Moçambique, Angola e Cuba. Crianças não-alemãs nascidas na RDA não tem direitos de cidadania e aparentemente é impossível para não-alemães adquirir cidadania. Os trabalhadores estrangeiros são limitados ao máximo de cinco anos de residência. Não há exceções. A plataforma eleitoral do PDS não faz menção sobre permitir a trabalhadores estrangeiros permanecer depois de cinco anos e Christa Luft, vice-premier, membro do PDS e ministro (sem ministério) da economia, aparentemente despachou os trabalhadores vietnamitas de volta para o Vietnã.

Trabalhadores e estudantes estrangeiros, especialmente em Leipzig e Dresden, estão vivendo com medo. Eles ficam em casa durante os protestos, e os elementos fascistas cada vez mais ousados estão exigindo a expulsão de todos os não-alemães. Quando um pequeno grupo de estudantes (alemães e estrangeiros) levantou um pequeno cartaz contra o racismo e a hostilidade contra os estrangeiros durante um dos regulares protestos de segunda-feira em Leipzig, as pessoas negaram a existência do racismo, mas disseram que os estrangeiros deveriam ser mandados para casa ou completamente segregados.

Übersiedler (as pessoas que estão deixando a RDA para ir para a RFA) exigem que milhões de turcos na RFA sejam deportados para abrir espaço e empregos para “verdadeiros” alemães. Toda manhã milhares de pessoas vão até Berlim Ocidental para exigir os empregos ocupados pelos turcos, e se oferecem para trabalhar por menos do que o salário mínimo legal ou que o decidido pelo acordo sindical. Mães de crianças negras ou asiáticas na RDA temem pela segurança de seus filhos.

A Mesa Redonda recomendou que o Partido Republicano (neofascista) fosse proibido na RDA. O parlamento da RDA adotou a lei proposta, mas ninguém a aplica. Skinheads neonazistas fazem protestos públicos gritando “Fora Vermelhos!” e “Fora Estrangeiros!” e cantando o refrão do velho hino nacional alemão que fala de uma Grande Alemanha desde o Memel (um rio na URSS) até o Maas (um rio que passa pela França, Bélgica e Holanda) e o Etsch (um rio no Norte da Itália). A televisão da RFA realizou muita cobertura do movimento do Partido Republicano na RDA, incluindo reuniões para estabelecer novas filiais.

Quando um pequeno grupo de antifascistas (associados com o movimento Autônomo) tentou confrontar um grupo de skinheads, a Volkspolizei (a “polícia do povo”) protegeu os fascistas. Jornalistas da Alemanha Ocidental foram ao escritório do procurador de justiça de Leipzig. Eles mostraram alguns vídeos de reuniões do Partido Republicano estabelecendo o partido em Leipzig e tiros disparados em seus protestos lá. O procurador respondeu negando terminantemente que tal atividade estava acontecendo. Ele também comentou que o vídeo não havia sido produzido pela televisão da RDA!

A comissão eleitoral na RDA se recusou a registrar o Partido Republicano para as eleições de março. Essa ação foi provavelmente feita porque um grande número de votos nos neofascistas teria alarmado muitos na RFA (especialmente a base do SPD) e aumentado a resistência à reunificação em outros países da Europa. Os capitalistas da RFA ainda não precisam dos fascistas. De fato, o crescente voto dos fascistas está derrubando o voto na UDC/USC [União Democrata Cristã / União Social Cristã] e colocando em risco as administrações do governo de Estado, das cidades e dos distritos – especialmente nos seus redutos nos estados no sul da RFA. A necessidade da USC e da UDC de formar coalizões de governo com os neofascistas poderia prejudicar as coalizões de governo da UDC/PDL [Partido Democrata Livre]. Depois da Anschluss[Reunificação], claro, o Partido Republicano será legalizado – a ideia de uma confederação alemã com um sistema legal e uma constituição em separado na RDA levanta problemas demais para uma restauração capitalista rápida. Os partidos liberais e de direita são a favor de uma rápida e total unificação sob a constituição e a lei da RFA. O Partido Republicano da RDA é composto principalmente de trabalhadores, com alguns elementos pequeno-burgueses. Ele inclui muitos antigos membros do SED. Depois do PDS, os neofascistas são o partido que tem a base e o perfil mais próximo dos setores populares.

Eu não vi nenhuma menção ou cobertura dos protestos ou atividades neonazistas na TV da RDA. A cobertura na televisão da RDA dos protestos de Leipzig cuidadosamente evita mencionar os neofascistas, o que não é surpresa, já que o rádio e a TV estão largamente nas mãos das forças de direita e do SPD na Mesa Redonda. Os partidos da RDA que estão aliados com os partidos da RFA são bem financiados e adotaram ou então lançaram jornais novos. As maiores editoras da Alemanha Ocidental formaram um consórcio de penetração massiva de revistas e jornais na RDA, incluindo o pior tipo de tabloide de rua de direita (mulheres nuas, assassinatos cometidos por estrangeiros e conspirações comunistas/terroristas). A imprensa de melhor qualidade, como o Frankfurter Rundschau, a revista semanal de alta qualidade Der Spiegel, e o diário de esquerda Tageszeitung (TAZ) estão, é claro, excluídos desse consórcio.

Todos os antigos partidos do bloco e quase todos os partidos recém-formados se moveram rapidamente para a direita no período de dois meses. Por exemplo, o partido do bloco UDC (RDA), que costumava defender o “socialismo”, está agora em uma aliança eleitoral que se opõe a todas as formas de propriedade econômica de natureza coletiva ou pública. O movimento de oposição “Despertar Democrático” começou defendendo o “socialismo democrático”, depois tentou um bloco com o SPD e, quando isso falhou, acabou no mesmo bloco com a UDC e o ainda mais direitista DSU.

O vácuo econômico, político, ideológico e programático está sendo quase completamente preenchido pela RFA. Discussões na mídia refletem uma versão pouco sofisticada, aguada, do pensamento político e socioeconômico da RFA. Isso é mais aparente na arena econômica. Parece que todo acadêmico da RDA com um diploma em economia está trabalhando noite e dia para explicar como o capitalismo laissez-faire amadureceu até um capitalismo responsável; como apenas a bolsa de valores é realmente democrática; como as forças do mercado automaticamente resultam em flexibilidade e numa eficiente economia produtiva; e como a própria ideia de uma economia planificada é anticientífica. De acordos com os economistas acadêmicos, dois terços de todos os negócios na RFA e nos Estados Unidos são pequenos ou médios (“desmontem as Kombinats!”); a maioria dos negócios bem sucedidos nos Estados Unidos teria começado com um ou dois homens numa garagem, e rapidamente teria crescido (“você também pode enriquecer!”), etc. Eles são igualmente aptos em explicar como propriedade coletivizada só pode significar “propriedade do partido” e também que só pode operar através de autoritarismo de cima para baixo. Em contraste, eles afirmam que a livre empresa não pode ser autoritária porque ela deve operar de acordo com os desejos dos consumidores.

Tudo isso é vergonhosamente ingênuo e as pessoas na RFA são muito mais cínicas sobre como o mercado “democrático” realmente é. Uma proporção muito maior dos trabalhadores da RFA acredita que apenas fortes partidos de trabalhadores e sindicatos podem forçar os capitalistas a dividir uma grande quantia de todo o produto social para manter o seu atual padrão de vida.

As coisas não são só flores para os capitalistas, e o fluxo constante de pessoas da RDA indo para a RFA (10 a 15 mil por semana) é uma fonte de considerável tensão social. O custo de mantê-los é astronômico. A constituição da RFA considera todas essas pessoas como alemães plenos (ou seja, cidadãos das RFA) que são automaticamente aptos ao auxílio social, escola, seguro desemprego e benefícios de aposentadoria. Em adição, as leis obrigam a RFA (ou os governos estaduais) a ajudar a mobiliar suas casas, pagar as despesas e conseguir empregos. A RFA já tem uma severa escassez de moradia e quase dois milhões de desempregados. A maior parte dos Übersiedler está atualmente sem casa, em galpões esportivos, navios, contêineres, trailers ou quartéis do exército. O alcoolismo e o vício em drogas são um problema sério. Há muitos relatos de brigas entre cidadãos da RDA e poloneses de descendência alemã. Além disso tudo, mesmo muitos dos cidadãos capacitados e escolarizados da RDA não conseguem empregos. Eles não estão acostumados com o ritmo ou com a disciplina de trabalho capitalista. A não ser que eles recebam ordens diretas, eles costumam jogar baralho ou ficar ociosos.

Eles esperam que se exija deles apenas a realização de uma tarefa simples, ou tem o hábito de chegar tarde e largar cedo. O comportamento rude, egoísta e machista de muitos deles aparentemente tem causado problemas com colegas de trabalho, assim como a sua extrema intolerância para com normas de vestuário, comportamento ou estilo de vida que sejam minimamente diferentes daquelas na RDA. Os pais não estão acostumados à ausência de creches acessíveis, baratas e razoáveis. Tem havido relatos de alguns deles simplesmente chegando nas creches e deixando as crianças sozinhas, sem registro. Já há evidência de desmoralização entre muitos daqueles que esperavam que um carro novo, um apartamento bom e barato e um emprego fácil eram parte do pacote do “mundo livre”.

O custo da restauração do capitalismo será bastante alto. Antes da economia ser reorientada para o lucro, tratar a RDA como simplesmente uma colônia de exploração significaria que o grosso de uma população de 16 milhões debandaria para a RFA. Eles têm esse direito constitucional! Os empregadores na RFA estão dizendo aos trabalhadores que uma semana laboral mais curta ou que um aumento de salário significativo está fora de questão. Os capitalistas dizem aos trabalhadores que eles terão de se sacrificar para ajudar aos seus irmãos e irmãs do Leste, ou seja, os impostos irão aumentar e os benefícios sociais serão reduzidos. A DGB e o SPD podem vir a desenvolver diferenças agudas com o governo da RFA sobre a questão de quem vai pagar pela reunificação. O sindicato dos metalúrgicos com dois milhões de membros está se organizando em torno da demanda da semana de 35 horas somada a um aumento salarial de 8,5 por cento. O sindicato dos gráficos e da imprensa tem reivindicações similares. Pode haver uma grande onda de greves na RFA por volta da primavera. O entusiasmo inicial pela reunificação está claramente recuando do momento anterior em que todos os partidos na Bundestag (exceto parte do Partido Verde) apoiaram a reunificação.

A economia planificada foi efetivamente abandonada na RDA. Os administradores econômicos, confrontados pela ansiedade dos trabalhadores sobre empregos e salários, pediram ajuda de forma impotente e argumentaram que só a privatização rápida pode fornecer uma negociação. O programa do PDS se limita a um apelo ocasional para reter como propriedades públicas algumas minas e indústrias pesadas. O regime está recuando rapidamente em todas as frentes, especialmente na questão da propriedade coletivizada. Mas os capitalistas da Alemanha Ocidental estão mantendo a exigência da remoção de todas as leis na RDA que de alguma forma restrinjam as atividades capitalistas, incluindo a redução dos (antes altos) impostos para pequenos e médios negócios. Propositalmente, toda a terra e propriedade confiscada dos pequenos negócios em 1972 foi recentemente devolvida.

A contrarrevolução capitalista vai resultar em um desemprego massivo, aluguéis mais altos e no desmonte dos programas sociais. A realidade do “capitalismo realmente existente” resultará em uma tremenda ansiedade social, que poderá ser expressa em tudo, desde greves até massacres anticomunistas. A intolerância social é bem alta na RDA, e o stalinismo prussiano ensinou ao povo da RDA que luta política significa suprimir os seus oponentes. Conforme a realidade do capitalismo se torna clara para mais amplas seções da população, o PDS, cumprindo o papel traidor de socialdemocracia de esquerda, poder oferece liderança a essa consciência de classe elementar, mas limitá-la ao trade-unionismo (simples sindicalismo) burguês e ao parlamentarismo.

Em anexo está uma cópia da carta de apoio crítico, que nós distribuímos na campanha do Spartakist-Arbeiterpartei Deutschlands [SpAD – organização alemã afiliada à Liga Espartaquista dos Estados Unidos, de Jim Robertson], que lida com a afirmação deles de que tem ocorrido uma revolução política na RDA nos últimos meses.

Para fazer tais afirmações, a TLD/SpAD simplesmente fecha os olhos para a realidade política. Nenhum conselho de trabalhadores está lutando pelo poder. Nenhuma formação proletária que é, ou mesmo que aspire ser, um organismo de duplo poder se desenvolveu na RDA. Os conselhos de soldados estão limitados a simplesmente discorrer sobre as condições de “trabalho” dos soldados, ou então representam grupos de pressão para o pessoal militar especializado, e são dominados por oficiais.

O SpAD deve estar passando por uma crise de expectativas. A sua moral parecia baixa quando nós os vimos. A única coisa que eles fizeram bem – distribuir centenas de milhares de panfletos e jornais – aparentemente não poderá continuar. A orientação deles em direção à base desmoralizada e despolitizada do SED/PDS não gerou frutos. Eles não tem mais base em Leipzig e, fora de Berlim, a única base deles é em Greifswald, região das grandes plantas de energia nuclear. A exposição da condição perigosamente deteriorada dessas plantas de tecnologia de ponta tipo-Chernobyl fez com que duas delas fossem desativadas. O SpAD interviu com a linha de que o perigo relatado tinha sido inventado pelo Ocidente. Mas quase ninguém acreditou nisso. Até mesmo o PDS concorda que má construção, gerenciamento ineficiente e idade avançada tornam uma planta inutilizável. Os argumentos do SpAD de que apenas os trabalhadores da planta poderiam tomar a decisão provavelmente não vai lhes dar muita audiência.

Para conseguir eleger um membro para o parlamento, que nesse momento é provavelmente o seu cenário mais otimista, o SpAD terá que ganhar 0,25 por cento dos votos ou um voto a cada 400 por representação proporcional.

21 DE MARÇO ― O SpAD ganhou menos votos do que o esperado; menos do que a União dos Bebedores de Cerveja Alemães, que só concorreu em Rostock. Seu total, 2.396 votos, é muito pequeno. É claro que a maré estava fortemente a favor da reunificação, mas eu acredito que a inabilidade deles de ajustar a propaganda eleitoral às mudanças na realidade também lhes prejudicou. Quando ficou claro que os votos iriam esmagadoramente para a restauração capitalista e unificação, eles deveriam, sem se comprometer sobre essa questão chave, ter tentado também levar em conta as questões mais imediatas de defesa da classe trabalhadora e especialmente questões básicas sindicais e da luta de classes. A Esquerda Unida (VL), com algumas centenas de membros, discutiu sobre questões sindicais dentro do contexto de defender a classe trabalhadora e terminou ganhando um posto no parlamento, com 0,18 por cento dos votos. Apoiadores da VL também intervieram ativamente no movimento sindical e em seus organismos dirigentes.

Nós vimos uma discussão na TV da RDA com um participante do SpAD. Foi um desastre embaraçoso. O espartaquista era uma caricatura da Nova Esquerda em estilo e aparência, e uma caricatura de um trotskista politicamente. Ele simplesmente leu uma série de slogans, e pareceu ser incapaz de responder de qualquer forma que fosse às questões sobre reestruturação econômica, aluguéis, auxílio maternidade, desemprego, subvenções e a reforma monetária.

Essas foram todas boas aberturas de discussão, que poderiam ter sido conectadas com a necessidade do poder da classe operária e as formas de propriedade coletivizada. Sobre o parlamentarismo, ele disse: “Nós vamos esmagar este parlamento com conselhos de trabalhadores e milícias operárias”, enquanto ignorou completamente a questão dos direitos sindicais, e o possível curso das lutas dos trabalhadores no futuro próximo. Ele foi pior do que o mais inexperiente recruta da SYL [antiga juventude da Liga Espartaquista] nos anos 1970. O estilo do SpAD é professoral e arrogante, assim como o velho estilo do SED. O panfleto eleitoral do SpAD enfatizou a defesa da URSS, mas em nenhum momento descreveu a URSS como um Estado operário degenerado! Outros partidos na discussão na televisão simplesmente ignoraram o porta-voz do SpAD.

Os resultados eleitorais mostram que o programa “capitalismo já / unificação já / nenhuma interferência dos sindicatos” da conservadora Aliança pela Alemanha ganhou seu principal apoio do sul fortemente industrializado e de pequenas cidades e vilarejos. Em áreas onde mais de 45 por cento das pessoas trabalham na indústria, a Aliança conseguiu 56 por cento dos votos; onde serviços e agricultura dominam a economia, a Aliança conseguiu de 30 a 42 por cento. 58 por cento daqueles que se consideram “trabalhadores” votaram pela Aliança. Apenas 32 por cento daqueles que se intitulam como “intelectuais” votaram pela Aliança; uma porcentagem equivalente desse grupo votou no PDS e no Bündnis 90. Esse último grupo inclui os três “movimentos dos cidadãos”, que lideraram amplamente a “revolução de novembro”. Em cidades com 200.000 ou mais, a Aliança conseguiu apenas 26,5 por cento dos votos, contrastando com o voto das cidades com 2.000 ou menos, onde ela conseguiu mais de 56 por cento. O lugar onde a Aliança conseguiu menos votos foi, é claro, Berlim (22 por cento), aonde eles chegaram em terceiro atrás do SPD e do PDS. A Aliança também não obteve maioria nas regiões do Norte de Rostock, Schwerin e Neubrandenburg, nem nas áreas de Potsdam (RDA central) e Frankfurt no Oder.

O SPD, que começou há dois meses com mais de 50 por cento de apoio na RDA, jogou a carta do nacionalismo, e ganhou o jogo! Os intelectuais que lideraram a “revolução”, mas que não puderam discorrer sobre questões econômicas com a menor claridade, ganharam muito pouco apoio.

Os trabalhadores da RDA se acostumaram a receber benefícios e instruções de um Estado autoritário e poderoso. Parece que nas eleições eles transferiram a sua aceitação passiva para o establishmentda RFA. Os trabalhadores ainda estão amplamente inconscientes das dificuldades à frente para tentar transformar a RDA em uma parte completamente desenvolvida do capitalismo alemão.

Nas últimas semanas da campanha eleitoral, mesmo o SPD e os outros partidos considerados à esquerda do centro (como Bündnis 90) e os Verdes, estavam receosos de ir às ruas de Leipzig. Qualquer um carregando uma bandeira da RDA nessa cidade provavelmente seria atacado. Mesmo em Berlim, gangues de skinheads atacaram grupos fazendo campanha pela lista alternativa da juventude. Jovens de extrema direita invadiram centros da juventude e bateram em pessoas lá dentro. Dezenas de ameaças a bomba contra militantes de esquerda foram ignoradas na RFA, exceto pela TAZ. O resultado mais surpreendente da eleição foram os 16,33 por cento de votos no PDS. Há dois meses, o partido estava desmoralizado e na época teria conseguido no máximo 5 por cento. Nas eleições, apenas 26 por cento dos antigos membros do SED votaram pelo PDS! Muitos altos e médios funcionários se demitiram, mas repentinamente muitas pessoas jovens entraram no PDS, e ele rapidamente começou a construir um perfil de defesa dos padrões de vida, das garantias sociais e dos direitos sindicais. O PDS até mesmo afirma defender o setor estatal da economia ― mas, é claro, dentro do contexto das condições de mercado.

Todo o estilo deles mudou. Os representantes do PDS surgem como pedagógicos, ultrademocráticos e humildes. Os seus candidatos e outras pessoas públicas estavam provavelmente menos contaminados pela antiga colaboração com a Stasi do que os candidatos e funcionários da Aliança. Eles tomaram a dianteira em emendar a Constituição da RDA para incluir o direto a um emprego, o direito à moradia, o direito ilimitado à greve, e uma proibição constitucional a locautes. O PDS é agora baseado em Hamburgo. Gregor Gysi, secretário do PDS, diz que as próximas eleições da RFA verão o PDS no parlamento. Isso poderia significar uma base real para a socialdemocracia de esquerda na RFA.

O parlamento recém-eleito não pode mudar a constituição ou a lei básica sem colaboração entre os socialdemocratas e a Aliança. O compromisso dos socialdemocratas a uma reestruturação rápida e restauração capitalista provavelmente irá leva-los a emblocar com os capitalistas da RFA, que estão mantendo amplos investimentos na economia da RDA até que a lei e a constituição sejam mudadas para garantir um domínio capitalista completo. Os capitalistas da RFA estão rapidamente devorando os setores mais importantes e mais produtivos da economia da RDA, tais como a produção de maquinário pesado, a construção de locomotivas, eletrônicos, ótica e montagem de veículos, ou “raspando a cobertura do bolo”, como se diz.

A economia da RDA antes da “revolução de novembro” apresentava um quadro contraditório. Embora a RDA fosse o décimo país no ranking da produção mundial de produtos e serviços, a produção por trabalhador ficava atrás de todos os países da Comunidade Econômica Europeia [CEE] exceto Grécia e Portugal. A agricultura ofereceu um superávit para exportação, mas teve apenas metade da produtividade por pessoa do que na CEE. Muitas indústrias operavam com equipamento obsoleto. A indústria química tem largamente tecnologia dos anos 1930, e a infraestrutura de transportes e comunicação precisa seriamente ser substituída e modernizada. As poluições do ar, da distribuição de água, da comida e do ambiente levaram a uma queda na saúde, e a uma subida crescente nas doenças. A mortalidade infantil é maior do que em qualquer país industrial. A saúde e a segurança no trabalho eram provavelmente ainda piores que nos Estados Unidos. Não havia mecanismos pelos quais os trabalhadores podiam levantar demandas para diminuir os riscos de saúde no trabalho, já que o SED afirmava que todas essas reclamações vinham de uma propaganda capitalista, antioperária e de estilo de vida pequeno-burguês…

Uma vez que a fronteira caiu, a RDA efetivamente perdeu controle da sua moeda. A erosão do monopólio do comércio exterior tornou a produção da RDA vulnerável a forças de mercado do Ocidente, assim como uma abrupta queda no comércio com os países da Comecon e um aumento de problemas comerciais com a URSS estavam inutilizando amplos setores da economia com base para exportação. A considerável dívida externa e o crescente desequilíbrio do comércio exterior confrontaram o SED com a necessidade de reduzir severamente as importações e as condições de vida. Nesse contexto, as esperanças de muitos no período imediato pós-novembro, por uma RDA “socialista democrática” ― aspirações expressas por praticamente todos os partidos e movimentos ― foi rapidamente substituída por um senso de fatalismo, falta de esperança e impotência. Nenhum grupo apresentou uma solução crível ou realizável para os problemas econômicos, e as pessoas logo concluíram que uma “terceira via” não era possível. Hoje na RDA, “socialismo” é uma das palavras mais sujas que se pode usar. Ela é amplamente associada com repressão stalinista e comandismo. A massiva campanha de desestabilização da RFA preencheu o vácuo programático com nacionalismo e com a mágica expressão “economia de mercado social”. Os capitalistas ganharam, e ganharam grandemente até agora. Mas o regime de Kohl não pode cumprir as suas promessas à população da RDA. Conforme os aspectos desagradáveis do “mercado social” se manifestarem nos dias à frente, vai se tornar claro que realizar uma contrarrevolução social exige mais do que simplesmente comprar uma eleição.
TB Visita a Filial do SED/PDS
Um Relance para Dentro da ‘Fortaleza’

7 DE FEVEREIRO ― Nós recebemos um convite para falar aos membros do PDS [Partido do Socialismo Democrático, antes conhecido como Partido da Unidade Socialista (SED), o partido stalinista dominante na República Democrática Alemã (RDA)] em Finsterwalde, a meio caminho entre Berlim e Dresden. Obviamente nós decidimos ir. Uma chance como essa não se desperdiça. Ela abriu nossos olhos para a verdadeira situação do PDS/SED, ao menos nessa área…

Quando chegamos lá, nós percebemos que a maior parte das casas estava muito bem conservada. Isso deve ser difícil, considerando o nível de poluição do ar. Eu nunca fui obcecado por ecologia, mas o Trabbi [carro da RDA] é um poluidor nojento. Você consegue ver fumaça preta saindo da traseira da maioria deles. Mas isso não é nada comparado à fumaça imunda que sai aos montes das chaminés das fábricas – todas as quais pareciam se localizar bem no meio dos quarteirões residenciais! O carvão marrom que elas queimam produz vapores venenosos de dióxido de enxofre. É literalmente insuportável.

Nós chegamos logo depois do espetacular discurso de Modrow capitulando à reunificação. Isso foi como um terremoto para os membros do SED.

No Sábado, nós visitamos o que restava da liderança local do PDS/SED. Eles nunca tinham falado com ninguém do lado ocidental. Mesmo membros do PC da RFA [República Federal Alemã], alguns dos quais tinham a permissão de visitar parentes na RDA (geralmente membros do SED), nunca eram autorizados a visitar os escritórios do SED ou ir às suas reuniões e fóruns. Até novembro, mesmo reuniões informais entre membros do SED e o PC da Alemanha Ocidental eram proibidos.

Cerca de dois meses atrás, havia em torno de cinco mil membros do SED nessa área. Nesse momento eles ainda dizem possuir mil e novecentos, mas o número real é bem menor. Quando me disseram que não tinham sido capazes de entrar em contato com muitos dos líderes da filial na localidade nem por carta, nem por telefone, eu sugeri que talvez isso indicasse que o número nominal de membros de mil e novecentos incluía alguns que simplesmente não tinham se importado sequer em devolver os pertences do partido. Isso foi respondido com silêncio.

Esse ano, a convocação do ato de rua anual Luxemburgo/Liebknecht, em janeiro, foi feita rabiscando um aviso no quadro negro do escritório do partido. Trezentas pessoas apareceram. Mas não houve cartas, nem telefonemas, nenhum pôster ou panfleto. Eles disseram que hoje em dia eles têm dificuldade em colocar anúncios no jornal. Parece que o Neues Deutschland [ND, o jornal diário do PDS/SED] está tão ocupado com as grandes notícias que ele só lança anúncios de protestos em Berlim. A máquina quebrou.

Os líderes do PDS (e membros) parecem totalmente despreparados para as próximas eleições. Eles não parecem capazes de produzir um panfleto, um texto ou mesmo um anúncio de imprensa. Antes de novembro, eles diziam para que as pessoas ligassem para o departamento de propaganda do partido e eles mandariam o que você quisesse. Eu ouvi que frequentemente eles mandavam coisas que ninguém queria; e às vezes nem era preciso ligar. Mas naquela época, o SED não tinha como perder eleições, então por que se preocupar?

Quando nós tivemos a chance de fazer uma apresentação para um setor da filial local, pareceu logo de cara que nós tínhamos impactado alguns elementos de esquerda. Mas nós logo começamos a nos perguntar por que não havia discordância aparecendo. Afinal, stalinistas supostamente tem diferenças consideráveis com trotskistas, não tem? Foi tudo um tanto estranho. Eles concordavam com a necessidade de conselhos operários (embora depois tenha ficado claro que os que eles tinham em mente eram apenas os sindicatos de colaboração de classe no modelo da RFA). Eles concordaram que uma Alemanha reunificada naquele momento só podia significar uma perigosa potência imperialista (mas eles infelizmente não tinham muita noção do que “imperialista” significava, a não ser algo do qual você chama as pessoas de quem você discorda). Eles concordaram com tudo na nossa declaração publicada na edição em alemão de 1917 [publicação da Tendência Bolchevique]. Mas nenhuma dessas concordâncias significava muito – eles dificilmente pareciam preparados para discordar. Ninguém nunca tinha ouvido falar de Gramsci, nem ninguém tinha nunca ouvido falar de sovietes antes. Nunca tinham sido parte das leituras exigidas! Finalmente eu pedi para que levantassem as mãos aqueles entre os presentes que haviam lido o Manifesto Comunista. Todos ficaram sentados parecendo envergonhados.

Na RDA, parece que a atitude em relação a Marx e Lenin é a mesma que a atitude dos meus colegas de classe na escola quando tiveram que ler poetas clássicos alemães como Schiller, e odiavam. A maioria deles nunca descobriu o grande escritor que ele era. Quando eu perguntei sobre onde comprar uma grande coletânea das obras de Marx e alguns volumes de Luxemburgo, as pessoas pareceram genuinamente impressionadas que alguém estivesse interessado nesse tipo de coisa.

Se você quer falar de política com alguém, com raras exceções, tudo tem que ser limitado a um nível bastante elementar. Você deve presumir que as pessoas não leram nada dos fundadores do nosso movimento. A maioria dos membros do SED leem ND e tiram a sua política daí. Aqueles com memórias decentes puderam recitar, de forma mais ou menos inteligente, os últimos discursos ou diretivas do partido – mas isso foi tudo. Apenas um de todos os membros do PDS/SED com quem eu falei tinha cópias das obras de Marx/Engels e de Lenin em seis volumes cada. Ele também era o único que tinha lido todo O Estado e a Revolução (que só tem 120 páginas!) e Imperialismo, Fase Superior do Capitalismo. Que grande trabalho fizeram os stalinistas ao erradicar qualquer tipo de tradição marxista na RDA, especialmente considerando o número de velhos comunistas vivendo lá. Eu ainda estou um tanto abalado por esse nível político apavorante.

Depois de um tempo, ficou claro que a preocupação imediata dos membros do PDS/SED não era realmente política, mas organizativa. Eles pareciam não ter absolutamente nenhum tipo de experiência partidária da forma como nós a entendemos; eles não conseguiam reunir todos os seus membros no mesmo lugar e hora certos; eles parecem não ter ideia sobre como criar células funcionais. (Eles parecem não ter mais células agora, já que as organizações por local de trabalho e local de moradia desapareceram). Os membros que ainda se reúnem, o fazem quase que casualmente, no trabalho ou nas unidades residenciais. Muitos membros do PDS que nós encontramos pareciam ansiosos para organizar as coisas, mas era evidente que eles não compartilhavam um determinado conjunto de ideias (programa) ao redor do qual se reorganizar. Eles não sabiam se eram capazes de concordar com um determinado programa, e geralmente pareciam acreditar que, sob as atuais circunstâncias, era melhor evitar possíveis pontos de controvérsia, porque isso poderia levar a um racha. Absolutamente coisa de louco.

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