A Continuidade Revolucionária e o Racha na Quarta Internacional

A Continuidade Revolucionária e o Racha na Quarta Internacional

A carta a seguir, que lida com o racha histórico do movimento trotskista no começo dos anos de 1950, foi escrita pela Tendência Bolchevique em 1989 e endereçada ao Grupo IV Internacional alemão (GIVI). Assim como a Tendência Bolchevique, o GIVI foi fundado por antigos quadros da Tendência Espartaquista Internacional (iSt). A carta é uma polêmica contra a igualação formulada pelo GIVI entre o revisionista Secretariado Internacional (SI) liderado por Michel Pablo e Ernest Mandel, e as forças organizadas no Comitê Internacional (CI) iniciado pelo Partido dos Trabalhadores Socialistas norte-americano (SWP). 

A “reunificação” de 1963 entre o SWP e o Secretariado Internacional de Pablo, que produziu o Secretariado Unificado (SU), foi selado pela expulsão da Tendência Revolucionária do SWP (precursora da Liga Espartaquista – SL). A TR se opôs à reunificação e defendeu o racha original contra a corrente de Pablo como “essencial para a preservação de um movimento principista revolucionário”. A tradução para o português foi realizada pelo Reagrupamento Revolucionário em 2011. Pequenas notas explicativas foram adicionadas ao longo do texto, indicadas entre colchetes.

14 de Março de 1989

Camaradas:

Nós discutimos o seu documento Continuidade ou Novo Programa – Uma Falsa Alternativa, e nós nos encontramos em acentuado desacordo com a sua conclusão de que o racha de 1951-53 foi, no essencial, politicamente inconsequente. Em nossa visão, isso representa um passo para longe da tradição da qual ambas as nossas organizações derivam. 

Deixem-nos dizer logo de saída que o conhecimento da atividade política que nós temos das seções do CI fora da América do Norte nos anos 1950 é limitado. O que nós sabemos sobre a atividade delas não é impressionante, para dizer o mínimo. Nós estamos de certa forma mais familiarizados com os registros do Partido dos Trabalhadores Socialistas (SWP) nesse período, que mostram um consistente movimento à direita, incluindo o chamado ao exército imperialista dos EUA para agir como um instrumento de luta contra o racismo. 

Nós consideramos “Gênese do Pablismo” [Spartacist número 21, 1972], o principal estudo da Liga Espartaquista sobre a crise do trotskismo no pós-guerra, um documento sofisticado. Como vocês apontam, ele é limitado a 1954 – e enquanto ele se refere à atividade do grupo de Healy dentro do Partido Trabalhista inglês como “arqui-pablista”, ele omite menção à adaptação política covarde do CI a Messali Hadj na Argélia ou a Perón na Argentina. “Gênese do Pablismo” também ignora o desastre boliviano de 1952 e o papel da liderança de Cannon ao encobrir o menchevismo do “apoio crítico” do POR [Partido Obrero Revolucionario] ao governo burguês nacionalista do MNR [Movimiento Nacionalista Revolucionario]. Essa é uma omissão particularmente significativa em razão da existência de uma tendência dentro da filial do SWP em Los Angeles (o grupo de Vern-Ryan) que criticou explicitamente essa política na época. A observação da SL de que é central para forjar uma corrente trotskista autentica a nível internacional “uma compreensão das características e causas do revisionismo pablista e da resposta falha dos anti-pablistas que lutaram, muito pouco e muito tarde, num terreno nacional, enquanto abandonavam na prática o movimento mundial”, é uma afirmação com a qual nós concordamos com toda sinceridade. Nós não criamos desculpas para o provincianismo nacional da liderança de Cannon, nem para a sua concepção de uma “Internacional” federada, nem para a sua abstenção de críticas ao oportunismo dos seus parceiros de bloco. Mas também nós não concordamos com a Política Militar Proletária, nem com as posições tomadas na Iugoslávia e na China [posições da Quarta Internacional antes de ser dominada pelos pablistas no Terceiro Congresso Mundial de 1951]. 

Ao mesmo tempo, é necessário julgar correntes políticas na sua totalidade, levando em conta a sua história e a realidade social com a qual se confrontaram. O mundo após a Segunda Guerra Mundial era um lugar muito diferente daquele que Trotsky havia projetado. O SWP estava isolado socialmente, com seus quadros envelhecendo e sob tremenda pressão da caça às bruxas internamente [macartismo]. Ele ficou claramente muito desorientado pelos eventos do pós-guerra e pobremente equipado para entender ou lidar com eles teoricamente. A liderança de Cannon compartilhou largamente, ou no mínimo aceitou, o impressionismo de Pablo sobre a “nova realidade mundial” que levava inexoravelmente às conclusões de que muitas das lições do “velho trotskismo” não eram mais aplicáveis. Isso é evidenciado pelo apoio do SWP às decisões do Terceiro Congresso Mundial de 1951. 

Mas conforme a luta com Cochran [adepto de Pablo nos Estados Unidos] revelou, seria um erro simplesmente igualar Cannon e Pablo. A liderança do SWP, enquanto estava escorregando gravemente, não estava definitivamente consolidada ao redor desse revisionismo. Quando confrontada com as implicações do curso liquidacionista dos pablistas no seu próprio terreno nacional, a liderança de Cannon resistiu. Nessa luta nós tomamos um lado, sem endossar a forma como a luta foi conduzida ou mesmo muitos argumentos usados pela maioria – por exemplo, a defesa de Hansen da proposição segundo a qual o stalinismo era, em toda a parte, “contrarrevolucionário de cabo a rabo”. Enquanto a direção da evolução dos Cochranistas era suficientemente clara na época da sua suspensão do SWP, ela ficou ainda mais estrondosa quando eles estabeleceram o seu próprio grupo. Seis meses após deixarem o SWP, eles declararam descaradamente que no período pós-guerra:

“(…) tem havido um teste claro da habilidade do trotskismo de criar um movimento independente sobre um programa amplamente confirmado pelos novos desenvolvimentos revolucionários (…) a velha perspectiva trotskista caiu fora de moda. Como antes da guerra, a vanguarda busca realizar as suas aspirações revolucionárias dentro dos velhos partidos, não deixando espaço para uma nova organização revolucionária de massas. Assim, o movimento trotskista (…) estava fadado a permanecer isolado. O teste foi colocado para toda uma época histórica, ambos em períodos de reação e de revolução, e por isso é decisivo”.
“Nossa Orientação”, reimpresso em Documentos do Secretariado Internacional 1951-54, volume 4.

Nós acreditamos que a liderança do PCI [Parti Communiste Internationaliste, da França] estava certa em votar contra o documento principal da liderança do SI no Congresso de 1951. O fato de que o SWP não os apoiou nisso, ou que a liderança do PCI não levou essa luta até o fim, não nega o fato de que houve uma significativa diferenciação política, que claramente tinha um eixo esquerda/direita. Vocês admitem que “no documento Para onde vai o camarada Pablo? escrito por Favre-Bleibtreu em junho de 1951, eles tentaram defender o trotskismo”, mas concluem que porque eles “capitularam às manobras burocráticas dos pablistas dentro do PCI” e infelizmente retiraram a sua oposição anterior à linha adotada pelo Terceiro Congresso Mundial, os trotskistas franceses “selaram o seu destino”. Enquanto essa manobra obviamente enfraqueceu significativamente a oposição política deles ao novo revisionismo, o fato é que continuaram se opondo à liderança de Pablo e aos seus aderentes franceses. No ano seguinte, Bleibtreu concordou com Healy e um representante da seção suíça em “tomar juntos a defesa do trotskismo contra o revisionismo pablista e a luta contra a liquidação da Quarta Internacional” no futuro Quarto Congresso Mundial (Documentos do Comitê Internacional 1951-54, volume 2). Cannon e a liderança do SWP aparentemente abortaram tais planos com a sua “Carta Aberta”, publicada no mês seguinte.

Está bastante correto apontar para as inconsistências e inadequações do PCI e do SWP, e a forma passiva e imprópria com a qual eles travaram a luta contra a liderança pablista. “Gênese do Pablismo” certamente não é acrítica a esse respeito:

“Apesar de existir uma considerável mitologia que defende o contrário, tanto o PCI como o SWP vacilaram quando o revisionismo se manifestou na direção da Quarta Internacional, colocando obstáculos somente à sua aplicação em suas próprias seções. Ambos os grupos se comprometeram por sua inquieta conformidade (combinada, no caso do PCI, com resistência esporádica) a apoiar a política de Pablo, até que consequências organizativas suicidas para suas seções fizeram necessárias duras batalhas. Ambos abdicaram da responsabilidade de levar a luta contra o revisionismo em todas e cada uma das instâncias e seções da Quarta Internacional (…) O CI, desde o seu começo, era apenas o esqueleto de uma tendência internacional formada por grupos que já haviam se dividido entre ramificações pró-pablistas e ortodoxas.”


Vocês observam que “O impulso político saudável de combater o pablismo, que havia sido desenvolvido por alguns componentes do CI, foi hesitante num sentido programático e um desastre no que diz respeito à sua prática política”. Verdade, mas apesar de a luta contra o pablismo ter sido profundamente falha, ela não foi sem substância política. As questões levantadas na Carta Aberta do SWP (o levante na Alemanha Oriental e a greve geral francesa) não foram inconsequentes. É, portanto, um erro igualar as posições adotadas pelas seções do CI nesses eventos com aquelas dos pablistas. Assim como na luta com Cochran, apesar das nossas críticas a Cannon como um todo, nós não podemos aceitar a posição de que era o caso de duas posições revisionistas “complementares” que eram qualitativamente similares. É por isso que o caminho rumo à “reunificação” com os pablistas em cima de uma capitulação compartilhada ao castrismo foi um desenvolvimento significativo, que assinalou a consolidação irreversível da liderança do SWP em torno do revisionismo, enquanto simultaneamente deu início à Tendência Revolucionária (TR).

***

Nós consideramos a sua noção de “continuidade” unilateral. Vocês sugerem que “os expoentes da ‘continuidade’” a veem como “um desenvolvimento ininterrupto do trotskismo”. Essa seria uma posição fácil de combater, mas ela é uma simplificação que ignora a distinção crucial entre “desenvolver” o trotskismo e defendê-lo – mesmo que parcialmente e inadequadamente. Nós não vemos “continuidade” enquanto um tipo de verdade metafísica depositada em mãos capazes de garantir a sucessão apostólica do trotskismo autêntico. E tampouco ela consiste em simplesmente repetir as respostas dadas para os desafios de ontem diante dos novos problemas que surgem hoje.

A luta contra o pablismo no SWP significou que, diferente da formação dos Cochranistas, o partido possuía a capacidade de uma regeneração política própria. Isso é confirmado pelo fato de que a demarcação política de 1951-53 foi o ponto de partida para a TR dentro do SWP oito anos mais tarde, quando este finalmente convergiu com a liderança do SI. De algumas formas importantes, a TR/SL representou um desenvolvimento positivo do trotskismo depois de Trotsky – algo que não é verdade para qualquer corrente internacional. Mas ela fez isso na base das lutas anteriores sobre as quais ela estava embasada, incluindo a luta contra o pablismo no início dos anos 1950, imperfeita e tardia como ela foi.

É pelo menos abstratamente possível que uma corrente genuinamente proletária revolucionária possa surgir em algum lugar do mundo, que fosse capaz de desenvolver autonomamente as posições programáticas essenciais do trotskismo e aplicá-las a problemas tão difíceis como os povos interpenetrados na Palestina/Israel, a frente popular, opressão específica, a gênese de Cuba e dos outros Estados operários deformados, sem nunca ter sabido da existência da tendência Espartaquista, nem da TR, do CI, ou mesmo de Trotsky.

Mas o fato é que a TR não foi seguida, dentro do nosso conhecimento, por nenhum outro grupo reivindicando o trotskismo internacionalmente. Nem mesmo qualquer das inumeráveis correntes resultantes do movimento da Nova Esquerda/Maoísmo, em suas várias permutações nacionais, se aproximou espontaneamente do programa do marxismo revolucionário defendido e desenvolvido pela TR/SL.

É nesse sentido que a questão da continuidade tem significado. Ela tem muito a ver com responder como os revolucionários deveriam ter respondido aos vários difíceis problemas postos pela luta de classes internacional. O fato de que a TR se desenvolveu no SWP e não, por exemplo, na organização italiana do [líder pablista] Livio Maitan no início do anos 1960, não é uma completa casualidade. No seu documento de fundação “Em Defesa de uma Perspectiva Revolucionária”, a TR se colocou como a continuadora da luta contra o pablismo que começou em 1953.

“Em 1953, o nosso partido, na ‘Carta Aberta’ [aos Trotskistas do Mundo Inteiro] (The Militant, 11 de setembro de 1953), declarou que ‘O abismo que separa o revisionismo pablista do trotskismo ortodoxo é tão profundo que nenhum compromisso político ou organizativo é possível’. A avaliação do pablismo como revisionismo está tão correta hoje como era então e deve ser a base para qualquer análise trotskista sobre tal tendência.”

O documento fundador da TR fazia a acusação de que “a liderança do SWP aceitou a posição teórica central do revisionismo pablista”. A TR era crítica desde o início sobre a conduta da luta do CI contra os pablistas, assim como a tentativa de ganhar tempo e o excepcionalismo norte-americano do SWP [posição do SWP, entre 1951-52, de aceitar as posições liquidacionistas dos pablistas europeus e recorrer a um “excepcionalismo” para rejeitar a sua aplicação nos Estados Unidos]. No entanto, ela ficou do lado da declaração tardia do SWP sobre a sua intenção de “levar adiante uma luta política contra o pablismo em uma escala mundial, feita para manter a sua perspectiva revolucionária nacional”. Enquanto tomou o mesmo lado da luta contra Pablo no SWP em 1953, a TR não tomou a posição de que o CI era a simples continuação linear da Quarta Internacional. De fato, o grupo Espartaquista teve que lutar para restabelecer de maneira bem sucedida uma continuidade política revolucionária. Na sua resolução sobre o movimento mundial apresentada em 1963 na Convenção do SWP, em oposição ao documento da maioria motivando uma “reunificação” com o SI, a TR apontou o “desaparecimento da Quarta Internacional como uma estrutura significativa” ao mesmo tempo em que corretamente argumentava que a reunificação com os pablistas era “um passo que afastaria, ao invés de aproximar, o renascimento genuíno da Quarta Internacional”. Na Conferência de Londres em 1966, o grupo Espartaquista declarou sem rodeios que “o pablismo foi contraposto dentro do nosso movimento por uma má ‘ortodoxia’ representada até os últimos anos pelo exemplo de Cannon”. Robertson [representante do grupo Espartaquista na Conferência] posteriormente notou que:

“Depois de 1950, o pablismo dominou a Quarta; apenas quando os frutos do pablismo já estavam maduros foi que uma seção da Quarta reagiu. Em nossa opinião, o movimento ‘ortodoxo’ ainda deve encarar os problemas teóricos novos que o tornaram suscetível ao pablismo em 1943-50 e deram origem a um racha parcial, imperfeito em 1952-54.”

Nós vemos a nossa luta, em primeira instância, como uma luta para garantir que o precioso legado político da TR e da SL revolucionária não seja perdido com a queda irreversível da sua liderança no banditismo político. É claro que nós não argumentamos que apenas grupos emergindo da TR/SL podem ser revolucionários, mas nós acreditamos que os futuros revolucionários que estudem a história do movimento trotskista devem chegar à conclusão de que num sentido programático vital, a tradição da TR/SL, e ela sozinha, representou a autêntica continuidade da Oposição de Esquerda e da Quarta Internacional dirigida por Trotsky. E essa continuidade por si própria tem uma história, uma história que passa pelo racha “imperfeito” e “parcial” produzido pela “tendência internacional só no papel” que foi o CI.

A atitude de vocês para com a tradição da TR/SL parece, para nós, ambígua. Por um lado, parece que vocês consideram que a nossa declaração na primeira edição do Boletim da Tendência Externa da iSt [publicação do grupo que viria a formar a Tendência Bolchevique] de que nós nos propomos a agir como um “farol do espartaquismo ortodoxo”, como questionável, e vêem nossa posição no racha de 1951-53 como um “vício hereditário”. Por outro lado, vocês dizem “levar em consideração a herança revolucionária (…) da iSt” sem necessariamente posicionar a si próprios perto demais dela. De fato, vocês consideram que a iSt continua sendo revolucionária, e entretanto, apesar de ela ser talvez cinquenta vezes maior que vocês, vocês não propõem unificação. Parece para nós que esse é um tipo peculiar de indiferença sobre a questão da continuidade revolucionária. Essa impressão é reforçada com a sua afirmação de que a análise de vocês:

“sobre os pontos de ruptura no desenvolvimento do trotskismo, de forma nenhuma expressa neutralidade ou agnosticismo, ela apenas escapa do efeito ‘máquina do tempo’: Como nós teríamos agido se…? Esse método não é operacional.”

Nós não conseguimos ver qualquer mérito em ‘escapar’ das questões postas no racha organizativo do movimento trotskista. O que parece ser pouco “operacional” é essa afirmação de que vocês não são agnósticos ou neutros, pelo menos no que diz respeito ao racha SI/CI. Se, de fato, os dois lados na luta de 1951-53 eram formas complementares de revisionismo, (ou “equivalentes centristas”), vocês deveriam ser neutros no seu desenlace [a “reunificação”], como nós somos neutros, por exemplo, no racha entre o bloco Moreno/Lambert há vários anos atrás.

Fraternalmente, Tendência Bolchevique.

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