Carta da TBI para o IG e a LQB

Carta da TBI para o IG e a LQB

[Esta é uma tradução para o português das partes políticas mais importantes de uma carta escrita pela Tendência Bolchevique Internacional (TBI) para o Grupo Internacionalista dos Estados Unidos (IG) e para a Liga Quarta-Internacionalista do Brasil (LQB) em 15 de Dezembro de 1996. O IG e a LQB haviam acabado de romper com a Liga Comunista Internacional (LCI), organização liderada pela Liga Espartaquista (SL), da qual também se originou a TBI. A primeira versão português foi encomendada pela TBI a um tradutor profissional. Ela foi posteriormente editada pelo Coletivo Lenin em 2007. A presente versão foi revisada pelo Reagrupamento Revolucionário. Como introdução, traduzimos as acusações levantadas contra a TBI pelo IG no seu primeiro documento público após romper com a LCI. Esta versão foi copiada, com correções baseadas no texto original e notas explicativas entre colchetes, daquela disponível em http://bolshevik.org/portugues/PortlettertoIG.html].

Nota do Grupo Internacionalista sobre a TBI

[A declaração a seguir foi incluída na primeira publicação do IG, “De um Giro Rumo ao Abstencionismo até a Deserção da Luta de Classes” sob o título de Uma Nota sobre a Tendência ‘Bolchevique’].

Esperando tirar algum lucro das recentes expulsões na LCI, a “Tendência Bolchevique” publicou um panfleto regozijante que mais parece uma mistura de revista de fofoca com investigação barata. Enquanto se reveste de uma bajuladora “análise” personalista, deve ficar claro para todos que as “críticas” da TB vem da direita.

As questões imediatas envolvendo a recente campanha de expulsões tem a ver com o Brasil, onde paralelamente às nossas expulsões, a liderança da LCI deslealmente rompeu relações com a Luta Metalúrgica/Liga Quarta-Internacionalista do Brasil. Isso acompanhou uma retirada covarde e imprudente da luta que tinha o objetivo de separar a polícia do sindicato dos trabalhadores municipais de Volta Redonda. Mas ficará evidente para aqueles que conhecem os membros da TB que luta de classes em um lugar majoritariamente negro e turbulento como o Brasil não é a praia deles. O que a SL sempre disse sobre a TB é verdade. Eles são mentirosos de direita e caluniadores que fugiram das pressões e perigos de ser um comunista nos anos Reagan.

Eu pessoalmente testemunhei as mentiras, comportamento provocativo e vergonhosa orientação da TB para a aristocracia operária branca desde o começo. Por exemplo, eu estava a menos de três metros de distância de Bob Mandel no piquete de Greyhound, em São Francisco, quando ele foi supostamente vítima de um ataque por membros da SL – um ataque que nunca aconteceu! Essa invenção caluniosa foi forjada precisamente quando a SL estava sendo perseguida pelo Estado. Eu vi como eles acusaram a SL de ter uma orientação para o “gueto” enquanto nos culpavam por demissões durante a greve dos telefônicos de 1983; como eles tentaram invadir o palanque em uma manifestação para Gerônimo Pratt [um ex-membro dos Panteras Negras perseguido pelo Estado] em Oakland; e muitos outros incidentes que provaram de fato as caracterizações da SL. Desde então a TB continuou a deixar clara a sua natureza. Eles chamaram por guardas de defesa dos trabalhadores (sic) para acabar com a “violência” como na revolta [da população negra] em Los Angeles, e uniram-se ao “Cop-watch”, um grupo com o objetivo professado de fazer a polícia “prestar contas” (então não foi nenhuma surpresa quando um dos seus ex-membros mais antigos, Gerald, hoje no “CWG” [Communist Workes Group], afirmou que “Nós não somos antipolícia”). Eles rejeitaram [a palavra de ordem da SL] “Viva o Exército Vermelho no Afeganistão!” com argumentos stalinofóbicos. Eles se enfiaram em coalizões frente-populistas sem princípios durante a Guerra do Golfo. Agora eles publicaram um livreto inteiro em defesa de atravessar piquetes de greve! Qualquer revolucionário genuíno só pode ter desprezo pela TB.

A sua aparente postura de defensismo soviético ao apoiar o golpe de agosto de 1991 do “Bando dos Oito” na União Soviética não deve enganar ninguém: eles deram apoio “militar” depois do ocorrido para os antigos stalinistas que não levantaram um dedo militarmente contra Yeltsin (nem mesmo para cortar sua linha telefônica com Washington) e garantiram aos capitalistas apoio às “reformas de mercado”. Ao mesmo tempo, a TB se apressou em declarar o Estado operário degenerado soviético morto e enterrado. Descartando toda perspectiva de luta na então União Soviética, eles buscaram tirar a questão russa das costas enquanto vestiam uma fantasia “defensista”. Por isso, não é acidente que a linha deles fosse igual à de virulentas formações nacional-centristas na América Latina, como o PBCI [Partido Bolchevique pela Quarta Internacional] e seus companheiros na LBI [Liga Bolchevique Internacionalista] brasileira, conselheiros abertos da fração pró-polícia no sindicato dos trabalhadores municipais de Volta Redonda.

Os detetives da TB vivem de anticomunismo. Os membros da LCI que pensam devem encarar essa dura realidade: fugir de uma batalha de classe no Brasil tem mais a ver com o pseudotrotskismo tingido de Segunda Internacional da TB do que com o programa e as tradições sobre os quais foi construída a tendência Espartaquista.

— Negrete, 25 de julho de 1996

Carta da Tendência Bolchevique Internacional para o Grupo Internacionalista e a Liga Quarta-Internacionalista do Brasil

7 de Fevereiro de 1997
Caros camaradas da LQB,

Apresentamos a seguir uma tradução em português das partes políticas mais importantes de uma carta que estamos enviando para vocês e o IG. Tivemos algumas dificuldades para traduzir para o português e então, para simplificar a tarefa, encurtamos o texto. Nós também incluímos uma cópia do texto na língua inglesa, mas não sabemos se vocês podem ler. Aguardamos a sua resposta e esperamos dialogar com vocês.

Saudações bolcheviques,

Tom Riley
Pela Tendência Bolchevique Internacional

15 de Dezembro de 1996
Para: Grupo Internacionalista e Liga Quarta-Internacionalista do Brasil
Caros companheiros,

Estudamos com interesse os materiais referentes à sua recente separação da LCI. Encontramos neles um padrão familiar: um expurgo cínico dos quadros, cuja infração principal parece ter sido uma relutância em engolir tudo o que foi apresentado pelos que estão em posição de autoridade. No passado, muitos companheiros foram expurgados da Liga Comunista Internacional/Tendência Espartaquista Internacional [LCI/iSt] por razões semelhantes.

Nós sempre dissemos que a ausência de uma vida interna democrática dentro da iSt/LCI somente poderia criar uma organização burocrática e, em grande parte, despolitizada. A recente experiência de vocês parece confirmar esta previsão. Ao longo dos anos, a direção da SL  realizou uma série de  desvios das posições programáticas trotskistas que ela uma vez defendeu. Atualmente, a LCI é uma formação que, apesar das pretensões trotskistas ortodoxas, é um obstáculo para a refundação da Quarta Internacional. Tanto o IG quanto a LQB chegaram a conclusões semelhantes ― embora pareça que tenhamos fortes diferenças com o IG sobre a história da degeneração da LCI.

Algumas Perguntas para o Grupo Internacionalista

O quadro da LCI de aproximadamente 1996, como apresentado pelos colegas do IG, é de uma organização que durante décadas funcionou como um modelo da democracia leninista e foi então transformada, do dia para a noite, numa seita burocratizada, cínica. Isto colide tanto com a lógica elementar como com os fatos.

Se a SL era, até muito recentemente, caracterizada por um respeito escrupuloso à verdade em seu tratamento com oponentes internos (bem como externos) então por que iriam querer repetir tão avidamente as mentiras e as acusações falsas feitas contra vocês? Por que eles estariam dispostos a condenar os companheiros sem estudar os documentos? Como poderia uma comissão de controle, composta de membros antigos da SL, estar disposta a agir tão brutalmente contra os réus? Por que todas as seções da LCI (com a única exceção da LM [precursora da LQB], não-assimilada) apoiariam imediatamente as acusações falsas, sem fazer qualquer pergunta? E por que os membros de um grupo trotskista saudável, com quadros experimentados, aceitariam, com apenas um murmúrio de discórdia, a ruptura das relações com a LQB sobre tal pretexto absurdo e cínico?

Ninguém com qualquer experiência política pode levar a sério a ideia de que estruturas revolucionárias, forjadas durante décadas numa atmosfera onde o pensamento crítico foi encorajado, onde as diferenças foram abertamente debatidas e opiniões minoritárias respeitadas, repentinamente poderiam ser transformadas num bloco sólido de caluniadores, mentirosos e políticos covardes.

única explicação é que muito da fibra revolucionária dos quadros da LCI foi destruído bem antes do lançamento da campanha contra Norden-Stamberg-Negrete-Socorro [os dirigentes da LCI expulsos].

Fuzileiros navais vivos”: o Grande Desvio da SL

O LQB caracterizou como um “ato de covardia” o rompimento pela direção da LCI das relações fraternais no momento em que a sua luta contra a presença da polícia no sindicato [dos trabalhadores municipais de Volta Redonda] se intensificou.

Embora haja claramente um elemento de covardia envolvido, nós acreditamos que a motivação primária para o comportamento da direção da LCI era o objetivo fracional de manter seu controle organizativo absoluto. Se a direção da LQB não pudesse ser induzida a denunciar Norden e Negrete, os dois quadros da LCI com quem que eles tinham trabalhado mais próximos, então a LQB poderia emergir dentro da LCI como o núcleo de uma oposição futura. O fato de que a LQB gozaria do prestígio de ser a única seção da LCI com qualquer tipo de base proletária aumentaria o perigo. Tais cálculos burocráticos explicam as manobras informadas pela LQB:

“Em sua carta anterior [da LCI], datada de 11 de junho, [a dirigente da LCI] Parks escreveu que Norden e Abrão [Negrete] queriam destruir as relações fraternais da LQB com a LCI. Então, em 17 de junho, seis dias mais tarde, vocês escreveram para romper as relações fraternais!”De um Impulso em Direção ao Abstencionismo até Deserção da Luta de Classes,” página 84


Parece claro que os argumentos de Parks sobre os perigos de enfrentamentos [com a polícia] eram simplesmente uma manobra para exigir que a LQB provasse a sua “lealdade” à direção da LCI dissolvendo o seu trabalho sindical, e se afastando das lutas que tinham começado.

Mas, se a covardia não era o fator principal neste caso, a direção da iSt/LCI  certamente foi culpada de agir covardemente no passado. O mais chocante desses casos foi o chamado a salvar as vidas dos Fuzileiros Navais norte-americanos no Líbano. A explosão da base dos fuzileiros, ocorrida em Beirute em outubro de 1983, matou 240 marinheiros ― o maior e único revés para o militarismo dos EUA desde a ofensiva dos Vietcongues de 1968. Em nossa declaração inicial, caracterizamos o chamado da SL a poupar os fuzileiros navais que sobreviveram como um “perfil de covardia”. Na introdução para uma coleção das polêmicas entre nós e Workers Vanguard [jornal da Liga Espartaquista] sobre esta questão, nós analisamos as suas origens:

“O interesse repentino pelo bem-estar dos Fuzileiros Navais, que só um ano antes Workers Vanguard tinha descrito como ‘os açougueiros imperialistas mais notórios do mundo’, marcou uma guinada radical da postura formal da SL como continuadora do trotskismo ortodoxo. Isso iluminou totalmente a dimensão programática da evolução da SL do trotskismo para o banditismo político ― uma forma peculiar e eclética de centrismo, principalmente caracterizada por uma capacidade para guinadas programáticas excêntricas e selvagens. A degeneração da SL foi consolidada, em última análise, pela perda de confiança na possibilidade de ganhar a classe trabalhadora para o programa revolucionário, entretanto foi revestida com um elemento substancial de culto à direção (…)”.“Mercenários políticos estão sempre dispostos a subordinar questões de linha política formal às exigências de seus requisitos organizacionais concebidos em curto prazo. O reflexo covarde exibido pela liderança da SL sobre os fuzileiros navais no Líbano foi claramente motivado pelo temor de desagradar a ‘própria’ classe dominante.”Prefácio a Boletim Trotskista No. 2, “Marxismo vs. Social-Patriotismo”, dezembro de 1984.


Alguns anos mais tarde, outra capitulação covarde feita pela liderança da SL ocorreu quando a nave espacial Challenger, carregada com tecnologia de espionagem antissoviética e oficiais militares norte-americanos, incendiou-se espontaneamente em janeiro de 1986. Naquela ocasião, Workers Vanguard (14 de fevereiro de 1986) escreveu:

“O que nós sentimos em relação aos astronautas [isto é, os especialistas militares, cuja missão era instalar um satélite-espião avançado] não é mais ou menos do que para com qualquer pessoa que morresse em circunstâncias trágicas, tal como os nove pobres salvadorenhos que foram mortos num incêndio em um porão de apartamento em Washington, DC, dois dias antes.”


Em 1917 [revista teórica da TBI] No. 2, comentamos que nós pensávamos que deveria haver algo seriamente errado com “comunistas revolucionários” que sentiam “nem mais nem menos” compaixão pelos refugiados empobrecidos do terror da direita que por um punhado de guerreiros do imperialismo norte-americano.

Corrupção na SL/LCI?

Da mesma forma, o IG negou qualquer elemento de corrupção no regime de Robertson [dirigente central da SL], e ainda sugeriu que tais acusações são características de “anticomunistas estúpidos”. Em 1917 No. 4, falamos sobre o uso dos fundos da SL para comprar e reformar uma casa espaçosa na Área da Baía de São Francisco para o companheiro Robertson. Relembramos como, em 1971, Workers Vanguard criticou fortemente Huey P. Newton, do Partido Panteras Negras, por assegurar acomodação luxuosa para si à custa dos seus militantes.

Pelo nosso conhecimento, somente Robertson e alguns dos seus associados próximos gozam de quaisquer privilégios materiais significativos. De fato, o restante dos militantes profissionais vive muito modestamente. Mas há também corrupção de um tipo político/moral, em que companheiros são forçados a situações em que devem ou comprometer sua integridade ou romper com o movimento ao qual dedicaram uma boa parte de suas vidas. A exigência de que os camaradas da LQB apoiassem a expulsão de Norden/Stamberg sem que tivessem lido os documentos ou ouvido os argumentos é um exemplo deste tipo de “corrupção”. O companheiro Negrete refere-se a uma camada de “mentirosos e inventores autoconscientes” na LCI. A existência de tais elementos por si só é uma evidência da corrupção e também sugere que os problemas na LCI não são de origem recente. Em “A Estrada para Jimstown” de 1985, nós apontamos que a LCI:

“realiza seus congressos quase tão frequentemente quanto a Comintern [Internacional Comunista] de Stalin. Não há disciplina para a liderança privilegiada da seção norte-americana (que tem peso duplo como liderança internacional), enquanto completa obediência é exigida de todos os outros, até mesmo nos mais triviais detalhes organizativos.”


A LCI e a TBI

A LCI tem se interessado (e se mostrado sensível) imoderadamente por nossas críticas políticas nos últimos anos, e foi com prazer que aceitamos a distinção de ser o alvo de questões mais polêmicas que qualquer outra organização política nas páginas de WV. Na sua edição de 27 de setembro de 1991, por exemplo, WV publicou dois artigos em resposta às posições da esquerda internacional em relação à vitória de Yeltsin [na crise política que destruiu a União Soviética]: um tratava da nossa posição e o outro do restante da esquerda! A maior parte da série “Odeie o Trotskismo, Odeie a Liga Espartaquista”, emitida nos últimos 15 anos tratou da TBI (embora o IG e a LQB agora também sejam honrosamente incluídos).

Nós retribuímos a grande atenção da direção da LCI e escrevemos numerosas polêmicas contra eles. Vemos também os desafiando repetidamente para um debate, uma oferta que eles têm recusado insistentemente (com a exceção de um debate improvisado em Wellington em 1994, pelo qual a liderança australiana, que aprovou o debate, foi devidamente sancionada por Nova Iorque). Há, naturalmente, uma boa razão para que nós recebamos tanta atenção polêmica na imprensa da LCI, ao mesmo tempo em que a direção se recusa completamente a que nos reunamos para um embate político: as nossas críticas os atingem de uma maneira que os vários pseudotrotskistas não conseguem.

As Lições da RDA: 1989-90

A intervenção na crise terminal no Estado Operário Deformado Alemão [RDA – Alemanha Oriental] em 1989-90 foi a maior iniciativa jamais empreendida pela iSt/LCI. O papel-chave do camarada Norden na campanha da RDA foi, evidentemente, um elemento importante nas disputas dentro da LCI antes de sua retirada e da de Stamberg. Como indicamos em nossa declaração de primeiro de julho, é um absurdo para a direção da LCI tentar descarregar toda a responsabilidade sobre Norden pelos seus erros políticos em sua intervenção na RDA.

Depois que quatro décadas de domínio do stalinismo, os trabalhadores da RDA foram, em grande medida, despolitizados, e o sentimento pró-socialista ficou muito pouco enraizado. O colapso da RDA foi condicionado pelo fato de que nenhuma organização socialista se enraizou suficientemente no proletariado para iniciar uma luta que pudesse mudar essa consciência. As proclamações equivocadas da LCI de que os atos de protesto das massas, politicamente ingênuos e amorfos, que se seguiram à saída de Honecker [o antigo dirigente stalinista] constituíram uma “revolução política dos trabalhadores”, provaram ser o ponto de partida para a sua desorientação subsequente.

A virada inesperada na véspera de Ano Novo, quando Gunther M. (naquela época um contato [do grupo Espartaquista na RDA]) conseguiu ser recebido pela direção do SED [Partido da Unidade Socialista, o partido stalinista dirigente na Alemanha Oriental] para endossar a proposta do protesto de Treptow, levou Robertson a imaginar que tinha achado um meio de estabelecer contato direto com as figuras mais velhas no aparato do stalinismo. Gunther foi instruído para tentar organizar reuniões de Robertson com o líder do partido, Gregor Gysi, o general soviético Snetkov, e o espião mestre da RDA, Markus Wolf. O fato de que Robertson tentou planejar uma coligação com uma ala do SED sem dúvida explica a ausência da rispidez trotskista no discurso escrito do companheiro Renate [do grupo Espartaquista] para a base do SED na manifestação de Treptow. A crítica mais aguda à direção do SED levantada foi a observação de que:

“Nossa economia está sofrendo com o desperdício e a obsolescência. A ditadura de partido do SED mostrou a sua incompetência para lutar contra isto. A Alemanha Oriental necessita urgentemente… de uma modernização seletiva da indústria existente.”WV, 12 de janeiro de 1990


O fato é que os burocratas do SED eram muito mais que gerentes econômicos incompetentes. Depois que atomizaram politicamente a classe trabalhadora com 40 anos de mentiras stalinistas, repressão policial e um programa massivo de informantes, a casta dirigente do SED já estava preparando a capitulação ao imperialismo. A tarefa dos trotskistas nesta situação era procurar expor os “reformadores” do PDS/SED e provocar a ruptura entre eles e os setores pró-socialistas dos trabalhadores. Mas Robertson procurou, ao contrário, formar uma aliança com uma seção do partido stalinista em decadência, na esperança de ganhar influência sobre a sua base de massas.

A pergunta sobre quem na LCI foi o responsável pela palavra de ordem “Unidade com o SED” não é particularmente importante em qualquer caso, porque ela mesma era parte de toda uma perspectiva errada, que começava com o equívoco de que uma revolução política proletária estava acontecendo. Era evidente para nós que, naquela época, embora a revolução política fosse uma possibilidade, havia também muitas outras possibilidades. A avaliação da situação em nosso suplemento especial de janeiro de 1990, 1917 em língua alemã,  provou ser consideravelmente mais precisa que a projeção da LCI:

“No momento, o que existe é um vácuo político na RDA. A menos que conselhos de trabalhadores sejam organizados, e estabeleçam seus próprios órgãos de administração, este vácuo será certamente preenchido em detrimento da classe trabalhadora, através de um representante eleito ou designado pelo Volkskammer [parlamento da RDA].”


Nossa declaração de março de 1990, sobre as eleições na RDA, observava que:

“a afirmação do SpAD/LCI de que a RDA hoje está no meio de uma revolução política proletária é simplesmente falsa…. Nós urgentemente esperamos que os trabalhadores da RDA tomem o caminho da revolução política proletária – mas é bom não tomar nossos desejos subjetivos pela realidade.”Traduzido em 1917 No. 8


Em muitas discussões calorosas com os camaradas da LCI sobre este assunto, fomos ridicularizados por nossa recusa “pessimista” em reconhecer uma revolução política quando estaria na nossa cara. Desde então, vários membros antigos da LCI se lembraram dessas discussões e admitiram que as nossas estimativas estavam corretas.

Observamos que o camarada Norden está sendo atualmente atacado pela sua negação semelhantemente “pessimista” de que o SpAD [o grupo Espartaquista na RDA] constituiu uma “direção revolucionária” concorrendo pelo poder na RDA. A ideia de que um grupo minúsculo de propaganda, sem influência no proletariado e incapaz de, a qualquer momento, ter mais de 100 pessoas sob a própria bandeira seja de alguma maneira um perigo para o poder estatal é uma noção digna de um Posadas ou um Healy. Para o crédito de Norden, ele “recuou” de tal absurdo. Mas houve um preço a pagar. A sua relutância em rejeitar suas próprias posições e afirmar a linha oficial claramente teve um papel importante na decisão final para expulsá-lo.

Stalinofobia’ da TBI na RDA

A resposta de Norden/Stamberg à direção da LCI tenta “inverter as acusações” de afinidade com a TBI:

“Seymour [um dos dirigentes da SL] também argumenta que atualmente é impossível para uma seção da burocracia vir até os trabalhadores numa revolução política.”“Você procurará em vão nos materiais da LCI na Alemanha em 1989-90, ou no documento da conferência de 1992 da LCI, a afirmação de que o SED ‘conduziu a contrarrevolução’. Você irá, entretanto, achá-la nas publicações da stalinofóbica TB [Tendência Bolchevique] que, em 1989-90, estava gritando nas reuniões dos Espartaquistas que o primeiro ministro da RDA e dirigente do SED, Modrow, era o inimigo principal.”


Nós de fato criticamos o SpAD por não conseguir alertar os trabalhadores da RDA sobre o caminho traiçoeiro em que os elementos principais do SED os estavam embarcando. Nós devemos lembrar que em “Stalin Depois da Experiência Finlandesa,” de 13 de março de 1940, Trotsky comentou:

“Considero a fonte principal de perigo para a URSS, no presente período internacional, ser Stalin e a oligarquia encabeçada por ele. Uma luta aberta contra eles, às vistas da opinião pública mundial, para mim está inseparavelmente ligada à defesa da URSS.”


Parece a nós que esta avaliação era tão aplicável quanto no período em que os “reformadores” como Modrow estavam prosseguindo com seus planos para ceder a RDA ao imperialismo alemão.

A acusação de que nós dirigimos a maioria de nossas críticas contra o SED/PDS, ao invés de dirigi-las contra o abertamente restauracionista SPD [Partido Socialdemocrata Alemão] e os partidos burgueses lembra as reclamações dos centristas contra Trotsky por ele concentrar os seus ataques políticos na Frente Popular e, particularmente, no componente da “extrema-esquerda”, o POUM, durante a Guerra Civil espanhola. Afinal de contas, Franco não era o “inimigo principal”? As mesmas críticas foram feitas a Lenin em 1917, quando os bolcheviques dirigiram a maioria de suas polêmicas à falsa esquerda, ao invés de aos czaristas, às Centúrias Negras e outros contrarrevolucionários. Isto é, naturalmente, um ABC para os trotskistas, mas a conversa de “inimigo principal” na RDA talvez exija reiterá-lo.

Se vocês olharem para o que nossos camaradas escreveram na época, acharão uma descrição notavelmente clara do papel dos burocratas stalinistas:

“Um novo regime de Modrow com a oposição burguesa exercendo a influência dominante, um regime pró-capitalista, teria a tarefa de assegurar a segurança da contrarrevolução social pela política de Anschluss [reunificação] com a RFA [Alemanha Ocidental]. Empurrada contra a parede pela pressão imperialista, e ameaçada pela dissolução de seu aparato, a fração de direita da burocracia stalinista procura um passaporte capitalista para a salvação de seus privilégios, tornando-se um agente direto da burguesia (…). O fraco bonapartista Modrow distancia-se do SED-PDS e mostra a sua capitulação definitiva com a remoção dos últimos obstáculos para o capital da Alemanha Ocidental.”Boletim No. 1, janeiro de 1990


A LCI não podia proporcionar, em comparação, uma análise trotskista clara, por causa da orientação política fundamentalmente inútil da sua direção. O folheto publicado por nossos camaradas alemães sobre a intervenção da LCI no colapso da RDA (em 1917 No. 10) proporciona uma visão geral útil do curso de acontecimentos:

“Com sua perspectiva de uma ‘comunidade’ entre a RDA e a RFA, o Primeiro-Ministro Modrow já tinha sinalizado a sua prontidão para capitular ao imperialismo da Alemanha Ocidental, quando o novo governo foi formado em 17 de novembro de 1989. Os privilégios que ele ofereceu não deram à burocracia, entretanto, o seu espaço para respirar, mas somente mais ímpeto para os contrarrevolucionários. A direita ganhou terreno, enquanto a confusão prevaleceu entre os trabalhadores mais politicamente conscientes, que confiaram em um stalinismo ‘honesto e reformado’. É por isso que o regime de Modrow era especialmente perigoso, e por isso era imperativo advertir os trabalhadores contra ele.”“Os fios mais delgados que tinham ligado o regime bonapartista às bases econômicas proletárias da RDA (controle estatal sobre os meios de produção) finalmente foram cortados. Com a formação de uma ‘grande coalizão’, no final de janeiro de 1990, Modrow foi transformado inicialmente de um dirigente vendido do Estado operário deformado da RDA, em um comprador para os capitalistas da Alemanha Ocidental, e por isto em seu representante direto (…).”1917 No. 10, op. cit.


Norden/Stamberg estão certos sobre que a burocracia stalinista não é capaz de dirigir a contrarrevolução “sem se fragmentar”. Mas a fragmentação do regime stalinista estava datada pelo menos desde o colapso do regime de Honecker. O regime stalinista “reformado” de Modrow, com seu programa socialdemocrata e restauracionista, representou os elementos da burocracia que procuraram assegurar o próprio futuro ao abrir a porta para a burguesia da Alemanha Ocidental. Não há nenhuma dúvida de que uma seção do SED teria vindo para o lado do proletariado se houvesse uma revolta revolucionária. Mas os anúncios repetidos da LCI de que uma revolução política dos trabalhadores estava “em andamento” não poderia ser um substituto para a revolução política real.

De Yuri Andropov a Gregor Gysi

A adaptação ao SED na RDA foi preparada politicamente por uma série de erros programáticos anteriores em relação à questão do stalinismo. O mais extraordinário deles foi a designação de uma coluna da SL na mobilização antifascista em Washington em 1982 como “Brigada Yuri Andropov”, o nome do chefe burocrata do Kremlin. Em uma carta não-pública de 13 de dezembro de 1982 à SL, onde é feita uma crítica desta posição (naquele tempo nós éramos ainda a “Tendência Externa da iSt”), lembramos à SL o seguinte: “No nível mais geral, Andropov e os burocratas que ele representa são tudo contra o que Trotsky lutou”. Nós também lembramos que:

“Um dos fundamentos do trotskismo é que a defesa efetiva da União Soviética é inextricavelmente ligada à necessidade da revolução política proletária contra Andropov e sua casta (…)”.


O camarada Robertson respondeu em agosto de 1983 com uma leve sugestão de que nós talvez estivéssemos nos movendo na direção ao Terceiro Campo [aqueles que não diferenciam os regimes stalinistas dos regimes burgueses]. Em nossa resposta, nós lembramos o comentário de Trotsky de que o stalinismo era:

“Um aparelho de privilegiados, um freio sobre o progresso histórico, um agente do imperialismo mundial. Stalinismo e Bolchevismo são inimigos mortais.”


Comentamos na carta que:

“Chamarem a si mesmos de ‘Brigada de Yuri Andropov’ foi um erro. Toda sua experiência política muito considerável, assim como os talentos dos marxistas capazes e dedicados que produzem WV não podem mudar isso. Se tivéssemos que oferecer algum conselho, seria o seguinte: não tentem defender o indefensável, isto só pode produzir maus resultados.”


Como chefe da KGB, Andropov foi responsável por esmagar a vida política na URSS. Workers Vanguard, em 13 de fevereiro de 1976, publicou um artigo intitulado “Parar a Tortura ‘Psiquiátrica’ Stalinista na URSS!”, denunciando “as atrocidades repulsivas da burocracia russa.” Na sua escalada para o poder, Andropov cumpriu um papel-chave na repressão aos trabalhadores húngaros após a [derrota da] revolução política de 1956, como indicamos em nossa carta de 22 de abril de 1984. De acordo com [o historiador] Bill Lomax:

“Nos primeiros meses de supressão militar direta da revolução, Andropov era efetivamente o chefe supremo soviético da Hungria… Foi neste período que os últimos remanescentes da resistência armada foram eliminados, as organizações dos trabalhadores e dos intelectuais foram esmagadas e milhares de húngaros foram detidos e internados (…)”.


Ao defender a identificação da direção da SL com Andropov, Workers Vanguard sugeriu que a nossa crítica revelava uma prova de stalinofobia [uma tendência a igualar o regime stalinista com um governo burguês], fraqueza socialdemocrata, etc. Hoje, uma dúzia de anos mais tarde, a Brigada Andropov só pode ser uma vergonha para aqueles que são leais do regime da LCI. Esta é uma questão que vocês, camaradas, podem desejar revisar proximamente, considerando-a um dos momentos na história da degeneração política da SL.

A Revolução e a Verdade

No documento do IG, Norden/Stamberg afirmam o seguinte:

“Um aspecto notável das lutas recentes e da virada acentuada para a direita da LCI tem sido o seu uso sistemático de deformações e mentiras descaradas, em contradição flagrante com a tradição orgulhosa da tendência Espartaquista.”


Infelizmente, não há nada “recente” sobre a aparição de “mentiras descaradas” na imprensa da SL. Durante anos, WV esteve disposta a tomar liberdades consideráveis com a verdade para propósitos fracionais.

Um exemplo recente desta técnica da LCI (e que está plenamente documentada) ocorreu quando, no meio de uma polêmica contra nós em Quebec, em 3 de novembro de 1995 WV declarou:

“Há três anos, a TB se recusou a votar Não à manobra Charlottetown de Mulroney [o referendo de 1992 no Canadá a respeito da reforma na Constituição]. Sua declaração não defendeu os direitos do Quebec à independência.”


É verdade que nós não tomamos partido na disputa burguesa sobre a reforma da constituição do Canadá. Mas a nossa declaração de outubro de 1992 (que nós reimprimimos em 1917 No. 12) incluiu a seguinte defesa explícita dos direitos nacionais dos Québécois:

“A designação do Quebec como uma ‘sociedade distinta’ dentro do Canadá obscurece o fato de que ele é uma nação, e como tal, tem um direito inalienável e incondicional à autodeterminação. Se os Québécois decidirem se separar e formar seu próprio Estado (algo que nós não reivindicamos atualmente), apoiaremos o seu direito de fazê-lo. Se a burguesia canadense tentar manter o Quebec à força, será dever dos trabalhadores com consciência de classe no Canadá inglês defender os Québécois com todos os meios à sua disposição, incluindo protestos, greves e auxílio militar.”


Mais uma vez, ainda que depois de indicarmos que a declaração de WV era plenamente falsa, não houve nenhuma retratação ou correção. Poderíamos citar outros exemplos, mas pensamos que estes são suficientes para demonstrar que a “distorção sistemática e as mentiras descaradas” empregadas contra o IG e a LQB tem precedentes. Naturalmente, tais técnicas aparecem mais claramente quando se está no lado receptor.

IG: Entre a LCI e a TBI

Embora talvez seja natural que os camaradas do IG preferissem evitar ter que revisar criticamente o passado da LCI, não existe saída honesta da necessidade de confrontar os erros do passado. A direção da SL está ridicularizando os camaradas do IG por sugerirem que tudo estava bem na LCI até antes deles serem expulsos. Robertson faz uma abordagem oposta na sua resposta recente a um defensor do IG (WV, 27 de setembro), onde ele retroage os problemas com Norden a uma diferença de 1973 sobre os acontecimentos no Vietnã! Isto é supostamente um exemplo de como, de acordo com Robertson, Norden “enfraqueceu sua autoconfiança política revolucionária e também piorou sua imagem aos olhos de outros camaradas”, o que, por sua vez, limitou a sua capacidade de assumir um papel dirigente na Liga Espartaquista. Mas o fato é que na SL a ninguém (exceto naturalmente ao próprio camarada Robertson) foi permitido o luxo da “autoconfiança política revolucionária”.

A maioria dos expurgos ao passar dos anos foram feitos para eliminar, ou pelo menos humilhar, os quadros inclinados demais a pensar por si próprios. A pressão interna crescente sobre Norden e Stamberg foi projetada para “piorar sua imagem aos olhos dos outros camaradas” e sem dúvida contribuiu para a sua “falta de apoio pela militância” de que Robertson se vangloria em WV. O seu sarcasmo sobre sua “falta de apetite para luta política desde o começo” e “sua oposição ‘não-fracional’ e da boca para fora” tem certa ressonância, mas só porque a linha do IG sobre a evolução da LCI é implausível. Se a LCI tinha sido um modelo de democracia leninista até o começo de 1996 (como sugere a literatura do IG), então a recusa por Norden/Stamberg em lançar uma luta fracional organizada iria de fato demonstrar uma aversão à luta política desde o começo.

A tentativa de Norden/Stamberg de manter uma posição tática “não-fracional” levou-os a votar pela expulsão de Socorro [ocorrida antes das demais]. Observamos que Workers Vanguard (27 de setembro), recentemente proclamou que Socorro “cruzou a linha de classe” (!!!) por comparar desfavoravelmente os procedimentos de julgamento da SL com os das cortes burguesas! Robertson consideraria “cruzar a linha de classe” sugerir que um réu comum nas cortes dos EUA nos anos 1930 receberia mais justiça do que os Oposicionistas de Esquerda receberam no Estado Operário soviético sob Stalin? No fórum da SL em Nova Iorque, em 1º de agosto, Richard G., um membro da SL, sugeriu publicamente que qualquer um que afirmasse, como Socorro o fez, que havia mais justiça nas cortes burguesas do que nas mãos da SL, poderia facilmente receber pagamento do Estado capitalista. Esta insinuação de corrupção é escandalosa, e os camaradas do IG estavam muito certos em se opor a ela. Mas a condenação de Socorro pelo próprio IG tende a limitar o seu protesto.

Norden e Stamberg cometeram um erro ao votar pela expulsão de Socorro. Ela não era culpada de nada mais do que contar a verdade. Sugerimos que um bom lugar para o IG começar sua reavaliação da iSt/LCI é francamente repudiar a sua expulsão.

Um próximo passo poderia ser discutir francamente por que os camaradas mais antigos, como Norden, Stamberg e Negrete sentiram-se compelidos a optar por uma posição internamente “não-fracional”, apesar do padrão de infrações brutas da prática ao leninismo que eles relataram. Eles não exerceram seu “direito” de declarar uma fração porque sabiam que não era mais possível conduzir uma luta política séria dentro da LCI, tanto quanto havia sido para Robertson travá-la no Comitê Internacional de Gerry Healy em 1966.

A Liquidação do Trabalho Sindical da SL

A declaração de Negrete, na sua “Nota sobre a TB”, de 25 de julho, de que temos aversão contra a “luta de classes num lugar com grande maioria de negros, turbulento, como o Brasil”, repercute uma calúnia que data do começo dos anos 80, quando a direção da SL tentou encobrir a sua liquidação das frações sindicais nos sindicatos estratégicos dos Estados Unidos, chamando de racista qualquer um que criticasse isto. A direção da SL decidiu renunciar a seu trabalho sindical porque este exigiu um investimento político considerável e o retorno nos anos 70 tinha sido relativamente pequeno. Além do mais, enquanto a pressão sobre a SL aumentava, a direção de Robertson ficou com medo de que os sindicalistas da SL adquirissem uma visão independente da realidade social, e uma autoridade real na classe trabalhadora poderia ajudar a criar um polo de oposição política interna. Particularmente no sindicato dos telefônicos, mas também entre os estivadores da costa oeste e os trabalhadores automotivos de Detroit, as colaterais políticas impulsionadas pela SL tinham alguma autoridade entre a força de trabalho, e foram vistos como uma formidável oposição potencial pelos burocratas sindicais.

Lembramos que o camarada Negrete estava nas atividades dos telefônicos quando a SL abandonou a sua orientação sindical. Em nosso folheto de junho 1983, intitulado “Parar a Liquidação do Trabalho Sindical! Interromper a má liderança de Robertson-Foster-Nelson!”, reimprimimos um panfleto, de 16 de maio de 1983, distribuído [pela SL] aos telefonistas em Los Angeles, na conclusão de uma campanha bem sucedida que derrotou as tentativas dos burocratas de remover os defensores da SL dos cargos de diretores. O panfleto começava com “A Colateral de Ação Militante gostaria de agradecer a todas as irmãs e irmãos desta regional, que saíram para apoiar-nos na luta pela nossa reintegração como diretores da regional”, e adiante anunciava que “todos os diretores do bloco submeterão a seguinte carta de renúncia ao sindicato.” Em nosso documento, escrevemos:

“A autoridade que os quadros da SL em LI, T1, T2, II e BI [vários setores industriais] acumularam com anos de suor, sangue e perseguição está sendo deixada para trás da noite para o dia; a direção da SL sabe que os efeitos desta liquidação são quase irreversíveis (…) a completa desistência dos diretores da CAM [Colateral de Ação Militante] já está criando a reputação de desertores (…)”.“Não se leva as pessoas para a luta e então as deserta. Mas é justamente isso que a CAM está fazendo. Tendo lutado e vencido na regional 11502 para manter-se na direção, a CAM agradeceu aos muitos diretores e membros que a defenderam… e se retirou. Também, na regional 9410, onde justo há seis meses 1000 membros manifestaram-se para a defesa de Kathy, exigindo um fim do seu julgamento e do golpe dos burocratas, a CAM está se retirando. Stan, membro da Colateral Militante, apoiado pela SL [nos estivadores], corretamente defendeu uma moção, em uma reunião dos membros, pela realização de uma paralização dos trabalhadores do sindicato para protestar contra as atividades nazistas em Oroville. A moção foi aprovada. Então ele foi orientado a voltar atrás e a se autocriticar de forma desprezível, para não ir para Oroville, e atacasse os estivadores que foram e carregaram cartazes exigindo autodefesas de trabalhadores e negros para esmagar os fascistas. Esse abstencionismo alimentou um ressentimento que tornou mais fácil para a direção desacreditá-lo.”


Se a SL era culpada pelo abstencionismo em relação a eventos como a manifestação de Oroville em 1983, a sua retirada dos sindicatos foi abstencionista em grande escala. Nós também podemos ver nisso precedentes da exigência de que a LQB liquidasse seu trabalho em Volta Redonda. Em ambos os casos, aqueles que resistiram ao ultimato da direção da SL foram acusados de “oportunismo sindical”.

Howard Keylor, um dos dois maiores apoiadores da SL nos portuários, continuou a sua atividade de sindicalista como um simpatizante da ET/TB. Em 1984, ele iniciou e foi um dos líderes do boicote de 11 dias dos estivadores contra o regime de Apartheid da África do Sul, no cais 80 em São Francisco (ver Boletim da ET No. 4). Neste caso, a SL fez pior do que abster-se – ela denunciou a ação, colocou um “piquete” para abortá-la, caracterizou os trabalhadores que conduziram a greve como “fura-greves” e, finalmente, em desafio aberto à política do sindicato, fez com que os seus apoiadores fornecessem uma evidência documental (na forma de um panfleto) de que o boicote era uma ação sancionada pelo sindicato. Isto era o que os empregadores necessitavam para assegurar uma injunção federal para quebrar o boicote. Quando a esquerda juntou uma meia dúzia de estivadores para armar um piquete de grevistas em desafio à injunção, os Espartaquistas no local recusaram-se a unir-se! E então, depois que a ação acabou, WV retroativamente elogiou-a. A motivação para as ações da SL era a mesma que na exigência de que a LQB abandonasse sua atividade sindical – um mesquinho sectarismo organizativo.

Norden/Stamberg afirmaram que nós “zombamos das mobilizações de trabalhadores/negros, feitas pela Liga Espartaquista para barrar a KKK, como ‘trabalho de gueto’”. Isto não é verdade. Nós nunca zombamos das mobilizações anti-Klan da SL e, aliás, nos unimos a elas quando pudemos, assim como nos unimos às iniciadas por outros esquerdistas. Nós nunca nos referimos às mobilizações das LLNOs [Ligas de Luta Negra e Operária, que a SL lançou em substituição ao seu trabalho nos sindicatos], nem tampouco às mobilizações anti-Klan como “trabalho de gueto.” O único lugar em que se pode achar este termo é nas páginas do WV, onde era repetidamente atribuído a nós.

Nós sempre sustentamos que a chave para a libertação negra nos Estados Unidos é através da união das lutas das massas negras ao poder social do movimento organizado dos trabalhadores. Isto requer uma luta por uma nova direção, revolucionária, nos sindicatos.

Libertação Negra e ‘Guardas de Defesa dos Trabalhadores’

Esperamos que, depois de uma investigação cuidadosa, o camarada Negrete retire sua acusação de que alguma vez nós chamamos “por ‘guardas de defesa dos trabalhadores’ (sic) para parar a ‘violência’ como na revolta de Los Angeles”. Se ele não estiver preparado para fazê-lo, o convidamos a especificar os fundamentos desta alegação. Nossa declaração sobre a revolta [dos subúrbios negros] de Los Angeles em 1992 teve um impulso inteiramente diferente em relação à explosão de “violência” que se seguiu à absolvição dos policiais racistas que brutalmente tinham agredido [o trabalhador negro] Rodney King:

“Os marxistas não podem ter mais que desprezo em relação às condenações hipócritas da ‘violência’ e das ‘ações ilegais’ que chovem agora nos noticiários, púlpitos e nas declarações dos capitalistas que concorrem à presidência. Mesmo assim, os militantes sérios também reconhecem que o racismo, a pobreza e a violência do Estado capitalista não terminarão através de explosões desorganizadas de ódio dos negros e minorias, ainda que justificadas. Porque faltam às massas negras um programa e uma direção para lutar por uma verdadeira revolução social, a sua raiva espontânea frequentemente termina em ataques aos alvos errados, deixando seus verdadeiros exploradores e opressores intocados.”“Os negros e as minorias formam uma grande porcentagem da classe proletária industrial nos EUA. Eles também estão concentrados nos sindicatos das grandes cidades da nação. Esses trabalhadores operam os ônibus e trens, coletam o lixo, varrem as ruas e são também os trabalhadores dos hospitais. Podem proporcionar o elo necessário entre o gueto e a classe trabalhadora organizada. Uma única greve geral contra a brutalidade da polícia poderia levar cidades como Los Angeles a parar, e provaria ser uma arma infinitamente mais potente do que cem revoltas do gueto. Tais greves poderiam abrir o caminho para uma poderosa contraofensiva de classe dos trabalhadores contra o racismo e a austeridade capitalista. Mas isto requer uma direção classista orientada a quebrar a força opressora dos burocratas sindicais e do Partido Democrata. A Tendência Bolchevique dedica-se a forjar tal direção, na luta por uma sociedade socialista, que é a única que pode fazer justiça a Rodney King e outras vítimas incontáveis da ‘nova ordem mundial’”.Los Angeles: Dias de Cólera”, suplemento de 1917, maio de 1992


Em outubro de 1992, publicamos uma edição de 1917 West intitulada “Policiais, Crime e Capitalismo”, para desafiar as noções anarquistas/liberais predominantes entre a juventude. Este artigo, que absurdamente foi caricaturado numa polêmica que apareceu em Workers Vanguard (12 de fevereiro de 1993), deixou a nossa atitude em relação ao braço armado da burguesia muito clara:

“A união entre o temor do crime e a questão racial cria uma barreira enorme à unidade da classe trabalhadora. O status quo econômico e político estarão seguros enquanto a classe trabalhadora, e outras vítimas do sistema, estiverem divididas entre si. O capitalismo necessita do racismo e o reproduz – porque ele mantém a classe trabalhadora dividida.”“A polícia não faz parte da classe trabalhadora, e seus ‘sindicatos’ não fazem parte do movimento dos trabalhadores. Eles devem ser expulsos de todas as federações sindicais e outras organizações da classe trabalhadora. A polícia serve como a linha de frente de defesa da propriedade capitalista, e resguarda a ditadura da classe capitalista sobre a sociedade. Como um braço do Estado, a polícia não é neutra em nenhuma disputa entre trabalhadores e patrões, inquilinos e proprietários ou opressores e oprimidos. Os policiais reforçam a lei e a ordem capitalista, que coloca a defesa da propriedade, da riqueza e dos privilégios sociais acima de tudo.”


No texto de 1917 West, nós chamamos por “guardas da defesa dos trabalhadores”, mas de uma maneira diametralmente oposta à afirmação de Negrete:

“É de vital importância unir as atividades das organizações que monitoram a polícia e defendem as suas vítimas às organizações da classe trabalhadora. Os mesmos policiais que atormentam as pessoas desabrigadas e a juventude negra também escoltam os fura-greves através das filas de grevistas, e batem nos grevistas para quebrar as greves (…)”.“Somente o proletariado tem o poder social e o interesse objetivo de eliminar as causas do crime. Um movimento forte dos trabalhadores que estabeleça guardas de defesa dos trabalhadores integradas poderia dar um grande passo pela defesa dos trabalhadores e dos oprimidos contra a brutalidade e os crimes da polícia (…)”.“Para serem efetivas, as guardas de defesa dos trabalhadores devem se integrar à luta contra o racismo, que divide a classe trabalhadora. Elas geralmente seriam iniciadas como uma resposta contra ataques contra os piquetes dos trabalhadores pelo Estado capitalista, seus aliados fascistas ou os capangas particulares dos empregadores. Uma vez empenhados na luta de classes, os trabalhadores rapidamente verão a utilidade das guardas de defesa para proteger os trabalhadores e os oprimidos em outras áreas de suas vidas, incluindo a luta para se livrar do crime e das agressões da polícia”.Policiais, Crime e Capitalismo,” 1917 West número 2, outubro 1992


Gostaríamos que o camarada Negrete explicasse exatamente o que ele pensa que está errado com esta forma de se posicionar pelas guardas de defesa dos trabalhadores.

Finalmente, notamos que enquanto Negrete está aparentemente feliz reciclando a difamação da SL sobre a nossa suposta indiferença pela opressão negra, ele se esqueceu de mencionar que Gerald Smith, o ex-membro da TBI que é citado [na nota do IG] como “não sendo antipolícia” é também um antigo membro do Partido Pantera Negra, bem como da Liga Espartaquista. Ele também não menciona que, em 1983, a SL convidou Smith para que ele encabeçasse as suas LLNOs! Smith estava relutante em aparecer como ponta de lança de uma organização fantasma. Mesmo assim, permaneceu na órbita da SL, e no próximo ano concordou em participar do “piquete” da SL contra o boicote dos portuários de 1984 aos carregamentos destinados para a África do Sul, no cais 80 em São Francisco. Ele se assustou tanto com o sectarismo destrutivo que testemunhou naquela noite, que rompeu com a SL de uma vez por todas. Ele depois se uniu à TB e foi um membro proeminente de nosso núcleo na Área da Baía de São Francisco por muitos anos. No início da década de 90, ele começou a girar à direita, e finalmente deixou a TBI em 1993.

A LCI e a Greve Geral: ‘Uma Caricatura do Trotskismo’

Concordamos que a nova oposição da LCI a levantar qualquer chamada propagandística pelas greves gerais na ausência de um partido operário revolucionário hegemônico é de fato “uma caricatura do trotskismo,” como o IG sugere. “E a campanha dos trotskistas franceses por uma greve geral na metade dos anos 30?”, ele [o IG] pergunta. Uma boa pergunta, mas nenhuma que a LCI esteja ansiosa em responder.

Parece a nós que a questão da greve geral está colocada para o trotskismo francês na metade dos anos 90 também. Como explicamos em nosso artigo de 1917, No. 18, a situação em dezembro de 1995 parecia ser para nós uma circunstância em que os revolucionários deveriam ter focalizado a sua agitação no chamado por uma greve geral para derrubar [o presidente francês Alain] Juppé, concretizada com o chamado por comitês de greve eleitos em cada local de trabalho, nos níveis local, regional e nacional. Isto poderia ter chamado a atenção dos membros mais militantes dos sindicatos, que estavam tentando empurrar os burocratas nesta direção, e proporcionaria uma abertura para os militantes revolucionários estenderem a sua influência política. Mas, mesmo chamando a estender as greves ao setor privado, a Liga Trotskista da França [seção da LCI] ponderadamente absteve-se de convocar uma greve geral, afirmando, ao contrário, que “a questão do poder está posta.” Seu lema central era o chamado a construir uma “nova direção revolucionária,” (isto é, a LTF). Embora muitas das observações e propostas específicas na propaganda da LTF estivessem corretas, a sua reivindicação de que “a tarefa urgente da hora” seria preparar a tomada do poder estatal pareceu para nós qualificar-se como outra “caricatura do trotskismo”.

Norden e Stamberg não criticam a posição da LCI/LTF em Paris [em 1995, quando se recusaram a chamar por uma greve geral] e ainda parecem endossar implicitamente a luta de Parks contra a “passividade” da LTF. Isto parece a nós ser outro caso em que os camaradas do IG até agora não conseguiram generalizar suficientemente a partir de uma crítica fundamentalmente correta.

No Canadá, a LCI/TL está atualmente se recusando a convocar uma greve geral em Ontário, apesar do fato de que a burocracia sindical organizou uma série de “greves gerais” em uma única cidade, com duração de um dia (que até agora envolveram centenas de milhares de trabalhadores). Os burocratas querem permitir que a base expresse sua ira mas, ao mesmo tempo, esperam evitar um confronto sério com o governo, enquanto ganham um pouco de vantagem, mostrando aos patrões que poderia haver problemas se os Conservadores levassem as coisas muito adiante. Esta é uma situação em que os revolucionários devem procurar explorar a contradição entre o desejo das massas de lutar e os passos covardes dados pela direção, através da agitação das medidas práticas necessárias em direção à mobilização do poder e da raiva da base contra os ataques do governo. Concretamente, advogamos uma greve geral que seja “organizada e controlada por comitês de greve eleitos democraticamente em todos os locais de trabalho, coordenados através de assembleias provinciais e regionais por delegação.” Por sua vez, a TL está fazendo a sua agitação principal exigindo “construir um partido revolucionário” – isto é, eles mesmos.

Socialistas, Apoio a Greves e ‘Fura-Greves’

Os camaradas do IG reivindicam que nós “furamos a greve” dos limpadores de construção de Nova Iorque no último inverno. Esta é uma questão séria, que nós discutimos na nossa correspondência com WV (recentemente publicada por nossa regional de Nova Iorque na forma de um folheto). Como indicamos, há frequentemente situações em que os grevistas de uma empresa ficam na frente de uma entrada compartilhada com trabalhadores de empresas inteiramente diferentes que não estão em greve (por exemplo, praças públicas, parques industriais, edifícios de escritório). A melhor resposta em tais casos é que os trabalhadores das outras companhias se unam aos seus irmãos e irmãs, pressionando por greves de solidariedade. Mas se isto não for possível, não é dever dos militantes isolados executaram uma “greve de solidariedade individual” quando, se o fizerem, puderem ser demitidos.

A campanha de WV sobre isso foi uma tentativa motivada por interesses fracionais de difamar Jim C., um militante da TBI que pode ter feito mais para ajudar os grevistas do que todos os membros da SL de Nova Iorque juntos. Jim C. tomou a iniciativa de receber os membros do sindicato no seu local de trabalho para fazer com que estes doassem um total de $3000 aos seis trabalhadores grevistas que normalmente limpavam seu edifício. Os dirigentes também se asseguraram de que nenhum fura-greve seria permitido dentro do prédio durante a greve, e que a empresa de limpeza não receberia nenhum dinheiro do seu empregador até o final desta. Nenhum militante sindical consideraria isto “furar greve”.

Uma nota interessante em toda esta disputa foi proporcionado pela camarada Marie Hayes (uma antiga militante que foi por 23 anos da iSt/LCI), num fórum público no festival anual do Lutte Ouvriere deste ano. Ela respondeu às denúncias da LCI a nós como “fura-greves”, relembrando como, quando era da SL de Nova Iorque, ela foi confrontada por uma situação análoga, quando alguns piqueteiros de uma empresa diferente apareceram do lado de fora do edifício da [companhia aérea] Pan Am, onde ela trabalhava. Ela ligou para a sede da SL para pedir instruções, e disseram que, como os piqueteiros não tinham relação com os trabalhadores da empresa dela, não havia nenhuma razão para não ir trabalhar!

LCI vs. TBI e a Questão Russa

Em sua ladainha de uma página, o camarada Negrete queixa-se de que rejeitamos a palavra de ordem da LCI, “Viva o Exército Vermelho no Afeganistão” com “argumentos stalinofóbicos”. Na verdade, rejeitamos “Viva o Exército Vermelho” em favor de “Vitória Militar para o Exército Vermelho no Afeganistão”. Nós o fizemos porque a “saudação” da intervenção militar de Brezhnev no Afeganistão tendia a apagar a distinção crítica entre o apoio político e o militar. Os trotskistas apoiaram as forças armadas soviéticas no Afeganistão militarmente, assim como a SL apoiou militarmente o Vietcongue contra o EUA no Vietnã. Foram os pablistas que “saudaram” os exércitos de Ho Chi Minh e desfilaram a bandeira do Vietcongue. Nós não vimos nenhuma razão para aplicar critérios diferentes no Afeganistão (ver nosso artigo em 1917 No. 5).

O lado reverso das divagações algumas vezes stalinofílicas [que tende a identificar os interesses dos trabalhadores com os do aparato stalinista] da LCI apareceu quando eles se recusaram a tomar militarmente o lado da “linha-dura” do Kremlin contra Iéltsin, em agosto de 1991 [no confronto que terminou com a destruição da União Soviética]. A zombaria de Negrete sobre a indecisão e a incompetência do golpe dos conspiradores repercute os pseudotrotskistas que reivindicam que [os líderes da “linha dura”] Yanaiev, Pugo e companhia eram tão pró-capitalistas quanto Iéltsin. Negrete acusa-nos de termos sido ansiosos em abandonar a defensa da União Soviética porque nós reconhecemos, naquela época, que a vitória de Iéltsin representou o “Triunfo da Contrarrevolução”.

O golpe de agosto foi decisivo precisamente porque ele colocou os restauracionistas contra os remanescentes da burocracia que queriam manter o status quo. É por isso que os defensores da União Soviética tinham um lado nesse confronto. A afirmação da LCI, de que os conspiradores não estavam tentando defender, ainda que de forma vacilante, o Estado Operário, mas somente um império capitalista, somente pode significar que as forças restauracionistas teriam triunfado antes do golpe de agosto.

A recusa da LCI em tomar partido no confronto final levou inevitavelmente ao próximo erro; eles se recusaram teimosamente, por mais de um ano, a reconhecer que o Estado Operário Degenerado soviético tinha sido de fato destruído. Até hoje, a LCI não pode dizer quando o Estado Operário soviético deixou de existir. Esperamos que no curso do reexame da história da iSt/LCI, isto esteja entre as questões que vocês desejarão retomar.

A tentativa de Negrete [em sua nota] de identificar-nos com o [grupo argentino] PBCI porque sustentamos posições semelhantes sobre o golpe de agosto de 1991 não é um argumento, e sim um amálgama. Nós poderíamos igualmente salientar com facilidade que o PBCI, assim como a LCI (e o IG?), reivindicam que o Estado Operário sobreviveu sob Iéltsin. O que isso provaria?

O Expurgo do IG: “Deja Vu Tudo de Novo”

A noção dos quadros do IG de que eles são as primeiras vítimas de abusos na LCI não é incomum, como nós anteriormente relatamos.

Mas, se o tratamento do IG de fato nunca foi visto na história da iSt/LCI, por que as descrições do IG sobre o que aconteceu a eles seriam tão parecidas com as que publicamos há dez anos? Por exemplo, Norden e Stamberg descrevem como Negrete foi acusado de “machismo” no GEM [Grupo Espartaquista do México]:

“O método de vomitar uma pilha de acusações falsas sem considerar os fatos foi repetidamente usado na disputa sobre a Alemanha (…) e novamente no ataque relâmpago para remover a direção da seção mexicana, afirmando que Negrete era um ‘opressor machista’, contornando a LQB e isolando a seção da discussão internacional.”De uma Tendência…” página 29


Negrete confirma este relato:

“Tendo passado pela ‘disputa Brasil/México’, posso declarar categoricamente que a campanha atual envolve uma coleção de invenções intencionais. A luta explodiu quando Camila e eu perguntamos sobre as declarações significativamente incorretas sobre o Brasil numa correspondência do SI [Secretariado Internacional da LCI]. Ao mesmo tempo em que algumas daquelas declarações foram explicitamente corrigidas, foi inventado um relato de que eu teria me comportado como um ‘opressor machista’ com Camila (o que a própria Camila negou ser verdade) e que eu a tinha ameaçado para fazer as perguntas que ela escreveu. Quando as testemunhas disseram e escreveram que isto não foi o que aconteceu, não só isso foi ignorado, como eles foram acusados de fazer panelinha, de serem personalistas e anti-internacionalistas. Ao mesmo tempo em que os pedidos de Socorro e meus por uma investigação interna formal foram rejeitados imediatamente, a mentira não somente foi repetida, como também foi aumentada como um suposto padrão de comportamento”.Ibid. páginas 74-75


Compare o que está descrito acima com o relato em “A Escola de Robertson de Construção de Partido” (1917 No. 1, inverno 1986) onde descrevemos como uma acusação de “manipulação sexual” foi usada na iSt:

“Quando o acusado questionou como essa acusação poderia ser feita quando ele a negava, e todas as suas supostas vítimas a negavam, ele foi informado de que esse era o pior tipo de manipulação – ela tinha sido tão bem feita, que mesmo sob considerável pressão do partido, as próprias vítimas não conseguiam ver o que havia acontecido! Essa é a característica de ‘Alice no País das Maravilhas’ da vida interna ‘democraticamente rica’ da tendência Espartaquista. Manipulação sexual, como todo o resto na SL, significa exatamente aquilo que a liderança quiser que signifique.”


Outro exemplo é a descrição de Norden/Stamberg sobre como os alvos do expurgo estão sujeitos a uma pilha de acusações não substanciadas:

“Quando nos opusemos às várias inexatidões e declarações ultrajantes sem sustentação, Parks entrou rapidamente em cólera, e prosseguiu expulsando primeiramente Negrete e Socorro, do México, e então Norden do SI. Em ambos os casos, acusações inventadas foram lançadas a esmo, e quando uma não colava, era simplesmente substituída por uma nova. Jogar lama no ventilador é uma técnica de ‘caça às bruxas’ muito familiar, baseada na suposição de que eventualmente alguma coisa irá colar ou os alvos se cansarão de retirar a lama.”Op. Cit. página 29


Negrete aponta o mesmo:

“Mais uma vez, o retrato grosseiramente deturpado foi repetido por uma série de declarações comprovadamente falsas. Cada declaração, quando era desmentida, abria caminho para uma nova. Era falso que o memorando do CEI não tinha sido traduzido, que não tinha sido distribuído, que não tinha sido discutido, ou que fora discutido somente uma vez. Era falso que a disputa na Alemanha tinha sido encoberta, que tinha sido discutida somente uma vez, que foi discutida muito brevemente, etc. Era falso que a luta na França, a luta na Itália, a ‘greve geral por tempo indeterminado’, a luta contra Y. Rad, a luta em relação ao Quebec etc., não tinha sido discutida, que as conversas não aconteceram nas reuniões, que os materiais não foram traduzidos (dúzias foram) etc.”.
“O que está descrito acima é só uma amostra das declarações falsas empilhadas umas sobre as outras naquela disputa. Entretanto, um grande número de camaradas bem-intencionados reclamava que todos estes ‘detalhes’ fossem ignorados em favor do ‘quadro geral’. Mas, antes de tudo, as regras da Quarta Internacional nos dizem para ‘sermos verdadeiros nas coisas pequenas, assim como nas grandes’. E, em segundo lugar, neste caso, o ‘quadro geral’ é composto de ‘pequenas’ mentiras e invenções, que continuam a aumentar”.Ibid. Páginas 75-76


Mais uma vez, compare os relatos dos camaradas do IG à nossa descrição de 1985 de uma “disputa” típica na SL:

“Eis como as coisas funcionam na SL. É convocada uma reunião em que o camarada designado é chamado a explicar os erros que ele supostamente cometeu. Cada item dos pormenores é grosseiramente exagerado e extrapolado; motivações traiçoeiras (políticas ou pessoais) são atribuídas. Críticas pessoais acidentais do estilo de vida ou comportamento do indivíduo são usadas como boas comparações. Aqueles que comandam o ataque gritam tipicamente, de forma teatral, e fazem poses para criar a atmosfera adequada, carregada emocionalmente. Espera-se que a militância proporcione o coro: repetindo e embelezando as acusações. Não há nenhuma interrupção. Se você puder provar que algumas das acusações são falsas, novas acusações são rapidamente inventadas. Ou você é acusado de ‘usar argumentos de advogado’ ou de tentar obscurecer a visão geral com picuinhas sobre os ‘detalhes’ (…)”.A Estrada para Jimstown”


A semelhança entre os nossos relatos e os do IG só podem ser explicadas de duas maneiras: ou a direção da SL estudou cuidadosamente as nossas descrições supostamente inventadas de suas técnicas de expurgo e decidiu empregá-las pela primeira vez contra Norden, Stamberg, Socorro e Negrete, ou o tratamento dos camaradas do IG seguiu o padrão dos expurgos anteriores.

O Caso de Bill Logan

Negrete recicla a acusação da SL de que o camarada Bill Logan da TBI é um “psicopata malicioso.” Robertson investiu muito do seu capital político para “provar” que Logan, o líder mais proeminente da iSt fora da seção norte-americana, era não um pervertido comum, mas sim um “sociopata” que sempre foi inadequado para a vida do movimento operário. O caso de Logan foi, aliás, um marco na degeneração da iSt/LCI. O camarada Norden, que era um membro dirigente da SL/EUA naquela época, pode relembrar a comissão que se reuniu na sede central da SL em Nova Iorque, no período de agosto-setembro de 1974, para considerar as queixas de John Ebel, um membro descontente da SL/ANZ (Austrália-Nova Zelândia). As queixas de Ebel tocaram em todas as alegações (incluindo a feita por uma camarada supostamente pressionada a realizar um aborto) que, cinco anos mais tarde, a direção da SL fingiu que tinha acabado de ouvir. Entretanto, a comissão de Ebel em 1974, depois de considerar as evidências, não achou que havia qualquer impropriedade na SL/ANZ. Como os camaradas do IG explicam isso?

Nós nunca negamos que os camaradas da SL/ANZ de fato sofriam abusos organizativos sob o regime de Logan, nós meramente afirmamos que a vida na SL/ANZ não era qualitativamente diferente que na SL/EUA. Isto é provado pelo fato de que nenhum dos dirigentes girados pela SL/EUA ter notado qualquer coisa fundamentalmente diferente na vida da SL/ANZ, e que eles eram todos assimilados dentro do regime, sem dificuldades imprevistas. Lidamos completamente com o caso de Logan em nosso Boletim Trotskista No. 5 (“LCI vs. TBI”).

O Expurgo do IG/LQB: Ataques Preventivos

A explicação política para o expurgo pela LCI dos camaradas do IG e para o rompimento das relações fraternais com a LM/LQB oferecidas por Norden/Stamberg (pág. 68) está fundamentalmente correta:

“Ao aumentar a pressão e perseguir os ‘oponentes internos’ percebidos, e tentar forçar a declaração de uma fração, o SI claramente procurou fazer um ataque preventivo. O resultado foi a criação de uma atmosfera venenosa no partido.”


É também aparente que a ruptura com a LQB foi uma manobra profundamente cínica. Mas isso mostra mais uma vez a contradição fundamental nas explicações do IG: como poderiam os dirigentes de uma organização revolucionária trotskista se tornar, de pronto, expurgadores, provocadores, perseguidores e levantadores de mãos? De onde veio essa camada de “mentirosos e inventores autoconscientes” que “vangloriam-se” de seus crimes? E por que Norden e Stamberg estavam tão seguros de que não havia nenhuma razão para aparecer no seu “julgamento” programado? Numa organização saudável, se esperaria uma reação violenta da parte dos membros de base diante das impropriedades evidentes no procedimento de julgamento do caso de Socorro. Por que não na SL? E por que Norden e Stamberg não esperaram que a base da SL estivesse horrorizada pelas mentiras e calúnias partidariamente motivadas? Por que uma visita de surpresa, à meia-noite, por uma “tropa de elite” exigindo submissão instantânea não seria um choque para pessoas com décadas de experiência na LCI? A razão é que este tipo de coisa vem acontecendo há muito tempo. Essa é a razão pela qual as nossas descrições das técnicas empregadas são tão próximas das do IG.

Está claro, pela declaração de relações fraternais entre a LM e a LCI (a qual nós presumimos que a LQB e o IG ainda sustentam) que nós não só reivindicamos uma herança política comum, como também compartilhamos posições comuns em algumas questões programáticas centrais. Estas incluem a oposição dura à frente popular; a necessidade do partido leninista em agir como o tribuno dos oprimidos; o elo inextricável entre a liberação dos negros e a revolução socialista tanto nos EUA como no Brasil; e mais geralmente, um reconhecimento de que a revolução permanente é o único caminho para a liberação das massas no mundo semicolonial.

Estamos interessados em iniciar discussões sérias entre nós e sua organização, com o propósito de diminuir nossas diferenças, ou pelo menos esclarecer nossas posições em relação um ao outro. Claramente, tais conversas também permitiriam a identificação e a correção dos erros em fatos ou interpretação dos dois lados. Lamentavelmente, há muitas dificuldades objetivas substanciais para mantermos discussões entre nós e a LQB. Em primeiro lugar, há o problema de que não sabemos falar a língua portuguesa, e não sabemos se a LQB sabe inglês ou alemão. Há também o problema da nossa separação geográfica. Acreditamos que nenhum destes problemas seja insuperável. Mas eles serão obstáculos substanciais para um intercâmbio político sério.

As conversas com o IG não são impedidas por qualquer uma das considerações acima, e como supomos que haja uma colaboração política próxima entre os dirigentes do IG e da LQB, talvez faça sentido que as primeiras conversas devam ocorrer entre nós e o IG. Esperamos que vocês considerem cuidadosamente os pontos que nós levantamos e aguardamos a sua resposta o mais breve possível.

Tom Riley
Pela Tendência Bolchevique Internacional

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