Arquivo Histórico: Por um Trotskismo Negro

Por um Trotskismo Negro 

Por James Robertson e Shirley Stoute

3 de Julho de 1963 

Este artigo foi originalmente publicado como um documento interno da Tendência Revolucionária (TR) do Partido dos Trabalhadores Socialistas norte-americano (SWP) em julho de 1963. Ele se insere no debate teórico sobre qual é a estratégia correta para o movimento negro norte-americano, combatendo as vertentes nacionalistas e também o giro oportunista que era então realizado pelo SWP para adaptar-se às lideranças reformistas do movimento pelos Direitos Civis. O documento coloca a necessidade de o partido lutar pela liderança revolucionária dos trabalhadores negros e promover a sua luta por igualdade numa perspectiva integracionista revolucionária da classe trabalhadora.

Contra o rascunho “Liberdade Já!” do Comitê Político!

Em defesa dos fundamentos programáticos!
Pela construção de uma coluna de quadros trotskistas negros!

“Se acontecer de nós no SWP não encontrarmos o caminho para os negros, então nós seremos um desperdício completo. A revolução permanente e todo o resto seriam somente uma mentira.”
 L. D. Trotsky, citado na Resolução de 1948-50 do SWP sobre a questão negra


I. Introdução Geral

A questão negra foi posta diante do partido para consideração excepcional e com agudeza crescente conforme se alargou o vão nos últimos dez anos entre o nível crescente de luta negra e o nível contínuo qualitativamente menos intenso de atividade sindical em geral. 

1. Teoria Básica: Questão Nacional ou de Raça/Cor? Breitman vs. Kirk, 1954-57

[A referência diz respeito à discussão interna no SWP entre George Breitman e Richard Fraser, cujo pseudônimo era Kirk] 

No nosso entendimento, o que estava em questão na época era um sombreamento de diferença teórica. Breitman via o povo negro como o embrião de uma nação em relação a qual o direito de autodeterminação era reconhecido, mas ainda não reivindicado por ora. Kirk interpretou a questão negra como uma questão racial que, sob condições de catástrofe histórica (por exemplo, a vitória do fascismo) poderia se transformar numa questão nacional. Portanto, ele concordava com o apoio à autodeterminação se ela se tornasse uma exigência na luta dos negros, mas ele assumia que isso só poderia surgir sob condições vastamente alteradas. Ambas as partes concordavam que era inapropriado usar a autodeterminação como um slogan do partido naquele momento.

Os presentes autores concordam essencialmente com a visão de Kirk da época, em particular com a apresentação de 1955, “Pela Concepção Materialista da Questão Negra” (Boletim de discussão do SWP, 30 de agosto de 1955). Nós concordamos ao notar a ausência entre a população negra daquelas qualidades que poderiam criar uma economia política separada, ainda que embrionária ou atrofiada. Essa ausência explica porque o impulso de massa pela liberdade do negro por mais de cem anos tem sido na direção de esmagar as barreiras para uma integração igualitária e plena. Mas integração em que tipo de estrutura social? Obviamente apenas em uma que possa sustentar essa integração. Essa é a contribuição recíproca poderosa da luta dos negros para a luta de classes em geral.

É o mais vulgar impressionismo ver no atual sentimento de setores da população negra de isolacionismo desesperado, que coloca acima do possível ganhar pontos reais de apoio de outros setores da sociedade, como um tipo de processo que transformaria as formas de segregação opressiva em uma barreira protetora, atrás da qual ocorreria a gestação de uma nova nação. Nacionalismo Negro, como ideologia e origem, é um tanto próximo ao sionismo como ele era da virada do século até a segunda guerra mundial. Os enormes guetos negros das cidades do norte são as áreas férteis para essa ideologia entre uma camada de elementos pequeno-burgueses e sem condição de classe que imagina, vicariamente, que áreas residenciais segregadas podem ser o germe para um novo Estado no qual eles vão explorar (“dar emprego para”) os trabalhadores negros. Portanto, ocorre que esses sentimentos separatistas ou tendências entre os negros têm uma fundação e significado muito diferente de uma luta nacional.

Quanto à questão específica da autodeterminação, nós acreditamos que a resolução de 1957 do partido fez uma formulação boa e equilibrada:

“Teoricamente, o profundo crescimento de solidariedade e consciência nacional entre a população negra pode, sob certas condições futuras, dar nascimento a demandas separatistas. Já que populações de minoria têm o direito democrático à autodeterminação, os socialistas seriam obrigados a apoiar tais demandas uma vez que elas refletissem a vontade das massas. No entanto, mesmo sob tais circunstâncias, os socialistas ainda continuariam reivindicando a integração ao invés da separação como a melhor solução da questão racial tanto para os trabalhadores negros como para os brancos. Enquanto defendendo o direito à autodeterminação, eles iriam continuar a chamar por uma aliança da população negra e da classe trabalhadora para gerir uma solução socialista para o problema dos direitos civis dentro do parâmetro nacional existente.”

2. Da Fraqueza Teórica ao Atual Revisionismo

Entretanto, é de importância imediata apontar que essa disputa de fundo está longe da questão central em nossa crítica da Resolução de 1963 do Comitê Político, “Liberdade Já: o Novo Estágio na Luta pela Emancipação dos Negros e as Tarefas do SWP”. Assim, a resolução partidária de 1948-50, intitulada “Libertação do Negro Através do Socialismo Revolucionário”, apesar de conter a perspectiva teórica defendida por Breitman, é um documento solidamente revolucionário em sua intenção e objetivo. O que aconteceu nesse intervalo é simplesmente que a presente maioria do partido transformou a fraqueza teórica prévia no ponto de partida para uma profunda degradação atingida agora no documento de 1963 sobre o papel da classe trabalhadora nos Estados Unidos e também do seu partido marxista revolucionário. Com evidente perda de confiança de uma perspectiva revolucionária por seus autores, a revisão essencial no texto de 1963, não importa quão sofisticada, é a substituição do eixo da luta para oprimido versus opressor no lugar de classe versus classe.

3. O Revisionismo de 1963

A essência do que é “novo” se encontra nas seguintes porções do rascunho de 1963 do Comitê Político:

“Mas aqui, como na África, a liberação do povo negro exige que os negros se organizem a si próprios de forma independente, e controlem sua própria luta, e não permitam que ela seja subordinada a nenhuma outra consideração ou interesse”. 

“Isso significa que os negros devem atingir a máxima unidade de suas forças – em um movimento de amplitude nacional forte e disciplinado ou congresso de organizações, e unidade ideológica baseada em dividir, expor e isolar o gradualismo e outras tendências que emanam de seus supressores brancos. Essa fase do processo está agora começando.” 

“Tendo unido as suas próprias forças, o movimento negro independente irá então provavelmente tomar as tarefas de divisão e aliança. Ele irá buscar formas de rachar a maioria branca de forma que a desvantagem negra de ser uma minoria numérica possa ser compensada por uma divisão e conflito do outro lado” [ênfase adicionada]

E em:

“A aliança geral entre o movimento operário e os lutadores negros pela libertação pode ser preparada e precedida pela cimentação de uma firme unidade de trabalho entre a vanguarda da luta negra e a vanguarda socialista da classe trabalhadora, representada pelo Partido dos Trabalhadores Socialistas”.

O menor dos pecados nesse esquema do futuro para a luta dos negros é a completa capitulação ao nacionalismo negro. (Para ver isso vivamente, basta reler as citações acima substituindo, por exemplo, “negro” por “argelino” e “branco” por “francês”). Isso é tão sério que o texto não faz nenhum esforço para competir com a compreensível reação dos nacionalistas negros contra a ladainha liberal-pacifista. Certamente é dever dos marxistas lutar para separar elementos militantes de uma ideologia regressiva. [Mas] dizer que a luta dos negros não deve estar subordinada a nenhuma outra consideração é negar o internacionalismo proletário. Toda luta, sem exceção, adquire significado progressivo somente porque ela aproxima direta ou indiretamente a revolução socialista internacionalmente. Qualquer luta que não a luta de classe dos trabalhadores tem por si própria, no máximo, valor indireto. Lenin e os bolcheviques russos foram obrigados a travar uma disputa ideológica em duas frentes para livrar a vanguarda revolucionária de concepções erradas a esse respeito – contra os social-nacionalistas pequeno-burgueses, que viam a luta nacional como tendo um significado histórico progressivo em seus próprios limites; e contra a visão sectária de Rosa Luxemburgo e do partido dos trabalhadores da Polônia que, da premissa correta de que o Estado-nação havia se tornado reacionário no mundo moderno, desenvolveu a conclusão errada e excessivamente simplificada – “contra a autodeterminação (para a Polônia)”. Lenin apontou que um envolvimento independente da classe trabalhadora na luta pela autodeterminação avançava de várias formas importantes a luta de classes e, portanto, adquiria justificação. Similarmente, Trotsky apontou que a defesa da União Soviética era subordinada e parte da revolução proletária internacionalmente e que, diante de um confronto de interesses, os interesses menores da parte (e uma parte degenerada já então) iriam ficar em segundo lugar para os revolucionários.

É digno de nota que a luta dos negros nos Estados Unidos é mais diretamente relacionada com a luta de classes do que qualquer questão essencialmente nacional poderia ser – já que a luta dos negos por liberdade é uma luta de uma casta de cor da classe trabalhadora que é a camada mais explorada nesse país. Portanto, qualquer passo adiante nessa luta imediatamente põe a questão de classe e a necessidade da luta de classes na sua forma mais aguda.

A consequência mais grave do texto proposto pela maioria é o seu corolário necessário de que a maioria consideraria o partido revolucionário dos trabalhadores excluído de mais uma arena de luta. Nos seus documentos sobre a questão cubana de 1961, a maioria deixou claro que, para ela, na revolução cubana, e por implicação na revolução colonial também, o partido revolucionário da classe trabalhadora é, antes da revolução, uma conveniência dispensável. Essa visão agora foi explicitamente generalizada e confirmada pela maioria na seção 13 do seu “Pela Mais Breve Reunificação do Movimento Trotskista”:

“13. Ao longo da estrada de uma revolução começando com simples demandas democráticas e terminando na ruptura das relações de propriedade capitalistas, a luta de guerrilhas conduzida por camponeses sem-terra e forças semiproletárias, sob uma liderança que se torna comprometida a levar adiante a revolução até uma conclusão, pode desempenhar um papel decisivo em minar e precipitar a queda do poder colonial ou semicolonial. Essa é uma das principais lições a serem tiradas da experiência desde a Segunda Guerra Mundial. Ela deve ser conscientemente incorporada à estratégia de construir partidos marxistas revolucionários nos países coloniais.”

Pela sua extensão dessa linha para incluir a questão negra nos Estados Unidos, a maioria do SWP cometeu a mais séria negação aberta já feita de uma perspectiva revolucionária. O que ela fez foi excluir a si própria a priori de lutar pela liderança de uma seção crucial da classe trabalhadora norte-americana, e no lugar disso restringe essa luta a uma hipotética organização paralela da população negra unida, que iria “provavelmente”, um dia, trabalhar com a liderança socialista da classe trabalhadora nos Estados Unidos. Em essência, as conclusões erradas desenvolvidas pela maioria desde a revolução cubana serão agora incorporadas na perspectiva norte-americana do partido na forma de “esperar por um Castro negro”. Assim, a suprema responsabilidade do partido, a revolução norte-americana, está sendo corrompida! 

II. Para a revolução socialista – e as amplas massas 


1. Método do objetivismo versus aproximação analítica 

Ao pesquisar desenvolvimentos atuais, os artigos descritivos e relatórios de Breitman foram valiosos (por exemplo, o seu “Novas Tendências e Novos Sentimentos na Luta dos Negros”, Boletim de Discussão do SWP, Verão de 1961). Entretanto, o material é falho e limitado por sua forma e apresentação em razão de uma análise que é “objetiva”, “sociológica” e “descritiva”. Isto está em contraste com a aproximação analítica que é indicada aos marxistas. Sublinhar essa diferença no método de tratamento é a mais clara distinção entre ver o desenvolvimento como um observador externo – que ganha agora codificação formal no texto da resolução do Comitê Político – ao invés de conceber os desenvolvimentos do ponto de vista do envolvimento na sua solução fundamental. Isso porque para a luta dos negros, essa solução envolve integralmente o partido marxista revolucionário, que está faltando na análise de Breitman dos eventos atuais. 

2. Nosso ponto de partida – a revolução socialista 

Nosso ponto de partida é, por sua vez, a conclusão de que a questão negra está tão profundamente enraizada na estrutura social capitalista norte-americana – regionalmente e nacionalmente – que apenas a destruição das relações de classe existentes e a mudança na dominação de classe – a passagem de poder para as mãos da classe trabalhadora – será suficiente para atacar o coração do racismo e trazer uma solução ao mesmo tempo real e durável. Nossa compreensão das presentes lutas não pode ser “objetiva”. Ao invés disso, ela deve se basear em nada mais do que no critério sobre o que aproxima ou afasta a revolução socialista

Portanto, nós podemos encontrar um ponto de partida bastante suficiente em uma declaração chave da resolução de 1948-50: 

“A necessidade primária e final do movimento negro é a sua unificação com as forças revolucionárias sob a liderança do proletariado. A força guia dessa unificação só pode ser o partido revolucionário.” 

3. Organizações Negras de Massa e o Partido Revolucionário 

Seria extremamente tolo e presunçoso buscar qualquer esquema fechado que detalhasse o caminho a ser percorrido das lutas de hoje até os nossos objetivos finais. Mas há certas qualidades e elementos que, como em todas as lutas sociais, vão se manifestar ao longo do caminho. 
Uma dessas questões é a da aproximação básica com as organizações dos trabalhadores negros e da juventude negra. A regra geral é que na sociedade norte-americana, em que largas seções da população trabalhadora estão saturadas com preconceitos de raça e intolerância sobre as necessidades particulares de outros setores ou extratos, organizações específicas são obrigatórias para vários setores. Essa consideração encontra a sua expressão mais aguda na luta dos negros. Hoje, no despertar do levante das lutas pelos direitos civis, existe a sensação e a necessidade real urgente de organizações amplas de massa da luta dos negros, livres de limitações, fraquezas, hesitações, e às vezes da traição explícita que aflige às maiores competidoras atualmente existentes. Essa necessidade estará conosco por um longo tempo. Participação no trabalho de construção de tal movimento é uma grande responsabilidade para o partido revolucionário. Muito provavelmente, ao longo do caminho, uma combinação complexa e instável de trabalho nos grupos já existentes e a construção de novas organizações estarão envolvidas. Mas enquanto soubermos o que nós temos por objetivo, poderemos nos orientar em meio às complexidades e vicissitudes do processo. 
No fundo, o que os marxistas devem reivindicar, e buscar realizar, é uma organização transitória da luta dos negros que se coloque como uma conexão entre o partido e as amplas massas. O que está envolvido em trabalhar de um ponto de vista revolucionário é não buscar nem um substituto nem um oponente para o partido de vanguarda, mas ao invés disso uma formação unificada formada apenas, ou dominada amplamente, pelos membros negros do partido junto com o maior número de outros militantes que desejem lutar por aquela seção do programa marxista revolucionário lidando com a questão negra. Tal movimento expressa simultaneamente as necessidades especiais da luta dos negros e a sua relação com as lutas amplas – em última instância pelo poder dos trabalhadores. 
Essa aproximação com a questão da opressão específica dos negros decorre das táticas da Internacional Comunista de Lenin e Trotsky. Foi lá que todo o conceito foi trabalhado para relacionar o partido com as organizações de massas de extratos específicos sob condições onde a necessidade havia ficado evidente e havia se tornado importante que os movimentos contribuíssem para a luta de classes proletária e que os seus melhores elementos fossem ganhos para o próprio partido. As organizações militantes de mulheres, ligas revolucionárias da juventude, e associações de sindicalistas radicais são outros exemplos desse formato. 
Entre parêntesis, deve-se notar o quão pouco há em comum entre este aspecto e aquele do rascunho de 1963 do Comitê Político. Assim, mesmo no caso hipotético de que fosse criada de alguma forma uma base social e material suficiente para gerar uma consciência nacional negra de massa, a resposta bolchevique não é simplesmente se afastar e falar sobre facilitar um trabalho comum eventual entre “eles” daquela nacionalidade e “nós” da vanguarda socialista (branca) da classe trabalhadora (branca). Mesmo se um novo Estado – uma república negra separada – fosse criado, os nossos camaradas negros, mesmo nessa reviravolta dificilmente concebível, não se tornariam nada além de uma nova seção de um partido internacional politicamente comum – a Quarta Internacional. E a luta deles pelo socialismo iria continuar a ser também a nossa causa. 
4. Rumo a uma coluna de quadros trotskistas negros 
Para retornar à realidade da luta dos negros tal como ela é e ao SWP como ele é, há um elemento vital sem o qual o programa básico de trabalho permanece um simples pedaço de papel no que diz respeito a um envolvimento real na luta. Esse elemento é a existência, ainda que modesta, de uma seção de membros negros no partido, que funcionem ativamente e politicamente no movimento pela liberdade dos negros. 
Visto deste aspecto, o recente rascunho do Comitê Político é de uma vez só a racionalização e a acomodação à fraqueza das forças negras do nosso partido e mais ainda, vai exacerbar essa fraqueza. O abstencionismo organizativo é escancarado na implicação direta do rascunho de que ele não está realmente preocupado com o SWP porque o movimento negro pode seguir muito bem sem o partido revolucionário da classe trabalhadora e, um dia, a vanguarda negra pode, de uma forma ou de outra, vir na nossa direção. O parágrafo chave do rascunho do Comitê Político citado nesse artigo resume a aura que permeia toda a resolução, coloca o papel do partido como um de relação fraternal entre duas estruturas paralelas: a classe trabalhadora (branca) e a sua vanguarda de um lado, e a população negra e a sua vanguarda do outro. Essa concepção nega a necessidade fundamental de que o partido deva liderar, ou mesmo tentar liderar, a seção decisiva da classe trabalhadora nos Estados Unidos. A resolução dá crédito ao conceito de que “nós não podemos liderar a população negra”. Isso é absolutamente contrário a uma perspectiva revolucionária. A nossa liderança significa que o programa da luta de classes revolucionária está sendo levado adiante por revolucionários no movimento de massas, unidos no partido revolucionário. Assim como sindicalistas não vão se unir ao partido revolucionário se eles não virem este como essencial para vencer as lutas, também os lutadores negros que lutam pela libertação não vão entrar no partido em qualquer instância que não seja a de reconhecer que o único caminho para a sua liberdade é o caminho socialista revolucionário de luta através de uma vanguarda de combate. Os militantes negros não verão nenhuma vantagem de se juntar a um partido que diz, de fato: “Nós não podemos liderar a população negra. Nós somos a vanguarda socialista da classe trabalhadora branca, e nós achamos que é bom ter relações fraternas com a vanguarda de vocês (aquela do movimento pela liberação)”. 
Da mesma forma, uma vez que nós tenhamos recrutado militantes negros para o partido, a linha expressa pelo rascunho do Comitê Político não serve para ajudá-los a desenvolverem-se como quadros trotskistas e a recrutar outros trabalhadores negros na base do nosso programa, mas ao invés disso, serve para desperdiçá-los e liderá-los incorretamente. Quando o partido nega o seu papel de liderança das massas negras, então porque razão nós precisamos de uma coluna de quadros trotskistas negros? A lógica dessa posição significa que não existe espaço para um negro como membro do partido que preste um papel diferente daquele que ele poderia desempenhar sem entrar no partido; ou, como no caso da posição tomada sobre o trabalho no Sul, ser membro do partido iria, na verdade, isolá-lo de importantes áreas de trabalho porque “o partido não é necessário lá”. 
Alguns camaradas, em resposta às críticas feitas aqui, irão dizer que o partido não está desistindo de uma perspectiva revolucionária, mas que está apenas sendo realista e encarando o fato de que a maioria dos nossos membros é branca, e de que nós temos apenas uma pequena e frágil coluna de quadros negros. Nós devemos buscar nos tornar, na realidade, o que nós somos em teoria, ao invés de o contrário – ou seja, não devemos adaptar o nosso programa a uma séria fraqueza de composição. Se nós tomarmos esse caminho de adaptação, o programa do partido, em um processo de degeneração grosseira, passará a se basear em uma seção privilegiada da classe trabalhadora. 
Negros que são ativistas no movimento, como por exemplo, os militantes de tempo integral que fazem trabalho na SNCC [1], estão formulando diariamente conceitos de luta para o movimento. O significado da linha do rascunho do Comitê Político é de que nós não estamos interessados em recrutar essas pessoas para o nosso partido branco porque nós só temos o programa socialista revolucionário para a seção da classe trabalhadora da qual nós somos a vanguarda, e eles (os militantes negros) devem liderar a sua própria luta, apesar de que nós gostaríamos de ter relações fraternais com eles. Esse é o significado do rascunho do Comitê Político. 
Ao conceito de partido branco, deve ser contraposto o conceito de partido revolucionário. Já que se nós formos apenas o primeiro, então os trabalhadores negros não têm lugar no SWP. Há três elementos principais que nós recrutamos para o partido: trabalhadores de minorias, trabalhadores brancos e intelectuais. No processo de trabalho que traga os elementos de minoria para o partido, há considerações especiais que devem fazer referência às suspeitas das populações de minoria (“precaução com os brancos”) no que diz respeito ao pessoal, etc. Entretanto, uma vez que estejamos dentro do partido, somos todos revolucionários. Todos esses elementos estão fundidos na luta para atingir o programa revolucionário entre os militantes que, como um todo, constroem o partido revolucionário. Assim, a “precaução com os brancos” das organizações negras está errada dentro do partido. Uma política interna de “precaução com os brancos” equivale ao paternalismo, à patronagem [2], à criação de uma camada de “negros do partido”, etc. e não tem espaço em um partido bolchevique. 
A declaração de Trotsky, citada no início desse artigo, de que se o SWP não puder encontrar o caminho para os negros então ele será um desperdício completo, encontra o seu paralelo na escolha que agora está diante de nós. Ou a perspectiva revolucionária nos Estados Unidos se tornará desafinada e sem vida, ou então ela ganhará expressão como um objetivo vivo dos pivôs do partido, num contexto de relativa passividade da classe trabalhadora, e de luta negra ativa, rumo ao desenvolvimento de uma coluna de quadros trotskistas negros. 
O principal objetivo desse artigo é mostrar que essa deficiência nas forças não é culpa das condições objetivas – isolamento e coisas do gênero – mas está enraizada em um complexo de falhas políticas e organizativas relacionadas, decorrentes de uma perda de confiança e da orientação rumo à revolução proletária pela maioria do SWP. 
[Em razão das pressões de outros trabalhos sobre os autores, as últimas duas seções deste artigo não foram completadas a tempo de alcançar o prazo final da edição do boletim, mesmo na forma rascunhada das primeiras seções. As seções esperadas para a inclusão eram:

III. O Partido


(1) Aspectos externos e intrapartidários de ganhar e construir uma coluna de quadros negros; (2) Contra a concepção de que “o nosso partido é um partido branco” e contra a patronagem; (3) Diferença qualitativa de uma aproximação necessária dentro e fora do partido; (4) Prioridades do trabalho negro – definindo as camadas recrutáveis pelo partido.

IV. Trabalho de Massas Hoje 


(1) Falhas comuns e essenciais na agitação baseada em “Tropas federais para o Sul” ou “Kennedy – Arme e torne deputados os negros de Birmingham!”; (2) Contra audiências para que sindicatos percam seus certificados como uma forma de combater as Leis Jim Crow [3]; por piquetes de massa para romper a exclusão racial nos sindicatos; (3) Objetivos específicos e balanço do nosso trabalho – Norte e Sul; (4) Apreciação das organizações existente, incluindo a SNCC, os Muçulmanos Negros, etc. 


Ao invés dessas seções desenvolvidas, nós estamos concluindo com algumas poucas notas fragmentárias. É nossa esperança que a próxima Convenção do partido aja para continuar, após a sua realização, uma discussão literária sobre as rápidas mudanças da questão negra. Para uma breve declaração das nossas visões sobre o trabalho de massas, atenção deve ser dirigida à emenda da Tendência Minoritária ao rascunho do Comitê Político sobre a questão norte-americana (no Boletim de Discussão volume 24, número 23, junho de 1963)]. 

1. Os Muçulmanos Negros são, com muitas contradições, primariamente uma organização religiosa. A sua atividade política é primariamente limitada à esfera da propaganda. Eles não têm um programa para a luta que vá de encontro às demandas das massas negras na comunidade de hoje, apesar de que a sua promessa de candidatos políticos iria representar uma certa mudança. Nós os tomamos como exceção à declaração do camarada Kirk de que “a fundação do movimento muçulmano é basicamente o reflexo do lumpemproletariado contra o gradualismo, a traição dos intelectuais e a falta de um movimento sindical”. O movimento muçulmano tem um programa pequeno-burguês – empresários negros, economia negra. Separação nessa base, com esse objetivo, é a sua resposta para a opressão. A sua organização interna é estruturada burocraticamente, com uma pesada drenagem financeira dos membros de base para o enriquecimento do “Mensageiro”. Por outro lado, enquanto eles chamam por todos os níveis da sociedade negra, empresários, trabalhadores, até mesmo socialistas e comunistas enquanto negros, na realidade o apelo é atrativo principalmente para a classe trabalhadora e especialmente para as camadas lumpens, mas eles não são lumpens quando se unem ao movimento. Uma tendência da liderança representada por Malcom X condena a sociedade capitalista norte-americana e mostra-se a favor de Cuba e da China Vermelha em oposição a Chiang Kai-shek. Outra tendência reivindica que assuntos internacionais não lhes interessam e que os problemas dos negros nos Estados Unidos não têm relação com a revolução cubana, etc. É realista esperar que nós possamos ser capazes de ganhar alguns dos seus membros de base e da sua periferia para o programa revolucionário, mas em razão da natureza religiosa, não-orientada para a ação, exigente e burocrática da organização, isso pode ser feito da melhor forma através de discussão e ação comum onde possível, ao invés de estar por dentro dela. 

2. R. Vernon como promotor em “A esquerda radical branca em julgamento” 

Em seu artigo, o camarada Vernon declara: “O absurdo de uma edição do The Militant [jornal do SWP] falar de sindicatos e de unidade entre negros e brancos, ao mesmo tempo em que parece que a própria voz das profundezas do gueto negro é encarada sem entusiasmo”. Isso é uma indicação gritante de que o camarada Vernon não está criticando do ponto de vista revolucionário e não vê a luta pelo socialismo – a luta de classes – como tendo qualquer conexão essencial com a luta dos negros por igualdade. Os escritos atuais de Vernon, “Por que os radicais brancos são incapazes de entender o nacionalismo negro” e “A esquerda radical branca em julgamento” são baseados na premissa, ou na tentativa de provar, que o marxismo e o socialismo revolucionário não têm lugar na luta da seção mais explorada da classe trabalhadora norte-americana, nem tão pouco na revolução colonial. Para Vernon, a construção de um partido revolucionário que busque o caminho da revolução norte-americana é, no mínimo, irrelevante e a solidariedade internacional da classe trabalhadora, insignificante. Para resumir, há pouco nos artigos do camarada Vernon que seja comum ao marxismo. Além do mais, as suas visões estão saturadas com o espírito da justificativa traiçoeira de que “o nosso partido é um partido socialista revolucionário branco” – uma lógica liquidacionista.

Para que nenhum camarada pense que nós estamos sendo demasiadamente duros ao criticar Vernon de ter se rendido teoricamente ao nacionalismo negro e rejeitado o marxismo (com ou sem aspas), deixemos que ponderem sobre a observação de que “O problema do nacionalismo revolucionário nunca foi tratado adequadamente em qualquer movimento marxista ou ‘marxista’ em qualquer lugar. Lenin apenas arranhou a superfície (…)”. De toda a penetrante teoria historicamente verificada da Revolução Permanente, Vernon não diz uma palavra! No entanto, acima de tudo, a teoria de Trotsky lida com “o problema do nacionalismo revolucionário” e lança para ele uma solução. 

Além do mais, mesmo que Lenin “tivesse apenas arranhado a superfície”, nossa sorte teria finalmente mudado. Vernon nos informa que o SWP agora provou que vale a pena: “Ele é o único grupo cuja vida interna pode, e pôde, produzir o documento ‘Por que os radicais brancos são incapazes de entender o nacionalismo negro’ (…)”. Aparentemente, Vernon, o autor do documento em questão, capitulou ao seu próprio ego ainda mais claramente do que ao nacionalismo! 

Nós estamos felizes em aceitar a opinião do camarada Vernon de que a nossa tendência é a mais distante das visões dele dentre todas no partido. 

NOTAS DA TRADUÇÃO


[1] SNCC, Comitê de Coordenação Estudantil Não-violento, foi uma das principais organizações no movimento pelos Direitos Civis norte-americano nos anos 60. Ela surgiu de uma série de reuniões estudantis em uma universidade na Carolina do Norte em abril de 1960. 


[2] Este termo, que se encontra fora de uso, indica no contexto do documento uma relação de hierarquização entre negros e brancos dentro de uma organização política. 

[3] As chamadas “Leis Jim Crow” se referem a uma série de leis adotadas a nível estadual como forma de reverter as conquistas políticas e econômicas obtidas pelos negros no Sul no período imediatamente posterior a guerra civil (conhecido como “Reconstrução”).

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