Lenin e o Partido de Vanguarda (8)

Em Defesa do Centralismo Democrático

Um Discurso de James Robertson
 

Menu

 
O discurso abaixo foi feito numa conferência do Grupo Spartacus da Alemanha Ocidental (Bolchevique-Leninista) em fevereiro de 1973.


O Spartacus/BL tinha se originado de um racha em dezembro de 1972 dos Internationale Kommunisten Deutschlands (IKD). Posteriormente ele sofreu debilidades e se fundiu novamente com o IKD no começo de 1974, para formar a Spartacusbund. O núcleo original da seção alemã da Tendência Espartaquista Internacional foi constituído por várias forças oposicionistas de esquerda originadas na Spartacusbund.

O texto foi publicado na edição alemã da revista Spartacist, Número 1 (primavera de 1974), e (integralmente) em inglês no livro da Liga Espartaquista Lenin e o Partido de Vanguarda (1978, 1997). Para essa versão foi tomada a transcrição contemporânea do discurso gravado, com correções tipográficas.

***
 
Eu gostaria de saudar os camaradas da conferência do grupo Spartacus/BL. [Aplausos]. Esta é a terceira vez que tenho a oportunidade de vir à Europa: em Londres na conferência do Comitê Internacional de 1966, em Bruxelas, em novembro de 1970, na conferência do Secretariado Unificado. Em nenhuma dessas duas ocasiões eu fui espancado. [Risos]. Então desta vez eu venho a Essen.
 
Um camarada outro dia disse, em relação a um ponto considerando a Declaração de Princípios da Liga Espartaquista, que vocês não tem nada a aprender com a Liga Espartaquista. Nós acreditamos que nós temos muito a aprender com vocês. [Aplausos].
 
A razão pela qual nós fizemos um considerável esforço em nos conectarmos com o Spartacus/BL é o seguinte. Como disse Trotsky em 1929 e ainda é verdade hoje: a Alemanha é a chave para a Europa. Nos anos 60 houve uma considerável radicalização na Europa e pela primeira vez desde a Segunda Guerra Mundial emergiu uma camada da juventude originada do movimento estudantil que professa uma aparência revolucionária. A condição do proletariado alemão em 1945 era um dos elementos centrais desmoralizando o movimento trotskista mundial e lançando as bases para o pablismo. Milhares de jovens alemães com pensamento revolucionário representam um potencial precioso enquanto nos movemos para um período de novas e aprofundadas rivalidades inter-imperialistas. Se essa camada da juventude radical alemã não puder se inserir em seções avançadas do proletariado da Europa Central, na criação de uma nova formação partidária bolchevique, a relação de forças internacionalmente, entre o proletariado e os vários setores da burguesia, irá pender muito fortemente contra nossa vitória na luta de classes.
 
A não ser que essa camada da juventude alemã, que não é apenas o Spartacus/BL (e provavelmente o maior centro de gravidade está na juventude maoísta), possa interceder nas seções avançadas da classe trabalhadora alemã para construir um novo partido bolchevique de combate na Europa Central, o equilíbrio de forças entre a burguesia imperialista e o proletariado nas agudas lutas de classe nesse período irá pesar contra nós.
 
Como o último orador antes de mim atestou, o Spartacus/BL não tem falta de energia ou auto-confiança. [Risos e aplausos].
 
Nós vemos dois problemas em paralelo internacionalmente entre aqueles que professam serem trotskistas. Um não é o que ocorre aqui. É o bolchevismo formal com todas as lições formais propriamente assimiladas, representado por tais formações como o POUM espanhol, a OCI francesa, o POR boliviano. O problema, e não é uma questão definitivamente fechada, é que enquanto esses camaradas dominaram, até mesmo de uma maneira que vocês ainda não dominaram, o formato de uma organização bolchevique, eles minimizaram o seu conteúdo. Eles não vêem a frente única e todos os seus fenômenos relacionados – isto é, entrismo em outras formações operárias reformistas, processos de reagrupamento e similares – como a forma pela qual, para citar Trotsky, “a base proletária deve ser lançada contra sua liderança burguesa”. Ao invés disso, eles buscam embaçar o partido dentro da frente única, esperando, por exemplo na França, que o Partido Socialista e o Partido Comunista atinjam de alguma forma, por se unirem organizativamente, uma linha proletária revolucionária. Eles cancelam o papel que os bolcheviques tem a cumprir.
 
Nós vemos um problema diferente com a sua organização em particular, e essa é uma tendência de voltar à aparência política e formal da socialdemocracia russa como era em torno de 1903. Até onde alguns de vocês fazem isso de maneira ingênua, isso pode ser superado através de disputa política. Mas aqueles entre vocês que deliberadamente ignoram a experiência da revolução de outubro, a fundação da Internacional Comunista e tudo que veio depois – os primeiros quatro congressos da Comintern, a luta da Oposição de Esquerda trotskista – aqueles dentre vocês que viram as costas para isso, já são pequenos e oportunistas Kautskys embrionários.
 
Deixem-me explicar no que acreditamos ser o papel central e crucial da democracia partidária, sobre qual é a função da democracia interna, a chamada liberdade de criticar internamente, entre os revolucionários mais antigos. Por vezes se encontra, mesmo dentro do movimento trotskista, uma noção de que a disputa interna e o papel das minorias é um luxo necessário, enquanto entre os stalinistas e maoístas, um luxo desnecessário, traiçoeiro e dispensável. Ainda com todos os erros dos Bolcheviques, eles ainda conseguiram liderar os trabalhadores russos em direção ao poder. Há uma série de coisas erradas com a questão. Em primeiro lugar, se parte da premissa que se tem o programa perfeito, que não contém erros nesse momento. É necessário entender que em determinado ponto na história, enquanto a vanguarda pode ter assimilado e generalizado as experiências do passado, o futuro não é idêntico. Dessa forma, nós devemos acreditar que assim como o Iskra entre 1900-1903 continha os germes dos futuros Bolcheviques e futuros Mencheviques, também na Liga Espartaquista nós contemos os pontos de partida para muitas possibilidades. E, uma vez que nós iremos enfrentar novas, cruciais e inesperadas viradas nas quais iremos aplicar nossa teoria e experiência acumuladas, nós devemos esperar que haverá possibilidades íngremes e imprevisíveis surgindo de tais disputas – disputas internas do partido. E existe a possibilidade para os camaradas que cometem erros, desvios, superá-los através do processo de luta, na luz de continuada experiência. É assim que é essa luta interna do partido não é algo estranho, ou importado, ou externo ou o produto de agentes inimigos, como reivindicam os stalinistas.
 
Assim, a disputa interna do partido é uma necessidade. É necessário para um partido que deseja ser viável como um partido proletário revolucionário. Isso é uma coisa. As coisas são diferentes para aqueles que ignoram completamente as experiências previamente acumuladas do movimento marxista revolucionário e que se recusam a operar num formato já desenvolvido programática e teoricamente.
 
Qualquer variante da concepção kautskista do “partido de toda a classe” é uma posição completamente não-revolucionária e, em última instância, contra-revolucionária. O mais recente e mais amplo representante dessa espécie de revisionismo é Max Shachtman. O maior artigo recente que ele escreveu se intitula “Comunismo Americano: um Exame do Passado”. Ele encontra o pecado original do comunismo nos rachas à esquerda da socialdemocracia que ocorreram durante e após a Primeira Guerra Mundial, criando uma divisão na expressão política do proletariado. Ele descobre a causa desses rachas numa mudança do entendimento do papel do reformismo, do oportunismo, pelos revolucionários socialistas dentro do movimento da classe trabalhadora.
 
Shachtman cita Lenin muito favoravelmente ao longo do período de 1908. Em particular, ele observa que se os revolucionários tivessem simplesmente seguido a regra de “liberdade para criticar, unidade na ação”, a unidade do partido proletário poderia ter sido preservada. Ele argumenta que naquele tempo Lenin tinha um entendimento do oportunismo como um aspecto transiente, efêmero, secundário do movimento dos trabalhadores. Em particular, ele preza Lenin por defender que naquelas regiões onde os Bolcheviques estivessem em minoria, eles deveriam se subordinar aos Mencheviques e votar pelo partido Cadete [Constitucional Democrata] (onde os Bolcheviques tivessem a maioria, Lenin prossegue, eles deveriam ou votar por candidatos socialdemocratas ou, se não tivessem outra opção, se abster). Shachtman, por ter se tornado um socialdemocrata, não penetra na razão para a evolução nas visões da tendência Bolchevique. Ele meramente descreve as mudanças na posição leninista como uma forma de pecado original.
 
Nós estamos lidando, no período que vai da fundação do Iskra até a fundação do Partido Bolchevique em 1912, com a transformação da tendência Bolchevique de uma organização revolucionária socialdemocrata para uma organização comunista embrionária. O modelo para os socialdemocratas revolucionários russos no período inicial era a socialdemocracia alemã. Na determinação da ala bolchevique em conseguir uma revolução contra o czarismo, sua prática política veio antes de seu modelo teórico. E, é claro, sua prática organizativa chegou ainda mais tarde e foi altamente empírica sob condições clandestinas.
 
Era possível que Lenin, durante o período da reunificação da socialdemocracia russa, 1905-1907, desenhasse conclusões sobre a disciplina de um partido de reformistas e revolucionários que seria rejeitada de imediato por qualquer leninista hoje. Isso não nos torna mais espertos que Marx ou Lenin, isso significa meramente que nós somos capazes de enfrentar questões políticas atuais na luz da experiência deles.
 
Entre parênteses, uma das nossas principais diferenças com Healy e Wohlforth reside nesse ponto. Para Healy (e palavras me faltam para descrever a qualidade da arrogância em tal pressuposto), a cada dia e a cada novo acontecimento, ele se torna cada vez melhor – inclusive melhor do que Lenin.
 
A verdade é historicamente condicionada; isto é, o semblante do movimento comunista nos primeiros quatro congressos da Internacional Comunista se ergueu sobre um levante histórico e bem sucedido do proletariado revolucionário.
 
Um rompimento teórico e uma generalização comparável acompanharam essa massiva conquista revolucionária….
 
Dessa forma, o desenvolvimento teórico da vanguarda proletária no período 1919-23 da Internacional Comunista esteve no alto de uma montanha. Mas desde aquele tempo, desde o período da Oposição de Esquerda trotskista até a sua morte e posteriormente, o proletariado tem testemunhado principalmente derrotas, e a vanguarda revolucionária ou tem diminuído ou sua continuidade tem se perdido em muitos países. Não se pode separar a habilidade de conhecer o mundo da habilidade para modificá-lo, e a nossa capacidade de mudar o mundo só pode ser comparada em muito pequena escala aos dias heróicos da Internacional Comunista.
 
[Troca da fita]
 
Ao mesmo tempo, uma das grandes conquistas dos Bolcheviques foi reconhecer que um racha político na classe trabalhadora é uma precondição para a revolução proletária. Os Bolcheviques tinham chegado a essa conclusão em 4 de agosto de 1914, mas eles não tinham generalizado isso nem teoricamente e nem internacionalmente. A esquerda revolucionária alemã desse tempo pagou com a perda de seus líderes, Luxemburgo e Liebknecht, e uma revolução perdida por sua falha em assimilar essa lição. 
 
Movimentismo e “Liberdade de Criticar”
 
Nós apresentamos para vocês, camaradas, em nossas saudações escritas à sua conferência, uma certa definição do nosso entendimento da forma de organização leninista: “Nós declaramos que o princípio fundamental para os comunistas é aquele da luta entre os camaradas para ganhar a maioria para o seu programa, e que qualquer um que busque mobilizar forças de consciência atrasada e elementos externos da classe de fora da organização marxista revolucionária para poder ascender dentro de tal organização não é um comunista”. Partir dessa concepção significaria imediatamente levar à organização dos setores de consciência mais atrasada da classe contra o partido, especialmente a sua maioria. Eu digo isso em conexão com o slogan “liberdade de criticar, unidade na ação” empregado no partido unitário Bolchevique-Menchevique de 1906. A longo prazo ele necessariamente leva a dissolver o partido de volta à classe como um todo.
 
Nos Estados Unidos, somos familiares com uma espécie particular de movimentismo, os semi-sindicalistas como o grupo de Ellens (relacionado ao Lutte Ouvrière) e a linha majoritária da Tendência Leninista, que tem uma concepção de que a classe trabalhadora, em suas condições naturais, tem uma essência puramente revolucionária. Agora foi lançado um excelente livro chamado A formação da classe operária inglesa, de E.P. Thompson, e nos parágrafos de abertura ele faz a observação de que a classe trabalhadora não pode ser descrita como uma classe desassociada da sociedade capitalista. Ela só pode ser vista no contexto, não apenas da economia, mas das relações sociais da sociedade como um todo. Há setores de consciência atrasada na classe trabalhadora. Os trabalhadores que apóiam a socialdemocracia na maioria dos países são relativamente avançados, como é o caso dos trabalhadores que apóiam os partidos stalinistas onde eles são partidos de massa.
 
Em uma classe trabalhadora como a dos Estados Unidos, amplos setores dos trabalhadores são muito atrasados de fato. Mas eles são atrasados do ponto de vista dos interesses históricos representados pela vanguarda proletária. Eles são adiantados em termos de idéias burguesas. Religião, alcoolismo, machismo e as mais virulentas formas de racismo são manifestações predominantes na ausência de luta de classes e sem a presença de uma vanguarda proletária. Os movimentistas se recusam a ver tudo isso e, no lugar, vêem um proletariado puro, descontaminado e isolado. Ao mesmo tempo, eles vêem o partido de vanguarda como uma mistura de trabalhadores radicais e intelectuais radicais que podem ser não tão diferentes de sua classe de origem.
 
O principal partido internacional dos Socialistas Internacionais (IS), a organização britânica de Tony Cliff, se tornou recentemente movimentista. A IS, como uma coleção dos melhores centristas do mundo, segue avidamente cada novidade política. Até poucos anos atrás, eles eram pró-Partido Trabalhista e seu jornal se chamava Operário Trabalhista. Hoje eles são bastante opostos ao Partido Trabalhista Britânico, negando que ele tenha qualquer caráter de classe operária, e agora chamam seu jornal de Operário Socialista (os pablistas fizeram algo parecido na Europa nos últimos três ou quatro anos).
 
Isso foi apenas uma prévia da atual visão de Tony Cliff.
 
Com a intenção de se unir à alma dos trabalhadores (enquanto se posiciona contra o malvado Partido Trabalhista, que ele certa vez idolatrou), ele escreveu um artigo chamado “Trotsky sobre Substituísmo” [no livro dos IS Partido e Classe], do qual eu gostaria de ler uma citação:
 
“Uma vez que o partido revolucionário não pode ter interesses que não sejam os da classe, todos os assuntos políticos do partido são aqueles da classe e eles deveriam portanto ser trabalhados abertamente na sua presença. A liberdade de discussão que existe numa reunião de fábrica, que busca a unidade de ação depois que as decisões são tomadas, devem se aplicar ao partido revolucionário. Isso significa que todas as discussões sobre questões básicas devem ser feitas na luz do dia, na imprensa aberta. Deixem as massas de trabalhadores tomar parte na discussão. Ponham pressão sobre o partido, seu aparato, sua liderança.”
 
É um pouco estranho saber o que dizer sobre isso. A idéia de que toda a classe, em todo o seu atraso de consciência setorial, racial, nacional, deve ser o júri para decidir questões de estratégia revolucionária é espantosa. Num sindicato, que é uma forma de frente única econômica, ou em uma frente única política, está claro que é necessário que todos os participantes mostrem suas críticas abertamente. Mas a idéia de que trabalhadores que seguem padres, trabalhadores que são stalinistas, trabalhadores que pertencem a partidos socialdemocratas, deveriam pôr pressão para determinar a política dos marxistas revolucionários é uma idéia que irá manter o poder da burguesia até o dia em que uma bomba termonuclear elimine de vez a questão. 
 
“Exceções” ao Centralismo Democrático
 
Em nossas saudações à sua conferência, nós falamos de certas circunstâncias excepcionais em conexão com a aplicação do centralismo democrático entre os revolucionários….
 
Entre as circunstâncias excepcionais está a situação na qual o formato do partido não impede, por breve período, um programa marxista revolucionário. No período após o fim da Primeira Guerra Mundial, diversos partidos grandes da Internacional Socialista romperam, com grandes seções, frequentemente maiorias, indo para a Terceira Internacional. França, Alemanha, Checoslováquia, Itália e Estados Unidos vêm à mente. Também foi ganha a ala esquerda do PPS polonês. No período dessa transição, havia apenas essa separação de forma entre partido e programa.
 
Outra circunstância comparável seria quando os revolucionários entram numa formação política reformista ou centrista. Aí, também, nós lutaríamos pelo máximo de liberdade na discussão pública e pelo mínimo de unidade de ação. Ainda outra circunstância excepcional seria quando a divisão entre o interno e o externo se tornou difusa, como em verdadeiros partidos de massa, especialmente aqueles no poder. Um terceiro caso aparece num documento que eu acabo de ter em mãos intitulado “Sobre o Princípio do Centralismo Democrático: Liberdade de Criticar, Unidade na Ação”. Trotsky é citado ao escrever “A história inteira do bolchevismo é aquela da livre disputa entre tendências e frações”. Essa é uma citação perfeitamente verdadeira, mas ela está fora de contexto porque todas as vezes nesse período (como até mesmo Barbara Gregorich, da Fração Leninista, que fez a pesquisa, admite) Trotsky falava da liberdade de discussão interna.
 
Aqui está uma citação que torna isso mais claro. Nos Escritos 1932-1933 de Trotsky, falando dos oposicionistas russos, ele comenta “Eles eram sujeitos à perseguição apenas por terem criticado a política da tendência da liderança dentro dos limites internos que haviam constituído o elemento vital da democracia do Partido Bolchevique”. Também no artigo que eu tinha em mãos havia outra citação tirada do Programa de Transição. Ela diz, “Ohne innere Demokratie gibt es keine revolutionäre Erziehung”[Sem democracia interna não existe educação revolucionária]. Para mim, “ohne innere Demokratie” significa “sem democracia interna”.
 
Mas a lista de circunstâncias excepcionais se esgotou. Houve o racha projetado de Shachtman e Burnham do Partido Socialista dos Trabalhadores (SWP) em 1940. Ele dividiu o SWP pela metade na véspera da Segunda Guerra Mundial. Muitos na juventude que seguiram Shachtman e Burnham acreditavam que eles não estavam envolvidos em nenhum revisionismo, mas que estavam construindo um partido revolucionário maior, melhor e mais rápido. Trotsky e Cannon, num esforço para manter durante um pequeno espaço de tempo o estado de unidade formal, fizeram várias concessões substanciais numa tentativa de reter a minoria. Não houve, é claro, nada que detivesse a minoria, mas a maioria de Trotsky deixou claro que essas eram concessões especiais e episódicas numa tentativa de dar àqueles na minoria uma chance, sob condições organizativas mais abertas, para reconsiderar. Foi como quando vocês quiseram fazer concessões especiais ao IKD quando eles se separaram como uma minoria ampla. Mas até um boletim especial interno, que é muito menos que a apresentação pública das diferenças, não é uma condição estável ou saudável na vida interna do partido.
 
Eu estive em uma organização que teve tais garantias organizativas como uma posição permanente. Foi a Liga Socialista Jovem, o grupo jovem de Shachtman entre 1954-57. Os seguidores de Shachtman tinham posto diversas declarações democráticas sobre “liberdade de criticar” nas suas regras de organização para poder apelar aos liberais que tinham medo do bolchevismo totalitário. Ninguém nunca usava essas regras até que se formou uma ala de esquerda três anos depois. Nós então começamos a publicar o boletim da ala esquerda – não apenas internamente, mas um boletim público próprio. Não poderia haver nenhum outro significado, e ele tinha a intenção clara de ser um boletim de racha. Quando a disputa chegou ao fim, eles tiveram que colocar 22 emendas no seu regulamento. Mas está claro que essas novas restrições eram apenas para os trotskistas causadores de problemas. Os elementos socialdemocratas da ala direita poderiam continuar a praticar a liberdade de criticar.
 
Isso leva ao centro da questão. Por que, afinal de contas, vocês querem levar suas diferenças para fora da sua organização, para reunir os seus inimigos contra a sua organização? Shachtman também queria. Os liberais radicais norte-americanos tinham se virado de maneira aguda contra a Rússia após o pacto Hitler-Stalin. Aquele setor do SWP que foi mais sensível a essa opinião pública pequeno-burguesa queria provar que eles não eram tão ruins quanto outros trotskistas. E em tempos comuns é sempre desse jeito com aqueles que querem levar seus problemas para fora do partido revolucionário.
 
Em tempos de grandes turbilhões revolucionários, a massa da classe trabalhadora pode se elevar acima de um partido revolucionário inerte. Lenin enfrentou essa situação algumas vezes entre as revoluções de fevereiro e outubro. Quando ele se via diante da obstrução conservadora do comitê central, ele ameaçava levar a discussão aos trabalhadores. Isso não era liberdade de criticar dentro do partido: isso significava uma racha e a criação de um segundo partido, e Lenin sabia disso. Rachar não é crime, providenciando para que exista suficiente clareza política e necessidade de realizar um racha. Isso é parte do processo político vivo.
 
Eu agora gostaria de muito brevemente chegar ao assunto das relações internacionais. Nós tivemos uma explosão de separações na Liga Espartaquista no ano passado. Eu acredito que o camarada Hum declarou que nosso centralismo democrático se revelava na prática concreta como alguma forma de burocratismo típico de Healy ou algo do gênero, durante a discussão no ano passado. Eu gostaria de discutir isso um pouco mais concretamente. [Aplausos]. Na verdade, é claro, outra pessoa nos precaveu para nos mantermos longe de todo esse assunto organizativo batido que não trata de política, então eu pensei em virar a mesa e tratar disso concretamente. Entretanto, existe um significado político quando alguém se levanta e diz: “Paul Levi foi perseguido e eu também.” Nós tentamos por três vezes fazer análises políticas bem sucedidas dessa disputa por poder que ocorreu entre nós.
 
Eu quero dizer algo sobre a relação entre Vanguard NewsLetter, a Fração Leninista, a tendência separatista e, vai haver discussão, a organização de vocês…. O assunto é a combinação sem princípios, algumas vezes chamada mais familiarmente de “bloco podre”. Em algum lugar destas muitas páginas de anotações, eu tinha uma lista de todos os pontos, que até agora nós sabemos, que os vários camaradas desse bloco não tem em comum. Os separatistas evidentemente acreditam que Shachtman foi o melhor de si durante a luta de 1940 contra Trotsky. Eu acredito que os outros grupos citados não concordam com isso. Então nós temos o chamado pela “Quinta Internacional” da Fração Leninista, que parece argumentar essencialmente pelos mesmos termos da Oposição Operária da Rússia de 1921, que chamou nessa ocasião por uma Quarta Internacional.
 
Eu gostaria que houvesse tempo para discutir as implicações desse chamado por um lado e a posição do IKD, por outro, de construir a Quarta Internacional. Cada um do seu modo, compartilha algo em comum: uma negação da experiência do movimento revolucionário no mínimo, vamos dizer, de 1938 até hoje. Para cada um do seu modo, isso é irrelevante.
 
Outra contradição nesse bloco é que o Vanguard NewsLetter, de Turner, se vocês olharem bem, se devotou quase exclusivamente ao reagrupamento – isto quer dizer, a apelar por uma fusão aos membros e aos críticos da Workers League, do SWP, da Liga Espartaquista, etc. O camarada Hum descreveu a Liga Espartaquista como irrelevante porque ela apela a organizações cujos membros são irrelevantes à classe trabalhadora. O que isso faz de Turner, que apela para nós? A Fração Leninista, é claro, tem uma perspectiva bem diferente. Ela pode muito bem seguir a direção de Ellens e sepultar a si própria como ela fez genuinamente, mergulhando no nível de consciência da classe trabalhadora.
 
Alguns dos separatistas, no mínimo, já foram para fora do campo do comunismo. No entanto, a sua organização tem um recorde de favoritismo por essas pessoas. Dois dos seus camaradas trabalharam politicamente e intimamente com Moore neste verão, por trás das costas da Liga Espartaquista. Vocês camaradas, eu acredito, olham com aprovação para uma fusão destes heterogêneos grupos do VNL, Fração Leninista, os separatistas e, possivelmente, purgando a Liga Espartaquista de sua direção e trazendo os elementos de esquerda para essa fusão. O ponto não é que esse esquema não faz nada além de um apelo emocional, é que nós gostaríamos de dizer – e de fato nós vamos contar para vocês – qual programa tal formação pode ter. Isto é, o que vocês teriam criado seria apenas uma IS de segundo nível.
 
Eu indiquei que é possível para organizações cometerem erros, até mesmo erros muito profundos e se recuperarem deles. Trotsky esteve no bloco de agosto. Era um bloco muito ruim. Ele foi concebido originalmente na base de uma idéia aparentemente muito boa. Isto é, ignorando toda a experiência da primeira revolução russa, reunir todas as tendências socialdemocratas e ver se o partido não poderia ser reunificado. Uma conferência foi chamada e todas as tendências convidadas. A maior parte dos Bolcheviques se recusou a comparecer. Dessa forma, aqueles que foram, ainda que não fosse sua vontade talvez, adquiriram, como um todo, um caráter decisivamente anti-bolchevique. Alguns bolcheviques de ultra-esquerda estavam lá, e proeminentes membros independentes do partido, como Trotsky. Eu acredito que Trotsky posteriormente descreveu este como o maior erro político da sua vida. Mas há uma condição prévia para ter a possibilidade de superar erros políticos. E essa condição é uma implacável vontade de reconhecer a verdade da situação, não importa quanto constrangimento venha a causar aos seus aliados. Vocês podem acreditar que o bloco nos Estados Unidos é melhor do que nós. Isso é assunto para uma discussão. Mas vocês continuarem insistindo, para poder justificar essa crença, que certos elementos de clara deslealdade em relação a vocês são verdadeiros, então isso não é de fato um erro, mas um ato voluntário de oportunismo. Eu acredito que vocês, camaradas, publicaram em seu boletim internacional uma leitura dos eventos dentro da Liga Espartaquista que é, por documentos conhecidos por vocês e certificados pelos separatistas, demonstradamente falsa. Eu tenho uma página de citações aqui que eu gostaria de dividir com o seu comitê central.
 
Não há de fato tempo suficiente para ler e traduzí-las agora. Mas eu quero apontar o fato de que esse material é, ao menos agora, e deveria ter sido no tempo em que foi publicado, conhecido por vocês, como sendo não simplesmente falso, como um erro, mas voluntariamente falso e, além do mais, materiais que não são uma acusação de alguns erros e atos estúpidos da nossa parte, mas na verdade uma acusação de desonra da parte da Liga Espartaquista. Se nós permitíssemos que fosse publicada em um dos nossos boletins uma acusação dos nossos membros de que o Spartacus/BL tivesse ganho dinheiro do DKP para poder estorvar o SPD em sua campanha, vocês entenderiam como nós nos sentimos. Mas há muitas coisas no mundo que nós não gostamos e que não significam muito. A questão é realmente em termos do seu futuro político, porque se vocês não puderem encarar a realidade (não é por nada, inclusive, que numerosas publicações revolucionárias usam palavras como Pravda La Vérité [A Verdade]) – se vocês não puderem encarar a realidade, então há uma voluntariedade, um oportunismo, uma súplica de seguir a alma da ala direita que descansa por trás da sua ação, ou das ações de alguns de vocês.
 

Para concluir, camaradas, nós levamos o seu futuro muito a sério porque está sobre vocês a responsabilidade de criar um partido maior para a revolução mundial. Se vocês vão ou não fazer isso, isso cabe a vocês decidir.

 
Bibliografia
 
Ao longo do texto foram traduzidos do original em inglês, russo e alemão, tanto os títulos das fontes quanto os trechos citados como forma de facilitar a compreensão para o leitor de língua portuguesa. A seguir, estão as fontes originais em inglês, russo e alemão.
 
Baron, Samuel H., Plekhanov, Father of Russian Marxism (Stanford, 1963)
Cliff, Tony, Lenin – Volume 1: Building the Party (Londres, 1975)
Dan, Theodore, The Origins of Bolshevism (Nova Iorque, 1970)
G., Barbara, Democratic Centralism (Chicago, 1972)
Gankin, Olga Hess e Fisher, H.H., eds., The Bolsheviks and the World War (Stanford, 1940)
Getzler, Israel, Martov: Political Biography of a Russian Social Democrat (Londres, 1967)
Geyer, Dietrich, “Die russische Parteispaltung im Urteil der deutschen sozialdemokratie 1903-1905”, International Review of Social History, 1958
Haimson, Leopold H., The Russian Marxists and the Origins of Bolshevism (Cambridge, 1955)
Kautsky, Karl, The Road to Power (Nova Iorque, 1909)
Keep, J.L.H., The Rise of Social Democracy in Russia (Londres, 1963)
Lenin, V.I., Collected Works (Moscou, 1960)
Luxemburg, Rosa, Leninism or Marxism? (Ann Arbor, 1961)
McNeal, Robert H., ed., Resolutions and Decisions of the Communist Party of the Soviet Union, Volume 1: The Russiam Social Democratic Labour Party (Toronto, 1974)
Marie, Jean-Jacques, introdução a Que faire?
Marks, Harry J., ”The Sources of Reformism in the Germn Social-Democratic Party, 1890-1914,” Journal of Modern History, 1939
Nettl, J.P., Rosa Luxemburg (Nova Iorque, 1966)
Piatnitsky, Osip, Memoirs of a Bolshevik (Westport, Connecticut, 1973)
Plekhanov, G.V., Selected Philosophical Works, Volume 1 (Moscou, 1961)
Preobrazhensky, Evgenyi, ”Marxism and Leninism” Molodoya Gvardiya (Moscou), 1924, edição comemorativa especial
Red Weekly (Londres), 11 de novembro de 1976, ”The Bolshevik Faction and the Fight for the Party”
Schapiro, Leonard, The Communist Party of the Soviet Union (Nova Iorque, 1971)
Schorske, Carl, German Social Democracy 1905-1917 (Cambridge, 1955)
Slaughter, Cliff, Lenin on Dialetics (Nova Iorque, 1971)
Trotsky, Leon, In Defense of Marxism (Nova Iorque, 1973); My Life (Nova Iorque, 1970); Stalin: An Appraisal of the Man and His Influences (Nova Iorque, 1970); ”Unsere politischen Aufgaben,” Schriften zur revolutionaren Organisation (Hamburgo, 1970)
Walling, William English, ed., The Socialists and the War (Nova Iorque, 1915)
Wolfe, Bertrarn, Three Who Made a Revolution (Nova Iorque, 1948)
Zinoviev, Gregori, History of the Bolshevik Party: From the Beginnings to February 1917 (London, 1973); Der Krieg und die Krise des Sozialismus (Vienna, 1924) [transcrito na New International (Nova Iorque) 1939-1942]

Os comentários estão desativados.