Carta de Rompimento de Sam Trachtenberg com a Liga Espartaquista

Entendendo a Rússia Direito

A carta a seguir foi distribuída em um evento do Comitê de Defesa Partidário [grupo de defesa de presos políticos estimulado pela Liga Espartaquista] em Nova Iorque em dezembro de 1994 e foi reimpressa em “1917” [revista da Tendência Bolchevique Internacional] número 16, em 1995. É uma versão expandida da intervenção planejada por Samuel Trachtenberg (sua intervenção não foi aceita) no debate público entre Joseph Seymour (SL) e Ernest Mandel (SU) dois meses antes. A versão em português foi realizada em julho de 2011 por Rodolfo Kaleb e Leandro Torres a partir da versão disponível no site do Reagrupamento Revolucionário.

9 de Dezembro de 1994
Ao Comitê Editorial de Workers Vanguard [jornal da Liga Espartaquista]

Caros camaradas,

A Liga Espartaquista argumenta num livreto recentemente publicado (Iugoslávia, Europa Oriental e a Quarta Internacional: A Evolução do Liquidacionismo Pablista, escrito por Jan Norden) que um dos precedentes históricos que levou à ascensão do revisionismo de Ernest Mandel foi a incapacidade da Quarta Internacional de compreender as transformações sociais na Europa Oriental do pós-guerra. Entretanto, mais de três anos desde agosto de 1991, a SL ainda não é capaz de dizer quando a URSS deixou de ser um Estado operário.

A SL diz que Ieltsin realizou uma “consolidação gradual de um Estado capitalista” (WV número 564). Na prática isso poderia significar que a Rússia era 80% Estado operário e 20% Estado capitalista, depois 40% Estado operário e 60% Estado capitalista, etc. Isso é ridículo! Revolução e contra-revolução não são processos graduais. Dizer isso vai contra os ensinamentos marxistas sobre o Estado. Somente uma classe pode deter o poder de Estado por vez. A classe capitalista ou a classe operária. A SL costumava entender isso: em “A Gênese do Pablismo” ela escreveu, sobre a teoria de Ernest Mandel da revolução, que “a ‘revolução’ foi implicitamente redefinida como um processo metafísico de duração contínua e progredindo inevitavelmente em direção à vitória, ao invés de uma confrontação brusca, e necessariamente limitada no tempo, sobre a questão do poder de Estado, cujo resultado irá moldar todo o período histórico subsequente” (Spartacist, número 21, outono de 1972).

Nos anos 1960, Joseph Hansen e os pablistas disseram que os países como a Argélia tinham “governos operários e camponeses” presidindo acima de Estados burgueses, que iriam, eles formulavam, gradualmente se transformar em ditaduras proletárias. Nos anos 1980, o Partido dos Trabalhadores Socialistas [SWP norte-americano] usou essa formulação para descrever a Nicarágua. Anos antes, Jim Robertson [dirigente da SL] corretamente observou: “nós deveríamos ser claros sobre o que significa um governo dos trabalhadores. Não é nada além da ditadura do proletariado” (“Sobre a Frente Única”, Boletim Jovem Comunista número 3, 1976). Agora a SL está implicando que, num modelo similar, a URSS sob Ieltsin era inicialmente um Estado operário com um governo burguês, que foi gradualmente transformado num Estado burguês em algum ponto posterior desconhecido?

Se, como a SL diz, programa gera teoria, que programa teria gerado a teoria da “contra-revolução gradual” na URSS? Trotsky teria denunciado isso como “reformismo ao contrário”. A resposta é que em agosto de 1991, quando a contra-revolução realmente triunfou, a SL se absteve do confronto entre Ieltsin e os golpistas stalinistas, ou seja, não apoiou nenhum dos lados militarmente. A sua teoria tenta encobrir isso negando o significado da vitória de Ieltsin, mas eles próprios escreveram no documento de sua recente conferência internacional: “Os eventos de agosto de 1991 (‘golpe’ e ‘contragolpe’) parecem ter sido decisivos na direção dos desenvolvimentos na União Soviética”, adicionando “mas apenas aqueles que estão sob o ritmo da ideologia capitalista teriam sido apressados para chegar a essa conclusão” (Spartacist número 47-48, inverno de 1992-93). Isso significa que a SL sabe que está errada, mas se recusa a admitir isso. O que torna tão difícil que a SL admita ter errado é o fato de que um dos seus principais adversários no movimento operário, a Tendência Bolchevique Internacional, estava certa ao estar do mesmo lado do golpe stalinista em defesa das conquistas de Outubro, e ao reconhecer sua derrota como a morte do Estado operário soviético. Trotsky chamou esse tipo de política da SL de “política de prestígios”. Qualquer organização que ponha o prestígio de sua liderança acima de dizer a verdade para a classe trabalhadora perdeu o seu propósito revolucionário.

Qual foi a base para esse erro? No livreto citado acima sobre a Iugoslávia e a Quarta Internacional, Jan Norden argumenta corretamente que, enquanto era uma tarefa estratégica importante para o movimento trotskista defender a União Soviética, sua linha estratégica era revolução socialista mundial. A ideia de que a linha estratégica do movimento operário deveria ser a defesa da URSS é uma concepção pablista ou stalinista. No entanto, essa concepção implícita da divisão do mundo entre dois blocos tendeu a colorir a visão da SL durante a maior parte dos anos 1980. A partir disso, eles tiraram a conclusão, como foi colocado numa edição recente de Spartacist Canada (número 100) que o que existia era um “mundo bipolar – polarizado entre o mundo imperialista e o bloco soviético”. Essa polarização, entretanto, era apenas um reflexo da luta de classes global entre trabalhadores e capitalistas, e não a substituía. A SL, no entanto, começou a ver virtudes revolucionárias na burocracia stalinista. Isso se mostrou quando, por exemplo, eles se autoproclamaram a “Brigada Yuri Andropov” e depois escreveram um poema para Yuri Andropov [chefe do Partido Comunista da União Soviética entre 1982-84], carrasco da revolução húngara de 1956, dizendo, entre outras coisas, que ele “não cometeu nenhuma traição aberta em nome do imperialismo” (WV número 348, fevereiro de 1984).

Enquanto reconhecia o caráter dual da burocracia stalinista, e rejeitava a visão de que ela era absolutamente contrarrevolucionária, a SL rejeitou também na prática a análise de Trotsky de que a casta burocrática stalinista era “em essência representante de uma tendência em direção à restauração do capitalismo” (“Contra o Revisionismo Pablista”, citado no documento de Norden). A concepção da SL sobre a burocracia stalinista estava evoluindo em direção a vê-la como comunistas subjetivos com um programa insuficiente. Na verdade, a burocracia era, na maior parte, um bando de carreiristas cínicos que defendiam a União Soviética apenas para defender os seus privilégios, não por crença baseada em princípios numa sociedade igualitária e sem classes. A estratégia da SL era orientada nem tanto para a classe trabalhadora, mas para a “Fração Reiss” dentro da burocracia stalinista, que ela pensava que iria emergir espontaneamente. Assim, na RDA (Alemanha Oriental), eles procuravam uma seção da burocracia stalinista para liderar uma “revolução política” inexistente, levantando o slogan de “unidade com o SED [Partido Socialista Unificado, de orientação stalinista]”. Quando, ao invés de serem o baluarte do defensismo soviético, os stalinistas por toda a Europa Oriental, ou participaram, ou capitularam sem luta diante da restauração do capitalismo, a SL se sentiu traída. As ações dos stalinistas não deveriam ter vindo como uma surpresa para marxistas genuínos. Afinal de contas, o próprio Trotsky escreveu que “uma restauração do capitalismo provavelmente teria que expurgar menos pessoas (do aparato de Estado) do que um partido revolucionário” (citado em Como o Estado Operário Soviético Foi Estrangulado). Quando, em agosto de 1991, uma seção da burocracia stalinista finalmente se levantou em defesa dos seus privilégios, a SL se absteve.

Enquanto eu estive no Clube Juvenil Spartacus [organização de juventude da Liga Espartaquista], membros da SL me disseram em resposta a alguns dos meus argumentos, que “consolidação gradual” do poder de Estado não tinha a intenção de ser um prognóstico histórico, mas meramente descrevia o que aconteceu. Pode ser que isso faça lembrar aqueles trotskistas nos anos 1950 que tinham a descrição teoricamente incorreta de que o stalinismo era absolutamente contrarrevolucionário. Sob circunstâncias históricas diferentes, eles acabaram no lado errado das barricadas da Guerra Fria. Da mesma forma, sob circunstâncias históricas diferentes, o erro teórico da SL poderia levá-la a começar a falar sobre “reformas estruturais” [no Estado burguês], assim como Ernest Mandel. Se não corrigida ao longo do percurso, uma teoria errada leva a um programa errado.

Apesar do que disseram Michel Pablo, Joseph Hansen e Ernest Mandel, não existem marxistas inconscientes. A crise da humanidade é a crise de liderança revolucionária, mas a ICL [Liga Comunista Internacional, organização internacional dirigida pela Liga Espartaquista] não é capaz de ser a base para essa liderança. Como ex-membro do Clube Juvenil Spartacus, eu agora apoio a Tendência Bolchevique.

Pelo Renascimento da Quarta Internacional,

Semeon G. [Samuel Trachtenberg]

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