Porque não apoiamos as greves da polícia?

Porque não apoiamos as greves da polícia?

Novembro de 2007

Nos primeiros dias do mês de novembro, o Encontro Nacional de Negros e Negras da Conlutas reafirmou a posição dessa entidade de apoiar todos os movimentos coorportivistas de policiais por melhores condições de salário e de “trabalho”. Apesar da intervenção do C.C.I [Comitê Comunista Internacionalista, organização predecessora do Coletivo Lenin, do qual se originou o Reagrupamento Revolucionário] ter atraído a simpatia de boa parte da base que ali estava, venceu a proposta defendida pelo PSTU segundo a qual o policial é um “trabalhador como outro qualquer”.

Conforme já dissemos em outro artigo, essa posição é reflexo da composição majoritariamente pequeno burguesa do PSTU e de sua opção por se construir nos setores mais favorecidos da classe recusando-se, por exemplo, a dar devida importância ao movimento popular. Além da falta de experiência diária com a opressão policial que sofrem setores mais oprimidos da classe, há um comportamento típico da pequena burguesia: recusar a experiência e as elaborações da classe trabalhadora em seus séculos de luta.

Trotsky dizia que “quando um trabalhador se torna policial, operou-se nele uma mudança de consciência”. O PSTU tenta contrapor-se a essa colocação dizendo que é preciso apoiar a polícia para, em uma situação revolucionária, provocar um racha em suas bases. É uma grande diferença com o trotskysmo. Uma diferença tão grande quanto aquela colocada por Nahuel Moreno no Livro “Revoluções do Século XX” segundo a qual Trotsky não havia previsto a necessidade de apoiar revoluções democráticas que instituíssem regimes democrático-burgueses.

Historicamente os revolucionários nunca tiveram a meta de provocar racha na polícia, mas sim na base proletária do exército. Isso porque a polícia é muito diferente. O exército é composto por oficiais oriundos da pequena burguesia e por soldados, cabos e recrutas provenientes da classe operária e que cumprem o serviço militar de forma obrigatória. Principalmente em época de grandes confrontos armados entre as burguesias de diferentes países, quando apenas os trabalhadores são enviados para os campos de batalha, existe ali um setor fértil para semear a revolta e a rebelião contra a oficialidade. A polícia , diferentemente, é composta por elementos que OPTARAM por ter uma profissão cuja única função é no dia a dia oprimir e chacinar os movimentos dos trabalhadores e os setores mais marginalizados da sociedade. No caso do Brasil, esses setores são os negros, mulheres e homossexuais. Essa é a grande diferença entre o exército e a polícia e é nisso que se baseia o pensamento trotskysta: quando um trabalhador decide seguir esse caminho é porque já se operou um convencimento ideológico.

Na Revolução Russa não houve racha de policias, mas sim dos Cosacos, que eram o setor proletário e oprimido do exército.

A direção do PSTU conhece essa diferença, porém escolheu o caminho de tentar confundir a vanguarda. No Encontro da Conlutas, para defender o apoio à Polícia Civil do Rio de Janeiro, usou o exemplo do marinheiro negro João Cândido, que liderou a Revolta da Chibata na Marinha. Optaram por esquecer que Marinha é diferente de Polícia e que João Cândido representava o setor oprimido da marinha que é muito diferente dos policias civis que invadem a favela de caveirão para chacinar negros.

Não satisfeitos, decidiram lembrar o trecho da “Internacional” que diz “Façamos greves de soldados, somos irmãos trabalhadores…” Dessa forma, defenderam que devemos nos solidarizar com as greves da Polícia Civil, pois seriam nossos “irmãos”.

Quando o trecho do Hino diz “Façamos greves de soldados” não se refere a polícia, mas sim aos soldados recrutados à força para, através do exército, empunharem fuzis. Por exemplo, se houvesse uma grande guerra que envolvesse o Brasil, milhares de jovens, inclusive ativistas políticos, seriam recrutados para as batalhas. Nossa obrigação seria, através da solidariedade operária, incentivá-los a fazer ali um movimento de insubordinação. Assim, estaríamos fazendo o que diz “A Internacional”. No caso da Polícia Civil, isso é muito diferente. Quando uma pessoa, sabendo qual é a função da polícia, opta por fazer um concurso para exercer essa função apenas para ganhar dinheiro, ela passa a ser inimiga da classe trabalhadora. Apoiar melhores salários e melhores “condições de trabalho” para a P.M ou para a Polícia Civil seria o mesmo que, na época da escravidão, estando todos nós na senzala, dizer que o capitão do mato deveria ser mais bem remunerado e que a suas “condições de trabalho”, ou seja, sua chibata deveria ser mais eficaz.

Não achamos que a direção do PSTU seja ignorante. Pelo contrário, sabem muito bem o que estão fazendo. A direção do PSTU fez a clara opção de mentir para tentar confundir a vanguarda e ganhá-la para sua política.

Essa política tem se expressado não apenas nos momentos de greves de policiais, mas também em atos políticos do movimento.

Recentemente, em uma passeata de estudantes no Rio de Janeiro, a polícia chegou ameaçando reprimir. Esse ato estava acontecendo poucos dias após a realização de uma grande chacina por parte da polícia. Aproveitando a presença da imprensa e tentando criar um fato político de repercussão, nós do C.C.I, juntamente com militantes da Frente de Oposição de Esquerda, que fazem militância contra a violência policial, puxamos a palavra de ordem: “Chega de chacina, polícia assassina”. A direção do PSTU, naquele momento, dividiu o ato tentando sufocar nossa palavra de ordem e puxou: “Você aí fardado, também é explorado”. Ou seja, ao invés de denunciar nos atos a corporação polícia como uma inimiga da classe, optou pr fazer a propaganda de que eles são explorados como nós e que, não devemos nos confrontar politicamente com eles, mas sim chamá-los para o nosso lado. Isso no momento que eles se preparavam para nos atacar.

Em momentos de refluxo do movimento, essa posição política equivocada pode parecer inofensiva, porém em ascensos ou em uma situação abertamente revolucionária, essa política pode levar à derrota e à perda física de boa parte da vanguarda.

Os militantes to PSTU que não fazem parte do setor pequeno burguês desse partido são os que têm melhores condições de compreender esses fatos. Desejamos que esses militantes reflitam sobre essa política e, a partir da reflexão, se dediquem a compreender o que é e a serviço de que projeto está a direção do PSTU.

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