Marxismo, feminismo e a libertação da mulher

Marxismo, feminismo e a libertação da mulher

Artigo originalmente publicado em inglês na revista “1917” nº 19 (1997), pela então revolucionária Tendência Bolchevique Internacional. Tradução para o português realizada pelo Reagrupamento Revolucionário em agosto de 2016. Para uma crítica à forma sectária como tal organização utilizava o conceito de “feminismo”, ver o texto do Reagrupamento Revolucionário “Sobre Marxismo e Feminismo” (março de 2009).

Apesar de todas as conferências internacionais e “declarações universais” a favor da igualdade da mulher, a vida da maioria das mulheres em todas as partes do mundo segue marcada por preconceitos e opressão social. A forma pela qual a supremacia masculina se impõe varia consideravelmente de uma sociedade para outra (e dentro das diferentes camadas sociais de uma mesma sociedade), mas em todas as partes se ensina aos homens que se considerem superiores e às mulheres se ensina a aceitar isso. Poucas mulheres têm acesso ao poder e aos privilégios sem que seja por meio de sua conexão com algum homem. A maioria das mulheres na força de trabalho paga estão sujeitas à carga dupla da escravidão doméstica e assalariada. De acordo com as Nações Unidas, as mulheres realizam dois terços do trabalho de todo o planeta e produzem em torno de 45% da comida – mas recebem apenas 10% de toda a renda e são donas de apenas 1% das propriedades (citado por M. French em The war against Women, 1992).

Desde sua origem, o movimento marxista tem defendido a igualdade de direitos para as mulheres, enquanto considerou que a opressão das mulheres (assim como a opressão racial, nacional ou qualquer outra) não pode ser erradicada sem antes derrubar o sistema social capitalista que a alimenta e mantém. Os marxistas afirmam que a libertação da mulher está ligada à luta contra o capitalismo porque, em última análise, a opressão sexual serve aos interesses materiais da classe dominante.

Enquanto marxistas e feministas frequentemente se encontram do mesmo lado nas lutas pelos direitos das mulheres, eles têm duas visões de mundo fundamentalmente incompatíveis. Feminismo é uma ideologia que parte da premissa de que a divisão fundamental da sociedade humana é entre os sexos, não a de classes. Ideólogas feministas consequentemente veem a luta por igualdade feminina como separada da luta pelo socialismo, que muitas descartam como uma mera forma alternativa de “patriarcado”.

Nas últimas décadas, escritoras e acadêmicas feministas têm chamado atenção para a variedade e extensão das práticas de supremacia masculina na sociedade contemporânea. Elas descreveram os mecanismos pelos quais a subordinação das mulheres é inculcada, normalizada e reforçada por meio de tudo, desde contos de fada a anúncios de televisão. As feministas tomaram a dianteira ao expor as várias formas de manifestação patológica do machismo na vida privada: do assédio sexual e do estupro até a violência doméstica. Antes da ressurgência do movimento das mulheres no fim dos anos 1960, essas questões recebiam pouca atenção de críticos sociais, fossem eles liberais ou de esquerda. Feministas também têm sido bastante ativas em campanhas internacionais contra a mutilação genital feminina na África, infanticídio feminino na China e a imposição do véu no mundo islâmico. Ainda assim, enquanto a análise feminista é frequentemente útil para chamar atenção sobre a penetração do machismo na sociedade capitalista, ela geralmente não faz a conexão entre a supremacia masculina e o sistema de cominação de classe que está na sua base.

Marxistas sustentam que o conflito de classes é a força motriz da história e rejeitam a noção de que há diferenças irreconciliáveis entre os interesses de homens e mulheres. Mas nós não negamos que homens sejam agentes da opressão das mulheres ou que, no quadro das relações sociais existentes, os homens “se beneficiam” dela tanto em termos materiais quanto psicológicos. Mas os benefícios que a maioria dos homens obtém com a desigualdade das mulheres são pequenos, vazios e transitórios, e os custos que os acompanham são substanciais.

“Empregos de confiança” para excluir as mulheres, desvalorização de trabalhos tradicionalmente “femininos” e diferenças salariais com base no sexo, enquanto parecem beneficiar os homens que são mais bem pagos e têm mais segurança empregatícia, na verdade exercem pressão para baixar os salários de forma geral. Esse fenômeno foi explicado por Frieda Miller, diretora do Escritório de Mulheres do governo dos Estados Unidos, pouco depois da Segunda Guerra Mundial:

“É um axioma da teoria dos salários que quando um grande número de trabalhadores podem ser contratados por taxas salariais menores do que as correntes, a competição dessas pessoas por emprego resulta ou na demissão de trabalhadores mais bem pagos ou na aceitação de salários menores pelos mesmos. Ao longo de um período de tempo, essa pressão tende a baixar o nível de todos os salários. A não ser que esse curso normal seja desviado por alguma ação, ela resulta em um nível mais baixo de salário para todos, com efeitos na redução do poder de compra e dos padrões de vida. Em razão do seu treinamento e habilidades recentes, decorrentes da guerra, as mulheres estão mais do que nunca em uma posição de serem usadas pelos empregadores inescrupulosos como forma de cortar os salários”

— Boletim do Escritório de Mulheres dos Estados Unidos n. 224, 1948 (citado por Nancy Reeves em ‘Mulheres ao trabalho’, em American Labor Mid-Passage, 1959).

O mesmo se aplica à discriminação salarial contra imigrantes, jovens e minorias raciais, ou qualquer outro setor da força de trabalho. Além de baixar os salários, o machismo – assim como o racismo, nacionalismo, homofobia e outras formas de ideologias atrasadas – obscurece os mecanismos de controle social e coloca os de baixo uns contra os outros, fornecendo um bastião para um sistema social hierárquico e intrinsecamente opressivo.

A estratégia marxista para unir todos os explorados e oprimidos pelo capitalismo é nitidamente contraposta à utopia reacionária de uma “sororidade” universal unindo mulheres independente de sua classe. Embora seja verdade que a opressão feminina é um fenômeno que perpassa todas as classes e afeta todas as mulheres, não apenas as que são pobres ou da classe trabalhadora, o nível de opressão e suas consequências são qualitativamente diferentes para membros de classes sociais distintas. Os privilégios e benefícios materiais desfrutados pelas mulheres da classe dominante fazem com que tenham um forte interesse em preservar a ordem social existente. Sua existência privilegiada é paga pela superexploração das suas “irmãs” nas fábricas do Terceiro Mundo. A única forma pela qual unidade feminina pode ser construída cruzando linhas de classe é subordinando os interesses das mulheres pobres, negras e da classe trabalhadora aos das suas “irmãs” burguesas.

Origens da ‘Segunda Onda’ do Feminismo

As feministas de hoje frequentemente afirmam pertencer à “segunda onda”. A “primeira onda” do feminismo foi aquela que lutou pelo acesso à educação superior, por direitos iguais de propriedade e pelo direito ao voto até a Primeira Guerra Mundial. A “segunda onda” do feminismo frequentemente é datada a partir da publicação de A Mística Feminina, o best-seller de 1963 de Betty Friedan, que contrastou a ideologia da “feminilidade” com a realidade de vida das mulheres. Em 1966, Friedan fundou a Organização Nacional pelas Mulheres (NOW na sigla em inglês), uma organização liberal pelos direitos das mulheres, baseada em profissionais de carreira, comprometida a “trazer as mulheres à plena participação nos espaços da sociedade americana já… NOW segue sendo a maior organização feminista nos Estados Unidos, mas seu apelo está limitado ao seu papel como grupo de pressão e auxiliar não oficial do Partido Democrata.

Outra tendência, mais radical, do feminismo contemporâneo, surgiu do Movimento de Libertação das Mulheres do fim dos anos 1960 nos Estados Unidos. Muitas líderes proeminentes do movimento de mulheres da Nova Esquerda (New Left) eram veteranas dos Movimentos pelos Direitos Civis contra a segregação racial nos estados do Sul. Elas estavam entre as milhares de jovens idealistas que tinham ido para o sul participar dos “verões da liberdade” de meados da década de 60, e se radicalizaram por meio da exposição às brutais realidades do capitalismo americano.

No fim dos anos 1960, muitas mulheres da Nova Esquerda começaram a questionar que a defesa retórica dos seus camaradas homens de libertação, igualdade e solidariedade contrastava agudamente com suas experiências no movimento. Esses sentimentos foram articulados por Marlene Dixon, uma jovem e radical professora de sociologia:

“Jovens mulheres têm se rebelado crescentemente não apenas contra a passividade e dependência de seus relacionamentos, mas também contra a noção de que devem funcionar como objetos sexuais, sendo definidas em termos puramente sexuais, em vez de humanos, e sendo forçadas a se empacotar e se vender como mercadorias no mercado sexual.”

“Os próprios estereótipos que expressam a crença social na inferioridade biológica da mulher lembram as imagens usadas para justificar a opressão dos negros. A natureza das mulheres, como a dos escravos, é retratada como dependente, incapaz de pensamento racional, infantil em sua simplicidade e carinho, martirizada e mística no papel de parceira sexual. Em sua forma benevolente, a posição inferior da mulher resulta em paternalismo; em sua forma malévola, numa tirania doméstica que por ser inacreditavelmente brutal.

— “Why women’s Liberation?”, Ramparts, dezembro de 1969.

Gloria Steinem: Sororidade e CIA

Nos primeiros dias do Movimento de Libertação das Mulheres, surgiu uma divisão entre aquelas que viam a luta pela igualdade feminina como parte de uma luta mais ampla contra a opressão e aqueles que enfatizavam a solidariedade feminina e a necessidade de permanecer organizativamente e politicamente “autônomas” de outras forças sociais.

Enquanto muitas líderes da “segunda onda” haviam tido sua primeira experiência política no Movimento pelos Direitos Civis e na Nova Esquerda, outras tinham passados menos honráveis. Gloria Steinem, a primeira editora de “Ms.”, a revista feminista de maior circulação nos Estados Unidos, tinha trabalhado com a CIA nos anos 1950. Ela estava envolvida na operação de uma frente “que financiava a presença de americanas em festivais juvenis amplamente dominados pela União Soviética”. De acordo com Sheila Tobias, uma participante descontente de uma dessas viagens (que depois ensinou estudos femininos na Cornell University), a CIA:

“Estava interessada em espionar os delegados americanos para descobrir quem nos Estados Unidos era trotskista ou comunista. Então, no fim das contas, éramos uma frente operativa”.

— Marcia Cohen, The Sisterhood, 1988.

Quando o passado de Steinem finalmente veio à luz, ela escolheu trata-lo de forma desavergonhada:

“Quando o financiamento pela CIA da agência que Gloria tinha cofundado no fim dos anos cinquenta foi exposto na imprensa, ela admitiu que a organização recebia fundos da CIA, negou ser uma agente e desconsiderou aquelas conferências em Helsinki como ‘o melhor momento da CIA’”.

— Idem.

Só as feministas mais combativas, como as da organização Redstockings de Boston (cuja fundadora Roxanne Dunbar era uma veterana do Movimento pelos Direitos Civis) denunciou Steinem pelo seu envolvimento com a CIA. Em sua maior parte, a sua conexão com a agência principal da contrarrevolução imperialista foi ignorada, ou considerada irrelevante, pela maior parte das feministas. Isso por si só diz muito sobre a política da “sororidade”.

O Feminismo Radical e o Determinismo Biológico

 

Outra feminista que começou sua carreira política no Movimento pelos Direitos Civis foi Shulamith  Firestone. No seu livro de 1970, A dialética do sexo, ela buscou construir a base teórica para o feminismo radical argumentando que a subordinação das mulheres era biológica, não social, em sua origem. A divisão sexual da humanidade em “duas classes biológicas distintas” era, argumentava ela, a origem de todas as outras divisões sociais. Parafraseando Marx, ela escreveu:

“A organização sexual reprodutiva da sociedade sempre forja a base real, a partir da qual nós podemos construir a explicação última de toda a superestrutura das instituições econômicas, jurídicas e políticas, assim como das ideias religiosas, filosóficas e outras de determinado período histórico”.

Se a raiz da opressão das mulheres está na anatomia, raciocinou Firestone, então a solução deve estar na tecnologia – o controle cada vez maior sobre a contracepção e, em última análise, gestação fora do útero. Firestone insistiu que sua análise era “materialista” Era um tipo de materialismo, certamente, mas de um tipo grosseiramente biológico. Enquanto ela buscou uma resolução histórica para a opressão masculina, as soluções oferecidas foram utópicas e mesmo apolíticas. Seu livro permaneceu influente – talvez porque ela tenha sido a primeira a adotar a visão feminista radical de que a biologia é determinante a uma conclusão lógica.

Enquanto não endossava as soluções de Firestone, o “Manifesto Redstockings” de 1970 concordava com a afirmação de que as mulheres são uma classe:

“As mulheres são uma classe oprimida… Nós identificamos os agentes da nossa opressão nos homens. A supremacia masculina é a forma de dominação mais antiga, mais básica. Todas as outras formas de exploração e opressão (racismo, capitalismo, imperialismo) são extensões da supremacia masculina: homens dominam mulheres, um punhado de homens domina a todos. Todas as estruturas de poder ao longo da história foram dominadas e orientadas por homens. Os homens controlaram todas as instituições políticas, econômicas e culturais e mantiveram esse controle por força física. Eles usaram o seu poder para manter as mulheres em uma posição inferior. Todos os homens recebem benefícios econômicos, sexuais e psicológicos da supremacia masculina. Todos os homens já oprimiram mulheres… Nós não vamos perguntar o que é ‘revolucionário’ ou ‘reformista’, só o que é melhor para as mulheres.”

— “Redstockings Manifesto”, em Sisterhood is Powerful, 1970

Os argumentos do feminismo radical são paralelos aos dos sociobiólogos reacionários que afirmam que a desigualdade social está “em nossos genes” e, portanto, tentar lutar contra ela é inútil. As feministas radicais frequentemente exigem separação e algumas vão tão longe a ponto de sugerir que mulheres que continuem “dormindo com o inimigo” devem ser consideradas suspeitas. Em Lesbian Nation: the Feminist Solution [Nação Lésbica: a Solução Feminista] (1973), Jill Johnson afirmou que:

“A satisfação sexual da mulher independentemente do homem é um sine qua non da revolução feminista…. Até que todas as mulheres sejam lésbicas, não haverá revolução política verdadeira.”

Socialismo e Sexismo

Em um artigo de 1970 intitulado “O Principal Inimigo”, Christine Delphy apresentou uma versão de “feminismo radical baseado em princípios marxistas” na qual os homens (e não o capitalismo) eram identificados como o principal inimigo. Delphy argumentou que, sem uma revolução independente das mulheres, mesmo em um Estado operário pós-capitalista os homens ainda teriam um interesse material em ver as mulheres realizarem o grosso das tarefas domésticas.

A noção de que a opressão à mulher continuaria sendo uma característica da vida no socialismo parecia óbvia para os radicais da Nova Esquerda, já que viam os Estados operários deformados da China, Vietnã do Norte, Cuba, Coreia do Norte e Albânia, economicamente atrasados e isolados nacionalmente, como sociedades socialistas. Embora as mulheres tenham obtido importantes ganhos nos lugares onde o capitalismo foi derrubado (um fato relembrado dramaticamente pelos efeitos devastadores sobre as mulheres após a contrarrevolução capitalista no bloco soviético), a burocracia dominante parasítica (e esmagadoramente masculina) nesses regimes policiais estalinistas promovia o papel “natural” da mulher como progenitora, mãe e dona de casa. Leon Trotsky destacou em “A Revolução Traída” que o aparato estalinista era um obstáculo para o desenvolvimento do socialismo e criticou “o interesse social do estrato dominante no aprofundamento da lei burguesa” relacionado às suas tentativas de fortalecer a família “socialista”.

O pessimismo feminista com relação às perspectivas para as mulheres no socialismo (em oposição ao estalinismo) refletem a inabilidade de compreender as origens históricas da opressão à mulher. Também revela o fracasso em apreciar as imensas possibilidades do reordenamento de prioridades sociais, de transformar cada aspecto das relações humanas que o socialismo abriria com a eliminação da escassez material. A expropriação revolucionária das forças produtivas e o estabelecimento de uma economia global planejada garantiria a maior parte das condições básicas de existência (comida, moradia, emprego, educação e saúde básica) para todas as pessoas do planeta.

Dentro de algumas gerações, a socialização da produção poderia oferecer a todos os cidadãos uma qualidade de vida e um nível de independência econômica desfrutado hoje apenas pela elite. Acesso a casas de veraneio, acampamentos de verão, instalações esportivas, culturais e educativas, que atualmente estão além dos meios da maior parte das pessoas, enriqueceriam imensamente as vidas da maioria da população. Conforme a sociedade se afastar da tirania do mercado, que só promove atividades que geram lucro privado, as pessoas terão um crescente leque de escolhas sobre como organizar suas vidas. O trabalho doméstico poderia ser reduzido substancialmente por meio de provisão social de creches, restaurantes e lavanderias de qualidade. Com o passar do tempo, a competitividade, ansiedade e insegurança da vida no capitalismo ficarão num passado distante e a conduta social se transformará.

A provisão de condições materiais para uma vida pessoal satisfatória, impossível sob a lei da maximização do lucro, seria simplesmente uma escolha racional para uma economia planejada. Assim como investir em programas de vacinação e sistemas de esgoto com subsídio público beneficiam todos os membros da sociedade, a garantia de uma existência produtiva e segura para cada indivíduo vai aumentar a qualidade de vida para todos, eliminando muitas das causas de comportamentos antissociais, doenças e distúrbios mentais.

Pode-se objetar que mesmo em meio à elite dominante, que já desfruta de abundância material, homens oprimem mulheres. Os marxistas reconhecem que embora reflita em última análise os interesses materiais de classes sociais particulares, ideologias também tem certa autonomia relativa. A condição geral das mulheres como cuidadoras não-pagas de filhos e trabalhadoras domésticas só pode ser justificada dentro dos limites de uma visão de mundo sexista que afete negativamente todas as mulheres, incluindo as da classe capitalista.

Os efeitos dessas ideias e práticas sociais não vão desaparecer imediata ou automaticamente quando as condições que lhes deram origem forem derrubadas. Será necessária uma luta ideológica e cultural contra o legado de atraso e ignorância herdado do passado. Mas enquanto a sociedade de classes reforça e promove a supremacia masculina, o racismo etc. a cada momento, em um mundo igualitário em que todos têm uma existência confortável e segura, a erradicação dos preconceitos será finalmente um projeto realizável.

Feminismo Socialista: Posição Intermediária Efêmera

O feminismo radical de Firestone, Redstockings e Delphy representava uma ala dos Movimento de Libertação das Mulheres no começo dos anos 1970. No outro extremo do espectro, centenas das melhores militantes entraram em várias organizações que reivindicavam o marxismo. Aquelas que ficaram em algum lugar no meio do caminho frequentemente se identificavam como “feministas socialistas”. Essa corrente, que provou ser uma posição intermediária efêmera, foi influente ao longo dos anos 1970, particularmente na Grã-Bretanha. Rejeitando o determinismo biológico do feminismo radical, as feministas socialistas tentaram desenvolver um modelo de “sistema dual”, que trata o capitalismo e o “patriarcado” como obstáculos separados, mas iguais.

O desejo de uma análise de “sistemas duais” foi amplamente aceita pelas feministas socialistas, mas surgem dificuldades para criar uma explicação plausível de como exatamente esses sistemas supostamente separados, mas paralelos, de opressão interagem. Outro problema complicado é de que forma uma análise do racismo, preconceito contra os mais velhos e várias outras formas de opressão social poderiam ser integradas no modelo dual capitalismo/patriarcado.

Nem puderam as feministas socialistas concordar sobre como exatamente o sistema do “patriarcado” deveria ser definido, ou o que o causava: brutalidade masculina? Ciúme? Inveja do útero e consequente obsessão masculina em manter o controle rígido sobre as funções reprodutivas das mulheres? Linguagem? Estruturas psicossexuais? Privilégios materiais? A lista é extensa e diferentes teóricas do patriarcado sublinharam ou combinaram todas as causas mencionadas acima e outras.

A atividade política das feministas socialistas, onde existiu, geralmente tinha uma orientação mais voltada para a classe trabalhadora do que a das feministas radicais, mas nas outras questões era amplamente similar. Os marxistas tradicionalmente têm favorecido a criação de organizações de mulheres, ligadas à classe trabalhadora e outros movimentos dos oprimidos pela ação de um partido revolucionário composto pelos mais dedicados e conscientes militantes de cada setor. Tal movimento de mulheres seria “autônomo” dos reformistas, capitalistas e burocratas sindicais traidores, mas seria organizativa e politicamente ligado à vanguarda comunista. As feministas socialistas, em contraste, compartilham com as feministas radicais a insistência de que apenas um movimento de mulheres autônomo (ou seja, inteiramente separado de organizações que incluam homens) poderia travar uma luta séria pela libertação feminina.

Mas isso também apresentou problemas quando aplicado ao mundo real. É impossível conceber um movimento que tente lançar uma luta séria contra o domínio capitalista sem mobilizar o apoio de cada elemento explorado e oprimido possível. Excluir metade da população, de cara, simplesmente com base no sexo, é uma garantia de derrota. Além disso, se alguém busca distinguir amigos de inimigos primariamente com base no sexo, então que atitude deve ser tomada com relação a mulheres que fazem parte de movimentos de direita, ou que se alistam como policiais ou fura-greves? E quanto às próprias mulheres da classe dominante? Dificilmente elas seriam aliadas naturais na luta pelo socialismo feminista.

Algumas feministas radicais buscaram “resolver” tais problemas declarando simplesmente que as mulheres que agem como homens (ou seja, agindo de forma autoritária) não são mulheres de verdade. Mas essa não era uma opção para feministas socialistas, que aspiravam a desenvolver uma visão de mundo mais científica. Uma década depois do colapso do movimento feminista-socialista, Lise Vogel, um dos seus expoentes de pensamento mais profundo, republicou um artigo que tinha sido originalmente publicado em 1981, intitulado “Marxismo e Feminismo: Casamento infeliz, separação conflituosa ou algo mais? ”. Na versão original, Vogel tinha evitado a questão espinhosa de como tratar inimigas de classe, mas na versão de 1995 ela não titubeou:

“As feministas socialistas mantêm, contra algumas opiniões na esquerda, que as mulheres podem se organizar de forma bem-sucedida, e enfatizam a necessidade de organizações que incluam mulheres de todos os setores da sociedade…. É precisamente o caráter específico da situação das mulheres que exige a sua organização em separado. Aqui, as feministas socialistas frequentemente se encontram em oposição à maior parte da tradição da teoria e prática socialista. A teoria feminista-socialista toma a tarefa essencial de desenvolver um quadro para guiar o processo de organização das mulheres de diferentes classes e setores em um movimento autônomo de mulheres. ”

― Lise Vogel, Women Questions: Essays for a Materialist Feminism, 1995.

Com isso, Vogel (uma filha de militantes que 30 anos antes tinha ido para o Sul como militante dos Direitos Civis) praticamente admitiu que é impossível reconciliar “feminismo” e “socialismo” – duas visões de mundo fundamentalmente contrapostas – com um hífen.

Enquanto marxistas compreendem as implicações colaboracionistas de classe do chamado das feministas-socialistas por “unidade” das mulheres cruzando os limites de classe, as feministas radicais as atacaram desde o outro lado, como “políticas identificadas com os homens”. Catharine Mackinnon, uma proeminente teórica feminista radical nos Estados Unidos e colaboradora de Andrea Dworkin, colocou o dedo na contradição política fundamental do feminismo socialista:

“Tentativas de criar uma síntese entre o marxismo e o feminismo, chamadas de feminismo-socialista, não reconheceram nem a integridade separada de cada teoria e nem a profundidade do antagonismo entre elas. ”

Towards a Feminist Theory of the State, 1989

O feminismo socialista entrou em decomposição como movimento político porque a incoerência dos seus postulados impedia os seus seguidores de desenvolver fosse um programa ou uma organização capaz de realizar lutas sociais sérias. No mundo real, simplesmente não há espaço político entre o programa da solidariedade feminina cruzando linhas de classe e o da solidariedade proletária cruzando as linhas de gênero. Por exemplo, as feministas socialistas concordariam que as mulheres trabalhadoras carregam a maior parte do fardo dos cortes nos programas sociais. Governos capitalistas de todos os tipos afirmam que o Estado não pode mais arcar com os custos de cuidar de crianças, dos idosos e dos doentes; em vez disso, esses devem ser responsabilidade da “família”, ou seja, principalmente das mulheres. Então quem seriam os principais interessados em lutar contra esses cortes? As mulheres burguesas geralmente apoiam medidas de austeridade governamental e a consequente redistribuição da riqueza. Sua principal preocupação é não sobrecarregar a acumulação privada de capital com o fundo público de necessidades sociais. Por outro lado, homens da classe trabalhadora são aliados naturais na luta contra os cortes aos subsídios de creches, aposentadorias e auxílio médico e outros, porque são programas que também os beneficiam.

Entre os acadêmicos com tendência de esquerda, analisar a supremacia masculina por meio de uma perspectiva materialista é passado; o marxismo é frequentemente considerado irrelevante, e seu lugar foi ocupado pelo “pós-modernismo” de Jacques Derrida, Julia Kisteva, Luce Irigaray, Michel Foucault e Jean Baudrillard. Enquanto, por vezes, identificados vagamente com a esquerda política, os pós-modernos de fato representam um retorno ao pessimismo histórico reacionário de Friedrich Nietzsche, a quem Jurgen Habermas caracterizou astutamente como “dialético do Contra-Iluminismo”. O pós-modernismo forneceu o pano de fundo pseudoteórico para uma nova tendência de conservadorismo apolítico na esquerda, que rejeita a ideia, central tanto para o Iluminismo quanto para o marxismo, de que a sociedade pode ser reconstruída com base na razão humana: uma noção “humanista” falida, na opinião dos pós-estruturalistas e pós-modernos! Michèle Barrett, outrora uma influente defensora britânica do “feminismo socialista” é um exemplo dessa “queda no discurso”. Na introdução da reedição de 1988 do seu livro de 1980, Women’s Opression Today [A Opressão das Mulheres Hoje], ela escreveu que:

“O discurso do pós-modernismo tem como premissa uma negação explícita e argumentada dos grandes projetos políticos, o que ambos o ‘socialismo’ e o ‘feminismo’ são por definição… Os argumentos do pós-modernismo já representam, penso eu, uma posição-chave em torno da qual o trabalho teórico feminista provavelmente vai girar no futuro. Sem dúvida, o livro começaria por aí se eu o escrevesse hoje.”

Feminismo Cultural’ e a Rejeição da Política

Muitas feministas nos países imperialistas foram em direção a uma tentativa de escapar do sexismo da sociedade em geral por meio da criação de uma contracultura feminina envolvendo teatro, música, “herstory” (histórias contadas pelos olhos de personagens femininas) e literatura. O crescimento do “feminismo cultural” no fim dos anos 1970 se refletiu na crescente popularidade de escritoras que contrastavam os valores supostamente femininos de caridade, partilha e emotividade com as características “masculinas” de ambição, agressividade, ego e luxúria. Ao contrário do Movimento de Libertação das Mulheres dos anos 1960 – que trouxe muitos aspectos da opressão das mulheres da vida privada para a discussão pública pela primeira vez – as sacerdotisas do feminismo cultural dos anos 1990 invocam “A Deusa” para reempacotar noções tradicionais de essência feminina, a qual elas vendem com um discurso de “empoderamento”: A indústria da “herstory” fornece um exemplo dessa regressão política. Em 1970, quando uma revista importante do movimento de mulheres nos Estados Unidos publicou uma edição especial sobre “Mulheres na História”, sua capa proclamava:

“Nossa história foi roubada de nós. Nossas heroínas morreram ao dar à luz, de peritonite, excesso de trabalho, opressão e raiva contida. Nossos gênios não foram ensinados a ler ou escrever.”

Women: A Journal of Liberation, Primavera de 1970

“Herhistorians” (historiadoras do papel das mulheres na história), como Dale Spender, rejeitam isso e afirmam, contrariamente, que os historiadores homens excluíram da História importantes mulheres artistas, escritoras, cientistas e filósofas:

“Quando nós afirmamos que a razão para a ausência das mulheres [dos registros históricos] não são as mulheres, mas os homens, que não é que as mulheres não tenham contribuído, mas que os homens ‘controlaram os registros’, a realidade passa por uma mudança marcante.”

Women of Ideas and What Men Have Done to Them, 1982

Enquanto um estudo das contribuições das mulheres no passado pode certamente inspirar os que lutam hoje, a tentativa de embelezar uma triste verdade só pode secundarizar a urgência de derrubar a ordem social responsável pela perpetuação da opressão feminina. A relegação das mulheres à esfera da vida “privada” do trabalho doméstico significou sua exclusão, com a exceção de alguns poucos casos, da oportunidade de serem grandes participantes nos desenvolvimentos históricos de seu tempo. A ênfase na exclusão feminina nos livros de história serve apenas para trivializar a extensão do prejuízo.

As feministas culturais pregam a abstinência da atividade política em vez do engajamento, sob o argumento de que isso significa inevitavelmente entrar em um domínio masculino:

“O tokenismo – que é comumente apresentado falsamente como Igualdade de Direitos, e que proclama vitórias inócuas – desvia e cria curtos-circuitos na ginergia (energia feminina) para que o poder feminino, galvanizado sob slogans enganadores de irmandade feminina, seja engolido pela Fraternidade. O método de vampirizar o Eu Feminino suga as mulheres ao dar ilusões de sucesso parcial….”

“Assim, o tokenismo é traiçoeiramente destrutivo da irmandade feminina, pois destrói o aspecto guerreiro da ligação Amazona ao mesmo tempo aumentando-a e minimizando-a. Ele aumenta a importância de ‘lutar’ ao ponto em que ela devora a existência transcendental da irmandade feminina, reduzindo-a a uma cópia da camaradagem. Ao mesmo tempo, minimiza o aspecto guerreiro da Amazona ao contê-lo, desviando e causando curtos-circuitos na luta.”

― Mary Daly, Gyn/Ecology, 1978.

O próprio conceito de opressão, assim como a necessidade de lutar contra ela, são consideradas noções “masculinas” a serem transcendidas:

“A questão não é salvar a sociedade ou focar em escapismo (que é olhar para trás), mas libertar a Primavera do Ser…. Deixadas sem perturbação, nós somos livres para encontrar nossa própria concordância, ouvir nossa própria harmonia, a harmonia das esferas.”

― Idem.

Esse besteirol reacionário é uma repetição feminista da desmoralização política que empurrou milhares de jovens pequeno-burgueses desde a Nova Esquerda até a “Nova Era”.

Já que o progresso material das mulheres se interrompeu, as celebrantes feministas da passividade e da abstenção política prometem salvação em algum outro mundo que não aquele em que o sofrimento real acontece. Há certa lógica nisso, porque se a opressão das mulheres se deve a uma disparidade eterna e imutável entre a natureza dos sexos, há pouca razão para esperar qualquer mudança significativa o que quer que se faça. Então, em vez de participar na luta para transformar as instituições e relações sociais que determinam a consciência, as feministas da Nova Era exortam as mulheres a embarcar em uma jornada espiritual pessoal para um espaço interior. Mary Daly aconselha que a estrada para a realização psíquica pode ser encontrada através de discussões com outras mulheres nas quais a linguagem é “cooptada” e os “significados” masculinos são subvertidos:

“Quebrar os laços/barras da falocracia exige um rompimento rumo aos poderes radiantes das palavras, para que libertando as palavras, nós possamos libertar a nós mesmas.”

Pure Lust, 1984.

Enquanto se imaginam embarcando em uma ousada reflexão feminista sobre todo o curso da existência humana, as feministas culturais estão, na realidade, refletindo meramente as tendências conservadoras atualmente populares entre a intelectualidade burguesa. Esse novo feminismo aceita muitas das características principais do “pós-modernismo”, incluindo um foco idealista na linguagem e no “discurso”, e um menosprezo do significado da atividade política e econômica.

Trabalho de mulheres’

Mesmo as feministas que não desistiram inteiramente da atividade política abandonaram a retórica anticapitalista do começo dos anos 1970. Muitas estão engajadas em dirigir clínicas de aborto, centros de terapia pós-estupros e abrigos de mulheres. Certamente tais serviços são benéficos para as mulheres que podem ter acesso a eles, e dão aos que os oferecem a satisfação de fazer algo “prático”. Entretanto, eles respondem apenas a efeitos, não às raízes, da opressão às mulheres.

Algumas feministas também estão envolvidas em campanhas para aumentar a representação feminina em trabalhos não-tradicionais em ramos qualificados comerciais e corporativos. Enquanto isso cria oportunidade para algumas e ajuda a quebrar alguns estereótipos, tem pouco efeito sobre as condições enfrentadas pela maioria das mulheres, que permanecem presas em empregos tradicionalmente “femininos”.

Muito tem se falado de uma diminuição da disparidade salarial entre homens e mulheres nos Estados Unidos em anos recentes: entre 1955 e 1991, os salários de mulheres trabalhando em tempo integral subiu de 64% para 70% do de um homem. Mas isso é largamente resultado de um declínio nos salários dos homens devido à diminuição de empregos industriais sindicalizados. Os marxistas apoiam as lutas das mulheres por igualdade salarial e acesso igual a todas as categorias de trabalho, ao mesmo tempo em que reconhecem a resistência da discriminação sexual no processo de produção capitalista vai impedir as mulheres de atingirem uma igualdade plena.

Na maioria dos casos, não existe base objetiva para a designação de trabalhos como “de homem” ou “de mulher”. A única distinção importante entre os sexos em termos de sua capacidade de trabalho é que os homens são, em média, fisicamente mais fortes que as mulheres. No entanto, entre os homens, trabalho que exigem força física não são particularmente bem remunerados – habilidade, destreza, capacidade mental e organizativa contam muito mais. A razão pela qual os executivos empresariais, médicos e pilotos de avião sejam predominantemente homens, enquanto secretários, enfermeiros e comissários de voo sejam geralmente mulheres tem muito a ver com a atitude social sexista que prevalece, e nada a ver com disparidade em capacidade. Em seu artigo de 1959, Nancy Reeves forneceu um exemplo forte do caráter arbitrário da ideia de trabalhos masculinos e femininos:

“No Meio Oeste americano, os cortadores das folhas de milho são tradicionalmente mulheres, enquanto os recolhedores de grãos são quase sempre homens. No Extremo Oeste, ocorre o contrário.”

A orientação da sociedade capitalista para a supremacia masculina é tão pervasiva e tão flexível que mesmo quando as mulheres conseguem entrar em ocupações antes exclusivamente masculinas, novas barreiras, ambas abertas ou escondidas, logo aparecem:

“Em 1973, apenas 8% dos diplomas de direito nos Estados Unidos eram dados a mulheres. Em 1990, a porcentagem havia aumentado para 42%. Isso é uma significativa feminização de uma profissão de prestígio. As mulheres, entretanto, estão principalmente entre os empregos menos bem pagos do direito, tais quais em clínicas legais, e parecem não subir na carreira mesmo na área mais lucrativa das grandes firmas de direito.”

― Joyce P. Jacobsen, The Economics of Gender, 1994.

O mesmo fenômeno é observável nos negócios:

“Estudos das Universidades de Columbia e Stanford de mulheres com MBAs (Mestrado em Administração de Negócios) mostra que os salários iniciais são similares entre os sexos, mas que sete anos de serviço depois, as mulheres estão 40% atrás dos homens.”

― Idem.

Mesmo entre bibliotecários, uma das poucas profissões “femininas”, uma porcentagem desproporcional dos empregos mais altos (posições administrativas sênior em grandes bibliotecas de pesquisa) são mantidas por homens. Jacobsen nota que é:

“difícil encontrar um exemplo de uma ocupação verdadeiramente integrada, na qual a proporção de mulheres se aproxime da sua representação na força de trabalho, na qual a taxa de variação entre os sexos seja pequena, e na qual as mulheres não sejam segregadas.”

Profissões que passaram ao longo do tempo do controle de um sexo para outro dão mais uma indicação da natureza sistemática do problema. Um dos poucos empregos que mudou de “feminino” para “masculino” foi o de realizar partos. Em 1910, as parteiras faziam metade dos partos nos Estados Unidos, mas em 1970, esse número tinha caído para menos de 1%. Quando os nascimentos passaram a ocorrer nos hospitais, sob a supervisão de médicos (predominantemente homens), o status e remuneração desse serviço cresceu dramaticamente.

Ao contrário, quando empregos passam de homens para mulheres, o resultado é um declínio tanto em status quando em dinheiro:

“Embora praticamente não houvesse mulheres caixas de banco antes da Segunda Guerra Mundial, mas de 90% eram mulheres em 1980. Nesse meio tempo, os salários e possibilidades de avanço na carreira caíram precipitadamente. Profissões de escritório, em geral, eram predominantemente masculinas quando surgiram em grande escala, conforme a revolução industrial gerou mais necessidade de processadores de papéis: todas essas ocupações são agora dominadas por mulheres e geralmente são consideradas empregos reservados para mulheres.”

― Idem.

Um dos exemplos mais espetaculares de uma mulher rompendo as barreiras em um cargo tradicionalmente masculino foi a ascensão de Margaret Thatcher ao posto de Primeiro-Ministro do Reino Unido. Não há dúvida de que a “Dama de Ferro” galgou seu caminho para o topo superando seus competidores homens, mas também é um fato que durante seu governo o povo trabalhador e os pobres (que são, é claro, desproporcionalmente mulheres) enfrentaram ataques de brutalidade sem precedentes. O sucesso de Thatcher pode ter abalado várias premissas de superioridade masculina, e inspirou um punhado de meninas britânicas ambiciosas a buscar o topo, mas a verdadeira lição que a sua carreira ensina é que a base da opressão social das mulheres está na lógica interna do sistema capitalista, não no sexo que opera suas engrenagens.

Feministas Antipornografia

Entre as iniciativas mais diretamente políticas (e mais reacionárias) tomadas por feministas radicais nos anos recentes, está a campanha para banir material sexualmente explícito (veja “Pornografia, Capitalismo e Censura”, em 1917 n. 13). Apesar das negações ocasionais de que elas não compartilham do puritanismo dos setores direitistas que prezam pelos valores da família, as feministas antipornografia mostraram disposição em unir forças com os preconceituosos que querem criminalizar o aborto, perseguir homossexuais e proibir o ensino da Evolução e da educação sexual nas escolas. Em muitas jurisdições onde autoridades legais lançaram mão do argumento “pró-mulher” em defesa da censura estatal, os principais alvos dos ataques antipornografia tem sido a população de gays e lésbicas.

As feministas que defendem a censura argumentam que a opressão da mulher é um produto de uma constante identidade masculina centrada em uma sexualidade inerentemente violenta. Andrea Dworkin, a rainha das feministas pró-censura nos Estados Unidos, afirma que “sexo e assassinato estão intrincados na consciência masculina, de forma que um sem a imanente possibilidade do outro é impensável e impossível.” (“Taking Action” [“Entrando em Ação”], em Take Back the Night, 1980). Portanto, a pornografia devia ser banida como uma manifestação de “consciência masculina”.

Além de feministas pró-censura, também há feministas “pró-maternidade”, que se distinguem por sua obsessão contra o desenvolvimento de novas tecnologias reprodutivas. A “Rede Feminista Internacional de Resistência à Engenharia Genética e Reprodutiva”, lançada em 1984, sustenta que a questão central para as mulheres é a campanha contra os avanços na inseminação artificial e fertilização in vitro. Onde Shulamith Firestone imaginou que os avanços na tecnologia reprodutiva pavimentariam o caminho para a libertação feminina, essa posição paranoica vê o potencial para uma nova forma de escravidão:

“Assim como nos causa repulsa considerar um futuro devastado pela guerra nuclear, isso ocorre também ao pensar em um futuro no qual as crianças não sejam gestadas e nem nasçam, ou no qual as mulheres sejam forçadas a gestar apenas os filhos e a assassinar as suas filhas em estado fetal. As mulheres chinesas e indianas já estão transitando esse caminho. O futuro das mulheres como grupo está em risco e precisamos garantir que consideramos todas as possibilidades antes de aceitar uma tecnologia que poderia significar a morte das mulheres.”

― Robyn Rowland, em Man-Made Woman, 1987.

Assim como suas irmãs “antipornografia”, Rowland e outras defensoras da “pró-maternidade” não hesitaram em se juntar com a direita tradicional: “feministas podem ter de considerar alinhamentos com companheiros circunstanciais estranhos: talvez mulheres de direita” (idem.). Os “companheiros circunstanciais” de Rowland incluem o abertamente racista Enoch Powell. Em 1985, quando Powell introduziu sua malsucedida “Lei de Proteção às Crianças Não-nascidas”, para banir a pesquisa embrionária e restringir severamente a fertilização in vitro, Rowland falou em uma conferência de imprensa em seu apoio (veja “Breeding Conspiracies and the New Reproductive Technologies”, em Trouble and Strife, Verão de 1986).

A ‘Reação’ de Susan Faludi

 

O centro de gravidade dos meios feministas se movimentou para a direita desde os anos 1970, mas muitas feministas ainda se identificam como parte da esquerda, e muitas se opuseram duramente às cruzadas antipornografia e várias outras adaptações à direita. Um dos livros feministas mais influentes dos anos 1990, escrito por Susan Faludi, foi Blacklash: The Undeclared War Against Women [Reação: A Guerra Não-Declarada Contra as Mulheres] (1991), que documenta uma década de ataques “pró-família” contra as mulheres e questiona:

“Se as mulheres são hoje tão iguais, por que é muito mais provável que elas sejam pobres, especialmente ao se aposentarem? (…) Por que a mulher trabalhadora média, tanto nos Estado Unidos quanto no Reino Unido, ainda ganha apenas cerca de dois terços do que homens pelo mesmo trabalho?”

“Se as mulheres são tão ‘livres’, por que as suas liberdades reprodutivas estão mais em risco hoje do que há uma década? Por que as mulheres que querem postergar ter filhos tem hoje menos opções do que há 10 anos?”

Essas não são as perguntas que a mídia capitalista costuma responder, como aponta Faludi. Seu livro apresenta uma riqueza de exemplos de como a “opinião pública” é construída e manipulada com a intenção de isolar as mulheres que ousam aspirar à igualdade social.

Faludi é crítica das feministas que, em busca de “crescimento pessoal”, rejeitam a atividade política e ela claramente defende a perspectiva de ação coletiva. No entanto, ela não consegue explicar nem as origens dos desenvolvimentos reacionário que descreve e nem propõe um programa para resistir aos mesmos. Em vez disso, ela apresenta essa reação como algo lamentável, mas talvez inevitável, e parte de um grande ciclo de existência:

“Uma reação contra os direitos das mulheres não é algo novo. De fato, é um fenômeno recorrente: ele volta toda a vez que as mulheres começam a trilhar algum caminho rumo à igualdade, uma nevasca repentina aparentemente inevitável após o breve desabrochar do feminismo. ‘O progresso nos direitos das mulheres, ao contrário de todas as outras formas de ‘progresso’, tem sempre sido estranhamente reversível’, como observou a literata americana Ann Douglas.”

Os ganhos das mulheres nos anos 1960 e 1970 foram um produto direto da luta política. Mas concessões obtidas sob pressão das mobilizações políticas de massa são sempre sujeitas a reversão quando sobrevêm uma configuração distinta de forças sociais. A luta pela igualdade feminina, assim como a luta contra o racismo e outras formas de opressão social, não pode ser inteiramente vencida nos limites da sociedade capitalista, porque a manutenção do privilégio e da desigualdade é um corolário inevitável do predomínio da propriedade privada dos meios de produção.

A imperfeição mais clara do livro de Faludi é sua tendência em tratar a reação contra os direitos das mulheres de forma isolada. A campanha contra os direitos das mulheres nos Estados Unidos é apenas um dos frontes de um ataque reacionário em todas as direções. As técnicas de propaganda que Faludi descreve também tem sido empregadas rotineiramente contra outros alvos da classe dominante – desde aqueles que dependem de benefícios sociais, passando por sindicalistas e até o Iraque de Saddam Hussein.

Em uma nota de rodapé da sua descrição da resistência internacional contra os fanáticos antiaborto da “Operação Resgate”, Faludi nota que: “A Nova Zelândia viu confrontos em 1989 do lado de fora de uma clínica em Wellington, quando um esquadrão do Resgate chegou, mas encontrou lá 30 mulheres já posicionadas e dispostas a deixar outras mulheres entrarem”. Ao contrário da informação de Faludi, os defensores da clínica nesse dia incluíam ambos homens e mulheres (incluindo alguns dos nossos camaradas neozelandeses). Nossos membros prestaram um papel central em organizar a contínua defesa da clínica de Parkview através da “Choice” – uma rede militante ampla, de “resposta rápida” aberta a todos aqueles dispostos a defender clínicas de aborto sob ataque. Uma das lições desse trabalho foi a importância de traçar a linha da luta pelos direitos das mulheres politicamente, em vez de fazer isso com base no sexo.

Libertação das Mulheres por meio da Revolução Socialista!

A relegação das mulheres ao lar permitiu historicamente que muitas questões dos direitos das mulheres fossem desconsiderados sob o argumento de que eram preocupações “pessoais”. O Movimento de Libertação das Mulheres do fim dos anos 1960 assistiu a uma proliferação de “grupos de elevação de consciência”, que exploraram as várias maneiras com as quais as mulheres tinham internalizado sua opressão na forma de preocupações pessoais e até que ponto a sociedade trata a subordinação das mulheres como uma condição “natural” de existência.

Restrições legais e institucionais ao acesso ao aborto, controle de natalidade, saúde, creches e empregos são claramente questões inteiramente “políticas”. Mas a opressão das mulheres também envolve as atitudes e presunções sociais e psicológicas profundamente enraizadas como resultado de milhares de anos de dominação masculina. Meninas aprendem logo cedo na vida que elas não podem aspirar a tudo que os meninos podem. Presunções misóginas estão tão profundamente embutidas em nossa cultura que muitos aspectos da opressão às mulheres são virtualmente invisíveis, mesmo para pessoas comprometidas com a libertação das mulheres. Por exemplo, quando as feministas propuseram a introdução de uma linguagem neutra em questão de gênero (por exemplo, o uso no inglês de “chairperson” em vez de “chairman”, ou “Ms.” em vez de Miss e Mrs.) algumas publicações marxistas na esquerda se mostraram mais resistentes do que a imprensa burguesa.

As vidas de muitas mulheres são atrofiadas e deformadas pelo assédio sexual, estupro e violência doméstica pelas mãos de homens. Enquanto ocorre entre indivíduos, esse comportamento patológico, assim como outras manifestações de opressão às mulheres, são problemas sociais. Eles não podem ser eliminados até que o sistema social que os produz e, em certa medida, os encoraja, seja substituído por outro que crie condições materiais para o surgimento de uma cultura imbuída de valores fundamentalmente diferentes.

A libertação das mulheres não pode ser alcançada no terreno das vidas pessoais. Não é o suficiente dividir o trabalho doméstico de forma mais igual entre a família – o que é necessário é que creches, limpeza, refeições etc. sejam transformadas de responsabilidades individuais a responsabilidades sociais. Mas isso não é possível sem a total reconstrução da sociedade – a substituição da anarquia capitalista por uma economia socialista planejada administrada pelos próprios produtores.

Assim como a libertação das mulheres é inextrincavelmente associada aos resultados da luta de classes, também o destino de toda revolução social depende da participação e apoio das mulheres pobres e da classe trabalhadora. Como Karl Marx lembrou em uma carta para Ludwig Kugelmann em 12 de dezembro de 1868: “Qualquer um que saiba o mínimo de história sabe também que as grandes revoluções sociais são impossíveis sem o fermento feminino.” Os revolucionários devem participar ativamente em todas as lutas sociais para defender e avançar a igualdade feminina. Também é preciso promover o desenvolvimento de líderes mulheres no movimento socialista. Já que é apenas por meio da participação em uma luta para virar o mundo de ponta a cabeça que as mulheres podem abrir caminho para sua própria emancipação e criar as circunstâncias materiais para erradicar a fome, a exploração, a pobreza e os efeitos de milhares de anos de supremacia masculina. Esse é um objetivo pelo qual vale a pena lutar.

Opressão às mulheres – Não está em nossos genes

 

A opressão às mulheres, a forma de opressão mais universal e mais profundamente enraizada, é característica da sociedade capitalista, mas ao contrário da opressão racial, ela é anterior ao capitalismo. Em seu estudo pioneiro de 1884, A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado, Frederick Engels observou que em sociedades baseadas predominantemente na caça e na coleta, na qual todos os membros da tribo trabalhavam e toda a propriedade era comunal, as mulheres não tinham status de segunda classe. Ele notou em seguida que a subordinação das mulheres surgiu com o desenvolvimento de classes sociais distintas baseadas na propriedade privada. A conclusão que Engels tirou disso é que a supremacia masculina, que de formas distintas tem caracterizado todas as civilizações conhecidas, não é o produto de distinções biológicas rígidas, mas sim um fenômeno historicamente determinado.

A capacidade única das mulheres de gestar e alimentar os filhos deu origem a uma divisão natural do trabalho em linhas sexuais na sociedade primitiva, mas essa diferença não se traduziu de forma automática em um status menor. Apenas com o advento da sociedade de classes as mulheres foram gradualmente excluídas da plena participação nas atividades políticas e econômicas maiores e relegadas ao espaço do lar. Enquanto a forma, extensão e intensidade da opressão às mulheres tenha variado entre diferentes sociedades, e em diferentes períodos históricos, ela sempre esteve intimamente associada ao papel das mulheres na reprodução da geração seguinte. Isso, por sua vez, esteve, em última instância, caracterizado pelas exigências do modo de produção predominante e da estrutura social que o acompanhava.

A subjugação das mulheres sob o “livre mercado” capitalista está enraizada no seu papel central na família, como provedoras não-pagas de serviços domésticos necessários para a manutenção da sociedade. Essas funções incluem a responsabilidade primária pela comida, vestimenta e limpeza; pelo cuidado com os mais jovens, os idosos e os doentes; e para responder a uma variedade de necessidades emocionais e psicológicas para todos os membros da casa. A família realiza esses serviços de forma mais barata para a classe dominante (tanto em termos econômicos quanto políticos) que qualquer outra opção. A necessidade de manter a família como unidade básica das sociedades divididas em classes constitui, assim, a base material para a subordinação das mulheres.

Enquanto Engels escrevia, a investigação das sociedades humanas antigas estava em sua infância, e o material empírico sobre o qual a sua análise se baseava era limitado e, em alguns aspectos importantes, errado. Mas isso não afetou a importância de sua observação de que a opressão às mulheres é uma criação social. Até uma data relativamente recente, a maioria dos cientistas sociais burgueses viam a dominação masculina como uma norma universal, e geralmente presumiam que ela tivesse uma base biológica. Entretanto, nas últimas décadas muitos antropólogos começaram a aceitar a ideia de que, por dezenas de milhares de anos, sociedades caçadoras-coletoras existiram de forma essencialmente igualitária entre os sexos.

Isso claramente tem implicações políticas de longo alcance, mas só raramente chega até a mídia de massas. Uma exceção foi o New York Times de 29 de março de 1994, que publicou um breve artigo intitulado “Igualdade entre sexos na Ilha do Mar Sul”, discutindo o trabalho da Dra. Maria Lepowsky, professora de antropologia na Universidade de Wisconsin. Em seu livro de 1993, Fruit of the Motherland, Lepowsky descreveu Vanatinai, uma ilha isolada ao sudeste da Nova Guiné, onde não há “ideologia de superioridade masculina e nem poder coercitivo masculino ou autoridade formal sobre as mulheres”. Em Vanatinai:

“Há uma grande quantidade de mistura entre os papéis e atividades de homens e mulheres, com mulheres ocupando postos públicos, geradores de prestígio. As mulheres compartilham o controle da produção e a distribuição de itens de valor e herdam sua propriedade. Mulheres participam tanto quanto homens na troca de bens de valor, organizam festivais, conduzem rituais importantes, tais quais os de plantação de inhame ou de cura, aconselham seus parentes, falam e são ouvidas em reuniões públicas, possuem um valoroso conhecimento mágico e trabalham lado a lado na maioria das atividades de subsistência.”

O papel proeminente desempenhado pelas mulheres na ilha é conhecido como “taubwaragha”, que é traduzido como “a maneira dos ancestrais”. Em Vanatinai, espera-se dos homens que ajudem no cuidado dos filhos e mesmo a linguagem é neutra em questão de gênero – não existem pronomes como “ele” ou “ela”. Na conclusão de seu livro, Lepowsky comenta:

“O exemplo de Vanatinai sugere que a igualdade sexual é facilitada por uma ética geral de respeito e igualdade de tratamento para todas as categorias de indivíduos, descentralização do poder político e inclusão de todas as categorias de pessoas (por exemplo, mulheres e minorias étnicas) em posições públicas de autoridade… O exemplo de Vanatinai mostra que a subjugação das mulheres pelos homens não é nem universal na humanidade e nem inevitável.”

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