Os trotskistas americanos e a luta contra o desemprego na Grande Depressão

Os trotskistas americanos e a luta contra o desemprego na Grande Depressão
Parte 1 – A luta por unidade

Por Len Meyers e Chris Knox, traduzido de Workers Vanguard (jornal da então revolucionária Spartacist League dos EUA), n. 73, 18 de julho de 1975. Traduzido para o português a partir de:
http://www.bolshevik.org/tp/IBT_TP_4_Organizing_the_Unemployed_in_the_Great_Depression.html

O começo da depressão econômica nos anos 1930 colocou um teste de importância monumental para todas as tendências políticas da classe trabalhadora e para o movimento operário como um todo. O desemprego em massa, causado pelo próprio sistema capitalista e obviamente afetado pelas ações políticas da classe dominante e seu Estado, tornou-se a questão política da maior ordem. Hoje, conforme milhões novamente enfrentam a perspectiva de desemprego em longo prazo devido a outra depressão capitalista mundial, os revolucionários deveriam prestar atenção às lições políticas das organizações comunistas de desempregados nos anos 1930.

As legiões de desempregados e desabrigados foram a manifestação humana mais dramática de uma crise econômica geral que foi sem precedentes em sua severidade, duração e extensão internacional. Das nações mais proeminentes, apenas a União Soviética, com suas relações de propriedade coletivizadas, escapou aos terríveis efeitos. Nos Estados Unidos, o desemprego cresceu continuamente, atingindo em 1933 o número de 18 milhões e criando o que foi visto como uma massa permanente de excesso de trabalhadores. A obtusa administração de Herbert Hoover refletiu o dilema de seus amos capitalistas ao buscar negar publicamente a existência de um problema sério, enquanto foi possível. Após chegar à presidência prometendo uma nova era de prosperidade permanente, Hoover encerrou seu mandato em 1933 após uma queda de 50% na produção industrial em comparação a 1929, com a bancarrota da agricultura e todo o sistema bancário do país fechado. Sem qualquer forma de segurança contra o desemprego, ou mesmo de socorro adequado, os desempregados enfrentaram uma carência total.

Para os trabalhadores, a questão do desemprego estava intimamente conectada com a organização da grande massa de trabalhadores não qualificados da produção das grandes fábricas nos sindicatos industriais. Abandonados, números crescentes de desempregados em desespero forneciam uma fonte pronta de fura-greves para os empresários que buscavam destruir os movimentos grevistas. O medo do desemprego, por si só, era suficiente para causar um efeito severamente depressivo sobre as lutas dos trabalhadores empregados: em 1930, o número de greves foi 618, caindo de 349.400 que haviam ocorrido em 1927, com uma queda equivalente no número de trabalhadores envolvidos. Uma organização de massa tanto dos trabalhadores empregados quanto dos desempregados era necessária para unir a classe trabalhadora numa luta contra um sistema que, para proteger os lucros de um punhado de parasitas industriais e financeiros, sujeitavam a massa de trabalhadores a privações inomináveis.

A liderança dos primeiros protestos de desempregados esteve com o Partido Comunista, em grande medida por causa da incapacidade das organizações sindicais oficiais da Federação Americana do Trabalho (AFL). Números sem precedentes de desempregados se uniram a protestos políticos no começo dos anos 1930, mas a burocracia tacanha dirigida por William Green detestava as massas de trabalhadores dispostos a ações combativas. O drástico declínio no número de membros da AFL (de 3 milhões em 1929 para cerca de metade disso), e a concentração nos ramos mais bem qualificados, excluindo a grande maioria dos trabalhadores não qualificados, só fez os “líderes” sindicais ainda mais cautelosos e conservadores.

No começo da crise, a burocracia da AFL buscou cooperação com os patrões: em 1929, em uma conferência na Casa Branca com tubarões dos negócios e a administração Hoover, eles prometeram não buscar aumentos salariais ou realizar greves durante a crise. Em 1932, no terceiro ano da Grande Depressão, a AFL ainda se opunha oficialmente à introdução do seguro desemprego federal. Esse “esquema estranho”, dizia Green, era um ataque à “liberdade” do trabalhador americano.

O trabalho inicial do PC na organização dos desempregados

No início, o Partido Comunista mergulhou no trabalho de organizar os desempregados com uma determinação vigorosa e um programa que, no papel, refletia as necessidades dos desempregados ao combinar demandas por reformas de auxílio e seguro-desemprego com um chamado para unir os desempregados aos empregados em uma luta contra o capitalismo. Em março de 1930, a imprensa do PC (com talvez algum exagero) relatou sobre as marchas de famintos em várias cidades, totalizando mais de 1 milhão de trabalhadores e desempregados – 100 mil em Nova Iorque e Detroit, 40 mil em Boston e Chicago etc. – sob a palavra de ordem de “trabalho ou salário”. Os protestos sofreram violência histérica da classe dominante. Em Nova Iorque, toda a força policial foi mobilizada, incluindo as patrulhas montadas e as divisões de metralhadoras, e um ataque feroz foi lançado contra os manifestantes.

Em 1931, os organizadores do Conselho de Desempregados (UC) do PC lideraram a primeira marcha de famintos em Washington, com 1500 delegados de todo o país, para apresentar suas reivindicações: por seguro-desemprego igual ao salário médio e auxílio imediato para todos os trabalhadores desempregados, a ser pago pelo governo e pelos patrões; por um dia de trabalho de sete horas sem redução de salário; por unidade dos empregados e dos desempregados na luta contra a fome, os cortes de salário, as demissões e os programas de “férias coletivas” de Hoover. O Partido Comunista continuou a liderar ações militantes ao longo do início dos anos 1930. Merecem o crédito de ter mobilizado inicialmente os trabalhadores americanos para fora de seu estado de choque e de terem pressionado pela promulgação das primeiras medidas de auxílio ao desemprego em larga escala. O heroísmo, dedicação e sacrifício dos seus quadros ficou abalado por alguns eventos como o assassinato brutal de quatro manifestantes, incluindo dois jovens comunistas, pela polícia e capangas da empresa durante um protesto na gigantesca planta da Ford em River Rouge em 1932.

Mas, em última análise, o Partido Comunista buscou uma política aventureira e sectária que o isolou das massas de trabalhadores, tanto empregados como desempregados, e desorganizou o seu próprio movimento. Depois de uma década de luta fracional, o PC entrou nos anos 1930 como uma caricatura degenerada de si mesmo, homogeneizado em um instrumento monolítico da casta burocrática dominante na URSS. Essa burocracia parasita liderada por Joseph Stalin, enquanto preservou as conquistas econômicas da revolução de outubro, tinha expropriado politicamente a classe trabalhadora através da eliminação da democracia soviética e partidária em meados dos anos 1920. Seguindo-se à estalinização da Internacional Comunista, o PC americano expulsou sua oposição trotskista liderada por Cannon, Shachtman e Abern, e depois sua oposição de direita, liderada por Lovestone.

Em resposta às consequências catastróficas de suas políticas anteriores à direita – e para quebrar a simpatia pela perseguida Oposição de Esquerda nas fileiras comunistas – Stalin embarcava então em um curso sectário e igualmente desastroso. A recusa do PC em lutar por uma frente única proletária com os socialdemocratas contra a crescente ameaça fascista produziu uma catástrofe histórica de proporções monumentais na Alemanha, com a ascensão de Hitler ao poder em 1933 e a consequente destruição de todo o movimento operário.

Assistencialismo

O giro sectário lançado por Stalin em 1929 produziu uma mudança repentina no programa e prática já falhos do Partido Comunista dos EUA, criando a base para o posterior giro agudo à direita com as políticas de “frente popular” da segunda metade dos anos 1930. Uma vez que o rígido esquema de Stalin presumia um curso ininterrupto rumo à revolução (o assim chamado “terceiro período”), que traria a morte inevitável do imperialismo, as táticas leninistas da frente única e trabalho dentro das organizações de massas existentes dos trabalhadores foram completamente descartadas. A AFL foi denunciada como uma organização “fascista”, e o resto da esquerda (incluindo o Partido Socialista e os trotskistas) foram considerados “social-fascistas”. O PC praticamente abandonou o trabalho nos sindicatos da AFL, e lançou seu número relativamente pequeno de apoiadores em sindicatos “revolucionários” paralelos em sua própria federação, a Liga de Unidade Sindical (TUUL).

Já que a maioria dos trabalhadores desorganizados ainda olhava para a AFL como o movimento sindical oficial (muitos entravam diretamente para a AFL por meio de “regionais federais”), os sindicatos paralelos se estagnaram na irrelevância. Quando uma pequena melhoria na economia em 1933 coincidiu com manobras do Presidente Roosevelt para controlar os sindicatos da AFL (para conter a ameaça de desenvolvimentos radicais), os sindicatos paralelos serviram para isolar os militantes combativos da intervenção nas greves de massas que criaram o contexto para a construção dos sindicatos industriais. Na organização dos desempregados, onde a necessidade chave era união com a força social dos sindicatos, o giro do PC levou a um isolamento autoimposto com relação aos trabalhadores empregados.

A impotência resultante desse isolamento levou os stalinistas a capitularem, quase em desespero, às formas mais baixas de luta dos desempregados. Depois das manifestações de massa iniciais de março de 1930, o apoio aos protestos diminuiu consideravelmente, em cerca de 50 por cento no ano seguinte. Buscando construir seu próprio movimento de desempregados sob a liderança da TUUL e dos Conselhos de Desempregados (UC), e sem uma abordagem tática para os sindicatos oficiais, o trabalho dos conselhos degenerou na forma de ações de apoio mútuo e assistencialismo – o que o jornal trotskista Militant chamou de “economia planificada da esmola”. O PC também caiu em uma propaganda unilateral por uma “Lei dos Trabalhadores de Garantia contra o Desemprego”, como uma panaceia reformista contra os efeitos da crise econômica capitalista.

Obviamente, o trabalho do PC junto aos desempregados estava afundando no começo de 1931, quando o dirigente do partido, Earl Browder chamou a “tomar conta diretamente dos trabalhadores famintos” (Daily Worker, 12 de março de 1931). Mas quatro meses depois ele reclamava que os conselhos tinham se degenerado e “caído nas mais miseráveis formas de instituições de caridade burguesa” (Communist, julho de 1931). Incapaz de apontar a causa desse impasse – o isolamento autoimposto trazido pelas políticas de “terceiro período” de Stalin – Browder soube catalogar seus efeitos:

“Nos Conselhos de Desempregados, enquanto registramos alguns avanços, há relativamente poucos exemplos de conquistas positivas … Eles permanecem organizações estritamente dos membros, sem contato cotidiano íntimo com as massas, não se estabeleceram ainda como centros permanentes de trabalho entre as massas e, na maioria dos casos, com a remoção de 2 ou 3 camaradas designados pelo partido, essas organizações entrariam em completo colapso.”
— Communist, outubro de 1931.

Socialistas e “musteístas”

Assim, a política stalinista durante o “terceiro período”, apesar de muitos protestos de massas e ações combativas, falhou em construir uma ampla organização de desempregados ligada aos sindicatos existentes. O vácuo deixado pelo PC foi em parte preenchido por outras organizações com programas reformistas ou centristas, como o Partido Socialista. Começando com atividades de apoio mútuo e um tom direitista (Norman Thomas apoiara o plano do financista J.P. Morgan de cancelar o auxílio), o PS gradualmente se tornou mais combativo até que, em 1933, parecia uma alternativa de esquerda ao stalinismo. O PS liderava o Comitê dos Trabalhadores contra o Desemprego em Chicago, seu maior núcleo local, e fundou a Aliança Operária da América (WAA) em 1935.

Também ocupando o terreno estava a Conferência por uma Ação Trabalhista Progressista (CPLA), fundada em 1929 por A. J. Muste, que depois se tornou o Partido dos Trabalhadores Americanos (AWP). A CPLA incluía muitos sindicalistas de esquerda (o ex-pastor Muste também tinha organizado trabalhadores têxteis e formado uma universidade operária), abandonados pelo PC quando esse saiu dos sindicatos da AFL no fim dos anos 1920. Impressionado pelas possibilidades de trabalho de apoio mútuo em massa, tal como o organizado por um membro da CPLA em Seattle, Muste girou a CPLA na direção de um trabalho militante junto aos desempregados como um atalho para a criação de um “partido trabalhista de massas” dedicado a estabelecer uma “república operária”.

Sem um programa marxista coerente para uma mudança social revolucionária, os musteístas avançaram para a esquerda sob as pancadas persistentes da experiência. A sua orientação inicial mutualista (círculos de apoio mútuo) foi depois modificada com o reconhecimento de que o flagelo do desemprego não poderia ser solucionado sem levantar a questão de quem tem o poder e sem organizar a classe trabalhadora para tomar o poder de Estado. Ainda assim, capitulando a um sentimento anticomunista, eles continuavam a se esquivar da concepção de ditadura do proletariado.

No seu trabalho com os desempregados, os musteístas se adaptaram aos sentimentos atrasados das massas para aumentar seu sucesso organizativo. Louis Budenz, o principal teórico da CPLA e que depois foi ganho para o frentepopulismo stalinista, chamou a uma “abordagem americana” (!) ao trabalho de massas. Mas os musteístas pagaram um pesado preço por essa capitulação a preconceitos nacionalistas. Suas Ligas de Desempregados, que eram mais fortes em Ohio e na Pensilvânia, se tornaram paraísos para anticomunistas que queriam construir bastiões contra o PC. Na conferência de fundação das Ligas Nacionais de Desempregados, em 4 de julho (!) de 1933, em Columbus, Ohio, os musteístas, que se moviam à esquerda, ficaram horrorizados com a demonstração de amor à bandeira americana, manifestações religiosas e até mesmo sentimento fascista (KKK) em que a sua “abordagem americana” os tinha metido. Por um tempo, o palanque foi tomado por direitistas que tiveram que ser expulsos, e os musteístas foram obrigados a silenciar as críticas, até mesmo de delegados de esquerda (notavelmente os trotskistas), para manter o controle. Entretanto as Ligas foram fundadas numa base rigidamente anticapitalista, apesar de algumas concessões estilísticas à “abordagem americana” em sua declaração de fundação, e os direitistas rapidamente desapareceram.

As Ligas de Desempregados (UL) lideradas pelos musteístas arrancaram algumas conquistas notáveis. Tendo seu auge em 1933, as ligas conseguiram impedir todos os despejos (que aconteciam sem parar por todo o país) em Columbus durante o verão daquele ano. Seguindo o curso à esquerda da CPLA/AWP, as Ligas se moveram programaticamente de um foco exclusivo em demandas “práticas” e passaram a ver a luta dos desempregados no contexto da necessidade da “abolição de todo o sistema capitalista”. Vendo as limitações do trabalho com os desempregados sem ligações com os trabalhadores empregados, os musteístas dirigiram uma greve combativa em Toledo em 1934, umas das três grandes batalhas de classe daquele ano. As suas Ligas de Desempregados tomaram a liderança da enfraquecida greve dos operários da indústria de automóvel e a levou até o ponto de se tornar uma greve geral de extensão municipal, abrindo caminho para o sucesso posterior das greves com ocupação de fábrica em Detroit e para a formação do primeiro sindicato industrial de massas no ramo automotivo.

O começo do trabalho trotskista com os desempregados

Antes das greves de 1934 e da posterior fusão com os musteístas, a Liga Comunista da América (CLA) trotskista tinha sofrido anos de isolamento imposto, por vezes com uso de violência, pelo muito maior Partido Comunista. Tentando alertar a base do partido oficial contra o curso desastroso do “terceiro período” do PC, a CLA argumentou contra a tentativa sectária de manter o movimento dos desempregados nos limites estreitos da TUUL. Chamava, em vez disso, por uma orientação de arrastar os sindicatos da AFL para ações de frente única contra o desemprego. A necessidade de um movimento de frente única dos desempregados na base mais ampla possível, atraindo todas as tendências políticas do movimento dos trabalhadores, se tornou mais urgente conforme o PC, o PS e os musteístas cada um criavam o seu “próprio” movimento. Mas a CLA nunca chamou por uma unidade à custa do programa. Ela atacava os erros oportunistas do PC (e de outras tendências) e não abria brecha para conceitos reformistas.

Os trotskistas começaram sua análise derrubando o mito do “terceiro período” sobre uma crise final do capitalismo: haveria novas melhorias econômicas, seguidas de novas depressões, até que o capitalismo fosse derrubado. Trotsky previa que uma melhoria na economia ocorreria no fim de 1933, mas apontava que, em razão da proporção crescente de capital constante sobre capital variável – uma crescente mecanização da indústria e aumento da produtividade do trabalho – o desemprego estava fadado a permanecer uma característica da economia (“Perspectivas de crescimento”, Escritos, 1932).

Já em 1933, o veterano comunista e líder da CLA, Arne Swabeck, no livreto Desemprego e a Classe Trabalhadora, estava analisando o giro do PC do isolamento sectário ao extremo oposto de métodos oportunistas. O PC nunca havia visto o movimento dos desempregados como “fundado em uma frente única de toda a classe trabalhadora” e agora estava abandonando sua quixotesca aventura de “conquista das ruas” por um programa reformista crasso de legalismo e expectativa em políticos burgueses. Em vez disso, os trotskistas defendiam uma política de frente única e demandas que seriam as “pedras de impulso do objetivo revolucionário”.

Entre elas, Swabeck especificou o auxílio e seguro-desemprego pago pelos empregadores e pelo Estado; dia de trabalho de seis horas, cinco dias por semana sem redução de pagamento (os stalinistas tinham elevado essa demanda para um dia de trabalho de sete horas, para parecerem mais “práticos”); e a extensão de créditos em larga escala para a União Soviética, expressão concreta de solidariedade com o primeiro Estado operário do mundo. Mais importante: Swabeck apontou que o movimento de desempregados não poderia ter sucesso se ficasse isolado: “Seus objetivos devem ser os objetivos gerais da classe trabalhadora; sua sula, parte da luta geral das lutas de classe pela revolução”.

Da melhor forma que puderam, os trotskistas tentaram realizar trabalho de massa nos sindicatos e entre os desempregados mesmo durante o período que James Cannon chamou dos “dias de cão”, de isolamento e perseguição da CLA pelos stalinistas no começo dos anos 1930. O trotskista Gerry Allard foi líder-fundador dos Mineiros Progressistas da América (PMA), um sindicato combativo que surgiu da revolta de 40 mil mineiros de Illinois, em 1932, contra o regime burocrático de John L. Lewis no sindicato oficial dos trabalhadores das minas (UMW). Entretanto, o PMA rapidamente caiu sob influência de um novo grupo de burocratas “combativos” que se tornaram indistinguíveis da velha máquina de Lewis. Quando o UMW ignorou a necessidade de organizar os desempregados em Illinois, Allard e os trotskistas desempenharam um papel de liderança em construir a Aliança Operária de Illinois (IWA), que entrou na Aliança Operária Americana do PS, em sua conferência de fundação, como a seção mais forte nos estados. Logo a IWA superou os antigos Conselhos de Desempregados como a organização de desempregados mais forte do Meio-Oeste. Ela defendia a abolição do capitalismo, e no meio da década, liderou marchas combativas na capital contra o corte dos auxílios.

Na Costa Oeste, uma intervenção paciente na Associação de Apoio Cooperativo aos Desempregados (UCRA) de Los Angeles, no começo de 1932, deu aos trotskistas a liderança de um bloco de esquerda heterogêneo. Essa liderança transformou a UCRA de um movimento “cooperativista” de apoio mútuo em uma organização que combatia de forma militante os despejos, às vezes cercando blocos inteiros para impedir reintegrações de posse. Em 1933, a militante da CLA Jane Rose liderou um protesto contra o corte da distribuição gratuita de leite aos desempregados por meio de uma ocupação da Câmara municipal, seguidos de discursos durante todo o dia sobre a “natureza de classe da questão dos desempregados” (Militant, 10 de junho de 1933).

Os trotskistas começaram a ter sucessos em 1933, o que reduziu bastante a sua marginalidade. A marcha sem oposição de Hitler até o poder, facilitada pelo sectarismo suicida de Stalin, teve um impacto traumático. Embora o PC estivesse se movendo rapidamente para uma subserviência ao New Deal de Roosevelt (antes visto como um sinônimo de “escravidão”), o seu giro deu temporariamente aos trotskistas uma chance de intervir nas reuniões de massas organizadas pelos stalinistas.

Os stalinistas sabotam a NFUWL

Uma importante oportunidade de formar uma organização de frente única dos desempregados veio com a conferência de fundação da Federação Nacional das Ligas de Trabalhadores Desempregados (NFUWL), em maio de 1933. Chicago, onde a conferência aconteceu, tinha testemunhado no ano anterior um bem-sucedido e amplo movimento de frente única para reverter um corte de 50 por cento no auxílio-desemprego. Naquela ocasião, os stalinistas foram forçados a abandonar seu sectarismo e se unir com os “social-fascistas” em torno de demandas imediatas. Agora, eles, o PS, trotskistas, musteístas, lovestonistas e inúmeras outras tendências se reuniram e fundaram a primeira organização nacional de desempregados com potencial de se tornar uma verdadeira organização de massas.

Os trotskistas lideraram a luta para impedir uma exclusão anticomunista dos Conselhos de Desempregados, e tiveram sucesso em aprovar sua formulação de um movimento de frente única. Esta chamava a NFUWL a buscar “a mais íntima relação com os trabalhadores empregados, por meio dos sindicatos”, enquanto garantia “o direito de expressão dos setores minoritários e liberdade de crítica” (citado no Militant, 20 de maio de 1933). Demonstrando claramente sua confusão, a delegação do PC apoiou essa concepção depois de ter votado contra ela apenas alguns meses antes em uma conferência para estabelecer uma frente única para libertar o militante trabalhista preso, Tom Mooney.

Infelizmente, entretanto, a NFUWL foi natimorta porque a maioria das tendências ainda estava determinada a construir suas “próprias” frentes de desempregados em lugar de uma organização de frente única. Logo no mês seguinte, os stalinistas e musteístas formaram um bloco na conferência de Columbus das Ligas Nacionais de Desempregados para derrotar uma moção trotskista pela afiliação destas na NFUWL (Militant, 15 de julho de 1933). Como os trotskistas ainda eram muito mais fracos que as forças do PC e do PS na liderança da NFUWL, eles foram incapazes de arrastar consigo um grupo mais amplo. Enquanto isso, o PC continuava a se degenerar à direita, de forma que, no momento em que um movimento unitário dos desempregados foi formado, com o nome de Aliança Operária (WA), em 1936 (um ano após a criação original da WA pelos Socialistas), o PC rapidamente se tornou um apêndice subserviente do governo Roosevelt.

Embora apenas um ano antes eles tivessem ajudado o PC a inviabilizar a NFUWL e se oposto aos esforços trotskistas para construir uma ampla organização nacional de frente única dos desempregados, o gradual movimento programático dos musteístas para a esquerda criou condições para a sua fusão com a CLA no fim de 1934. Ambas as tendências chegaram a essa fusão após experiências da luta de classes: os musteístas haviam liderado os trabalhadores da indústria automotiva de Toledo e a CLA estivera na linha de frente dos caminhoneiros de Minneapolis.

Embora muitos elementos de liderança da CPLA/AWP, incluindo Budenz e o próprio Muste, se apegassem a noções reformistas adquiridas durante sua evolução política ziguezagueante, a unificação foi feita com base no que Trotsky descreveu como “um programa rigidamente principista”. Como resultado, enquanto Budenz, Muste e outros deixaram o WP em questão de meses, o grosso dos seus antigos apoiadores permaneceu. A presença de 1200 pessoas na convenção de fundação do Partido dos Trabalhadores (WP) dos EUA representou um passo significativo para a superação do isolamento anterior dos trotskistas. O WP liderava agora as Ligas Nacionais de Desempregados, representando 130 mil desempregados em Ohio, mais 25 mil na Pensilvânia e uma forte base na Virgínia Ocidental.

Os trotskistas lideram as Ligas Nacionais de Desempregados (NUL)

O WP buscou livrar as Ligas de concepções remanescentes do período em que elas se limitavam a defender reformas imediatas e capitulavam de forma oportunista aos preconceitos atrasados das massas. Uma “Resolução sobre a questão dos desempregados”, que foi aprovada pela plenária do Comitê Nacional do WP em outubro de 1935, especificava que “O próximo passo no desenvolvimento do movimento dos desempregados deve ser uma forte campanha educativa e de agitação em toda a parte, para enraizar solidamente as organizações nos princípios da luta de classes”.

Analisando as diferentes organizações de desempregados, a resolução apontava que as Ligas eram “as organizações chave no setor dos desempregados”, tendo seguido uma política de combatividade classista e de massas e tendo “uma vigorosa participação da base na vida da organização”. Suas fraquezas incluíam falha em penetrar em grandes centros industriais e se consolidar organizativamente, levando a “grandes flutuações” no número de membros. Além disso, “núcleos e frações de revolucionários não foram construídos sistematicamente no interior das Ligas. E a organização não é nacional, num sentido verdadeiro de abrangência”.

A resolução chamava por um esforço do WP para resolver os dois principais problemas do movimento dos desempregados, o de atingir uma frente única real das inúmeras organizações de desempregados e unidade com os trabalhadores empregados. A resolução chamava por uma orientação em direção à Aliança Operária, que estava criando aberturas às quais os stalinistas estavam se somando (e que representava um desenvolvimento à esquerda do Partido Socialista).

As NUL também adotaram uma postura séria em relação à questão racial e organização no Sul. Simbólica da sua preocupação em organizar os desempregados negros foi a escolha de E. R. McKinney, um membro do Comitê Nacional do Partido dos Trabalhadores e antigo musteísta, como vice-presidente das NUL e editor do seu jornal semanal, Ação de Massa. As NUL se recusaram firmemente a reconhecer núcleos segregados, e lideraram milhares de negros e brancos no dia nacional de luta dos desempregados em 1934 em Gulfport, Mississippi, Ashland, Kentucky e outras partes do Sul. As NUL reconheceram que “uma organização local pode conseguir arrancar melhorias no auxílio, mas se não puder superar a divisão racial, então fracassou fundamentalmente e é uma ameaça para o movimento operário” (Ata da Convenção de 1934).

As NUL apoiaram certas medidas legislativas, como a Lei Frazier-Lundeen, que conferia certas garantias aos trabalhadores contra demissões. Mas o fez sem fixação em panaceias reformistas legislativas, características dos Conselhos de Desempregados liderados pelo PC. O jornal New Militant, do Partido dos Trabalhadores, (1º de janeiro de 1935) denunciou os stalinistas por “tornar apenas uma demanda – a Lei Lundeen – a única questão, [e dessa forma] dividir a base dos trabalhadores empregados e desempregados”. O WP insistia que a luta por reformas legislativas fosse “uma luta classista, e não um lobby de colaboração de classes”. Entretanto, alguns slogans usados pelas NUL e pela Aliança Operária de Illinois (tais quais “impostos sobre os ricos”) poderiam levar à impressão de que os interesses dos trabalhadores estivessem na reforma do Estado capitalista, e deveriam ter sido deixados para trás com o restante da bagagem reformista da “abordagem americana” musteísta.

Por menores que fossem durante os anos 1930, os trotskistas fizeram uma contribuição impressionante para o trabalho comunista junto aos desempregados, tanto em nível teórico quanto prático. Enquanto o muito maior PC desperdiçou sua influência e as oportunidades de liderar as massas com seus excessos do “terceiro período”, tudo para depois realizar traições reformistas com a “frente popular”, os trotskistas tinham mostrado uma compreensão correta das táticas leninistas de organização dos desempregados, e realizaram os objetivos na forma da organização de massas. Ao mesmo tempo, eles ganharam centristas que se moviam para a esquerda, repelidos tanto pelo sectarismo stalinista quanto pelo abstencionismo da AFL e do PS. Em sua luta para forjar um novo partido revolucionário de vanguarda, eles estariam, na segunda metade da década, prontos para dar exemplos adicionais de trabalho revolucionário entre os desempregados enquanto o PC afundava em sua capitulação pró-Roosevelt e pró-guerra.

Os comentários estão desativados.