CASTRO EM MOSCOU (Revista Spartacist 1)

CASTRO EM MOSCOU

por P. Jen

O premier Fidel Castro, preso na complexa rede de relações Washington-Pequim-Moscou, começou a se tornar mais claramente enredado nas maquinações da liderança russa. Declarações feitas tanto na entrevista de Castro na TV soviética de 21 de janeiro, quanto no Comunicado conjunto cubano-soviético de 22 de janeiro, revelam incontestavelmente que Khrushchev começou a consolidar seu controle sobre o PURS [Partido Unido de la Revolución Socialista] (o partido cubano) e seu líder. Apesar de que haverá, sem dúvida, futuras vacilações, está fora de questão que Castro começou a seguir a política externa da União Soviética.

Aparecendo na TV de Moscou em 21 de janeiro, Castro disse: “Ao mesmo tempo [após a crise dos mísseis em outubro], houve um relaxamento da tensão internacional, um relaxamento na guerra fria. Tudo isso foi resultado da política e dos esforços da União Soviética e do campo socialista em nome da paz.” (ênfase adicionada).

Um dos resultados “concretos” desses esforços foi, no Comunicado cubano-soviético de 22 de janeiro, saudado favoravelmente pelo governo cubano: “O governo da República de Cuba considera o sucesso alcançado pela União Soviética na luta pela descontinuação dos testes nucleares e o acordo sobre veículos não-orbitantes com armas nucleares como um passo à frente para promover a paz e o desarmamento”.

Apoiava ainda além as políticas da burocracia soviética: “O camarada Fidel Castro expressou sua aprovação sobre as medidas tomadas pelo Comitê Central do PCUS para eliminar as diferenças existentes e consolidar a coesão e unidade nas fileiras do movimento comunista internacional”. (Comunicado conjunto cubano-soviético).

Está claro a partir disso que, no contexto da disputa sino-soviética, Castro incontestavelmente se uniu aos “líderes do PCUS” que, nas palavras dos chineses, “são os maiores de todos os revisionistas, assim como os maiores sectários e divisionistas conhecidos na história” (impresso em 4 de fevereiro no Jenmin Jih Pao, o jornal diário do PC chinês).

Não apenas a política soviética, mas a vida política soviética de forma geral, e o líder do PCUS em particular, receberam aprovação de Fidel Castro. “Eu estou muito interessado na experiência”, disse Castro na TV soviética em 21 de janeiro. “Eu estou muito interessado no papel desempenhado por seu Partido, o papel do destacamento avançado, o papel do organizador e inspirador de toda a atividade na União Soviética. Eu estou interessado na participação do Partido em todas as frentes operárias – na agricultura, na indústria, nas atividades culturais, em todas as esferas da produção, em todas as esferas da política e no exército. Atraiu minha atenção o maravilhoso papel que o Partido tem desempenhado na União Soviética por cerca de meio século.”

Nas últimas três – quase quatro – décadas, entretanto, “o maravilhoso papel que o Partido tem desempenhado na União Soviética” incluiu os julgamentos conspirativos de Stalin; a decapitação do Exército Vermelho à véspera da Segunda Guerra Mundial; as traições da revolução proletária na China (1925-27). Alemanha (1929-33), França (1934-36; 1945-presente), Itália (1944-presente), Iraque (1958), etc.; e a atual perspectiva estratégica de capitulação ao imperialismo.

Nós pudemos observar”, disse Castro na TV de Moscou, “a forma na qual o Partido [PCUS] tem treinado especialistas, tem difundido a forma revolucionária de pensamento no povo, treinado astronautas, cientistas, tem produzido quadros que hoje estão desenvolvendo a economia e toda a vida na União Soviética, tem produzido os quadros que estão agora construindo o comunismo. O Partido é um símbolo de continuidade revolucionária e da confiança do povo em si mesmo.” (ênfase adicionada).

A avaliação de Castro sobre Nikita Sergeyevich Khrushchev, o líder do dito Partido “Comunista” que está construindo o “comunismo” em um só país, é cheia de carinho e admiração. “Eu tenho o pleno direito de avaliar e admirar este homem, que combina, em uma pessoa, tantas qualidades esplêndidas: intelecto, excelente caráter, gentileza e força – as qualidades que fazem dele um grande líder. E quanto mais eu conheço o camarada Nikita Sergeyevich, quanto mais tempo eu passo com ele, mais afetuosos se tornam meus sentimentos por ele, mais eu o admiro, mais alta é minha opinião dele como homem.” (Castro na TV de Moscou, 21 de janeiro).

As palavras de Fidel Castro dispensam comentário. Aqueles interessados no texto completo da sua entrevista na TV de Moscou, assim como o Comunicado conjunto, podem encontrá-los no suplemento do Moscow News, 25 de janeiro de 1964.

Para socialistas que viam na postura militante de Castro uma liderança comunista revolucionária ou uma reprodução disso, o recente giro para a direita deve vir como surpresa e mesmo choque. A perceptível complacência de Castro à pressão econômica soviética, enquanto talvez equivocadamente compreensível de um ponto de vista (o de construir a economia nacional), é indesculpável de outro (o da revolução proletária internacional), e, de fato, derrota estrategicamente a última. É somente na base da revolução proletária nos países avançados que a economia cubana pode desenvolver seu pleno potencial. Considerações táticas devem ser vistas como parte e subordinadas às estratégicas. Fluindo do empirismo da liderança cubana, o objetivo estratégico de revolução proletária mundial (se algum dia existiu) foi sacrificado ao objetivo estreito, limitado, “pragmático” de preços estáveis para o açúcar cubano. Se ainda é objetado que Castro não tinha escolha, então nós, ao menos, não temos nos desculpar por suas ações em Moscou. Castro, de fato, não tinha escolha: ele foi o prisioneiro de sua própria origem histórica que foi a base de sua política. Basta dizer que se o nosso movimento tivesse chegado ao poder em Cuba, ele teria estado em uma situação histórica bastante diferente. Nós criticamos a liderança de Castro como parte do processo de construção da liderança Bolchevique que deve ser parte integral numa situação como essa. O jogo histórico de trocar de lugar com vários líderes não é algo em que os marxistas se envolvam. As técnicas de chantagem econômica soviética são, é claro, bem conhecidas dos povos da Albânia e da China, e é mérito de Castro que ele tenha persistido por tanto tempo quanto o fez.

A vacilação da liderança de Castro entre as posições defendidas pelas burocracias soviética e chinesa, e sua aderência, mais ou menos, à linha da última, permitiu a muitos socialistas manter certas ilusões sobre a natureza da liderança cubana – ilusões que tal liderança começou ela própria a dissipar.

Além disso, esses mesmos socialistas estão sustentando uma ilusão ainda mais fundamental com a sua crença de que uma perspectiva proletária revolucionária motiva a posição chinesa, superficialmente revolucionária. Enquanto a liderança maoista falar com um vocabulário revolucionário, muitos socialistas estão inclinados a tomar sua palavra como verdadeira. Entretanto, está claro por toda a história da revolução chinesa, que a tentativa de construir uma base de seguidores em torno da linha do PCC é apenas para o propósito de pôr pressão no imperialismo para forçá-lo a se acomodar ao atual governo do Estado chinês.

O giro à direita da liderança de Castro colocou agora a questão da teoria marxista e sua relação com a prática diante de todos aqueles que se consideram comunistas revolucionários. Se o movimento revolucionário dos trabalhadores quiser avançar, terão que acertar as conta com essa e outras questões, e chegar a uma solução com base na ação da classe trabalhadora independente.

A liderança cubana, apesar de responder à pressão das massas, permanece acima e é organizativamente independente dela. Essa independência organizativa é consequência de usa origem histórica, na qual ela chegou ao poder como liderança, não de sovietes operários e camponeses, mas sim de um exército de guerrilha. Desta base social é que flui a natureza empírica, e não marxista, da liderança cubana, conforme foi declarado claramente por Che Guevara: “Para saber para onde vai Cuba, o melhor é perguntar ao governo dos EUA quão longe ele pretende ir”.

Se muitos socialistas que apoiam o governo Castro em oposição ao regime contrarrevolucionário de Khrushchev não viam a necessidade de uma visão dialética da sociedade, acreditando, em vez disso no curso “natural” dos eventos, o seu impressionismo idealista recebeu, ao menos, um golpe rude pelas vacilações empíricas da liderança de Castro.

A estratégia dos marxistas na época de decadência imperialista flui da compreensão do desenvolvimento total e por toda a parte da luta de classes internacional, e, portanto, das necessidades do proletariado internacional. Essa visão, que observa a interdependência e interconexão de todos os fenômenos, nada tem em comum com o empirismo não apenas da liderança cubana, mas também, infelizmente, de muitos comunistas.

Os líderes cubanos têm reagido empiricamente a todas as pressões, não apenas dos imperialistas dos EUA, mas também dos burocratas soviéticos, e não apenas falharam em realizar as tarefas essenciais diante do movimento revolucionário dos trabalhadores, mas sequer compreenderam quais são estas tarefas. E eles falharam em compreender essas tarefas precisamente por sua incapacidade, que flui das suas origens sociais em um movimento camponês democrático-burguês, de pensar de qualquer outra forma que não seja empírica. O empiricismo, a ideologia da burguesia depois de ter estabelecido o seu poder, é necessariamente o método de todas as tendências que não se baseiam na estratégia da revolução proletária mundial.

Mesmo as reformas democrático-burguesas mais elementares não podem ser mantidas nos países atrasados, exceto sob a ditadura do proletariado. Depender de que outros movimentos similares liderem revoluções que vão tão longe em sua transformação quanto a revolução cubana foi, é deixar a iniciativa passar para as mãos do imperialismo. Foi apenas a incapacidade do imperialismo americano de se acomodar a uma revolução radical pequeno-burguesa que forçou o regime de Castro a ir tão longe quanto foi – mais longe, de fato, do que qualquer um no Movimento 26 de Julho havia planejado. Os imperialistas europeus têm sido, até o momento, mais astutos que seus pares americanos. Aqueles compreenderam mais corretamente a maré do movimento nacionalista e cederam muito do seu poder político e um pouco do seu poder econômico na África e na Ásia precisamente para evitar o que aconteceu em Cuba. Eles permitiram que os “socialistas” Ben Bella e Nkrumah se voltassem contra os imperialistas; estes preferiram perder status do que perder áreas para investimento, mesmo se tais investimentos enfrentam certas restrições.

A justificável tremenda onda de entusiasmo pela revolução cubana transbordou para um tipo de adulação acrítica da liderança de Castro que é inteiramente inaceitável para marxistas. As causas disso são, entretanto, claras: a pequenez do movimento comunista americano; a calmaria relativa da classe trabalhadora americana; e o sucesso de uma revolução radical pequeno-burguesa que desafiou o imperialismo americano e mexeu com as imaginações não apenas dos oprimidos trabalhadores e camponeses das colônias, mas também dos radicais americanos. Diante das enormes tarefas à frente dos poucos comunistas revolucionários neste país, alguns de nós olharam para outro lugar e se tornaram adoradores do fato consumado – Fidel Castro e Mao Tse Tung, para não mencionar Jimmy Hoffa e Malcom X. Aqueles de nós que não nutrem quaisquer ilusões sobre esses líderes, são atacados como sectários. Entretanto, nossa análise, no caso de Castro, foi dramaticamente confirmada. É necessário encarar a verdade inflexivelmente, nos livrarmos de noções românticas fáceis e começar a tarefa crítica de construir um partido marxista neste país. Um partido baseado em ilusões jamais liderará a classe trabalhadora até o poder.

DEFENDER A REVOLUÇÃO CUBANA!

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