A Revolução Chinesa

[Por Ted Grant. Originalmente publicado em janeiro de 1949. Tradução para o português realizado pelo Reagrupamento Revolucionário em fevereiro de 2018, a partir da versão presente na coletânea The Unbroken Thread (Fortress Books, 1989), disponível em https://www.marxist.com/TUT/TUT4-1.html ]

Com o avanço espetacular do Exército Vermelho Chinês, os diplomatas do Departamento de Estado dos EUA e do Ministério das Relações Exteriores da Grã-Bretanha discutem seriamente a possibilidade do colapso completo do regime de Chiang Kai Shek. Toda a imprensa capitalista escreve tristemente sobre as perspectivas do território chinês do norte e centro, até o rio Yangtzé, cair sobre influência stalinista.

Três anos após o colapso do imperialismo japonês, o Exército Vermelho conquistou a Manchúria e a maior parte do norte da China. A capital chinesa, Nanquim, com a cidade mais rica da China, Xangai, que tem uma população de cinco milhões, está rapidamente entrando no alcance do Exército Vermelho. O território que os stalinistas já dominam tem uma população de mais de 170 milhões.

Os capitalistas britânicos, com investimentos na China no valor de 450 milhões de libras esterlinas, estão consternados com a perspectiva da perda deste lucrativo campo de investimento. O imperialismo estadunidense, em cuja esfera de influência a China caiu com o enfraquecimento das outras potências imperialistas durante a guerra, deu ajuda ao governo do Kuomintang na extensão de US$ 3 bilhões, numa tentativa infrutífera de garantir que a China siga sob exploração imperialista.

Mas os imperialistas estadunidenses agora percebem que uma ajuda adicional seria meramente desperdiçar dinheiro. Com todas as vantagens militares e técnicas a seu favor nos primeiros estágios da guerra civil que se seguiram à guerra mundial, o Kuomintang sofreu derrota após derrota. O regime do Kuomintang, sob o governo ditatorial de Chiang Kai Shek, representa os proprietários feudais e os capitalistas. Ele é controlado por uma camarilha militar totalmente corrupta, que oprime os trabalhadores e os camponeses e favorece seus mestres.

Chiang Kai Shek chegou ao poder após a derrota da revolução chinesa de 1925-27, na qual ele desempenhou o papel de açougueiro-chefe da classe trabalhadora. Ele conseguiu isso por causa da política de Stalin e Bukharin e da liderança do Partido Comunista Chinês. Tal política era então formar um bloco com os proprietários chineses, capitalistas e senhores da guerra feudais, alegadamente no interesse da luta contra o imperialismo. Em consequência, sabotaram as tentativas dos trabalhadores para assumir as fábricas e dos camponeses em tomarem as terras. Um Ministro do Trabalho “comunista” sabotou greves e puniu trabalhadores em greve. Um Ministro da Agricultura “comunista” atirou em camponeses quando tentaram tomar terras.

O Kuomintang capitalista foi levado à Internacional Comunista como uma seção simpatizante. Em A Terceira Internacional Depois de Lenin, escrito por Trotsky, o papel dos estalinistas é mostrado em uma nota explicativa:

“O Kuomintang foi admitido na Comintern como um partido simpatizante no início de 1926, aprovado pelo Politburo do PCUS, com o único voto dissidente de Trotsky. Hu Han-min, líder da direita do Kuomintang, participou do Sexto Pleno do CCEI [Comitê Central Executivo da Internacional], em fevereiro de 1926, como delegado fraterno do Kuomintang. Shao Ki-tze, um capataz de Chiang Kai Shek, foi deputado fraterno ao Sétimo Pleno do CCEI, de novembro de 1926 (Edição alemã das Atas, p. 403)”

Em 21 e 22 de março de 1927, os trabalhadores de Xangai capturaram a cidade. Chiang imediatamente começou os preparativos para a matança. Ele conspirou com os imperialistas para esmagar os trabalhadores.

Em vez de se preparar para a luta, os stalinistas deram todo o apoio a Chiang. O jornal oficial da Comintern, International Press Correspondence, edição francesa, de 23 de março de 1927, página 443, disse: “Longe de se dividir, como dizem os imperialistas, o Kuomintang apenas reforçou suas fileiras”.

Em 30 de março eles escreveram:

“Uma divisão no Kuomintang e as hostilidades entre o proletariado de Xangai e os soldados revolucionários estão absolutamente excluídos no momento em que Chiang Kai-Shek declarou que se submeteria às decisões do partido … Um revolucionário como Chiang Kai-Shek não vai passar por cima, como os imperialistas gostariam de acreditar, de Chang Tao-lin (o chefe militar do norte) para lutar contra o movimento de emancipação … “

Chiang organizou um golpe, massacrou o despertar dos trabalhadores, ilegalizou os sindicatos, as organizações camponesas, o Partido Comunista e privou as massas de todos os direitos.

As massas foram totalmente derrotadas e os restos da liderança chinesa do Partido Comunista fugiram para as áreas camponesas – e tentaram organizar uma guerra camponesa.

Exército camponês

A luta guerrilheira lançou líderes de extraordinário gênio militar. Mao Tse Tung, Chu Teh [1] e outros conseguiram repelir as poderosas forças militares que o Kuomintang lançou contra eles. Apesar da errônea linha política, que levou a sucessivos desastres, em uma das façanhas militares mais notáveis ​​da história mundial, Mao foi expulso do centro e sul da China em uma retirada de 6.000 milhas para o refúgio das montanhas em torno de Yenan, onde foi criada uma república “soviética”. Lá, apesar de todos os esforços do regime de Chiang para desalojá-los, eles conseguiram se manter, um ataque após o outro. O segredo de seu sucesso foi que a terra havia sido distribuída entre os camponeses nesta pequena área, compreendendo, segundo algumas estimativas, cerca de 10 milhões de habitantes.

No período intermediário entre as guerras, o regime de Chiang acumulou encargos cada vez maiores sobre os trabalhadores e camponeses. Em algumas áreas, os impostos foram recolhidos aos camponeses pelas autoridades locais corruptas com 80 anos de antecedência.

Havia um desperdício infinito de riqueza com assuntos militares e o fraco regime do Kuomintang se mostrou incapaz de travar uma luta revolucionária contra as incursões do Japão imperialista.

O regime de Chiang se resumiu ao terror policial e ao suborno. Em um período de duas décadas, tornou-se tão completamente degenerado de cima para baixo que perdeu a maior parte do seu apoio, mesmo entre a classe média. Após o colapso do Japão, com uma certa ajuda do Exército Vermelho [URSS] na região da Manchúria, que ajudou os stalinistas a capturar munições japonesas, grandes partes da Manchúria e do Norte caíram nas mãos dos stalinistas. O Exército Vermelho Chinês travou uma luta de guerrilha contra o militarismo japonês durante a guerra e estava em uma posição estratégica para tomar certas áreas com o colapso japonês. Mesmo durante a guerra, a principal preocupação de Chiang foi o perigo social em casa, lidar com os stalinistas e os trabalhadores, e, se não fosse claro que o Japão seria derrotado nos estágios posteriores, é provável que ele tivesse capitulado e feito um compromisso com o imperialismo japonês.

Um regime moribundo

O imperialismo americano ajudou Chiang, derramando em suas mãos munições e outros suprimentos, e até mesmo via intervenção militar direta, para transportar tropas do Kuomintang para a Manchúria e o norte da China através da frota e força aérea dos EUA. Chiang teve sucessos iniciais, mas tudo em vão. Ele estava liderando um regime moribundo, mais arcaico do que o regime czarista na Rússia. O regime era tão podre, que grande parte dos suprimentos foram vendidos por oficiais para os exércitos stalinistas em troca de ouro, e ministros e outros funcionários do governo de Chiang embolsaram uma grande parte dos dólares fornecidos pelos EUA. Apenas a menor parte dos suprimentos e munições chegou realmente as tropas nacionalistas no front.

Os comandantes militares incessantemente brigavam uns contra os outros, como em todos os regimes condenados. Chiang, por exemplo, cortou o fornecimento de suprimentos ao general Fu Tso Yi, o único general excepcional que mostrou qualquer capacidade real no lado nacionalista, por medo de que ele pudesse tentar substituí-lo. Os generais foram superados pela estratégia e táticas superiores do comando do Exército Vermelho.

Questões sociais envolvidas

No entanto, o principal motivo das vitórias dos stalinistas chineses foi facilmente apontado por Mao Tse Tung: as questões sociais envolvidas. “Terra para os camponeses”, como na revolução russa, soou o gongo de morte dos proprietários feudais e seu regime corrupto. Em grande parte, os stalinistas chineses realizaram a revolução agrária. Essa é a diferença significativa entre a luta de 1927 e agora. É isso que foi responsável pelo derretimento dos exércitos que Chiang tentou usar para esmagar a rebelião agrária. Os exércitos de Chiang são compostos de camponeses – os camponeses mais pobres – que não têm dinheiro suficiente para escapar do recrutamento subornando os oficiais.

Mesmo a News Chronicle [extinto jornal burguês britânico] (11 de dezembro de 1948) admite:

“Há descontentamento entre as bases do exército nacionalista. Os soldados de Chaing ganham cerca de cinco centavos por mês.
“Em algumas aldeias, os conscritos são amarrados juntos no caminho para serem levados aos quartéis, e quando eles viajam de trem, as portas e os vagões são trancadas para que não possam escapar.”

Naturalmente, eles desertam com suas armas, até mesmo em batalhões inteiros, quando confrontados com o programa agrário dos stalinistas.

O programa agrário stalinista

Na conferência agrária nacional do Partido Comunista chinês, realizada em 13 de setembro de 1947, propôs-se a implementação de uma lei agrária contendo as seguintes disposições:

“Artigo 1. O sistema agrário de exploração feudal e semi-feudal está abolido. O sistema agrário de “terra para os lavradores” está estabelecido.
“Artigo 2. Os direitos de propriedade da terra de todos os proprietários estão abolidos.
“Artigo 3. Os direitos de propriedade da terra de todos os santuários ancestrais, templos, mosteiros, escolas, instituições, e organizações estão abolidos.
“Artigo 4. Todas as dívidas incorridas no campo antes da reforma do sistema agrário estão canceladas.”

O artigo 10, direcionado diretamente aos soldados e até mesmo aos oficiais do Kuomintang, afirma:

“Seção C. Todo o pessoal dos Exércitos de Libertação do Povo, os governos democráticos e todas as organizações de pessoas cujas casas estão no campo receberão terras e propriedades equivalentes às dos camponeses para si e suas famílias.
“Seção D. Os proprietários e suas famílias receberão terras e propriedades equivalentes às dos camponeses.
“Seção E. Famílias de oficiais e soldados do Kuomintang, membros do Partido Kuomintang e outros membros do inimigo, cujas casas estão em áreas rurais, devem ter terra e propriedades equivalentes às dos camponeses.”

Um dos fatos notáveis na China é a relativa passividade da classe trabalhadora. É verdade que, como resultado do colapso dos exércitos de Chiang, houve intensas lutas grevistas nas grandes cidades, Xangai, Cantão, Hankow e Nanquim, apesar das condições repressivas. No entanto, é claro que, à medida que os stalinistas avançam para as grandes cidades do Yangtzé, os trabalhadores, por falta de uma alternativa de massas, só podem se unir à sua bandeira. Os trabalhadores nunca apoiaram o regime de Chiang Kai Shek.

Todo trabalhador socialista aplaudirá de todo o coração a destruição do feudalismo e do capitalismo de larga escala nesta importante região da Ásia, embora seja realizada sob a liderança do stalinismo. Em suas implicações a longo prazo, esse processo é tão importante quanto a própria Revolução de Outubro. Não se poderia dar uma melhor análise marxista da imagem sombria da classe capitalista mundial do que a expressada no editorial de The Times, de 10 de novembro de 1948:

“Na melhor hipótese, isso mostra um único xeque (Hsuchow, detida pelos nacionalistas na época e desde então já perdida) após meses de ganhos que levaram o equilíbrio de poder – militar, industrial, ideológico – para o lado comunista. A ampliação do seu alcance em grandes áreas do Norte e da China Central tem um significado muito mais profundo do que a invasão japonesa há dez anos, pois os comunistas – ajudados decisivamente pela Rússia, por terem sido e continuarem a ser marxistas – convocam e organizam forças revolucionárias nativas. Na sua vastidão e nas suas consequências muito prováveis, a atual revolta deve ser comparada com a revolução russa de 1917 – da qual ela brota de forma direta e evidente. Um maior sucesso para os comunistas chineses ofereceria uma influência maior e, no momento maduro, maior sucesso, para o poder com o qual se aliariam. Os há muito acalentados planos soviéticos de arrastar os milhões da Ásia para o campo que já se estende do Oder à Sakhalin receberiam a maior medida de reforço até agora.

“… Eles podem recorrer aos camponeses para seus batalhões, e eles tem conseguido conquistar o apoio do campesinato, expropriando a maioria dos proprietários e redistribuindo a terra. Até agora, as reformas agrícolas dos comunistas prosperaram mais obviamente porque não tiveram que alimentar muitas grandes cidades; o alimento foi mantido principalmente nas áreas rurais do país.

“Em algumas regiões, um comandante tem roubado implacavelmente ou aprisionado os que julgou serem anticomunistas; em outras, houve uma demonstração de tolerância com poucas mudanças no modo de vida tradicional. Empresários e outros ainda receberam a opção de ficar ou sair. Esse show de tolerância parece ser a política de Mao Tse Tung, o líder comunista altamente inteligente. Seus escritos e discursos mostram ser ele um marxista inquebrável, mas um que reconhece que a análise de Marx das oportunidades de revolução na Europa industrial do século passado não podem ser aplicadas estritamente ao cinerário principalmente agrícola e primitivo de grande parte da China. Ele parece ter decidido alcançar seu objetivo comunista em duas etapas. Primeiro, deve haver um sistema de comércio relativamente livre, semelhante à Nova Política Econômica que Lênin introduziu após o fracasso inicial do comunismo militante na Rússia. É esta fase que ele proclama no presente, esperando, não sem sucesso – não só conquistar os camponeses, mas aliviar os medos de muitas pessoas da cidade. Depois, quando a primeira etapa for realizada, ele planeja dar um passo adiante para o socialismo marxista”.

As referências ao marxismo e à política comunista de Mao são, naturalmente, falsas. A política do stalinismo na Rússia, na Europa Oriental e na China foi taxada de marxista por todos os jornalistas capitalistas atuais. É uma perversão do marxismo. No entanto, The Times vê que as táticas dos stalinistas chineses serão semelhantes às dos stalinistas na Europa Oriental.

Dois lados da moeda

Ao mesmo tempo em que se apoia a destruição do feudalismo na China, deve-se enfatizar que apenas uma horrível caricatura da concepção marxista de revolução resultará da liderança dos stalinistas. Não uma democracia real, mas um regime totalitário tão brutal quanto o de Chiang Kai Shek se desenvolverá. Como os regimes do Leste Europeu, Mao procurará a Rússia como seu modelo. Sem dúvida, um tremendo progresso econômico será alcançado. Mas as massas, tanto trabalhadoras como camponesas, serão escravizadas pela burocracia.

Os stalinistas estão incorporando no seu regime militares ex-feudais, elementos capitalistas e a oficialidade burocrática das cidades, que ocuparão cargos de privilégio e poder.

Na base de uma economia tão atrasada, uma diferenciação em grande escala entre os camponeses (como após a Revolução Russa durante o período da NEP), auxiliada pela não-nacionalização da terra, os elementos capitalistas no comércio e mesmo na indústria leve, poderiam fornecer uma base para a contrarrevolução capitalista. Deve-se ter em mente que, na China, o proletariado é mais fraco em relação ao campesinato do que era o caso na Rússia durante a NEP, devido ao desenvolvimento mais atrasado da China. Mesmo na Tchecoslováquia e outros países do Leste Europeu de forma semelhante, onde os elementos capitalistas eram relativamente mais fracos, no entanto, o perigo de uma reviravolta capitalista existiu por um tempo. O fato de que os trabalhadores e os camponeses não terão controle democrático e que a tirania totalitária terá imposto a eles as barbaridades e crueldades asiáticas do antigo regime, dá origem a essa possibilidade. No entanto, parece provável que os elementos capitalistas sejam vencidos por causa da tendência histórica da decadência do capitalismo em escala mundial. A impotência do imperialismo mundial é demonstrada pelo fato de que, enquanto eles intervieram diretamente contra a revolução chinesa em 1925-27, hoje eles olham impotentes para o colapso do regime de Chiang.

No entanto, é bem provável que Stalin tenha um novo Tito em suas mãos. Os mais poderosos comentaristas capitalistas já estão especulando sobre isso, embora eles vejam nisso um frio conforto. Mao terá uma base poderosa na China, com 450 a 500 milhões de habitantes e seus recursos potenciais, e o peso incontestável que seu regime irá possuir nos estágios iniciais. Os conflitos que assim abrirão devem ser usados como outros meios para ajudar a classe trabalhadora mundial a entender a natureza real do stalinismo.

NOTAS

 [1] Chu Teh juntou-se ao PC chinês em 1922. Suas forças militares juntaram-se com as lideradas por Mao Tse Tung em 1928. Chu tornou-se o principal líder militar do PC na Longa Marcha e na guerra civil contra o Japão.

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