A Escola Stalinista de Falsificação Revisitada (3)

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3. O “Terceiro Período”
 
O consistente curso de Stalin à direita em 1926-27, o levou a capitular aos kulaks (camponeses ricos) internamente, aos burocratas sindicais durante a greve geral britânica, a Chiang Kai-shek na China. Ele sustentou essa política através de um bloco no Politburo com Bukharin, que tinha dito “enriquecei-vos” aos camponeses e projetado a construção do socialismo “a passo de tartaruga”. A Oposição de Esquerda liderada por Trotsky se opôs a essa linha, alertando que ela não apenas significava o massacre de milhares de comunistas estrangeiros, mas em última instância ameaçava as próprias fundações do Estado soviético em si. Stalin “respondeu” no Décimo Quinto congresso do partido (dezembro de 1927) sumariamente expulsando a Oposição e formalmente declarando que “aderência à Oposição ou propaganda das suas visões é incompatível com ser membro do partido”.

As previsões de Trotsky foram dramaticamente confirmadas pela rebelião kulak de 1927-28. Os depósitos de grãos do Estado estavam quase vazios e a fome ameaçava as cidades; a coleta de grãos produzia tumultos nos vilarejos, já que os camponeses (que podiam obter poucos recursos manufaturados de retorno em razão da moeda inflacionada) se recusaram a vender segundo os preços regulados pelo Estado. De repente, em janeiro de 1928, Stalin mudou para uma linha mais dura, ordenando expedições armadas para requisitar reservas de grãos. Mas mesmo isso não foi o suficiente. Em maio ele ainda estava declarando que “a expropriação dos kulaks seria tolice” (Problemas do Leninismo, pág. 221), mas no fim daquele ano ele argumentou que: “Podemos nós permitir a expropriação dos kulaks…? Que pergunta ridícula… Nós devemos quebrar a resistência dessa classe em um confronto aberto” (Problemas do Leninismo, pág. 325). Esse tipo de reviravolta dramática era constante para Stalin.
 
Desde 1924, Trotsky fazia um campanha pela industrialização e coletivização e era considerado por Stalin como um “inimigo do camponês” e “super-industrializador”. Mas diante da revolta antissoviética dos camponeses em 1928, Stalin entrou em completo pânico, mudando de um conservadorismo cego para um aventureirismo cego. Na Plataforma de 1927 da Oposição Unificada, Trotsky e Zinoviev chamaram a dobrar a taxa de crescimento previsto no primeiro plano quinquenal; Stalin agora a triplicava, e ao preço de um tremendo sofrimento para os trabalhadores. A Oposição chamava por uma coletivização voluntária das terras, ajudada por crédito do Estado para as cooperativas agrícolas e por uma luta contra a influência do kulak; Stalin realizava agora a coletivização forçada de metade das fazendas da União Soviética no período de quatro meses! Os camponeses responderam com sabotagem, sacrificando mais de 50 por cento dos cavalos do país, e com uma guerra civil que durante os vários anos seguintes custou mais de três milhões de vidas.
 
Trotsky se opôs à coletivização sob o cano da metralhadora, considerando-a uma monstruosidade. Marxistas sempre chamaram por ganhar a pequeno-burguesia gradualmente, por persuasão e por uma transição voluntária para o socialismo através da produção cooperativa. A industrialização, por outro lado, apesar da incrível desorganização e dificuldades desnecessárias causadas pelo planejamento burocrático, ele apoiou:
 
“O sucesso da União Soviética no desenvolvimento industrial está adquirindo um significado global histórico… Esse momento não é nem estável e nem seguro… mas ele provê uma prova prática das imensas possibilidades contidas nos métodos econômicos socialistas.”
― L. D. Trotsky, “Imprudência Econômica e seus Perigos”, 1930
 
Ambas a coletivização e a industrialização eram plenamente justificadas nas políticas da Oposição. Para que representassem um retorno ao leninismo, entretanto, elas requeriam complementarmente o restabelecimento da democracia no partido e nos sovietes. Stalin respondeu à bancarrota das suas políticas anteriores, agudamente reveladas pela crise, tomando o curso oposto, reforçando a sua ditadura burocrática e expulsando Trotsky da União Soviética.
 
Stalin descobre o “Terceiro Período”
 
As políticas de Stalin na Internacional Comunista (IC) eram uma duplicata dos seus ziguezagues domésticos. Depois do desastre da insurreição de Shangai de 1927, no qual ele ordenou aos comunistas chineses renderem as suas armas ao carniceiro Chiang Kai-shek, ele bruscamente refez o curso e ordenou a aventureira Comuna de Cantão, que terminou em um massacre similar para os trabalhadores. No verão de 1928, Stalin generalizou esse padrão de imprudência ultra-esquerdista com a doutrina do “terceiro período” do imperialismo.
 
De acordo com essa “teoria”, houve uma onde revolucionária no pós-guerra até 1923, um período de estabilização até 1928 e então um novo período de iminente e final colapso do capitalismo. Como os catastrofistas de hoje, Stalin explicava que a crise econômica iria automaticamente criar uma situação revolucionária. Na verdade, os estágios iniciais de uma crise são frequentemente acompanhados de uma grave desmoralização na classe trabalhadora. E é digno de nota que, em nenhum momento entre 1928-32, qualquer partido comunista no mundo realizou uma tentativa de tomar o poder! (Posteriormente, Stalin abandonou silenciosamente a sua bombástica teoria enquanto fazia um giro brusco à direita).
 
O início da depressão e as políticas de ultraesquerda da Comintern causaram estragos nos partidos comunistas. No país chave da Europa ocidental, a Alemanha, uma combinação de demissões em massa e da política de abandonar os sindicatos resultou na queda da porcentagem de trabalhadores fabris do partido, de 62% em 1928, para apenas 20% em 1931, efetivamente transformando os comunistas na vanguarda dos desempregados ao invés da dos trabalhadores. Resultados patéticos típicos do aventureirismo do “terceiro período”, foram as marchas do Primeiro de Maio de 1929, que haviam sido proibidas pelos governos capitalistas: em Paris, a polícia simplesmente prendeu todos os membros ativos do PC em 30 de abril (soltando-os três dias depois). Em Berlim o chefe de polícia socialdemocrata Zoergiebel atacou brutalmente os comunistas, cujo chamado por uma greve geral foi um fiasco.
 
Outro aspecto das políticas do “terceiro período” foi a prática de estabelecer pequenos “sindicatos revolucionários”, contrapostos as organizações de massa lideradas pelos reformistas. Os comunistas defendem a unidade sindical, mas não se opõem a todos os rachas. Pode ser necessário romper com restritivos sindicatos organizados por profissão para poder organizar em massa os trabalhadores da produção. Também, quando uma oposição pela esquerda é impedida de vencer somente pelos métodos burocráticos e criminosos, um rompimento com a velha organização pode ser a única alternativa à derrota. A questão é o apoio da esmagadora maioria dos trabalhadores, fazendo com que o sindicato possa sobreviver enquanto uma organização de massa.
 
O rompimento sindical do “terceiro período”, considerado uma questão de princípio, era bem diferente. Ele levou à formação de federações sindicais separadas (a Liga da Unidade Sindical [TUUL] nos Estados Unidos e a Oposição Sindical Revolucionária [RGO] na Alemanha), e a incontáveis pequenos “sindicatos vermelhos” com alguns poucos membros, que nunca tiveram nenhuma chance de sucesso. A política do “sindicato vermelho” é diretamente oposta à política leninista de lutar por uma liderança comunista para as existentes organizações de massa dos trabalhadores, e, com a exceção de algumas poucas situações isoladas, estava destinada ao fracasso.
 
“Social-fascismo”
 
Uma generalização dessa política foi a descoberta de Stalin de que os partidos reformistas socialdemocratas eram “social-fascistas”, ou seja, “socialistas em palavras, fascistas nos atos”. Desde que eles já não seriam mais parte do movimento operário (assim como os sindicatos dirigidos por socialdemocratas), a tática de frente única não era mais aplicável e os comunistas podiam no máximo oferecer uma “frente única pela base”, que é simplesmente chamar os trabalhadores e sindicalistas de base da socialdemocracia a romper com seus dirigentes.
 
Os líderes socialdemocratas prepararam o caminho para o fascismo – sobre isso não pode haver dúvida. Em janeiro de 1919, o socialdemocrata Noske pessoalmente organizou o massacre de centenas de trabalhadores revolucionários alemães ao reprimir o “levante espartaquista” em Berlim. Entre os mártires estavam Karl Liebknecht e Rosa Luxemburgo, líderes do PC alemão. Em 1929 o socialdemocrata Zoergiebel afogou em sangue a marcha de Primeiro de Maio do PC. Em cada passo da escalada de Hitler ao poder, os reformistas capitularam ao invés de lutar. E, mesmo depois que Hitler já tinha tomado o poder, ao invés de organizar uma massiva resistência como haviam prometido, os líderes socialdemocratas ofereceram apoio à política externa do governo nazista, na vã esperança de que assim eles iriam salvar o seu partido da destruição! Eles não lutaram até que era tarde demais e, em última análise, eles preferiram Hitler à revolução.
 
Mas isso não é o mesmo que dizer, como fez Stalin, que a socialdemocracia era apenas a “ala esquerda do fascismo”. Essa declaração incoerente ignorava o fato de que as organizações da socialdemocracia e os próprios sindicatos seriam destruídos como resultado da vitória dos fascistas. Como Trotsky escreveu:
 
“O fascismo não é meramente um sistema de represálias, de força bruta e de terror policial. O fascismo é um sistema de governo particular baseado na destruição de todos os elementos da democracia proletária dentro da sociedade burguesa. A tarefa do fascismo está não em destruir a vanguarda comunista… também lhe é necessário esmagar todas as organizações voluntárias e independentes, demolir todos os baluartes defensivos do proletariado, e destruir tudo que se conseguiu por três quartos de século pelos sindicatos e pela socialdemocracia.”
― “E agora?”, janeiro de 1932
 
Aqui está uma situação que pede a política de frente única. Os líderes socialdemocratas não queriam lutar, mas recuar. A base, entretanto, não podia recuar – eles deviam lutar ou se ver aniquilados. Logo, devia-se chamar a liderança socialdemocrata a montar uma ofensiva unida contra os nazistas! Se eles aceitassem, a ameaça fascista podia ser destruída e a estrada aberta para a revolução. Se eles se recusassem, a sua traição ficaria claramente exposta diante dos trabalhadores e a mobilização revolucionária da classe operária se fortaleceria, por ser demonstrado na luta que os comunistas são a única liderança proletária consistente. Nas palavras de Trotsky:
 
“Trabalhadores comunistas, vocês são centenas de milhões; vocês não podem fugir para lugar algum; não há passaportes o suficiente para vocês. Se o fascismo chegar ao poder, ele vai passar por cima dos seus crânios e esqueletos como um tanque arrasador. A sua salvação está em uma luta implacável. E somente uma unidade de luta com os trabalhadores socialdemocratas pode trazer a vitória.”
― “Por uma Frente Única Proletária contra o Fascismo”, dezembro de 1931
 
“Depois de Hitler – nós!”
 
Às vésperas da chegada de Hitler ao poder, Stalin continuava a seguir a lógica derrotista-sectária do “terceiro período”, Depois das eleições de setembro de 1930, na qual o voto nos nazista pulou de 800 mil para mais de 6 milhões, o dirigente principal do PC alemão, Ernest Thaelmann, disse à executiva da Comintern que “… 14 de setembro foi em certo sentido o auge de Hitler, depois do qual não haverá dias melhores, mas apenas dias piores”. A IC endossou essa visão e chamou o PC a “concentrar o fogo nos social-fascistas”! Os stalinistas ridicularizaram a análise de Trotsky sobre o fascismo, e afirmaram que não havia diferença entre o regime de Brünning e os nazistas. Em outras palavras, eles foram inteiramente indiferentes quanto a se existiriam ou não organizações proletárias! Remmele, um líder do PC, declarou no Reichtag (o parlamento alemão): “Deixem Hitler assumir o governo – ele logo irá à bancarrota, e então será a nossa vez”. Consistente com essa política criminosa e completamente covarde, o PC se juntou aos nazistas em uma tentativa (sem sucesso) de retirar do cargo através de um plebiscito o governo estadual da Prússia, dirigido pelos socialdemocratas (o “Plebiscito Vermelho” de 1931)!
 
Em resposta ao amplo apoio recebido pelo chamado de Trotsky por uma frente única entre os trabalhadores alemães, Thaelmann respondeu em setembro de 1932:
 
“Em seu folheto sobre como o Nacional-socialismo deve ser derrotado, Trotsky dá apenas uma resposta, e é esta: o Partido Comunista Alemão deve juntar as mãos com o Partido Socialdemocrata… Ou, diz ele, o Partido Comunista faz causa comum com os socialdemocratas, ou então a classe trabalhadora alemã estará perdida por dez ou vinte anos. Essa é a teoria de um fascista completamente desmoralizado e contrarrevolucionário… A Alemanha obviamente não se tornará fascista – as nossas vitórias eleitorais são uma garantia disso. [!]”.
 
Nove meses depois, Thaelmann estava encarcerado nas prisões de Hitler. Ele foi depois executado pelos nazistas, assim como foram milhares de militantes comunistas e socialdemocratas, e os partidos proletários e sindicatos foram esmagados pelo punho de ferro do fascismo. As análises e políticas de Trotsky foram completamente confirmadas – e o proletariado alemão pagou o preço pela cegueira criminosa de Stalin.
 
Mas isso não pôs fim às traições de Stalin. Trotsky havia alertado anteriormente: É preciso dizer clara, energicamente, aos operários avançados: “Depois do ‘terceiro período’ de aventura e fanfarronada, começará o ‘quarto período’, o período do pânico e das capitulações”. (“Está na Alemanha a Chave da Situação Internacional”, novembro de 1931). A tragédia continuou a se desdobrar com uma precisão de relógio. Em seguida à chegada de Hitler ao poder, a Comintern, coberta de pânico, proibiu qualquer discussão dos eventos na Alemanha nos partidos comunistas e abandonou qualquer menção do social-fascismo. Ao invés disso, em um manifesto “Aos Trabalhadores de Todos os Países” (5 de março de 1933) a executiva chamou por uma frente única com os líderes socialdemocratas (o que eles haviam rejeitado nos cinco anos anteriores) e para que os PCs “abandonassem todos os ataques contra as organizações socialdemocratas durante a ação conjunta”!
 
A Frente Única
 
A série de Carl Davidson sobre “A Herança de Trotsky” em Guardian é um acobertamento consistente dos crimes de Stalin contra o movimento dos trabalhadores em uma tentativa de sustentar as políticas stalinistas de “socialismo em um só país”, “coexistência pacífica” e “revolução em etapas”, etc. Ao lidar com os eventos em torno da chegada de Hitler ao poder, Davidson afirma que “os trotskistas encobrem a força política que realmente pavimentou o caminho do poder para os fascistas – os socialdemocratas alemães” (Guardian, 9 de maio de 1973). O leitor pode julgar por si próprio do que foi dito acima, quais foram as forças políticas que abriram caminho ao fascismo! Davidson segue para afirmar que “Isso não quer dizer que o partido comunista alemão não tenha cometido erros ou que estes tenham sido insignificantes… Eles também cometeram uma série de erros ultra-‘esquerdistas’, incluindo uma ênfase unilateral na ‘frente única pela base’, ao invés de um esforço mais persistente de unidade também com os líderes socialdemocratas, mesmo se esta proposta fosse recusada”. Davidson é negligente em apontar que a cada passo a política do PC alemão foi ditada pelo próprio Stalin, e que foi repetidamente apoiada pelas reuniões da Comintern!
 
Os stalinistas constantemente tentam criar confusão sobre o conteúdo da política de frente única de Lenin (cuja principal palavra de ordem era “classe contra classe”), para tentar identifica-la com a “frente popular” de Stalin junto com a burguesia “democrática”. Eles buscam mostrar a frente única como uma tática de colaboração de classe e capitulação à liderança socialdemocrata. Isso levou alguns grupos, como o Partido Trabalhista Progressivo (PL), a rejeitar completamente a tática de frente única:
 
“Como nós repetidamente apontamos, nós rejeitamos o conceito de uma frente única com os patrões. Nós rejeitamos o conceito de uma frente única com os trotskistas e a horda de outras fraudes na esquerda…”
“Nós acreditamos em uma frente única pela base que tome a forma de uma coalizão de centro-esquerda”.
― “Estrada para a Revolução III”, PL, novembro de 1973
 
A frente única pela base, ou seja, chamar a base a se separar dos líderes reformistas, é sempre válido. Mas não se pode simplesmente ignorar esses falsos líderes sem condicionar a vanguarda a um isolamento estéril. Respondendo aos oponentes da frente única durante os primeiros anos da Internacional Comunista, Trotsky escreveu:
 
“A frente única se estende apenas às massas trabalhadoras ou ela também inclui os líderes oportunistas?”
“A própria formulação da questão é um produto de falta de compreensão.”
“Se nós fôssemos capazes de simplesmente unir as massas trabalhadoras ao redor da nossa própria bandeira ou ao redor das nossas palavras de ordem práticas imediatas, e passar por cima das organizações reformistas, fossem partidos ou sindicatos, isso sem dúvida seria a melhor coisa no mundo…”
“… para evitar perderem a sua influência sobre os trabalhadores, os reformistas são forçados, contra os mais profundos desejos dos seus líderes, a apoiar movimentos parciais dos explorados contra os exploradores…”
“… nós estamos, todas as outras considerações a parte, interessados em arrastar os reformistas das suas casas de repouso e coloca-los do nosso lado diante dos olhos das massas lutadoras.”
― “Sobre a Frente Única”, 1922
 
Essas teses foram aprovadas pelo Politburo do Partido Comunista da União Soviética e pelo Comitê Executivo da IC. Em sua polêmica contra os ultra-esquerdistas (Esquerdismo: Doença Infantil do Comunismo) Lenin chamou pelo uso de “qualquer oportunidade para ganhar um aliado de massas, não importa quão temporário, vacilante, pouco confiável ou acidental. Quem não foi capaz de colocar isso na cabeça não entendeu nada de marxismo e do socialismo científico contemporâneo em geral”.
 
Depois de se recusar por cinco anos a se unir na luta com os líderes socialdemocratas, Stalin, em março de 1933, deu um giro completo e concordou com uma “frente única” onde estaria proibida a possibilidade de crítica. Isso significava que os comunistas se comprometiam de antemão a permanecer em silêncio diante das inevitáveis traições dos reformistas, assim como Stalin havia se recusado a criticar e romper com os dirigentes sindicais britânicos quando eles traíram a greve geral de 1926. O quanto isso nada tem a ver com bolchevismo poder ser visualizado lendo a resolução original da Comintern sobre a frente única:
 
“Ao submeterem-se a uma disciplina da ação, os comunistas se reservaram absolutamente o direito e a possibilidade de expressar não somente antes e depois, mas sim também durante a ação, sua opinião sobre a política de todas as organizações operárias sem exceção. Em nenhum caso e sob nenhum pretexto, esta cláusula poderá ser contraposta.”
― “Teses Sobre a Frente única Proletária”, 1922
 
A União Soviética – um Estado proletário degenerado
 
A traição definitiva de Stalin na Alemanha, e a necessária conclusão de chamar por novos partidos comunistas e uma nova Internacional, levou ao questionamento a respeito de um novo partido na própria União Soviética. Isso, por sua vez, levantou de novo a questão do caráter de classe do Estado soviético e a natureza da burocracia stalinista que estava à sua frente. Trotsky se recusava a considerar a URSS “capitalista de Estado”, como faziam muitos antigos comunistas que haviam sido expulsos por Stalin. Fazê-lo implicaria dizer que poderia haver uma contrarrevolução pacífica, “rodando o filme do reformismo ao contrário”, por assim dizer. Fundamentalmente, o Estado é baseado em formas de propriedade, que representam os interesses de classes determinadas. As relações de propriedade socialistas na União Soviética permaneciam intactas, e essa conquista colossal da revolução de outubro não deveria se facilmente abandonada. Enquanto se opõem à burocrática liderança stalinista, os bolcheviques-leninistas devem defender incondicionalmente a URSS de um ataque imperialista.
 
Ao mesmo tempo, ela não era um Estado proletário saudável. O proletariado havia sido expropriado politicamente. Os sovietes eram simples corpos administrativos para carimbar as decisões do secretário geral. O partido bolchevique era uma criatura da burocracia, com toda a liderança de 1917 tendo sido expulsa ou subjugada, com a exceção de Stalin. Considerando os eventos dos anos recentes – as expulsões, as prisões e o banimento de todos os oposicionistas – era uma irresponsabilidade criminosa achar que essa burocracia parasita poderia ser eliminada sem uma revolução. Essa não seria uma revolução social, resultando em novas formas de propriedade, mas em uma revolução política. A URSS era um Estado proletário degenerado:
 
“… os privilégios da burocracia por si próprios não mudam as bases da sociedade soviética, porque a burocracia tira seus privilégios não de alguma relação de propriedade peculiar a si, como uma ‘classe’, mas daquelas relações de propriedade criadas pela revolução de outubro e que são fundamentalmente adequadas para a ditadura do proletariado.”
“Para colocar claramente: quando a burocracia rouba o povo (e isso é feito de várias formas por todas as burocracias), nós estamos lidando não com exploração de classe, no sentido científico do termo, mas com parasitismo social, ainda que em uma vasta escala…”
“Finalmente, nós acrescentamos para garantir a completa clareza: se na URSS hoje o partido marxista estivesse no poder, ele iria renovar todo o regime político; ele iria desarticular e expurgar a burocracia e coloca-la sob o controle das massas – ele iria transformar todas as práticas organizativas e inaugurar uma série de reformas fundamentais na administração da economia; mas de forma alguma ele teria que realizar uma derrubada das relações de propriedade, ou seja, uma nova revolução social.”
― “A Natureza de Classe do Estado Soviético”, outubro de 1933
 
Os stalinistas imediatamente gritaram “contrarrevolução”. Trotsky era um agente de Chamberlain, Hitler, do Mikado, etc. e tinha o objetivo de restabelecer o capitalismo, eles diziam. Mas os stalinistas nunca foram capazes de apontar uma única instância em que Trotsky tenha se recusado a apoiar a URSS contra o imperialismo, ou chamado pelo abandono das formas de propriedade socialistas. Em 1939, às vésperas da Segunda Guerra Mundial, ele liderou uma luta amarga contra um grupo liderado por Max Shachtman no Partido dos Trabalhadores Socialistas (SWP) norte-americano, que se recusava a defender a Rússia contra Hitler. Trotsky repetidamente enfatizava que enquanto a União Soviética permanecesse um Estado proletário, ainda que gravemente degenerado, era uma questão de princípios defende-la. Na hora da necessidade, os bolcheviques-leninistas estariam prontos em seus postos de batalha.
 
No começo dos anos 1960, Mao Tse-tung anunciou que a liderança de Kruschev-Brezhnev na União Soviética era, desde 1956, “social-imperialista” e que a URSS não era mais um Estado proletário, mas um novo tipo de imperialismo presidido por uma “burguesia vermelha”. Em um recente ataque contra o trotskismo de um ponto de vista maoísta, o folheto intitulado “Do Trotskismo ao Social-Imperialismo”, de Michael Miller, da Liga pela Revolução Proletária, essa posição é contrastada com a de Trotsky:
 
“Em 1956, Kruschev apareceu em cena lançando um ataque contra a ditadura do proletariado e espalhando ideologia e cultura pequeno-burguesa por toda a parte…”
“O trotskismo nunca entendeu a teoria e nunca aprendeu com a prática o caráter de classe dos Estados soviético e chinês. Durante o período da história soviética em que a base econômica estava sendo transformada desde propriedade privada para propriedade social dos meios de produção, os trotskistas sempre prestaram atenção à estrutura política – a superestrutura… A base econômica nunca pode ser considerada à parte da estrutura política. Na União Soviética, o Partido Comunista, que é o coração da estrutura política, foi tomado por uma camada de políticos de tipo burguês e transformado em uma variante de um grande partido político burguês. Agora eles estão ocupados implementando políticas econômicas que revertem a base econômica socialista, que restauram a propriedade privada, a produção privada para o mercado, e que reproduzem em uma enorme escala todas as relações sociais capitalistas correspondentes.”
 
Essa passagem demonstra a rejeição pelos maoístas do mais elementar marxismo. Se, como eles dizem, uma contrarrevolução social pacífica aconteceu na Rússia, então logicamente uma revolução socialista pacífica contra o capitalismo também pode acontecer – a posição socialdemocrata clássica que Lenin refutou em O Estado e a Revolução. Além disso, sustentar que tal contrarrevolução foi realizada pelo aparecimento de um grupo dominante com “ideologia pequeno-burguesa” é idealismo, completamente contraposto à compreensão materialista marxista de que uma revolução (ou contrarrevolução) social só pode ser atingida pela derrubada das relações de propriedade.
 
São importantes as consequências práticas dessa política. Já que a URSS é um Estado “imperialista” de acordo com Mao, não é necessário defende-la contra outros Estados capitalistas. De fato, Mao foi tão longe a ponto de pressionar por uma aliança sino-japonesa contra a União Soviética e encorajar a continuidade da OTAN como um baluarte contra o “imperialismo soviético” na Europa! Essas são implicações contrarrevolucionárias da posição do “capitalismo de Estado” posta em prática. Elas levantam o fantasma de uma guerra imperialista na qual a URSS e a China estariam aliadas a potências capitalistas adversárias – uma eventualidade que colocaria as formas de propriedade dos Estados proletários deformados e degenerado em perigo imediato. Embora a camarilha de Brezhnev em Moscou não seja tão explícita em emblocar com Estados capitalistas contra a China, a sua vontade de abandonar a defesa dos Estados proletários na esperança de chegar a uma aliança com o imperialismo norte-americano foi claramente revelada no ano passado, quando Nixon foi convidado para assinar uma declaração de “coexistência pacífica” em Moscou, ao mesmo tempo em que aviões norte-americanos estavam carregando bombas de saturação sobre o Vietnã de Norte!
 
Os trotskistas, em contraste, chamam pela unidade sino-soviética contra o imperialismo, pela defesa incondicional dos Estados proletários deformados e degenerado. Ao mesmo tempo, nós criticamos impiedosamente as burocracias parasitas que estão sabotando essa defesa. Os trabalhadores avançados irão reconhecer a justeza dessa posição classista e principista, e saberão rejeitar aqueles como, os maoístas e stalinistas pró-Moscou, que criminosamente abandonam a defesa das conquistas dos trabalhadores.
 
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A Escola Stalinista de Falsificação Revisitada (2)

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2. Socialismo em um só país
 
A história das origens da doutrina stalinista do “socialismo em um só país” é uma de usurpação do poder por uma camada burocrática por cima do primeiro Estado proletário da história. Essa casta privilegiada se consolidou ao redor do aparato de Estado soviético, que foi formado como um meio necessário de defender as conquistas da revolução de outubro em um país atrasado e camponês, arrasado por uma guerra civil e isolado pelo bloqueio imperialista e a tripla derrota da revolução proletária na Alemanha (1919, 1921 e 1923). Essas condições desfavoráveis exigiram uma política de “compromisso” e consolidação ao invés de uma “extensão” da revolução. O recrutamento de especialistas burgueses para ajudar na reconstrução da indústria, as garantias ao médio campesinato para poder acabar com a fome, uma política de frente única com os líderes reformistas do movimento operário nos países capitalistas para poder encontrar o caminho para as massas – essas foram tarefas necessárias do momento. Rejeitar os “compromissos” em princípio, como fizeram os “comunistas de esquerda”, rejeitar o uso dos especialistas burgueses em princípio, e chamar pela substituição da administração estatal da indústria pelo controle sindical, como fez a “Oposição Operária”, só poderia levar à derrota. Ao mesmo tempo, todo compromisso trás consigo perigos.

Lenin estava ciente desses perigos desde o começo e montou a “Inspetoria Operária e Camponesa” (Rabkrin) já em 1919, para poder conter os abusos burocráticos. A Rabkrin, entretanto, foi dirigida por Stalin e se tornou na verdade a sua força policial privada.
 
No Décimo Primeiro Congresso do partido, em 1922, Lenin foi forçado a observar:
 
“Se nós tomamos Moscou com os seus 4700 comunistas em posições de responsabilidade e, se nós tomamos aquela gigantesca máquina burocrática, aquela enorme massa, nós devemos nos perguntar: quem está controlando quem? Eu duvido muito que se possa dizer verdadeiramente que os comunistas estejam controlando aquela massa.”
 
E, no seu último escrito, “Melhor menos, mas melhor” (1923) ele chamou por uma guerra aberta contra o burocratismo, um drástico corte da Rabkrin e do seu envolvimento com o a Comissão de Controle, notando que a primeira “não apresenta hoje a menor autoridade”. Em um pós-escrito ao seu “testamento político”, Lenin pediu a remoção de Stalin do cargo de secretário geral do partido.
 
O Triunvirato contra Trotsky
 
Mas simples ações administrativas não podiam abolir um fenômeno criado pela própria história, e não por uma falha individual ou organizativa. O país estava exausto dos cinco anos de fome e guerra civil, cansado de esperar a revolução europeia que nunca chegou. Esse humor e os interesses conservadores da vasta burocracia, que esmagadoramente dominava o próprio Partido Comunista, se refletiram logo após a morte de Lênin, pela consolidação do poder nas mãos do Triunvirato de Stalin, Zinoviev e Kamenev, e a exclusão prática de Trotsky da liderança central.
 
Uma crise aguda no partido irrompeu no inverno europeu de 1923-1924, em cima das questões combinadas da democracia partidária e da industrialização. A “Nova Política Econômica” de cooperação com o campesinato tinha levado ao surgimento de um poderoso elemento kulak(camponês rico) no campo, que era crescentemente consciente de seus interesses burgueses em oposição ao governo soviético, enquanto a indústria continuava a crescer em “passo de tartaruga”; ao mesmo tempo, Stalin estava dirigindo o partido como um feudo privado, através do sistema de indicação de secretários. Trotsky exigiu um giro rumo ao planejamento centralizado e industrialização, uma ofensiva contra os kulaks e pelo retorno das normas democráticas dentro do partido. O Triunvirato se opôs a isso. (Um ano mais tarde, Bukharin, que apoiou as políticas de Stalin, fez seu famoso discurso sobre “construir o socialismo a passo de tartaruga” e chamou os camponeses a “enriquecei-vos!”). Ainda mais, eles fizeram de tudo para garantir que a sua posição iria prevalecer a todo custo: em fevereiro-março de 1924, nada menos do que 240 mil recrutas despreparados foram postos para dentro do partido na “leva de Lenin” e, logo que foram aceitos, foram organizados como massa de manobra para votar na linha do secretário geral (Stalin). Através dessa e várias outras manobras burocráticas, ele foi capaz de eliminar quase todos os seus oposicionistas na conferência partidária de maio de 1924, que foi transformado em um evento anti-Trotsky.
 
O segundo round da luta começou com a “polêmica literária” envolvendo as “Lições de Outubro” de Trotsky, que foi escrito como introdução aos seus artigos de 1917, e no qual ele expôs o papel desempenhado pelos então líderes do partido durante a revolução. O fato de que Zinoviev e Kamenev tinham se oposto à insurreição, se retirado dos seus cargos no governo e no partido e exigido uma coalizão com os mencheviques, ou de que Stalin tinha chamado por apoio ao Governo Provisório do Príncipe Lvov em março de 1917, não era amplamente conhecido entre a geração mais jovem e isso tornou-se extremamente embaraçoso para o grupo dominante.
 
Eles contra-atacaram negando o fato de que algum dia tivesse existido uma ala direita do bolchevismo e afirmaram que Trotsky tinha desempenhado um papel insignificante durante a insurreição, lançaram ainda uma campanha acusando Trotsky, o organizador militar da revolução de outubro e do Exército Vermelho, de nunca ter rompido com suas visões pré-1917 de conciliação com os mencheviques. Eles também o acusaram de ser hostil ao campesinato e continuar a defender a sua teoria da “revolução permanente” contra a fórmula de Lenin de “ditadura democrática revolucionária do campesinato e do proletariado”. A última acusação era verdadeira, mas eles precisavam ignorar o fato de que Lenin entrou em acordo com todos os aspectos essenciais da revolução permanente em suas “Teses de Abril” de 1917, de que ele havia explicitamente abandonado a sua formulação anterior e havia travado uma luta furiosa, particularmente contra Kamenev, em cima desse ponto. De resto, eles só podiam se basear em calúnias.
 
É verdade que Trotsky erradamente chamou por conciliação com os mencheviques até 1914, mas ele foi convencido pelas traições dos Socialdemocratas reformistas na Primeira Guerra Mundial de que um racha era inevitável e necessário. O próprio Lenin apontou que “Trotsky há muito tempo disse que a unificação é impossível. Trotsky entendeu isso e a partir desse momento não existiu melhor bolchevique” (“Ata do Comitê de Petrogrado do Partido Bolchevique”, 1[14] de novembro de 1917). Stalin, por outro lado, chamou pela unificação com os mencheviques tão tarde quanto abril de 1917, quando a questão foi posta abertamente e Tseretelli (o líder menchevique) estava prestes a entrar no Governo Provisório burguês!
 
Ordem do dia: a proposta de Tseretelli por unificação.”
Stalin: Nós devemos fazê-lo. É necessário definir nossas propostas para os termos da unificação. A unificação é possível ao longo das linhas de Zimmerwald-Kienthal [conferências da socialdemocracia contra a Primeira Guerra Mundial].”
― “Rascunho Protocolar da Conferência de Março de 1917 dos Trabalhadores do Partido de Toda a Rússia”
 
Quanto a Kamenev-Zinoviev, os outros dois membros do Triunvirato e supostos defensores do leninismo contra Trotsky, estes chamaram pela conciliação durante e depois da insurreição (o chamado por um governo conjunto com os mencheviques) e se opuseram ao levante! Nenhuma ala direita no partido bolchevique? Lenin os apelidou de “fura-greves da revolução” e pediu a sua expulsão se eles não retornassem aos seus cargos.
 
“Esquecer” tais episódios importantes da luta revolucionária também exigia reescrever deliberadamente a história. Assim, quando as atas das reuniões do Comitê bolchevique de Petrogrado de 1917 foram publicadas, os editores simplesmente cortaram a reunião na qual Lenin comentou que “não existiu melhor bolchevique” que Trotsky! Entretanto, um dos responsáveis pela impressão conseguiu passar a Trotsky uma mostra e ela foi preservada para a posteridade. No que diz respeito ao papel de Trotsky na revolução de outubro, as coisas ficaram um pouco mais pegajosas, já que Os Dez Dias que Abalaram o Mundo, de John Reed, mostrava em detalhe o papel de Trotsky como organizador da insurreição. Então, quando a campanha contra o “trotskismo” começou, Stalin repentinamente anunciou que Reed havia distorcido os fatos, uma descoberta que havia escapado aos olhos de todos nos sete anos anteriores. O “testamento” de Lenin também foi suprimido (embora Kruschev tenha posteriormente admitido a sua validade).
 
Stalin descobre o “socialismo em um só país”
 
Mesmo uma receita invariável de mentiras, distorções e calúnias só conseguiria ir tão longe a ponto de assegurar o poder do novo corpo dominante. Stalin-Zinoviev-Kamenev eram particularmente vulneráveis em razão de que no arsenal teórico do bolchevismo pós-1917, nas resoluções da Internacional Comunista ou o programa o Partido Comunista soviético, não havia nada que pudesse “justificar” os apetites cada vez mais conservadores do Triunvirato. Eles precisavam de uma nova teoria que fosse uma alternativa clara à revolução permanente de Trotsky. Isso foi encontrado na doutrina do “socialismo em um só país”.
 
Na atual série do Guardian sobre o trotskismo, Carl Davidson defende essa teoria stalinista com a afirmação de que ela foi forjada pelo bolchevismo:
 
“Por outro lado, Trotsky ficou em oposição aos bolcheviques ao defender que o proletariado iria provavelmente entrar numa “coalizão hostil” com as grandes massas de camponeses durante a construção socialista e que sem o apoio direto do proletariado europeu, a classe trabalhadora da Rússia não poderia manter o poder e transformar a sua dominação temporária em uma ditadura socialista durável”.
Guardian, 11 de abril de 1973
 
Esse é um mito puramente inventado. Até dezembro de 1924, ninguém no partido bolchevique, nem mesmo Stalin, reivindicava que era possível construir o socialismo em um só país, sem o apoio estatal direto de uma revolução proletária vitoriosa na Europa.
 
“Socialismo em um só país” é uma completa perversão do marxismo, a serviço de uma casta burocrática parasita que deseja acima de tudo fugir da lógica da história e construir um ninho isolado e confortável, longe da luta de classes. No primeiro rascunho de Engels para o Manifesto Comunista, essa “teoria” é claramente rejeitada. Ele escreveu:
 
“Questão Dezenove: Pode tal revolução acontecer em apenas um país?”
“Resposta: Não. A grande indústria, pelo fato de ter criado o mercado mundial, levou todos os povos da terra – e, nomeadamente, os civilizados – a tal ligação uns com os outros que cada povo está dependente daquilo que acontece a outro. (…) A revolução comunista não será, portanto, uma revolução simplesmente nacional; será uma revolução que se realizará simultaneamente em todos os países civilizados, isto é, pelo menos na Inglaterra, na América, na França e na Alemanha.”
― F. Engels, “Os Princípios do Comunismo”, 1847
 
Em certo sentido, essa declaração foi demasiadamente categórica; a história mostrou que é possível que a revolução seja vitoriosa, que a ditadura do proletariado seja estabelecida, em um só Estado. Mas a posição fundamental continua válida, de que o socialismo não pode ser construído em uma só nação.
 
Lenin reconhecia isso e, ainda em 1906, escreveu:
 
“A revolução russa tem suficientes forças para triunfar. Mas ela não tem forças o suficiente para reter os frutos dessa vitória… já que em um país com um enorme desenvolvimento da indústria em pequena escala, os produtores de commodityem pequena escala, entre eles os camponeses, irão inevitavelmente se voltar contra o proletário quando ele buscar se virar da simples liberdade em direção ao socialismo… Para poder prevenir a restauração, a revolução russa precisa, não de uma reserva russa, mas de ajuda do exterior. Há tal reserva no mundo? Há: o proletariado socialista do Ocidente.”
 
Só no começo de 1917 Lenin escreveu sobre a possibilidade de realização da ditadura do proletariado primeiro na atrasada Rússia, mas de forma alguma isso implicava uma sociedade “socialista” isolada e na penúria. Para os bolcheviques, a ditadura do proletariado significava uma ponte para a revolução no ocidente. As condições para a revolução socialista (criar a ditadura revolucionária do proletariado) e para o socialismo (a abolição das classes sociais) não são idênticas. Que a ditadura do proletariado aconteceu primeiro na Rússia, de forma nenhuma significa que ela seria o primeiro lugar a chegar ao socialismo.
 
Essa distinção era tão clara que o próprio Stalin, no início de 1924, escreveu:
 
“Mas a derrubada do poder da burguesia e o estabelecimento do poder do proletariado em um país, ainda não significa que a completa vitória do socialismo foi garantida. A principal tarefa do socialismo – a organização da produção socialista – ainda precisa ser cumprida. Pode essa tarefa ser cumprida, pode a vitória final do socialismo ser alcançada em um só país, sem os esforços conjuntos dos proletários de vários países avançados? Não, não pode. Para derrubar a burguesia os esforços de um povo são suficiente; isso é provado pela história da nossa revolução. Para a vitória final do socialismo, para a organização da produção socialista, os esforços de um só país, particularmente um país camponês como a Rússia, são insuficientes; para isso os esforços dos proletários de vários países avançados são necessários.”
― J. V. Stalin, “Fundações do Leninismo”, maio de 1924
 
Em edições subsequentes, isso foi substituído pela tese oposta, ou seja, de que “nós temos tudo que é necessário para a construção de uma sociedade socialista completa”.
 
Não poderia ser mais claro que a perspectiva bolchevique era de internacionalismo proletário, completamente e inalteravelmente oposto à doutrina do socialismo em um só país, Os stalinistas procuram nos volumes de escritos de Lenin achar uma citação isolada que “prove” que também Lenin acreditava na doutrina do socialismo em um só país. Mas se isso fosse verdade, mesmo ignorando as muitas vezes que Lenin o negou, porque Stalin iria escrever em maio de 1924 precisamente o oposto? Se o “socialismo em um só país” era bolchevismo ortodoxo, porque ninguém descobriu isso antes de fins de 1924?
 
A “prova” favorita dos stalinistas, citada por Davidson, é do artigo de Lenin de 1915 “Sobre a Palavra de Ordem dos Estados Unidos da Europa”:
 
“Como palavra de ordem independente, a palavra de ordem dos Estados Unidos do mundo, todavia, dificilmente seria justa, em primeiro lugar porque ela se confunde com o socialismo; em segundo lugar, porque poderia dar lugar à falsa interpretação da impossibilidade da vitória do socialismo num só país e das relações deste país com os outros.”
“A desigualdade do desenvolvimento econômico e político é uma lei absoluta do capitalismo. Daí decorre que é possível a vitória do socialismo primeiramente em poucos países ou mesmo num só país capitalista tomado por separado. O proletariado vitorioso deste país, depois de expropriar os capitalistas e de organizar a produção socialista no seu país, erguer-se-ia contra o resto do mundo capitalista, atraindo para o seu lado as classes oprimidas dos outros países, levantando neles a insurreição contra os capitalistas, empregando, em caso de necessidade, mesmo a força das armas contra as classes exploradoras e os seus Estados.”
 
Tomada no contexto de seus outros escritos desse período, é absolutamente claro que Lenin está se referindo aqui não à “sociedade socialista”, mas à ditadura do proletariado. Além disso, ele estava obviamente se referindo à Europa, já que, em 1915, Lenin nem mesmo admitia a possibilidade da ditadura do proletariado na Rússia antes da revolução socialista no Ocidente!
 
A outra principal “prova” é uma citação de Lenin do artigo de 1923, “Sobre a Cooperação”:
 
“De fato, o poder do Estado sobre os meios de produção em larga escala, o poder político nas mãos do proletariado, a aliança do proletariado com os muitos milhões de pequenos e muito pequenos camponeses, a segura liderança proletária do campesinato, etc. – não é isso tudo que é necessário para construir uma sociedade socialista completa? (…).”
 
Esse artigo se limita aos pré-requisitos políticos e legais para o socialismo. Em toda a parte (“Sobre a Nossa Revolução”, 1923) Lenin se referia à declaração de que “a Rússia não atingiu um nível de desenvolvimento das forças produtivas que torne possível o socialismo” como “fato indiscutível”, enquanto polemizava contra os mencheviques que concluíam a partir disso que a revolução não valia a pena.
 
As forças produtivas
 
Durante os anos 1930, em um período de alta inflação, de um reino de terror dentro do partido comunista e de uma guerra civil contra os camponeses, causada pelo programa de Stalin de coletivização forçada, a “vitória completa do socialismo” foi anunciada. Uma resolução do sétimo congresso da Internacional Comunista (1935) declarou que, com a nacionalização da indústria, a coletivização e liquidação dos kulaks como classe, “o triunfo final e irrevogável do socialismo e o reforço por todos os lados do Estado da ditadura proletária foi atingido na União Soviética”. Em 1936, o programa da Juventude Comunista declarou: “Toda a economia nacional de nosso país tornou-se socialista”. Um orador defendendo o novo programa argumentou:
 
“O velho programa contém uma afirmação antileninista profundamente errada de que a Rússia só pode chegar ao socialismo através de uma revolução proletária mundial. Esse ponto do programa está basicamente errado. Ele reflete visões trotskistas.”
 
O velho programa, escrito em 1921 por Bukharin, foi aprovado pelo Politburo com a participação de Lenin!
 
Em seu artigo, Davidson tenta manter uma pretensa ortodoxia declarando que “marxistas-leninistas, é claro, nunca defenderam que a vitória final do socialismo – a sociedade sem classes – é possível em apenas um país”. Por seu próprio critério, então, o Partido Comunista russo dos anos 1930, sob Stalin, não era marxista-leninista!
 
Davidson também acusa Trotsky de defender uma “‘teoria das forças produtivas’ oportunista de direita”, como base da oposição ao slogan de socialismo em um só país. Mas essa “teoria das forças produtivas” é a própria base da análise marxista materialista da história! Foi o próprio Marx quem escreveu que:
 
“este desenvolvimento das forças produtivas (…) é também uma premissa prática absolutamente necessária [ao socialismo] porque sem ele só a penúria se generaliza, e, portanto, com a miséria também teria de recomeçar a luta pelo necessário e de se produzir de novo toda a velha porcaria, e ainda porque só com este desenvolvimento universal das forças produtivas se estabelece um intercâmbio universal dos homens… Sem isto, (1) o comunismo só poderia existir como fenómeno local, (2) os poderes do intercâmbio não teriam podido eles próprios desenvolver-se como poderes universais, e por isso insuportáveis…, e (3) todo o alargamento do intercâmbio suprimiria o comunismo local. Empiricamente, o comunismo só é possível como o ato dos povos dominantes ‘de repente’ e ao mesmo tempo, o que pressupõe o desenvolvimento universal da força produtiva e o intercâmbio mundial que com ele se liga”.
― K. Marx e F. Engels, A Ideologia Alemã, 1847
 
Davidson ridiculariza essas proposições marxistas básicas (atribuindo-as a Kruschev e Liu Shao-chi!), ao escrever:
 
“A maior parte da construção socialista que se deu no mundo foi em países relativamente atrasados. Mas chamar isso de ‘socialismo’, na visão de Trotsky, iria apenas ‘desacreditar terrivelmente a ideia de socialismo aos olhos das massas trabalhadoras’.”
 
Essa visão, de acordo com Davidson, é “notoriamente ridícula”.
 
O quão “socialista” era a União Soviética nos anos 1930? Enquanto a Rússia havia feito grandes avanços na industrialização, definitivamente provando a superioridade da organização socialista da produção mesmo com as terríveis restrições impostas pelo domínio burocrático de Stalin, ela ainda estava muito atrás dos países capitalistas avançados. As mais básicas necessidades – moradia decente, comida e vestuário adequando – ainda eram inalcançáveis para as massas da população. A inflação era feroz e um mercado negro continuava a existir. Enquanto isso a burocracia usava o seu poder para assegurar o seu bem estar, que concretamente significava altos salários, produtos especiais, automóveis, casas de campo e muitos outros privilégios. Lenin tinha dito que o perecimento do Estado iria começar no próprio dia da tomada do poder. O Estado proletário, que ainda era um órgão do poder de classe, deixaria de ser um poder em separado acima da sociedade, mas um instrumento da vasta maioria, carregando a sua vontade e se baseando na sua participação ativa. Na União Soviética de 1935, o Estado não tinha sequer começado a desaparecer, mas tinha crescido e virado um gigantesco aparato de supressão e compulsão.
 
Isso, camarada Davidson, é socialismo? Mesmo depois da contrarrevolução política de Stalin, a União Soviética ainda era um grande avanço sobre as condições do czarismo e do capitalismo. Ela permaneceu sendo um Estado proletário no sentido de preservar as formas de propriedade socialistas, ainda que muito degeneradas. Mas a sociedade sem classes (anunciada por Stalin na Constituição de 1936 da URSS), ela certamente não era.
 
Traição da greve geral britânica de 1926
 
A mais séria prova do significado contrarrevolucionário da doutrina de “socialismo em um só país” foi no campo da política externa de Stalin e do seu sistemático tolhimento, e finalmente abolição (1943), da Internacional Comunista em favor de blocos com as burguesias dos vários países onde uma revolução as ameaçava. Uma ilustração imediata e gráfica do conteúdo real do “internacionalismo” stalinista foi oferecida pela greve geral britânica de 1926.
 
Em 1925, os administradores das minas de carvão da Grã-Bretanha tentaram encerrar o contrato estabelecido em 1924 e substituí-lo com um novo que iria reduzir os mineiros a uma condição de vida abaixo da subsistência. Depois de uma inspeção oficial na indústria, o governou retornou com um relatório que colocaria os custos da modernização da mineração nas costas dos mineiros. A sua resposta foi uma greve começando em 3 de maio de 1926. No dia seguinte todo o país estava a beira de uma greve geral. Conselhos de ação foram estabelecidos nos distritos operários para manter o moral alto e controlar a emissão de permissões para trabalhos de emergência ou transporte especial. Essa não foi uma simples disputa industrial, mas um ataque contra o Estado dos patrões.
 
O conselho geral do Congresso dos Sindicatos (TUC, em inglês), que tinha sido encarregado da condução da greve, chamou pelo seu encerramento depois de nove dias, no ápice da sua efetividade, assustado pelas suas implicações revolucionárias. Os homens, voltando ao trabalho, ficaram marcados ou foram aceitos somente em termos que incluíam a redução de salários, perda de estabilidade ou a condição de se retirarem do sindicato. Em 13 de maio, uma segunda greve geral ocorreu contra esses ataques, mas, depois de discursos conciliatórios dos líderes do TUC – e sem ter nenhuma liderança alternativa – os trabalhadores voltaram aos seus postos. Os mineiros permaneceram parados até atingirem uma série de acordos em separado, feitos entre 23 e 29 de dezembro, mas eles foram forçados pela traição dos chefes dos sindicatos a lutar por conta própria. Os proprietários ganharam em todos os aspectos: o contrato nacional foi substituído e os mineiros tiveram que trabalhar mais horas por menores salários.
 
Durante o temporário recuo na luta de classes europeia entre 1924-25, Stalin decidiu tentar fazer as pazes com os líderes sindicais reformistas, possivelmente abandonando a Internacional Sindical Vermelha. A pedra de toque dessa política era o Comitê Sindical Anglo-Russo, um bloco entre os sindicatos soviéticos e o conselho geral do TUC britânico, formado em maio de 1925. Depois que o conselho geral traiu a greve geral de 1926, Trotsky exigiu uma imediata ruptura com esses traidores. Stalin e Bukharin se recusaram (Zinoviev, nesse momento, havia se unido à Oposição, embora ele fosse capitular a Stalin dois anos depois). Em 1926, o conselho geral apoiou a repressão do imperialismo britânico contra a revolução chinesa. Trotsky novamente demandou que se denunciasse o Comitê Anglo-Russo. Stalin novamente se recusou.
 
Quando ele finalmente se desfez em 1927, foram os líderes britânicosque deixaram o Comitê. O seu principal objetivo era supostamente opor a intervenção britânica na Rússia. Como uma extensão lógica da doutrina do socialismo em um só país, essa ajuda mística dos traiçoeiros burocratas sindicais era um preço o suficiente para sacrificar a greve geral de 1926.
 
Stalin manda os comunistas chineses para seus túmulos
 
Outro exemplo ainda mais horripilante do significado do socialismo em um só país foi a política de Stalin na revolução chinesa de 1925-27. Ainda em 1924, o Partido Comunista Chinês havia entrado no partido populista burguês Kuomintang, de Sun Yat-sen, sob as ordens de Moscou. Trotsky se opôs quando a questão foi discutida no Politburo. A liderança do PC chinês, sob Chen Tu-hsiu, também se opôs repetidamente. Em outubro de 1925, eles propuseram deixar o Kuomintang; o plano foi rejeitado pela executiva da Comintern, sob as instruções de Stalin. A linha de Stalin era de que a revolução deveria se restringir a uma etapa democrático-burguesa, sob a liderança de um “bloco de quatro classes” incluindo a burguesia nacional, a pequeno-burguesia urbana, os trabalhadores e os camponeses. A expressão política desse bloco era o Kuomintang, ao qual os comunistas chineses deveriam se subordinar. Eles eram instruídos a conter a luta de classes contra a “burguesia anti-imperialista” nas cidades e buscar um equilíbrio entre esta e o movimento camponês no interior, acima de tudo mantendo a unidade de todas as forças supostamente anti-imperialistas.
 
O principal interesse de Stalin na China à época não era preparar a revolução, mas chegar a um loco diplomático com o governo do Kuomintang. No início de 1926, este partido burguês foi admitido na Internacional Comunista como partido associado, e o Comitê executivo da IC, o “Estado-maior da Revolução Mundial”, elegeu o sucessor de Sun Yat-sen, o general Chiang Kai-shek, como seu membro honorário! Apenas algumas semanas depois, em 20 de março, Chiang realizava o seu primeiro golpe anticomunista, barrando os membros do PC de todos os cargos de liderança no Kuomintang e exigindo uma lista de todos os membros do PC que haviam entrado no partido. Sob as ordens dos representantes da IC, a liderança do partido chinês concordou! Em outubro de 1926, Stalin chegou a enviar um telegrama incitando o PC chinês a conter uma revolta camponesa na província de Kuangtung. Trotsky comentou sobre isso:
 
“A subordinação oficial do Partido Comunista à direção burguesa e a proibição oficial de criar Sovietes (Stalin e Bukharin ensinaram que o Kuomintang “substituía” os Sovietes) constituem uma traição muito mais chocante e mais grosseira ao marxismo do que toda a atividade dos mencheviques de 1905 a 1917.”
― L. D. Trotsky, “A Revolução Permanente”, 1929
 
Isso já era ruim o bastante, mas depois de desafiado pela Oposição de Esquerda liderada por Trotsky e Zinoviev, e durante os dias cruciais da insurreição de Shangai que começara em março de 1927, Stalin novamente e novamente reafirmou a sua política de capitular aos nacionalistas enquanto os últimos estavam se preparando para liquidar os comunistas. Um editorial de março de 1927 da publicação Internacional Comunista disse que a tarefa principal na China era “o desenvolvimento subsequente do Kuomintang”. Em 5 de abril, Trotsky alertou que Chiang Kai-shek estava preparando um golpe semibonapartista contra os trabalhadores e chamou pela formação de conselhos de trabalhadores para frustrar esse objetivo. Ao mesmo tempo, Stalin se vangloriava em uma reunião do partido em Moscou de que “usaremos a burguesia chinesa e então a jogaremos fora como um limão espremido”. Também nesse momento, a liderança do PC chinês estava apelando a Moscou, tentando impactar a IC com o significado dos eventos de Shangai, o maior levante operário da Ásia, e com a necessidade de romper com o Kuomintang. Mas eles receberam ordens de render Shangai aos exércitos de Chiang e, em 12 de abril, o exército do Kuomintang realizou um massacre que custou a vida de dezenas de milhares de comunistas e trabalhadores combativos que haviam baixado as suas armas conforme as ordens de Stalin. Isso era “socialismo em um só país” na prática!
 
Mas ainda assim Stalin não abandonaria sua política e, declarando que a aliança com Chiang tinha agora se equivocado (!), ele ordenou um bloco com a ala esquerda do Kuomintang, que tinha estabelecido um governo em Wuhan. Novamente, os comunistas chineses receberam ordens de conter o movimento camponês para não entrar em conflito com a burguesia “anti-imperialista”. E, novamente, os nacionalistas burgueses se voltaram contra o PC. No fim do ano, Stalin mudou sua política para escapar das críticas da Oposição de Esquerda, ordenando o levante de Cantão por telégrafo, em uma situação tática em que ele estava próximo de ser derrotado, o que aconteceu apesar da defesa heróica do “governo soviético” pelos trabalhadores de Cantão.
 
De acordo com Davidson, “a Comintern reivindicou uma política posta em prática por Mao de forma independente, e ignorada ou oposta por ambos Tu-hsiu [dirigente do partido] e Chang Kuo-tao”. Na verdade Mao não criticou a linha seguida por Chen nesse período. Em determinado ponto (outono de 1924) ele foi expulso do Comitê Central do PC pela sua cooperação próxima demais com os líderes da ala direita do Kuomintang!
 
Enquanto a linha da Oposição sobre a China havia sido firmemente derrotada no já bastante burocratizado Partido Comunista russo e na Comintern, ainda era perigoso para Stalin ter Trotsky em liberdade na capital soviética. Consequentemente, ele ordenou a prisão do organizador militar da revolução de outubro e fundador do exército vermelho, exilando-o em Alma Ata, na Ásia central, e deportando-o da URSS dois anos depois. O partido bolchevique tinha se transformado desde a força revolucionária principal do mundo, em um mero apêndice da burocracia de Stalin. Quando Davidson e os maoístas hoje apoiam a doutrina do socialismo em um só país, é essa história de traições que eles estão defendendo.
 
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A Escola Stalinista de Falsificação Revisitada (1)

 
1. A Revolução Permanente
 
Nos seus esforços para trair as lutas dos trabalhadores e camponeses, os stalinistas precisam continuar a manter uma aparência revolucionária. No entanto suas doutrinas se colocam em oposição à linha do marxismo. Isso os põe em um dilema, que eles só podem resolver recorrendo a mentiras sistemáticas sobre os trotskistas. Isso vai desde distorções das posições políticas de Trotsky (assim como das de Marx e Lenin), até negar o papel de liderança de Trotsky como organizador militar da revolução de outubro e acusa-lo de realizar espionagem para o império japonês! Enquanto muitas das acusações específicas levantadas contra Zinoviev, Bukharin e outros líderes bolcheviques durante os Processos de Moscou foram admitidos como completas invenções por Kruschev em 1956, o método permanece. Hoje nós estamos testemunhando um renascimento difundido da “Escola Stalinista de Falsificação”, especialmente por parte de vários grupos maoístas. Assim como Stalin nos seus dias precisava de uma forma de encobrir seus crimes contra a classe trabalhadora, os maoístas de hoje devem recorrer a calúnias criminosas para poder encobrir a sua política contrarrevolucionária em Bangladesh, na Indonésia e em outros lugares. Essa série tem o objetivo de responder a essas mentiras e de ser uma introdução a alguns conceitos básicos do trotskismo, conforme eles foram desenvolvidos na luta contra o reformismo stalinista ao longo dos últimos cinquenta anos.

 A luta entre a linha reformista do stalinismo e a política revolucionária de Marx, Lenin e Trotsky não é um assunto acadêmico de interesse apenas para historiadores. As políticas contrarrevolucionárias do “Grande Organizador de Derrotas” (Stalin) levaram não apenas ao assassinato de Trotsky por um agente da GPU de Stalin e de dezenas de milhares de membros da Oposição de Esquerda russos nos campos de concentração da Sibéria, mas também à estrangulação das revoluções chinesa (1927), alemã (1933), francesa (1936), espanhola (1937), indonésia (1965) e francesa (1968), assim como a “acordos de paz” traidores dos stalinistas vietnamitas em 1946 e 1954. A luta contra stalinismo e trotskismo é literalmente uma questão de vida ou morte para o movimento revolucionário e deve receber a maior atenção dos militantes que buscam a estrada do marxismo.

 
O que é a Revolução Permanente?
 
No centro desse conflito está a teoria trotskista da revolução permanente. Essa teoria, primeiramente formulada na época da revolução russa de 1905, foi resumida por Trotsky em seu artigo “Três Conceitos da Revolução Russa”, escrito em 1939:
 
“(…) a completa vitória da revolução democrática na Rússia é concebível apenas na forma da ditadura do proletariado, apoiada pelo campesinato. A ditadura do proletariado, que iria inevitavelmente colocar na ordem do dia não apenas tarefas democráticas, mas também as socialistas, iria ao mesmo tempo dar um poderoso ímpeto à revolução socialista internacional. Somente a vitória do proletariado no Ocidente poderia proteger a Rússia da restauração burguesa e garantir a possibilidade de completar o estabelecimento do socialismo.”
 
É nessa teoria, que o dirigente maoísta Davidson e os stalinistas rejeitam quando dizem que “As visões de Trotsky sobre o curso da Revolução Russa, assim como as dos mencheviques, foram refutadas pela história” (Guardian, 4 de abril de 1973). Na verdade, a teoria de Trotsky não foi confirmada na prática em 1905 apenas porque o levante nunca chegou à tomada do poder. O curso da revolução russa de 1917 verificou completamente essa teoria. Apenas a ditadura do proletariado, incorporada pelo poder soviético, poderia resolver a questão da paz e da terra, assim como liberar as nações oprimidas pelo regime czarista. Além disso, uma análise cuidadosa das visões de Lenin em 1905 e 1917 mostra que ele chegou a um acordo nos aspectos essenciais com a formulação de Trotsky, e abandonou o seu antigo slogan de uma “ditadura democrática revolucionária do proletariado e do campesinato”.
 
A afirmação stalinista de que Lenin ainda defendia a “revolução democrática” em 1917 e chamou pelo “socialismo em um só país” são pura invenção. Da mesma forma, a sua acusação de que o slogan de Trotsky era “Abaixo o Czar, por um Governo dos Trabalhadores”, supostamente ignorando o campesinato, foi repetidamente negado por Trotsky. O slogan da revolução permanente foi, ao invés disso, pela ditadura do proletariado, apoiada pelo campesinato.
 
Na visão de Trotsky, em razão do desenvolvimento desigual e combinado da economia mundial, a burguesia dos países atrasados estava estreitamente ligada aos interesses feudais e imperialistas, e isso a impedia de levar em frente as tarefas fundamentais da revolução burguesa – democracia, revolução agrária e emancipação nacional. Na presença de um campesinato energizado e uma classe trabalhadora combativa, cada um desses objetivos iria ameaçar diretamente a dominação política e econômica da classe capitalista. As tarefas da revolução burguesa só podem ser resolvidas pela aliança do campesinato e do proletariado.
 
O marxismo defende que só pode haver uma classe dominante no Estado. Uma vez que, como declara o Manifesto Comunista, o proletariado é a única classe revolucionária consistente, a aliança deve tomar a forma da ditadura do proletariado, apoiada pelo campesinato. Ao levar adiante as tarefas democráticas da revolução, o Estado proletário deve inevitavelmente realizar “ações despóticas contra os direitos de propriedade burgueses” (ou seja, a expropriação dos latifundiários), e assim a revolução passa diretamente para as tarefas socialistas, sem pausar em nenhuma “etapa” arbitrária ou, como disse Lenin, sem erguer uma “muralha da China” entre as fases burguesa e proletária. Assim a revolução se torna permanente, finalmente levando à completa abolição das classes (socialismo).
 
Mas o socialismo é o produto da liberação das forças produtivas ao nível mais alto do desenvolvimento capitalista: as classes podem ser abolidas apenas eliminando a penúria, ou seja, a escassez. Assim, enquanto a ditadura do proletariado pode ser estabelecida em um país isolado e atrasado, o socialismo deve ser o alcance conjunto de ao menos vários países avançados. Por essas razões complementares, a revolução deve ser estendida e se aprofundar – ou então necessariamente perecer. De forma que a oposição entre a “revolução permanente” de Trotsky e o “socialismo em um só país” de Stalin é na realidade a oposição entre o socialismo em escala mundial e o mais brutal regime fruto de uma reação burguesa-feudal (barbarismo); não existe caminho do meio.
 
Enquanto a formulação teóricada revolução permanente foi um feito de Leon Trotsky, o conceito foi primeiramente introduzido por Karl Marx em 1850. Davidson, em seu esforço para cobrir o “socialismo em um só país” de Stalin com o manto do marxismo, sustenta que o uso por Marx da expressão “revolução permanente” era simplesmente uma observação geral sobre a continuidade da luta de classes até o socialismo:
 
“Assim a revolução é ‘permanente’ de duas formas. Primeiro, olhando para o futuro, o seu curso é de lutas de classes ininterruptas até que as próprias classes estejam abolidas. Segundo, olhando para trás historicamente uma vez que as classes estejam abolidas, a revolução é permanente no sentido em que não há mais luta de classes e a tomada do poder e dominação de uma classe sobre a outra.”
Guardian, 4 de abril de 1973
 
Nesse nível de abstração, não é nenhuma surpresa que Davidson conclua que a diferença surge somente “na particularidade da questão”. Mas deixe-nos dar uma olhada no que Marx realmente disse:
 
Ao passo que os pequeno-burgueses democratas querem pôr fim à revolução o mais depressa possível, realizando, quando muito, as exigências atrás referidas, o nosso interesse e a nossa tarefa são tornar permanente a revolução até que todas as classes mais ou menos possuidoras estejam afastadas da dominação, até que o poder de Estado tenha sido conquistado pelo proletariado, que a associação dos proletários, não só num país, mas em todos os países dominantes do mundo inteiro, tenha avançado a tal ponto que tenha cessado a concorrência dos proletários nesses países e que, pelo menos, estejam concentradas nas mãos dos proletários as forças produtivas decisivas. Para nós não pode tratar-se da transformação da propriedade privada, mas apenas do seu aniquilamento, não pode tratar-se de encobrir oposições de classes, mas de suprimir as classes, nem de aperfeiçoar a sociedade existente, mas de fundar uma nova.
Karl Marx, “Mensagem da Direção Central à Liga dos Comunistas” (1850)
 
Essa é, de fato, uma poderosa polêmica, 75 anos adiantada, contra a sofística de Stalin sobre “socialismo em um só país”. A teoria de Trotsky é um desenvolvimento posterior dessas proposições fundamentais na época do imperialismo, quando o capitalismo penetrou através das regiões atrasadas e os pré-requisitos para o socialismo em uma escala mundial já existem (colocando em risco, portanto, até mesmo as mais jovens burguesias dos antigos países coloniais).
 
Revolução em Etapas: Alemanha 1848
 
De acordo com os stalinistas, o erro principal do trotskismo é a sua falha em reconhecer a necessidade das “etapas” da revolução, em particular a etapa democrática em oposição à etapa socialista. Um dos mais ilustres predecessores de Davidson escreveu (poucos anos antes de Stalin ordenar o seu assassinato sob a acusação de “trotskista”!):
 
“O camarada Trotsky coloca a ditadura da classe trabalhadora no começo do processo, mas não vê os passos e transições que o levaram até essa ditadura; ele ignorou a relação concreta das forças… ele não viu as etapas da revolução…”.
N. Bukharin, “Sobre a Teoria da Revolução Permanente”, 1925
 
Vamos considerar essa “teoria” da revolução em duas etapas e a “particularidade” da revolução permanente. Será que Marx, talvez, tinha tal teoria? Marx, é claro, distinguia as revoluções proletária e burguesa pelo seu conteúdo social, já que elas representam diferentes épocas de desenvolvimento histórico. Mas mesmo em meados do século XIX, começava a ficar claro que a burguesia era muito fraca e o proletariado muito poderoso para que existisse uma “muralha da China” entre as revoluções proletária e burguesa. Distintas em seu conteúdo social, elas estariam muito próximas historicamente. A revolução alemã de 1848 tornou essa proximidade particularmente clara. No Manifesto Comunista, Marx e Engels escreveram:
 
“Para a Alemanha dirigem os comunistas a sua atenção principal. Há duas razões para isso. Primeiro porque a Alemanha está em vésperas de uma revolução burguesa. Segundo porque esta revolução irá acontecer em condições de maior progresso relativo da civilização europeia em geral, e com um proletariado muito mais desenvolvido do que o da Inglaterra no século XVII e o da França no século XVIII. Consequentemente, na Alemanha do século XIX, a revolução burguesa só pode ser o prelúdio imediato de uma revolução proletária.”
 
Marx não acreditava que a classe trabalhadora fosse atingir diretamente a vitória em 1848, mas que ela seria obrigada a apoiar a burguesia liberal e a pequeno-burguesia até onde elas lutassem contra a reação feudal-absolutista. Mas mesmo nesse período pré-imperialista, quando o proletariado era bastante fraco e politicamente dominado pelos interesses artesãos e democráticos da pequeno-burguesia, ele aconselhou os trabalhadores a “simultaneamente erigir seu próprio governo revolucionário dos trabalhadores apesar do novo governo oficial” para poder se opor ao seu aliado prévio, assim como o “armamento geral do proletariado”.
 
A previsão de Marx de que a revolução proletária iria acompanhar de perto as revoluções burguesas de 1848 não se comprovou. Mas tampouco foram bem sucedidas essas revoluções democrático-burguesas, precisamente porque o medo de que uma revolução proletária fosse irromper se o menor passo fosse dado para levantar as massas levou os liberais aos braços da reação prussiana e austríaca. Ligada aos feudalistas por um medo comum da revolução social, os liberais se esforçaram não para derrubar a monarquia (como fez a burguesia francesa em 1789), mas para dividir o poder com os feudalistas. A burguesia alemã não podia se elevar acima do nível de uma “aristocracia lojista” (“shopocracy”) conforme classificou Engels.
 
Revolução em Etapas: Rússia 1905
 
A revolução russa de 1905 novamente levantou a questão da revolução permanente, mas em uma forma muito mais aguda. A burguesia russa era muito mais fraca do que a alemã. Por séculos a principal característica do desenvolvimento russo fora o seu primitivismo e lentidão, resultantes da localização geográfica desfavorável da Rússia e da sua população dispersa. O desenvolvimento capitalista na parte norte do Império tinha sido primariamente importada do Ocidente pelo Estado autocrático, e simplesmente inserido na economia feudal existente. Assim, enquanto um proletariado industrial moderno estava se formando nas principais cidades, concentrado em grandes fábricas que utilizavam as mais avançadas técnicas, as manufaturas e oficinas urbanas que haviam formado a base econômica da burguesia no Ocidente, nunca tiveram tempo para se desenvolver. Com a grande indústria primariamente nas mãos do capital europeu e dos bancos estatais, a classe capitalista russa permaneceu pequena em tamanho, isolada, semiestrangeira e sem tradição histórica. Além do mais, ela permaneceu ligada por uma série de laços ao Estado feudal-absolutista e à aristocracia fundiária. Uma revolução liderada pela burguesia que pudesse resolver as tarefas da democracia, revolução agrária e emancipação nacional, estava totalmente fora de questão. E, no entanto, permaneciam as tarefas da revolução burguesa.
 
Diante dessa realidade as duas alas do Partido Operário Social Democrata Russo tomaram duas posições bastante distintas. Os mencheviques, com seu formalismo escolástico e sua total falta de vigor, deduziram do caráter democrático das tarefas iniciais da revolução a “estratégia” de aliança com a burguesia liberal. Em um discurso no “Congresso de Unificação” do POSDR (1906), Axelrod, um líder menchevique, pontuou:
 
“As relações sociais na Rússia só amadureceram para uma revolução burguesa… Enquanto a ilegalidade política geral persistir, nós não devemos chegar nem sequer a mencionar a luta direta do proletariado contra outras classes pelo poder político… Devemos lutar pelas condições do desenvolvimento burguês. As condições históricas objetivas condenam o nosso proletariado a uma inevitável colaboração com a burguesia contra o nosso inimigo comum.”
 
Essa conclusão era derivada da simples cópia mecânica do esquema clássico do desenvolvimento europeu (e mais particularmente o francês) para as condições russas, ou as implicações de que uma revolução proletária só poderia vir após muitas décadas de desenvolvimento capitalista. O cerne da posição menchevique foi capturado pelo apontamento de Plekhanov de que “nós devemos prezar pelo apoio aos partidos não-proletários e não afastá-los de nós com um comportamento indelicado”. A isso, Lenin respondeu: “… os liberais entre a nobreza vão lhe perdoar milhões de atos ‘indelicados’, mas eles nunca irão perdoar insinuações de retirar as suas terras”.
 
E contra a coalizão de Plekhanov com a burguesia, Lenin chamou por um bloco com o campesinato para realizar a revolução agrária. Isso foi codificado na sua fórmula de “ditadura democrática revolucionária do proletariado e do campesinato”:
 
“Devemos conhecer de maneira exata quais as forças sociais reais que se opõem ao czarismo (…). Essas forças não podem ser a grande burguesia, os latifundiários, os fabricantes, a ‘sociedade’ que segue os Osvobojdenistas [os liberais]. Vemos que eles nem sequer desejam uma vitória decisiva. Sabemos que são incapazes, pela sua situação de classe, de uma luta decisiva contra o czarismo: para irem à luta decisiva, a propriedade privada, o capital e a terra são lastros demasiadamente pesados. Eles têm demasiada necessidade do czarismo, com as suas forças policiais, burocráticas e militares, contra o proletariado e o campesinato, para poderem aspirar à sua destruição. Não, a única força capaz de obter a ‘vitória decisiva sobre o czarismo’ é a ditadura revolucionária democrática do proletariado e do campesinato.” (ênfase no original).
V. I. Lenin “Duas Táticas da Social Democracia na Revolução Democrática”, 1905
 
Essa política era irreconciliavelmente oposta ao insípido liberalismo dos mencheviques e, ao invés disso, incendiava a revolta camponesa e levava o proletariado a um assalto “indelicado” contra a autocracia czarista. Mas ao mesmo tempo ele insistia na caracterização da revolução enquanto burguesa, com o poder a ser posto nas mãos do campesinato e abrindo o futuro para o florescimento de um desenvolvimento capitalista:
 
“Os marxistas estão absolutamente convencidos do carácter burguês da revolução russa. Que significa isto? Isto significa que as transformações democráticas no regime político e as transformações económico-sociais, que se converteram numa necessidade para a Rússia, não só não implicam por si o enfraquecimento do capitalismo, o enfraquecimento da dominação da burguesia, mas, pelo contrário, desbravarão pela primeira vez realmente o terreno para um desenvolvimento vasto e rápido, europeu e não asiático, do capitalismo e, pela primeira vez, tornarão possível a dominação da burguesia como classe.”
Idem.
 
A visão de Trotsky, citada no início desse artigo, era diferente daquela dos mencheviques e dos bolcheviques, embora muito mais próximas dos últimos. Como ele posteriormente escreveu:
 
“A teoria da revolução permanente, que se originou em 1905… apontou que as tarefas democráticas das nações burguesas atrasadas levavam diretamente, em nossa época, à ditadura do proletariado e que a ditadura do proletariado coloca as tarefas socialistas na ordem do dia.”
― “A Revolução Permanente”, 1929
 
De acordo com Davidson, Lenin “insistiu que a revolução iria se desenvolver em etapas” enquanto Trotsky supostamente ignorava completamente a etapa democrático-burguesa. Isso é simplesmente uma cortina de fumaça. Trotsky nunca negou o caráter burguês das fases iniciais da revolução no sentido das suas tarefas históricas imediatas, mas apenas no sentido de suas forças motoras e perspectivas:
 
“Já em 1905, os trabalhadores de Petrogrado chamaram seu soviete de um governo proletário. Essa designação passou à linguagem corrente da época e foi completamente incorporada no programa da luta da classe trabalhadora pelo poder. Ao mesmo tempo, nós estabelecemos contra o czarismo um elaborado programa de democracia política (sufrágio universal, república, milícia, etc.). Nós não podíamos agir de outra forma. A democracia política é uma etapa necessária no desenvolvimento das massas trabalhadoras– com a altamente importante reserva de que em um caso essa etapa dura décadas, enquanto em outra, a situação revolucionária permite às massas se emanciparem dos preconceitos da democracia política mesmo antes das suas instituições terem se convertido em realidade.” (ênfase no original).
L. D. Trotsky, “Introdução” a O Ano de 1905, 1922
 
Davidson novamente tenta escurecer a questão afirmando que Trotsky era “hostil ao campesinato” enquanto “a visão de Lenin é diretamente oposta”. Isso é pura invenção. É verdade que Trotsky descartou imediatamente a ideia de que o campesinato como um todo podia ser um “aliado socialista” da classe trabalhadora:
 
“Desde o primeiro momento depois da tomada do poder, o proletariado terá que encontrar apoio nos antagonismos entre o rico do vilarejo e o pobre do vilarejo, entre o proletariado agrícola e a burguesia agrícola.”
L. D. Trotsky, “Balanços e Perspectivas”, 1905
 
Mas com relação a isso, a visão de Lenin era idêntica:
 
“A luta contra o burocrata e o latifundiário pode e deve ser travada junto com todos os camponeses, até mesmo com os bem-de-vida e os camponeses médios. Por outro lado, é somente junto com o proletariado rural que a luta contra a burguesia e, portanto, também contra os camponeses bem-de-vida pode ser realizada apropriadamente.”
V. I. Lenin, “Socialismo Proletário e Pequeno-burguês”, 1905
 
A disputa entre Lenin e Trotsky não era sobre se poderia ou não ser pulada a etapa democrático-burguesa da revolução ou se uma aliança entre trabalhadores e camponeses era necessária, mas com relação à dinâmica da colaboração entre o proletariado e o campesinato, o nívelde independência do último. Trotsky sustentou (como havia sido demonstrado por toda experiência revolucionária anterior, assim como nos escritos de Marx e Engels) que em razão da sua posição intermediária e a heterogeneidade da sua composição social, o campesinato enquanto classe era incapaz de cumprir um papel independente ou de formar o seu próprio partido independente. Ele ficava compelido a seguir a liderança da burguesia ou então do proletariado.
 
Revolução em Etapas: 1917
 
Não é acidente que os artigos de Davidson dificilmente mencionam a revolução de outubro de 1917, saltando das disputas em 1905 a respeito do papel do campesinato direto para a questão do “socialismo em um só país”. De fato, se Davidson tivesse reproduzido os escritos de Lenin desse período ele teria tido que mostrar declarações radicalmente diferentes da visão de Lenin do período de 1905-1907. Antes da chegada de Lenin da Europa em 4 de abril, a maioria do partido bolchevique chamava por um “apoio crítico” ao governo provisório burguês do Príncipe Lvov, que havia tomado o poder depois de a revolução de fevereiro derrubar o Czar. Stalin era o porta-voz chefe desse ponto de vista na conferência de março de 1917 do partido bolchevique. Em seu relatório sobre a atitude do Governo Provisório, ele disse:
 
“… o Governo Provisório tomou de fato o papel de fortificador das conquistas do povo revolucionário… Não é vantagem para nós no presente momento forçar os acontecimentos, acelerando o processo de repelir as camadas burguesas, que no futuro irão inevitavelmente se afastar de nós. É necessário para nós ganhar tempo colocando um freio no rompimento das camadas burguesas médias… Quando o Governo Provisório fortificar os passos da revolução, então aí nós devemos apoiá-lo; mas quando ele for contrarrevolucionário, não se deve permitir apoio ao Governo Provisório.”
― “Rascunho Protocolar da Conferência de Março de 1917 dos Trabalhadores do Partido de Toda a Rússia”
 
Enquanto o grosso da liderança do partido chamou a “completar a revolução democrático-burguesa”, Lenin insistiu que a única política revolucionária era chamar pela ditadura do proletariado. Ao tomar essa posição ele se encontrou com o programa de Trotsky da revolução permanente e foi acusado de trotskismo pela ala direita do partido. Isso exigiu um rearmamento ideológico do partido e em determinado momento Lenin ameaçou se retirar do Comitê Central pera poder levar a luta à base do partido, quando as suas “Teses de Abril” foram inicialmente rejeitadas pela liderança. A passagem chave nessas teses declarava:
 
“A peculiaridade do momento atual na Rússia consiste na transição da primeira etapa da revolução, que deu o poder à burguesia por faltar ao proletariado o grau necessário de consciência e organização, para a sua segunda etapa, que deve colocar o poder nas mãos do proletariado e das camadas pobres do campesinato.”
V.I. Lenin, “Sobre as Tarefas do Proletariado na Presente Revolução”, 1917
 
Em direta oposição à posição de Stalin menos de uma semana antes, Lenin exigiu “Nenhum apoio ao Governo Provisório; a total falsidade de todas as suas promessas deveria ser exposta claramente…” (Idem.). A oposição a Lenin foi liderada por Y. Kamenev, que afirmava que “a revolução democrático-burguesa não está completa… Quanto ao esquema geral do camarada Lenin, ele nos parece inaceitável, já que ele procede da crença de que a revolução democrático-burguesa está completa, e se baseia na imediata transformação dessa revolução em uma revolução socialista”. Nas suas “Cartas Sobre Táticas”, Lenin respondeu a essa acusação:
 
“Depois da revolução [de fevereiro-março de 1917], o poder está nas mãos de uma classe diferente, uma nova classe, que é a burguesia…”.
“Em razão disso, a revolução burguesa, ou democrático-burguesa, está completa.”
“Mas nesse ponto nós ouvimos um clamor de protesto daqueles que prontamente chamam a si mesmos de ‘velhos bolcheviques’. Nós não mantivemos sempre, dizem eles, que a revolução democrático-burguesa é completada só pela ‘ditadura democrática revolucionária do campesinato e do proletariado’? (…) Minha resposta é: Os slogans e ideias bolcheviques como um todo foram confirmados pela história; mas concretamente, as coisas se desenvolveram diferentemente…”
“O soviete de deputados trabalhadores e soldados – aí está a sua ‘ditadura democrática revolucionária do campesinato e do proletariado’ já concretizada.”
“Essa fórmula está já antiquada…”
“Uma nova e diferente tarefa agora se põe diante de nós: realizar um racha dentrodessa ditadura entre os elementos proletários (os elementos anti-defensistas, internacionalistas, ‘comunistas’, que defendem uma transição para a comuna) e os elementos pequeno-burgueses…”
“A pessoa que agorasó fala da ‘ditadura democrática revolucionária do campesinato e do proletariado’ está atrasada no tempo, e consequentemente está se colocando, na prática, ao lado da pequeno-burguesia contra a luta da classe proletária; essa pessoa deveria ser mantida no arquivo das antiguidades pré-revolucionárias ‘bolcheviques’…”
“O camarada Kamenev… está repetindo o preconceito burguês sobre a Comuna de Paris querer introduzir o socialismo ‘imediatamente’. Não é bem assim. A Comuna, infelizmente, foi muito lenta em introduzir o socialismo. A verdadeira essência da Comuna… é a criação de um Estadode um tipo especial. Tal Estado surgiu na Rússia, é o soviete de deputados trabalhadores e soldados!”
V.I. Lenin, “Castras Sobre Táticas”, abril de 1917
 
E a Comuna de Paris, camarada Davidson, era a ditadura do proletariado. Em um artigo para o Pravdapor volta dessa época, Lenin formulou a questão de uma maneira idêntica à de Trotsky:
 
“Nós somos por um governo revolucionário forte… A questão é – qualclasse está fazendo esta revolução? Uma revolução contra quem?”
“Contra o czarismo? Se assim for, a maior parte dos latifundiários e capitalistas da Rússia são hoje revolucionários…”
“Contra os latifundiários? Se assim for, a maior parte dos camponeses, mesmo os mais bem-de-vida, ou seja, provavelmente nove décimos da população da Rússia, são revolucionários. Muito provavelmente, alguns dos capitalistas também estão prontos a se tornarem revolucionários uma vez que os latifundiários não podem se salvar de qualquer forma…”
“Contra os capitalistas? Agora essa é o verdadeiro assunto. Esse é o xis da questão, porque sem uma revolução contra os capitalistas, toda essa conversa sobre a ‘paz sem anexações’ e a término rápido da guerra por tal paz é, ou extremamente ingênua e ignorante, ou uma estupidez e uma enganação…”
“Os líderes da pequeno-burguesia – os intelectuais, os camponeses prósperos, os atuais partidos dos narodniks… e dos mencheviques – não estão nesse momento a favor de uma revolução contra os capitalistas…”
“A conclusão é óbvia: somente se o proletariado assumir o poder, apoiado pelos semiproletários, pode-se dar ao país um verdadeiro governo revolucionário forte.”
V. I. Lenin, “Um Governo revolucionário Forte”, maio de 1917
 
É verdade que Lenin, ambos nessa época e depois, ocasionalmente se referia aos sovietes do período fevereiro-outubro como uma expressão da “ditadura democrática revolucionária do campesinato e do proletariado”, mas aqueles sovietes não tinham o poder de Estado. A luta por “Todo poder aos sovietes” era, como Lenin defendia, a luta contra a pequeno-burguesia, que não desejava lutar contra o capitalismo. E o Estado que resultou da revolução de outubro era a ditadura da classe trabalhadora, apoiada pelo campesinato. De 1917 em diante, Lenin nunca deixou a entender que pudesse existir algo como um Estado de duas classes, tal como vislumbrado por Stalin e Mao. Como ele defendeu em sua polêmica contra Kautsky, “Os sovietes são a forma russa da ditadura do proletariado” (“A Revolução Proletária e o Renegado Kautsky”, 1918).
 
Slogans e programa de partidos revolucionários tem um significado concreto na luta de classes: eles chamam por certos cursos de ação e se opõem a outros. Kamenev, que em abril liderou a luta para manter o slogan da “ditadura democrática revolucionária do campesinato e do proletariado”, em outubro se opôs à insurreição revolucionária, e depois do levante bem sucedido de fato renunciou do Comitê Central do Conselho de Comissários do Povo em protesto. Nesse comportamento, havia ao menos um semblante de consistência.
 
Mas Davidson e os stalinistas por toda a parte nos querem fazer crer que o “velho programa bolchevique” foi confirmado pela revolução de outubro! Por trás dessa mentira enganosa está um propósito: o de justificar as políticas antirrevolucionárias do stalinismo. É sempre “cedo demais” para demandas socialistas, nós devemos sempre passar por uma “etapa democrática” antes que os camponeses tomem a terra e o proletariado possa expropriar os expropriadores. Como verdadeiro revolucionário proletário, Lenin aprendeu da experiência da revolução de 1917, avançando com um novo programa quando a inadequação do antigo tinha se revelado claramente. Mas o que nós podemos dizer das pessoas que se recusam a assimilar essas lições e, ao invés disso, insistem em proclamar que preto é branco? Na boca de Stalin em 1927, o slogan de uma “ditadura democrática” foi a justificativa para ordenar ao Partido Comunista Chinês que abandonasse suas armas exatamente quando Chiang Kai-shek se preparava para massacrar milhares de comunistas e trabalhadores combativos. Hoje, quando o mesmo slogan é usado para justificar apoio para “anti-imperialistas”, tais quais o Príncipe Sihanouk do Camboja, terá o mesmo resultado – aniquilação dos revolucionários e estrangulamento da revolução. A escolha está colocada para todo o mundo: socialismo ou barbárie, não há caminho do meio.
 

DDR Junked

First printed in ‘1917’ No.11 (3rd Quarter 1992). Copied from: http://www.bolshevik.org/1917/no11/no11ddr.html

First the Wall…Then the Factories

The following article is an edited report by a comrade of the Gruppe Spartakus (German section of the International Bolshevik Tendency) outlining the process of capitalist restoration in the former German Democratic Republic (DDR).

Capitalist restoration in the former DDR, now the eastern section of the Federal Republic of Germany (BRD), has been a social and economic disaster. Soon after the border went down, economic planning disappeared. Foreign trade was uncontrolled and the BRD’s deutsche mark (DM) simply took over. Hordes of people gathered at train stations and border crossings to try to exchange their DDR marks for BRD ones at 12 to 14 times the official rate.

The economic destabilization of the DDR accelerated in July 1990 when an ‘‘economic, social and monetary union’’ with the BRD was proclaimed. Historically, three-fourths of the DDR’s trade had been with the Soviet bloc. Suddenly all trade had to be conducted in hard currency. The DDR’s trading partners simply could not pay, so foreign trade largely collapsed. Meanwhile, capitalists from the BRD consumer goods sector moved east and voraciously bought up stores, warehouses and every link in the system of distribution. Once they controlled the retail network, the first thing they did was substitute their products for those manufactured in the DDR.

The takeover of retail marketing was particularly destructive for the DDR’s collective farms, which had been the most efficient of any in the Soviet bloc. The DDR had been able to meet most of its own domestic requirements for basic foods and still have some left for export. Farming and food production collapsed very rapidly once the BRD concerns destroyed the demand for their products. If you drive through the East today, you’ll see the villages and land sitting idle. Most of the collective farms have simply gone bankrupt. By January, according to Berlin’s Journal for Human Rights (JHR), only a quarter of the 800,000 people employed in agriculture in the DDR were still on the land. Half of those remaining are expected to be eliminated before the ‘‘rationalization’’ is complete.

The West German economy expanded by five percent in 1990. Most of that growth was due to increased sales of consumer goods in the East. These goods were largely purchased with unemployment insurance and other benefits paid to DDR citizens to smooth the path for reunification. BRD statistics indicate that the 1991 rate of growth fell to 3.2 percent and Kiel University’s World Economic Institute is projecting real growth of only one percent this year. The German central bank reported that this year net transfer payments from West to East are expected to increase almost 30 percent to DM180 billion. Some 6.5 percent of West Germany’s GNP will go east this year (Financial Times, 19 March). These ‘‘transfers’’ from the BRD treasury are ultimately paid for by the employed workers in the West.

Annual inflation in the East was over 25 percent last year—five times the rate in western Germany. This was largely a result of the removal of subsidies on transport, rent, communication and other basic necessities. In the DDR rents had been limited to between five and seven percent of a person’s income. When controls were removed last October rents soared by some 700 percent. Yet workers in the East lucky enough to have jobs earn only 30 to 40 percent as much as their colleagues in the former BRD.

Unemployment: Ex-DDR’s Growth Industry

The working class of the DDR was one of the most skilled and best educated in the former Soviet bloc. Ninety-five percent of all workers had an apprenticeship. Despite Stalinist promotion of the family and considerable cultural backwardness, women had more of the material prerequisites for real social equality than almost anywhere else in the world. The Stalinist regime made a priority of providing housing for single women with children, thus removing the economic compulsion for women to remain in relationships. The DDR also had one of the most extensive systems of childcare in the world. Most workplaces were required to provide child-care on the premises and to allow working mothers to visit their children during the work shift. With full access to job training and guaranteed employment, more than 90 percent of DDR women worked, compared to only 50 percent in the BRD.

Capitalist restoration has reversed many of these gains. Women workers have generally been the first laid off. The subsidized childcare system has now been almost entirely disbanded, with the intent of forcing women back into the home. Mothers unable to afford private childcare cannot claim unemployment insurance and are reduced to welfare. Last year Kurt Biedenkopf, Prime Minister of Saxony, estimated that two million DDR workers, mostly women, will never work again (Die Tageszeitung, 7 March 1991).

Officially, unemployment in the former DDR is reported at 16.5 percent, but this figure is the result of a variety of devices designed to hide the reality. Some 350,000 workers were enrolled in phony make-work schemes (which are now being wound up). In many cases they were put to work dismantling their old factories. Another technique used to juggle the figures was the creation of ‘‘short-time work.’’ These workers put on ‘‘short time’’ were officially classified as employed, and still drew about 80 percent of their wages, but rarely if ever set foot in their factories. Workers were told that being on ‘‘short time’’ meant that they still had jobs and, one day, if things picked up and the capitalist miracle took hold, they might go back to work. This is not how things have turned out, and most short-time workers have now been officially reclassified as unemployed.

According to the November-December 1991 issue of Intereconomics, four out of the ten million workers in the DDR in 1989 are out of work. Approximately a million of these workers were forced to retire early on reduced pensions. Officially, pensions in the East are about half of those in the West, but the JHR estimates that the three million pensioned workers in the East in fact only get about 30 percent of the benefits paid to Western retirees.

One of the little publicized features of the reunification treaty is Article 143 of the BRD Constitution, which effectively suspends elementary constitutional rights in the former DDR until 1993. Using this provision the government can ‘‘legally’’ reduce access to the social benefits to which citizens in the East are supposedly entitled.

Demolishing the DDR Economy

The DDR economy had serious problems, and most analysts doubted that many of its enterprises could successfully compete in the world market. Labor productivity was probably only half that of West Germany. Yet the DDR was generally considered to be among the fifteen largest economies in the world, and it was certainly the most advanced of the workers states.

In theory, when the German bourgeoisie took over the DDR, they could have continued to operate the state-owned economy and even retained some degree of planning. France and other Western European countries have functioned successfully with substantial state-owned sectors. The Ruhr, the industrial heartland of post-war Germany, was built with considerable state intervention.

Yet, unlike the former degenerated and deformed workers states, the nationalized industries in Western Europe were administered for the benefit of the private sector. French state intervention in steel and auto-mobile production was designed to maintain France as a major industrial power and strengthen the position of French capitalism in the world market. In the former DDR and the other deformed workers states, by contrast, all primary productive forces were collectivized and subjected to centralized state planning and administration.

From the beginning, the serious German bourgeois press was united in its absolute hatred of collectivized property. Even the most ‘‘left’’ sections of West German social democracy never seriously contemplated taking over and running the state-owned economy. In their minds, the DDR Kombinats could only be a source of unwanted competition.

One of the paradoxes of the capitalist Anschluss is that the workers in the East hardest hit by the economic ‘‘rationalization’’ are those employed in sectors considered the most competitive by world standards (machine tools, ship-building and optics, for example). While the German capitalists were initially very anxious to get access to the ex-DDR, they were soon worrying about ‘‘unnecessary production’’ from industry in the East cutting profit margins. Germany’s leading bourgeois newspaper, the Frankfurter Allgemeine Zeitung, began early on to talk about liquidating the chemical, textile, electronics and optical goods industries as well as the remaining large-scale farms.

The BRD capitalists complain that overemployment in the former DDR tends to put upward pressure on wages. They are also frightened by the potential volatility of this highly proletarian population. Capitalist social stability requires significant numbers of ‘‘middle-class’’ citizens, housewives, petty proprietors and others who are not direct participants in production to counterbalance the influence of the organized workers.

On 3 October 1990, the day that reunification was formally completed, the entire DDR economy was put under the control of a government agency, the Treuhand. This body was not a holding company in the usual capitalist sense, but a tool created by the German bourgeoisie to liquidate the entire DDR economy. It has not attempted to reorganize or salvage the firms the BRD inherited. In a scandal-ridden process (exemplified by the bargain basement sale of the East Berlin NARVA light bulb factory to a West German land speculator) the Treuhand had, by the end of 1991, sold off 4,777 firms with 6,000 remaining (Die Welt, 8 January).

Der Spiegel (23 March) reported that in the former DDR, as of November 1991, textile production had fallen 32 percent, machine-building had dropped 37 percent, electronics was down 54 percent and optics 88 percent. Even the most ambitious West German move into the East, the Opel takeover of the Wartburg auto plant at Eisenach, involves slashing the workforce from 9,000 to 2,000. The most optimistic capitalist estimates of the future of the region project 40 percent of the labor force out of work by the turn of the century. Most commentators are closer to R. J. Barro and X. Salal-Martin (Brookings Papers on Economic Activity, l991, No. 1), who calculate that it will take 35 years to halve the income gap between East and West.

Why Did DDR Workers Succumb to Capitalism?

The DDR was a workers state in which proletarians were deprived of the right to organize, to discuss politics and to read and write what they wanted. They had no access to anything resembling Marxist analysis, and had learned to be suspicious of the lies of their Stalinist rulers. They lacked the tools to cut through the pro-capitalist propaganda barrage that preceded the Anschluss.

DDR workers had no objective interest in turning over their economy to the Frankfurt bankers. They did have an interest in breaking the political stranglehold of the Stalinists and running the planned economy through democratic workers councils. Under such a regime they could enjoy the political freedom that Honecker’s police state had denied them, while tapping the enormous creativity of the working masses to preserve and extend the gains of collectivized property. Most importantly, such a proletarian political revolution could have provided a powerful example for the rest of the Soviet bloc, while simultaneously exerting a powerful influence on workers in the BRD and the rest of Western Europe.

The DDR working class did not see this as an option. Events proved that their attachment to collectivized property was very shallow. In the first few weeks of the autumn 1989 political crisis, there was widespread sentiment for maintaining the DDR as a separate state. This reflected popular fears that a conversion to capitalism would mean a loss of social benefits and a drop in living standards. In only a few weeks the capitalist propaganda machine managed to undermine this sentiment. Collectivized property was equated with Stalinism, and DDR citizens were promised that once the border was down everyone would have a share of ‘‘democracy’’ and the good life they had seen on BRD television. Tragically, there were no forces with any roots or influence in the German workers movement that sought to organize opposition to reunification. The overwhelming majority of DDR workers believed the honeyed lies of the capitalists and their social-democratic lackeys, and opted for the free market.

Once convinced that capitalist reunification was a good thing, DDR workers bypassed the social-democratic middlemen and voted heavily for the political parties most closely connected to the big capitalists. After all, they were the ones who were going to be performing the market miracle.

German nationalist sentiments became increasingly powerful as reunification gained momentum. In the first days of the mass protests the crowds chanted ‘‘We are the people,’’ an assertion of democratic rights against the dictatorship of the Stalinist Socialist Unity Party (SED). This was soon replaced with the cry ‘‘We are one people’’—in other words, we are Germans. The extremely rapid shift to the right that took place in the DDR revealed that this once vigorous and politically cultured working class (which in 1953 spontaneously rose against the SED’s political monopoly and even attempted to spread their strike to workers in West Berlin) had gradually been suffocated by decades of Stalinist repression.

Strike Movement in the East

Shortly after voting for the pro-capitalist parties in the March 1990 elections, DDR workers launched a strike wave demanding BRD pay scales and contractual guarantees against layoffs. Simultaneously, DDR cooperative farmers blockaded the highways in an attempt to stop the flood of Western products that was destroying their market. Those leaders of the FDGB (the DDR trade-union federation) who had not deserted their posts tried to give some direction to the strike movement, and in many localities took the lead in organizing the protests.

This largely spontaneous working-class outburst panicked the BRD capitalists and social democrats. The Deutscher Gewerkschaftsbund (DGB—the main BRD trade-union federation) immediately dispatched thousands of organizers, with lots of hard currency and technical support, to the East to ‘‘reorganize’’ the unions on a class-collaborationist basis. Their first objective was to destroy the FDGB.

Using its money and powerful connections, the DGB had already gained control of a few FDGB unions and had them demand a conference. Amid an orgy of red-baiting, the DGB had its proxies put up a motion to disband the FDGB. When this passed, the next move was to incorporate the former FDGB unions into the equivalent social-democratic controlled industrial unions of the West. After that, the DGB lost no time cleaning out the old FDGB leadership, right down to the shop stewards. Thousands of new shop stewards and trade-union functionaries were enrolled in training courses to learn the class-collaborationist norms of the DGB. The labor lieutenants of capital thus successfully diffused and strangled this round of working-class defensive actions, and consolidated their political monopoly over the German unions.

The 1990 mass actions by workers and collective farmers scared the BRD government into pouring money into the East to soften the impact of the huge social dislocations of capitalist restoration. It also stiffened the resolve of the BRD capitalists to liquidate DDR industry and atomize this explosive working class. The German rulers recognized during the summer of 1990 that they had a potentially explosive situation in the DDR, and that they possessed no reliable instruments in the East to suppress growing proletarian resistance. So they moved up the date of the Anschluss.

From Stalinists to Social Democrats

One of the most striking features of the collapse of the DDR was the complete demoralization of the Stalinists. While SED leader Erich Honecker was bitterly rejecting Gorbachev’s market ‘‘reforms,’’ much of the cadre of his party had apparently already begun to adopt the perspectives of social democracy. In the 1980s, as the DDR was busy ‘‘normalizing’’ relations with the BRD, there was considerable sentiment within the SED bureaucracy for a political dialogue initiated by the Social Democratic Party (SPD). The result was an extensive series of political/ideological discussions, codified in Streit der Kultur (joint declaration of the SED/SPD, 1988).

While BRD rightists vilified the social democrats for playing footsie with the SED, these discussions helped undermine the morale of a significant layer of middle and upper-level Stalinist cadres. They gradually came to accept the social-democratic thesis that any system based upon collectivized property is incapable of sustained growth, and concluded that the only role for a workers party is to bargain over the terms and conditions of wage slavery.

The SPD’s Ostpolitik reinforced the effects of Gorbachev’s turn toward ‘‘market socialism.’’ The result was the ideological collapse in the ranks of what had appeared to be a monolithic Stalinist formation. In the summer of 1989, when Hungary opened its border with Austria, tens of thousands of the DDR’s best workers began fleeing to the West. This, combined with massive demonstrations in the autumn demanding freedom to travel and democratization, shook the morale of the regime. By late 1989 the Stalinist bureaucracy had lost confidence in its ability to rule. When the SED elected a new leadership in early 1990, the proto-social democrats within it moved into the top positions. The SED passively accepted capitalist reunification and reconstituted itself the Party of Democratic Socialism (PDS), a slightly left social-democratic formation. Relegated to the status of a minor opposition party in the DDR parliament after the March 1990 elections, the PDS limited its objectives to agitating for better conditions for DDR workers in a reunified Germany.

Armed Bodies Fail to Defend Collectivized Property

All the repressive organs of the DDR—the secret police, the army and the police—proved completely subservient to the Stalinist bureaucracy. The ‘‘armed bodies’’ remained passive, as the bureaucracy capitulated and collapsed. The fearsome Stasi (secret police) were told to remain in their barracks and not to bother anybody—and that is what they did.

By early 1990 the army had begun to dissolve. The DDR had what was probably the most highly trained and best equipped army in the Warsaw Pact, but suddenly the soldiers began to walk away from their posts and go home. In the six months after Honecker was deposed, the army shrunk from 173,000 to 90,000. Some lower-ranking officers tried to sign up with the BRD army. A few hundred were accepted. The higher ranks remained passive and most of the top-ranking officers were pensioned off. After reunification almost all who remained were discharged, although some noncommissioned officers were kept.

Even before reunification BRD officers had begun to take over DDR army units. They disbanded regiments and integrated the remnants into the BRD army. At no time did any DDR police or army units attempt to resist capitalist reunification. The only independent initiatives were the creation in early 1990 of a few scattered soldiers’ committees. But these committees limited themselves to demands for better housing, wages and working conditions.

The DDR police were also incorporated without difficulty. While the tops were replaced by police officials from the West, most rank-and-file cops in the East today are holdovers from the DDR. Former SED members and current PDS members are being weeded out, but the police in the East are still not considered entirely trustworthy by their new bosses.

Most of the top civil bureaucracy was dismissed, particularly in the fields of law, education and state administration. Bonn sent large numbers of administrators east to take their place. A partial exception to this pattern is in industry, where some old SED bureaucrats have been allowed to stay for a while. This is because, within the SED, the section of the bureaucracy charged with administering industry was the first, in its majority, to go over to capitalism.

The State of the Left

SED/PDS cadres and most former SED members are being subjected to a continuing massive witchhunt, spearheaded by the social democrats. At every step, instead of resisting, the PDS has capitulated. It has only very timidly attempted to give any leadership to the spontaneous defensive actions of the embattled working class. PDS groups in the workplaces have been disbanded, and PDS members in the trade unions are instructed not to run for even the most minor office, including shop steward. The PDS now has very little influence in the working class, nor for that matter, does any other ostensibly socialist group.

The German left has been badly disoriented by the momentous events of the past several years. Among the ostensible Trotskyist formations, the German followers of James Robertson’s American-based political obedience cult (currently known as the Spartakist Arbeiter-partei Deutschlands—SpAD) initially aimed at ‘‘unity with the SED,’’ and mistook the counterrevolution sweeping the DDR for a ‘‘proletarian political revolution.’’ (For more on the SpAD’s peculiar Stalinophilic performance during the last months of the DDR, see ‘‘Robertsonites in Wonderland,’’ 1917 No. 10).

Most of the rest of the supposedly Trotskyist left were so deeply Stalinophobic, and so hypnotized by the ‘‘mass movement’’ against the SED dictatorship, that they closed their eyes to reality and hailed each step toward capitalist restoration as a progressive development. The same ingrained Stalinophobia has led some of them to support the witchhunt against the PDS.

Lessons of 1991 Strike Wave

In the spring of 1991 there was another round of massive working-class resistance in the East. By this time the reality of life under capitalism had dispelled many earlier illusions. Strikes, led by shop stewards’ bodies, broke out in industries slated for liquidation. An alarmed DGB leadership moved in to grab control of the demonstrations, call off the strikes and divert the protests into an endless series of pointless meetings, assemblies, rallies and marches. Top DGB leaders from the West monopolized the stage at every event, while the shop stewards leading the struggles were not allowed to speak. The boring bureaucratic speechifying eventually demoralized the strikers and dissipated the energy of the protests. The immediate danger passed.

Militants within the shop stewards’ bodies who wanted to escape the control of the DGB apparatus should have attempted to set up a representative body to coordinate the protests and to provide the organizational framework to push the struggle forward. This would have meant a political fight against the class collaborationism of the social-democratic tops. Our comrades in the Gruppe Spartakus intervened with a program that showed the way out of the impasse (see box).

One key factor in the defeat of the 1991 upsurge was the failure of the workers in the West to respond to the rebellion in the East. In the West, the main struggle of the workers has been to resist getting stuck with the bill for the Anschluss. Thus far the DGB has successfully resisted the ‘‘reunification’’ of the workers movement across the old border. For example, the DGB tops negotiate separate contracts, naturally with different expiry dates, for workers on each side. In April 1991, at the height of the strikes, the DGB called a meeting in East Berlin for metal workers from the East to protest the collapse of their industry and the loss of jobs. Workers flocked from every corner of the former DDR. Yet this massive meeting was scheduled for a weekday, during working hours, to ensure that metal workers from West Berlin could not attend.

Workers in the DDR grew up in a society where rent, food, clothing, childcare, transportation and even furniture were all subsidized. Today they are experiencing capitalist social Darwinism first hand. As prices soar and unemployment benefits run out, as more firms go bankrupt and jobs disappear, life for many workers has become a struggle to survive. There is a growing gap between the attitudes of workers in the West, whose real standard of living remains among the world’s highest, and the mood of the workers in the East, who are rapidly becoming bitter, atomized and demoralized. The crime rate is rising; domestic violence, alcoholism, drug abuse and prostitution are increasing dramatically; serious psychoses are on the increase and the suicide rate has doubled.

In recent months a new wave of plant occupations against the destruction of jobs has swept the steel mills, factories, mines and shipyards in the East. These actions have had very little economic weight since the Treuhand does not really care if the enterprises go bankrupt. Although these strikes often demand no more than ‘‘socially acceptable’’ privatization, some of them have won partial concessions because of the capitalists’ fear of social unrest.

Attacks on West German Workers

Reeling under the combined pressures of the enormous costs of reunification, an international economic downturn and sharpening global competition, German capitalism has stepped up its attacks on the working class. Bonn ran the national debt up to DM1.1 trillion in l991. This represents 3.7 percent of the Gross Social Product, compared to 3.5 percent for the U.S. According to Lothar Mueller, President of the Bavarian Central State Bank, the national debt will hit DM2 trillion in 3 years (Der Spiegel, 23 March).

In the West the attacks on living standards which began last year are increasing. Wage settlements in l991 averaged about 7 percent, but this was well behind the increase in the cost of living. Income, insurance, tobacco and many hidden taxes went up. The tax on gasoline alone went up 55 cents per gallon. The British Financial Times reported on l9 February that, ‘‘Net wages dropped between 1.1 and 3.3 percent between October l990 and October l992.’’ Apprenticeship training programs have been cut back; spending on education is down; health care cuts introduced in l989 reduced the medical budget 9.5 percent in the first year alone. Pensions have been ‘‘adjusted’’—to keep people working longer. Chancellor Kohl was reported to have approved an increase of only 2.7 percent in state pensions, well below even the ludicrously low 4.2 percent official annual rate of inflation. Some bourgeois experts have suggested that workers would need wage increases of l2 percent just to catch up.

The bourgeois media is full of stories from the capitalists and their flunkies accusing the workers of wrecking the economy. Economics Minister J. Moellemann is demanding a statutory limit of 5 percent on pay rises for civil servants and calling for breaking the traditional system of national wage agreements in favor of increasing disparities from one region to another, especially between East and West. He is also demanding ‘‘greater flexibility of working times,’’ i.e., a longer working week.

Saddled with the openly pro-capitalist DGB bureaucracy, the workers in the West have generally been slow to react, but they are beginning to show signs of restiveness. Der Spiegel (24 February) reported a survey indicating that 78 percent of West Germans have reached the limit of their willingness to shoulder the costs of reunification. Workers in the declining steel industry settled this spring for a 6.4 percent pay increase, but other large unions such as the OTV (which represents 4.67 million public workers) and the powerful metalworkers union are demanding pay rises closer to 10 percent.

The difference in material circumstances between workers in the East and West has naturally produced differences in consciousness that are compounded by the cultural differences that arose over the past four decades. Workers in the East see those of the old BRD as arrogant and unsympathetic, while workers in the West see those from the former DDR as lazy, passive and easily manipulated.

The Way Forward

When workers in the former DDR, acting alone, occupy the idle factories, they are only sitting on properties that the Treuhand is planning to liquidate anyway. Only by connecting their desperate plight to the struggle against the capitalists’ attacks on the workers of the West can the workers of the ex-DDR put up an effective resistance. Workers in both sections of Germany have a common enemy in the German ruling class and their agents who control the DGB. The Trotskyists of the Gruppe Spartakus advocate demonstrations, strikes and factory occupations against the capitalist assault. We also call for workers in the East to organize sizeable delegations to go directly to workers in the West—especially in the highly industrialized Ruhr—to appeal for solidarity strikes and other forms of support.

The more politically conscious layers of the Western working class already know that what is taking place in the East poses a serious threat to their living standards. The German bourgeoisie intends to make the working class pay for reunification. To do that it must further slash living standards and social benefits and rip up the decades-old social contract.

The DGB tops’ control of the unions, which the capitalists exchange for guaranteed labor peace, can be broken by a militant response from the base to the capitalist offensive. The inability and unwillingness of the official leadership to resist creates the possibility of a political realignment within the unions and the explosive growth of a militant left wing. This in turn poses the question of leadership and program. While participating in every struggle of the workers to defend their past gains and win new concessions, it is the duty of class-conscious militants to struggle within the unions for a program that addresses more than just the immediate issues facing one or another section of the class. It is necessary to connect these struggles to the fundamental question of which class shall rule.

The German bourgeoisie is driven by the logic of global competition with Japanese and North American imperialism to step up its attacks on German workers. In this situation effective defensive struggles can ultimately pose the question of power. This is a question that can only be answered by a revolutionary leadership with roots in the working class. Such an organization, standing in the tradition of the Bolshevik Party of Lenin and Trotsky, must possess both the programmatic capacity and the political will to struggle for the overturn of the whole system of capitalist exploitation, with a perspective of forging a workers Germany as part of the Socialist States of Europe.

The ‘X’ That Won’t Go Away

[First printed in 1917 West #3 December 1992 http://www.bolshevik.org/1917/West/1917%20West%20%233.html

A phenomenon has swept large parts of the United States. There has been a proliferation of people wearing the letter X, the symbol of Malcolm X, on pants, shoes, shirts, caps, etc. Many celebrities, including Michael Jordan, Magic Johnson and even Arsenio Hall have appeared on national television with the X on their baseball caps. Something is definitely going on when Hall, who once shamelessly bragged about having told a friend to “put his Malcolm X tapes away,” now proclaims in an interview with Denzel Washington that people should read the Autobiography of Malcolm X! Many People are wondering if this is just a fad.

While it is true that many people are walking around with the X on their clothing but little of Malcolm’s story or ideas inside their heads, there is evidence that this is more than a fad. Fads generally do not enjoy four or five years of rising popular interest; the increased sales of Malcolm X books and speeches reveal the interest in Malcolm is beyond the visible fashion image. On a recent tour with Attallah Shabazz, Malcolm X’s daughter, Yolanda King, Martin Luther King’s daughter said on national television she was more in agreement with Malcolm X’s philosophy than that of her father.

Why has there been such a resurgence of interest in a man who has been dead for almost twenty-eight years and who was vilified by the bourgeois media during his lifetime? Perhaps the most important reason is the realization by black people that the struggle for liberation in the U.S., which began the slave rebellions of the last century, is not finished. Malcolm, a key figure in the 1960s, made many important statements, observations, and predictions that are still relevant today. For instance his prediction that the mainstream civil rights organizations’ strategy of seeking to integrate black Americans into the existing social order would fail has been powerfully vindicated, and even many of Malcolm’s detractors, like Louis Lomax, have had to concede this.

Although the bourgeois media ignored or slandered Malcolm X during his lifetime, and was much more favorably disposed toward Dr. King because of his preaching of nonviolence and belief in the system, large numbers of black people, for good reason, looked upon Malcolm as an honestly committed man to be respected and revered for his fiery drive for black liberation. Black people know that these qualities are necessary for a successful liberation struggle and, as long as the need to struggle exists, Malcolm X will not fade away.

Great Man

By being sincere and dedicated to the ordinary black people who comprised his audience, Malcolm X built up a trust with his followers that neither the U.S. government nor his detractors were able to take away. He was a brilliant, eloquent and charismatic man who could break down and communicate his ideas on important issues to his audience. He harnessed these abilities and worked to enhance them. For instance, he learned to speed read, which enabled him to expand his knowledge more quickly. His prison transformation from “Detroit Red,” hustler, to Malcolm X, fiery orator, should be an inspiration to all.

With a burning desire, fearless spirit, and tireless energy he played a major role in building the Elijah Muhammad’s Nation of Islam (NOI—or “Black Muslims”) from about 5,000 members nationwide to 100,000 between 1954 and 1960. Although the Muslims played no significant role in the political and social struggles against racial oppression that were building during this period, their appeal—as a black-separatist self-help organization—lay not in their apolitical religious cultism but rather in their strident denunciation of the racist reality of American society.

Differences With Elijah Muhammad

For most of his time in the NOI Malcolm was a loyal and uncomplaining follower of Elijah Muhammad. After Malcolm had gained considerable notoriety for the NOI through his columns in Harlem’s Amsterdam News and the Los Angeles Herald-Dispatch, he did not object when these columns were appropriated by Elijah Muhammad. Nor did he complain when Muhammad Speaks, which he had started from his own basement in New York, containing mostly his own copy, was taken from him and placed under the administration of John Ali in Chicago.

As the NOI grew, a layer of members centered in Chicago around Elijah Muhammad’s family developed a vested interest in the considerable real estate holdings and commercial enterprises which had been financed by the contributions of the membership. Although the enterprises were owned by the NOI, which was tax-exempt because of its status as a religious organization, it was common knowledge that most of them benefitted Elijah Muhammad’s immediate family and their business partners. At the time of his death Elijah Muhammad had amassed a fortune of $25 million (Emerge, April 1992). Elijah Muhammad and his inner circle felt threatened by Malcolm X and his attempts to politicize their organization.

There was an uproar in the black community of Los Angeles when the cops shot down several unarmed Muslims, killing one and paralyzing another, on 27 April 1962. Malcolm saw this as the moment to “go out there now and do what I’ve been preaching all this time,” which was to organize the NOI with all black people against this barbaric attack. He also had strong support from local churches, community activists, and the National Association for the Advancement of Colored People (NAACP) in what was to be mass protest action. Elijah Muhammad stopped all the protest campaigns. According to Louis Lomax, “Malcolm began to smart under charges from militant blacks that he and his group were all talk and no action” (To Kill a Black Man). The fact that no legal assistance was provided by the NOI to the four Black Muslims that went to prison as a result of this incident made matters worse.

Louis Lomax pointed out that:

“Malcolm was consistently pressing Elijah Muhammad for permission to become involved in demonstrations. Each time Malcolm received a flat and unequivocal ‘No!’ It finally came to the point that Elijah ordered Malcolm not to raise the matter again. Malcolm obeyed.”

Black Nationalism Makes Strange Bedfellows

There was a perverted logic in the NOI’s self-satisfied desire to maintain the status quo. Malcolm X explained that in December 1960:

“I was in the home of Jeremiah, the [NOI] minister in Atlanta, Georgia. I’m ashamed to say it, but I’m going to tell you the truth. I sat at the table myself with the heads of the Ku Klux Klan, who at that time were trying to negotiate with Elijah Muhammad so that they could make available to him a large area of land in Georgia or I think it was South Carolina. They had some very responsible persons in the government who were involved in it and who were willing to go along with it. They wanted to make this land available to him so that his program of separation would sound more feasible to Negroes and therefore lessen the pressure that the integrationists were putting upon the white man. I sat there I negotiated it. I listened to their offer. And I was the one who went back to Chicago and told Elijah Muhammad what they had offered.”

—Malcolm X: The Last Speeches

Malcolm X concluded: “From that day onward the Klan never interfered with the Black Muslim movement in the South.”

This was not the first time that black nationalists, who claimed they were acting on behalf of the persecuted black masses, have made common cause with the most deadly enemies of black people. Marcus Garvey created an uproar in his Universal Negro Improvement Association, when he visited the Ku Klux Klan in June of 1922. In 1985 Louis Farrakhan, Elijah Muhammad’s successor, personally invited Tom Metzger, former grand dragon of the California KKK, to a rally in Los Angeles at which Metzger donated $100 as “a gesture of understanding;” and today in South Africa we witness the grotesque alliance between Gatsha Buthelezi’s Inkatha and the fascist Afrikaner Resistance Movement (AWB).

How can these black nationalist misleaders justify fraternizing with the avowed enemies of black people? If they really believe all white people are devils, or some equivalent, that means there are no significant political differences between whites, at least as regards blacks. The logic of this is that a marriage of convenience with white fascists is no worse than an alliance with any other whites. White racism, which justifies and advocates systematic oppression, should not be equated with black nationalism, which is a response to that oppression. There is nevertheless a strange symmetry between the objectives of black nationalists, who want a separate black “nation” and white supremacists pushing segregation.

The FBI and Malcolm X

As chief spokesperson for the NOI, Malcolm had attracted the attention of the FBI. He and many others were aware of the FBI’s surveillance of him and the NOI, but few people are aware of the extent of that surveillance (over 3,600 pages)! Clayborne Carson has contributed a useful and informative service to the public by gathering and compressing a selection of documents from Malcolm X’s enormous FBI file.

In a report dated January 10, 1955 the FBI interviewed Malcolm X and asked him if he would defend the U.S. in the event of a foreign attack. Malcolm X declined to answer. He also declined to answer whether of not he considered himself a citizen of the U.S. (Malcolm X—The FBI File). In contrast to the belly-crawling, flag-waving official leadership of the civil rights movement, Malcolm X was no flag-waving patriot of U.S. imperialism.

In a July 2, 1958 account the FBI, which recognized Malcolm X’s desire to play a leading role in the black movement, designated him a key figure in the NOI (Ibid, p 149). Later that year it had noticed that older members of the NOI were fearful of Malcolm’s radicalism. They even went so far to claim in a statement dated November 17, 1960 that Malcolm X was forming a nucleus within the NOI to take it over.

Elijah had declared that any NOI member that participated in the 1963 civil rights march on Washington would be suspended for 90 days. Malcolm went further: he denounced the march as the “farce on Washington,” taking King and other liberal civil rights leaders to task for making sure that the march was a tame event, in no way hostile to the Kennedy administration. When Malcolm responded to the assassination of John F. Kennedy by noting that it was a case of “chickens coming home to roost,” Elijah Muhammad suspended him from the NOI.

Exit From the Nation of Islam

During his time in the NOI Malcolm tried to close his eyes to the contradiction between the need to struggle against racist injustice and the passive acceptance of the status quo preached by Elijah Muhammad. Malcolm X, to his credit, finally recognized that if he was going to play a leading role in the black liberation struggle it would have to be outside the NOI.

Initially his break with the Muslims was cloudy. At the March 1964 press conference he called to announce his departure from Elijah Muhammad’s organization he said: “I still believe that Mr. Muhammad’s analysis of the [race] problem is the most realistic, and that his solution is the best one.” He did not go into the reasons that compelled him to leave the NOI, and expressed reluctance at having to make the move. In an interview with Les Crane on December 12, 1964 he said that he didn’t think he would “contribute anything constructive to go into what caused the split.” Far from encouraging other members to follow his example, he explicitly stated: “my advice to all Muslims is that they stay in the Nation of Islam under the spiritual guidance of the Honorable Elijah Muhammad. It is not my desire to encourage any of them to follow me,” (Malcolm—The Life of a Man Who Changed Black America, Bruce Perry).

Such statements could only confuse and disorient people who may have looked to Malcolm X for leadership. The rebellious black urban youth who knew of and respected Malcolm X were not about to join any religious sect. They wanted a fighting organization.

But Malcolm X at this time had not developed an understanding of the importance of a clear revolutionary program to attract and organize the most conscious layers of the black liberation movement. This was clearly revealed in his assertion that:

“I for one believe that if you give people a thorough understanding of what confronts them and the basic causes that produce it, they’ll create their own program, and when the people create a program, you get action.”

    —Malcolm X: A Man and His Time

Build a Workers Party!

After leaving the Muslims, Malcolm made a pilgrimage to Mecca and toured various newly independent African states. While he was in Africa he commented that:

“The U.S. Peace Corps members are all espionage agents and have a special assignment to perform. They are spies of the American government, missionaries of colonialism and neo-colonialism.”

    —Malcolm X: The FBI File

It was statements like this, along with his attempts to enlist the support of African heads of state to denounce the U.S. government in the United Nations for its mistreatment of American blacks, that led to the FBI’s push for the use of the Logan Act to put Malcolm X behind bars—again. Unfortunately, while Malcolm was correct in situating the black struggle in the U.S. in an international context, he also displayed a certain amount of disorientation on this issue. His faith in the UN, which at the time was seeing an influx of black African states, was totally unjustified. It should have been obvious that the UN was dominated by world imperialism and could take no decisive action against the interests of the U.S. ruling class. Likewise he overestimated the ability of the petty-bourgeois leaders of the new African states to influence or oppose U.S. policy. Despite their claims to independence and even “socialism,” these regimes were never really able to escape the control of the imperialist powers.

Probably the most significant result of Malcolm’s trip to Mecca was the recognition that he had been mistaken to assume that all whites were necessarily and automatically evil and racist. This discovery opened the door to redefining the struggle against racist oppression and, potentially, connecting it to struggle against the capitalist system which produces it. In the last year of his life Malcolm paid tribute to the great abolitionist fighter, John Brown, and stated his willingness to ally with whites like him.

Malcolm’s attempts to build a new organization after his break with the Muslims led Louis Farrakhan to threaten that, “Such a man as Malcolm is worthy of death.” But it was not just Elijah Muhammad’s followers who wanted Malcolm out of the picture. Once Malcolm was independent of the Muslims and their religious dogma, he was perceived as a much greater potential danger to the status quo.

For all his talents as a thinker and an inspirational orator, Malcolm X left very little in terms of a tangible political legacy. Because he was in political motion at the time of his death, the legacy of Malcolm X has been claimed by everyone from the ex-Trotskyist Socialist Workers Party to black conservatives such as Clarence Thomas.

Liberation for black people cannot come about within capitalist society, which needs and breeds racism as a mechanism of exploitation and control. Black capitalism, advocated by the likes of Farrakhan, is no alternative. Religion is a distraction from the struggle for equality. The creation of a society without racism and exploitation requires a force with the social weight to bring it about. No individual, no matter how serious or talented, can act effectively alone. Black nationalism, which can have a certain appeal in times of social reaction, offers no solutions for the oppressed black masses. Blacks in the United States are not a nation, but rather a color caste forcibly segregated at the bottom of this society. Only the working class which, because of its position in capitalist society as the creator of wealth, has both the social weight to overthrow capitalist rule and an objective interest in doing so.

The working class must have its own revolutionary party to accomplish its historic task through linking workers’ struggles to those of other people oppressed by capitalism, including blacks. Such a party must in turn be armed with the correct program, a road map pointing the way forward. As great an individual as V.I. Lenin was, he would not have led the overthrow of capitalism in czarist Russia if he were not part of a mass-based workers party, the Bolshevik Party, with a collective leadership and a program that answered the needs of the masses.

The Bolshevik Tendency, is committed to the task of building such a party, the American section of a reborn Fourth International, the party of world-wide socialist revolution. Our program for black liberation includes calls for a struggle against all manifestations of racism and all racial discrimination; for workers’ defense guards to stop racist violence and to smash the Nazis and Klan; for an end to unemployment through a fight for decent jobs for all; for special worker-run programs to upgrade the positions of women, blacks and other specially oppressed minorities; for open admissions to colleges and universities along with well-funded teacher-student-run programs to guarantee an education to everyone who wants one. As revolutionary socialists we call for a complete break with the Democratic and Republican Parties, the twin parties of capitalism; the expropriation without compensation of basic industry under workers control, and the establishment of a workers state with a democratically planned economy.

We urge all workers, blacks, women, youth and other oppressed peoples inspired by Malcolm X’s heroic fight for black liberation to consider seriously the political program and ideas put forward by the Bolshevik Tendency. Capitalism is in an international depression, and the U.S. economy, which is in a fairly advanced state of decay, is being hit particularly hard. The election of Bill Clinton, the governor of a “right-to-work” state, who interrupted his campaign for the Democratic nomination to preside over the execution of a brain-damaged black man, will not improve the lot of ordinary people in this country, regardless of color. Capitalism has long outlived its usefulness and can only offer oppression, environmental deterioration, racism, sexism, poverty, hunger and, eventually, world war. We are in complete solidarity with Karl Marx who said at the end of the Communist Manifesto, “Workers of the world unite. You have nothing to lose but your chains!”

Black Liberation Through Socialist Revolution!

Os stalinistas e a contrarrevolução

Carta para o Grupo Internacionalista

Os stalinistas e a contrarrevolução 

[Tradução realizada pelo Reagrupamento Revolucionário em agosto de 2013, a partir da versão original em inglês postada pela então revolucionária Tendência Bolchevique Internacional (TBI) em http://www.bolshevik.org/Leaflets/IBT_I4I_GDR.html.]

Tendência Bolchevique Internacional 
Nova York
9 de setembro de 2004
Grupo Internacionalista
Nova York
Camaradas: 
No artigo de vocês (“Post-Soviet SL/ICL: New Zigzags on the Centrist Road”, publicado em InternationalistNo. 19), vocês falsamente caracterizam a nossa posição sobre o papel dos stalinistas na destruição do bloco soviético:
Nesses últimos oito anos, desde janeiro de 1996 para ser exato, a versão oficial da Liga Espartaquista e da sua Liga Comunista Internacional tem sido a de que os stalinistas ‘lideraram a contrarrevolução’ na Alemanha Oriental (a RDA).” 
 
A SL/LCI de fato adotou a linha de que ‘o stalinismo é contrarrevolucionário de cabo a rabo’ contra a qual ela havia lutado com unhas e dentes no passado. Essa era a lógica da estalinofóbica ‘Tendência Bolchevique’, que sustentava que o ‘perigo principal’ na Alemanha Oriental era o regime do SED [o partido stalinista], blindando dessa forma a verdadeira ameaça contrarrevolucionária da burguesia da Alemanha Ocidental e os seus capangas socialdemocratas, e com essa base acusava a SL/LCI de ter uma ‘tendência estalinofílica’.” 
Ao contrário da SL, nós nunca afirmamos que os stalinistas lideraram a contrarrevolução na RDA e nem em nenhum outro lugar. Essa posição foi apenas o outro lado da moeda da adaptação prévia da LCI à burocracia stalinista: 
Nesse período [no inverno europeu de 1989-90] a LCI não se preocupou em combater [o Primeiro Ministro da RDA] Modrow como um traidor que os trabalhadores deveriam derrubar em defesa da RDA. Ao invés disso, eles o criticaram apenas de passagem…” 
― “Robertsonites in Wonderland”, 1917 No. 10, 1991 
Esse foi um erro crítico: 
A direita ganhou espaço enquanto a confusão prevalecia entre os trabalhadores mais conscientes que confiavam nos stalinistas ‘honestos, regenerados’. Era por isso que o regime de Modrow era especialmente perigoso, e o motivo pelo qual era imperativo alertar os trabalhadores contra ele.” 
― Idem. 
O curso oportunista atingiu seu auge com a ridícula tentativa de James Robertson [dirigente principal da Liga Espartaquista] de organizar reuniões privadas com o general soviético B. V. Snetkov, o espião-chefe da RDA Markus Wolf e o líder partidário do SED/PDS Gregor Gysi. Essa iniciativa foi tão grotescamente oportunista que nem o IG e nem a SL ousam defendê-la hoje em dia.
Nós lidamos com a sua objeção ao nosso foco em criticar os stalinistas em uma carta para vocês de dezembro de 1996: 
A acusação de que nós dirigimos a maioria de nossas críticas contra o SED/PDS, ao invés de dirigi-las contra o abertamente restauracionista SPD [Partido Socialdemocrata Alemão] e os partidos burgueses lembra as reclamações dos centristas contra Trotsky, por ele concentrar os seus ataques políticos na Frente Popular e, particularmente, no componente da ‘extrema esquerda’, o POUM, durante a Guerra Civil espanhola. Afinal de contas, Franco não era o ‘inimigo principal’? As mesmas críticas foram feitas a Lenin em 1917, quando os Bolcheviques dirigiram a maioria de suas polêmicas à falsa esquerda, ao invés de aos czaristas, às Centúrias Negras e outros contrarrevolucionários. Isto é, naturalmente, um ABC para os trotskistas, mas a conversa de ‘inimigo principal’ na RDA talvez exija reiterá-lo.” 
― “Carta para o IG e a LQB”, reimpresso no Trotskyist Bulletin No.6, “Polêmicas com o IG” 
Nós também lembramos a vocês da observação paralela de Trotsky no seu artigo de 1940, “Stalin após a Experiência Finlandesa”: 
Considero a fonte principal de perigo para a URSS, no presente período internacional, ser Stalin e a oligarquia encabeçada por ele. Uma luta aberta contra eles, às vistas da opinião pública mundial, para mim está inseparavelmente ligada à defesa da URSS.” 
Vocês afirmam que a lógica da nossa posição é de que “o stalinismo é contrarrevolucionário de cabo a rabo”, mas vocês não podem citar nenhuma prova disso, porque não existe nenhuma. Em nossa carta de 1996, nós observamos que, ao contrário da SL, “Norden/Stamberg estão certos sobre o fato de que a burocracia stalinista não é capaz de dirigir a contrarrevolução ‘sem se fragmentar’.” Nós apontamos isso repetidamente durante o período decisivo. Por exemplo, em uma polêmica de 1990 contra a organização de Tony Cliff, defensora da tese do capitalismo de Estado, nós escrevemos: 
Os stalinistas não se comportam como uma classe dominante porque eles não são uma classe dominante. O principal inimigo dos trabalhadores no Leste Europeu hoje não são as várias burocracias nacionais, que estão em avançado estado de decomposição, mas os capitalistas dos Estados Unidos e da Alemanha Ocidental, que buscam reintegrar essas economias ao mercado mundial imperialista.” 
 
O mergulho rumo à restauração do capitalismo só pode desintegrar ainda mais qualquer poder social que o aparato stalinista ainda possua. Se os países do bloco soviético reintroduzirem o capitalismo, quando isso acontecer as burocracias stalinistas serão desmanteladas. O grosso da nomenkletura está bastante ciente de que sua substituição pelo mercado capitalista como regulador da atividade econômica vai implicar a perda de ambos os privilégios materiais e o status social.” 
― “A Agonia de Morte do Stalinismo”, 1917 No. 8, 1990 
Nós apontamos o mesmo ao combater a estalinofobia do [grupo britânico] Workers Power: 
A declaração de novembro de 1989 da LRCI [o grupo internacional do Workers Power] sobre a RDA, intitulado ‘A Revolução Política na Alemanha Oriental’, exigia: ‘Abaixo os planos stalinistas e imperialistas para restaurar o capitalismo!’. O problema com esse slogan é que ele falha em distinguir entre a traição dos burocratas stalinistas, que capitularam à restauração capitalista, e os imperialistas que a realizaram. No seu balanço de julho de 1990 sobre a queda da RDA, Workers Power declarou que o ‘inimigo principal da classe trabalhadora dentro da RDA’ não eram as forças germinantes de um renovado capitalismo pangermânico, mas o rapidamente decrépito ‘aparato de Estado burocrático’ (Trotskyist International No. 5, outono de 1990).” 
 
A LRCI compartilha da responsabilidade por essa catástrofe [na RDA]. Ao invés de tentar atrair os elementos com maior consciência de classe dos trabalhadores para resistir à demolição do Estado operário, esses supostos marxistas fizeram tudo que podiam para convencer os trabalhadores de que a destruição do Estado operário deformado alemão foi uma ‘vitória histórica’.” 
― “Doubletalk in the 2.5 Camp”, 1917 No. 10, 1991 
O IG não vai chegar a lugar nenhum insistindo em atacar seus oponentes políticos por posições que eles não defendem. Os revolucionários não brincam com a verdade. Como Trotsky observou, uma organização revolucionária viável só poder ser construída sendo “verdadeira nas pequenas coisas, assim como nas grandes”.
Saudações bolcheviques,
Samuel T. [Trachtenberg]
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