Os movimentos contra as opressões

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O sistema capitalista e o Estado sustentam ou mesmo expandem inúmeras formas de opressão social que não se limitam estritamente à relação de classe. Isso não quer dizer que elas não estejam entrelaçadas com a relação entre classes sociais e suas diversas manifestações concretas, pois nada escapa a isso. O racismo se manifesta de forma muito diferente para um burguês ou um juiz da Suprema Corte negro do que para um operário ou vendedor ambulante negro morador da periferia. Isso não quer dizer também, por outro lado, que o racismo não transgrida barreiras de classe, mas sim que os marxistas não podem, nem por um momento, perder de vista que é sobre a classe trabalhadora e outras classes subalternas que essas opressões costumam se manifestar de forma mais drástica.

No Brasil e em muitos outros países, o racismo contra a população negra segue como um dos resquícios mais fortes da escravidão de africanos, um resquício que foi apropriado e fortalecido pelo sistema capitalista como ferramenta adicional da exploração. Os negros brasileiros são segregados aos setores mais inferiores da sociedade e se concentram, sobretudo, na classe trabalhadora, inclusive em muitas categorias estratégicas do proletariado e no exército de reserva (a massa de desempregados). O racismo, historicamente, foi o maior obstáculo para a ação política dos setores mais oprimidos da classe. É entre os negros que está a maioria dos milhões de trabalhadores, urbanos e rurais, desempregados e que vivem sem moradia, sem alimentação, sem segurança, sem atendimento médico ou saneamento básico. São demandas mínimas que o Estado capitalista é incapaz de sanar, uma vez que o seu principal objetivo é manter os lucros sempre em ascensão. A luta contra a brutalidade racista da vida cotidiana, tanto em seus aspectos materiais quanto culturais, e contra o papel cumprido pela polícia, é central para a revolução socialista no Brasil.

A luta pelo poder dos trabalhadores está inextricavelmente ligada à luta pelo fim da opressão aos negros, pois se dirigem contra as mesmas estruturas. Tal realidade demanda que os marxistas se envolvam na luta dos setores mais precarizados dos trabalhadores (como os informais e os terceirizados), que são majoritariamente negros, como uma prioridade. A luta pela efetivação desses trabalhadores com salários e direitos dignos, e de pagamento igual para trabalho igual é central. A organização de autodefesas coletivas da classe trabalhadora em situações de racismo têm um papel também decisivo, pois demonstra na prática a alternativa à polícia racista. Defendemos que se repitam exemplos passados de autodefesas sindicais contra ataques racistas sofridos por trabalhadores. A polícia é um instrumento de opressão legalizada de uma classe sobre a outra. Quem mais sofre com a polícia são justamente trabalhadores negros, vítimas do genocídio racial operado pelo Estado, defendido e reforçado diariamente pela mídia capitalista e outros aparatos ideológicos. O fim da polícia racista do Estado burguês será um passo indispensável na eliminação do racismo.

A sujeição das mulheres cumpre um papel em todo o mundo de submetê-las a jornadas duplas ou triplas de cuidados com o lar, os filhos e os idosos, serviços que deveriam ser de direito universal e responsabilidade pública. Esse trabalho não pago isenta os cofres do Estado burguês e os capitalistas de contá-lo nos salários, e por isso a família nuclear se tornou um paradigma envolto em sacralidade e romantização. Às mulheres que são mães, deveria haver muito mais tempo para as relações de afeto com os filhos se não fosse tamanho o desgaste com cada aspecto material da criação, que muitas vezes elas não têm condições em prover. Elas também deveriam ter sua independência como mulheres sem que sua vida se resumisse a cuidados com o lar e os filhos.

A eliminação da opressão da mulher demanda como um de seus pré-requisitos a garantia do pleno emprego. Todas as mulheres devem ter direito ao trabalho e não receber um centavo a menos por trabalhos desempenhados em igualdade aos homens. Ao mesmo tempo, as mulheres que são mães devem ser livres da jornada dupla ou tripla de trabalho. Com o pleno emprego feminino, os serviços domésticos devem ser socializados: profissionais específicos cumprirão as principais funções de manutenção do lar. Serviços de limpeza públicos e restaurantes populares atenderão às demandas de alimentação e limpeza da classe trabalhadora. Os filhos dessas mulheres devem ter ao seu dispor creches seguras, que recebam as crianças no horário de trabalho dos pais, e elas devem disponibilizar, no mínimo, três refeições diárias e prover educação e lazer gratuitos, de qualidade.

Somos pela facilitação do direito do divórcio, a fim de livrar as mulheres do jugo do casamento por necessidade material, e defendemos um auxílio digno para as mulheres divorciadas desprovidas, mães solteiras e viúvas, um auxílio que atenda as reais necessidades básicas da mulher trabalhadora. Uma demanda democrática básica ainda negada em grande parte do mundo é a legalização do aborto de forma segura, como parte de um sistema de saúde público e acessível. Além da exigência básica de igualdade salarial entre homens e mulheres em mesmos cargos, também defendemos como reforma parcial que os salários das mulheres sejam incrementados, havendo um acréscimo por cada filho. Defendemos que os sindicatos criem comissões de ação contra o assédio moral e sexual das mulheres nos locais de trabalho, e incentivem a sua participação na política do movimento dos trabalhadores, da qual muitas vezes são excluídas. Os sindicatos também podem realizar ações de auxílio para trabalhadoras em situações de vulnerabilidade social. O movimento dos trabalhadores deve reforçar as campanhas contra a cultura do estupro e manifestações materiais e culturais de machismo.

Os homossexuais, bissexuais, transexuais e outras minorias em questões de orientação sexual e identidade de gênero sofrem uma opressão baseada na defesa dos valores tradicionais da família nuclear, os mesmos que também cumprem um papel na submissão das mulheres. As estruturas centrais responsáveis por isso são as religiões homofóbicas e as organizações políticas conservadoras, que criam enormes repercussões ideológicas. Efeitos psicológicos, derivados de perseguições e agressões, são recorrentes. O Brasil é um dos países com mais assassinatos e ataques motivados por homofobia e transfobia. A população LGBTQI+ é frequentemente rejeitada pela família e marginalizada, especialmente os membros da classe trabalhadora, e o mercado de trabalho formal se fecha muito mais a eles. No caso dos transexuais, a prostituição acaba sendo a saída em muitos casos para não cair na miséria.

Alguns setores da burguesia se mostram liberais com essa questão, mas os trabalhadores seguem sofrendo com a insegurança e o medo, o abandono e o desemprego causados pela esmagadora homofobia/transfobia reforçada por religiões reacionárias e falso moralismo. Defendemos a expropriação das propriedades (inclusive midiáticas) e das fortunas de grandes Igrejas criminosas e das instituições conservadoras que fomentam tais práticas e ideologias, assim como o fim da isenção de impostos das instituições religiosas em geral. Defendemos a plena igualdade de direitos civis para os homossexuais, assim como de identidade social para os transexuais. Defendemos a realização de programas contra a homofobia/transfobia em todas as escolas públicas, como forma de combater essas ideologias, e programas de auxílio para a comunidade LGBTQI+, bem como a garantia do pleno emprego a seus membros.

Outra opressão que é crucial combater para a unidade dos trabalhadores é a sofrida pelos imigrantes, estrangeiros e refugiados. Eles são jogados nos piores trabalhos, vivem o risco de deportação e ataques xenófobos e racistas. O imperialismo provoca guerras e exporta contradições para a periferia do sistema. Na busca do seu interesse de aumentar os lucros, destrói os meios de vida tradicionais de inúmeros povos, levando a ondas desesperadas de imigrantes em busca de uma vida melhor a tentar adentrar as metrópoles ou centros. Lá, são vistos pela burguesia e sua ideologia como escória, como “ladrões de empregos” (como se o desemprego não fosse uma característica intrínseca ao capitalismo) e como bodes-expiatórios para os problemas da violência urbana. Combatemos essas ideias reacionárias e exigimos o pleno direito de cidadania a todos os imigrantes, refugiados e estrangeiros emigrados em busca de trabalho e vida melhor, assim como direito a moradia e trabalho digno. Ao mesmo tempo, sabemos que é a revolução socialista, tanto nos países periféricos quando nas metrópoles a única saída para as contradições globais do capitalismo.

Para a classe trabalhadora é uma questão de vida ou morte combater essas opressões. Elas não apenas são usadas para explorar mais pesadamente os setores oprimidos do proletariado, e para reduzir ao máximo os custos do capital por meio de trabalho não pago, como também para dividir os trabalhadores, lançando sobre alguns o papel de culpados pela degeneração e mazelas que tem sua causa real no próprio capitalismo e em seus desdobramentos, livrando a cara da burguesia. A estratégia dos marxistas na luta contra as opressões é a centralidade de classe proletária e a unidade na luta. Nos sindicatos e organizações dos trabalhadores em geral, combatemos por um maior envolvimento nessas lutas, contra a indiferença da burocracia sindical em relação ao machismo, ao racismo, à homofobia, à xenofobia, etc. de nossa sociedade e suas manifestações. Também não nos contentamos com a solidariedade em palavras, mas queremos ações e apoio ativo.

Nos movimentos de luta contra o machismo, o racismo, a homofobia e transfobia, etc., o partido deve buscar intervir principalmente por meio de alas, ou frações do movimento, lideradas pelos membros do partido que se encontram nos grupos oprimidos, mas apoiadas e compostas também por outros membros. Sua linha deve ser de defender a revolução proletária como o caminho historicamente mais rápido para destruir as estruturas que mantém as opressões e realizar um esforço ativo, principalmente na educação e na cultura da sociedade transitória pós-revolucionária, para erradicar seus resquícios ideológicos.

Aqui, como em todos os outros casos, não opomos mecanicamente reformas e revolução: lutamos por todas as melhorias e contra cada pequeno abuso, por vezes em unidade com outras forças políticas. Mas defendemos a centralidade do proletariado, sem ceder ao ilusionismo do liberalismo burguês e outras ideologias que pregam a igualdade e inclusão como algo possível nos limites do sistema capitalista. Não damos nenhum apoio ou fazemos elogio à demagogia de empresas e capitalistas “inclusivos” cujo único interesse é lucrar em cima dessas pautas.

Rejeitamos um discurso assim chamado “identitário”, mas que geralmente não passa de um pensamento reformista ou pró-liberalismo inócuo ao capitalismo, por vezes com traços de sectarismo contra os setores que não sofram uma opressão em particular. A identidade de grupos oprimidos é comumente suprimida como forma de impedir seu reconhecimento e alteridade. Dar esse passo no reconhecimento da identidade é progressivo, mas não deve parar aí. Tais linhas de pensamento costumam ter uma cultura de resignação sobre a existência da opressão, ou seja, ausência de estratégia para pôr fim à mesma, combatendo apenas suas manifestações individuais e marginais. Costumam também difundir divisionismo no movimento real. Sem pautar uma unidade em torno do proletariado, enxergam em todos os que não sofrem daquela mazela específica são incapazes de lutar contra ela ou são, em alguma medida, automaticamente opressores.

Há também um foco desses setores comumente chamados de “identitários” nas representações culturais que visem combater as ideologias racistas, machistas ou homofóbicas. O combate no plano cultural é uma expressão essencial de luta contra as opressões, porém não é em si o caminho para atingir a eliminação das suas bases estruturais. Não basta difundir a contracultura antirracista, por exemplo, sem fazer a denúncia do capitalismo, da propriedade privada e da exploração, e do Estado burguês, que são o sustentáculo do racismo. O combate às opressões na arena das representações culturais não deve perder de vista a denúncia do sistema capitalista e seu Estado.

Embora haja trabalhadores mais e menos privilegiados na sociedade capitalista, a totalidade das relações sociais mostra que o racismo, o machismo, a xenofobia e a homofobia, etc. são usados como forma de dominação que prejudicam a todos os trabalhadores em última instância, e que deve ser do interesse de toda a classe erradica-los. Os pontos de vista contrários a isso, de que as opressões são vantajosas aos trabalhadores brancos e homens heterossexuais, por exemplo, acabam sendo uma concessão à ideologia burguesa que quer convencê-los do mesmo.

Os comportamentos opressores são programados histórica e socialmente, e não estão na genética e nem nos interesses objetivos do proletariado, podendo ser superados por meio da luta política. Não consideramos os trabalhadores homens em geral como inimigos das mulheres, nem os trabalhadores brancos como inimigos dos negros, etc. Nem tentamos destilar sentimentos de culpa cristã, como se eles fossem grandes beneficiários e devessem flagelar-se por sua existência. Isso de nada serve ao movimento. Ao contrário, reivindicamos que todos sejam participantes ativos da luta dos oprimidos, num movimento amplo conjunto, centrado nos trabalhadores, contra o sistema capitalista e as ideologias reacionárias. Dentro do partido, lutamos contra manifestações de opressão e preconceito, e batalhamos pela igualdade de condições entre os membros.

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A questão ambiental e a questão da terra

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No campo, a classe trabalhadora é bem mais dispersa geograficamente, mas concentra-se nos polos do agronegócio e do latifúndio industrializado. Ali, está entre os setores mais explorados da nossa classe e que sofre das condições mais abusivas. O campo é ainda marcado por uma variedade de outras classes, como os camponeses (proprietários pequeno-burgueses), com subdivisões que vão desde o pequeno camponês (que se baseia no trabalho familiar) até o grande camponês (que emprega trabalhadores permanentemente, estando próximo de um capitalista).

Os pequenos camponeses, que são a grande maioria dessa classe e os que possuem menos terra, são historicamente um aliado em potencial dos trabalhadores. Mas é um processo de disputa política que define se os camponeses ficam do lado do trabalhador ou do burguês, não algo decidido de antemão. O programa marxista leva em consideração a situação da classe dos camponeses, uma classe esmagada e oprimida pelo capitalismo. Frequentemente, o agronegócio pressiona pela absorção das terras ou submete os pequenos camponeses a condições de dependência, na qual só conseguem vender a produção com preços e em condições desvantajosas, determinadas pelos compradores capitalistas.

O objetivo dos marxistas é a coletivização democrática da terra, ou seja, o controle pleno da terra plantável, dos insumos e da tecnologia agrícola pelos trabalhadores do campo, voltada para a satisfação das necessidades humanas, tanto no próprio país como nos demais que estejam caminhando no processo de transição socialista. Portanto, defendemos a expropriação do latifúndio e do agronegócio, a tomada da terra por aqueles que nela vivem e trabalham, acabando com a produção para satisfação do mercado externo (especialmente os mercados imperialistas) e também do latifúndio improdutivo, mantido para obtenção de rendas e aluguéis. Nosso programa nessa questão está em paralelo ao programa da seção urbana do proletariado, que precisa de moradia, e para a qual defendemos a expropriação dos imóveis desocupados nas cidades como medida imediata para os trabalhadores sem casa, que pagam aluguéis abusivos ou que vivem em áreas de risco. A terra é ao mesmo tempo moradia e meio de produção.

Para os pequenos camponeses já estabelecidos, defendemos que mantenham sua propriedade e sejam integrados a um futuro planejamento econômico socialista em termos vantajosos; ao mesmo tempo, lutaremos por sua adesão voluntária, com base no convencimento político, à construção de fazendas coletivas, com melhores condições técnicas. Somos contra as formas de coletivização burocrática forçada que se realizaram na União Soviética no final dos anos 1920, que arrancaram a terra mesmo dos pequenos camponeses e os submeteram a rotinas de trabalho sob as quais não tinham decisão. Apoiamos a luta dos pequenos camponeses e dos camponeses desenraizados de suas terras (que no Brasil tem no Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra sua principal expressão) contra o latifúndio improdutivo e a violência de jagunços e capangas dos capitalistas do agronegócio e da burguesia extrativista. No interior de movimentos como esse, defendemos uma política revolucionária e de independência de classe dos trabalhadores contra a burguesia, totalmente oposta à colaboração com as elites, cuja expressão nos governos de colaboração de classe do PT desarticulou e enfraqueceu o movimento, freando as lutas por reforma agrária.

Umbilicalmente ligada à questão da terra está a do combate contra os efeitos da destruição capitalista do planeta. Nos últimos dois séculos, o capitalismo deu passos significativos que aproximaram a humanidade de uma catástrofe prolongada causada pela destruição dos recursos naturais e condições ambientais. O rompimento de acordos climáticos por si só já extremamente limitados e insuficientes (como o Acordo de Paris) e a ausência de qualquer plano de governos ou dos grandes donos das indústrias para a questão ambiental são o testemunho definitivo de que o capitalismo é um sistema incapaz de resolver a questão mais aguda da nossa era para a sobrevivência das sociedades humanas. O impacto recorrente das mudanças ambientais causadas pelo capitalismo é já inevitável, mas isso não significa que não possa ser mitigado e até certo grau revertido se for realizada uma mudança urgente no rumo das mudanças climáticas.

Apenas um sistema de produção e distribuição planejado na totalidade pelos próprios produtores (o comunismo) pode resolver essa questão, em oposição a um sistema cuja base é a competição entre grandes capitalistas na corrida por uma maior margem de lucro, e que leva a passar por cima dos trabalhadores e dos ecossistemas, ignorando normas de proteção ambiental (geralmente já frouxas). Como em todas as outras questões, os capitalistas buscam reter em mãos privadas todos os lucros, mas buscam socializar ao máximo (repassar ao conjunto da sociedade) os custos, prejuízos e tragédias. Isso reflete na perda de vidas, moradia e dignidade de milhões de seres humanos na forma de destruição socioambiental. São os trabalhadores e oprimidos (dentre os quais estão os povos originários) os que mais tendem a sofrer os efeitos. Por isso também, são os mais interessados em levantar a luta contra a destruição ambiental causada pelo capital, e em defesa da vida humana, animal, vegetal e da preservação dos recursos naturais.

O marxismo necessita de uma intervenção nos movimentos ecológicos, assim como nos dos atingidos pelo avanço dos meios de produção capitalistas e a destruição causada por eles (como o Movimento dos Atingidos por Barragens no Brasil) em torno de demandas que, além de reformas e concessões, apontem também a transição socialista. Defendemos que o movimento dos trabalhadores coloque como pautas prioritárias em suas lutas as demandas relacionadas à destruição socioambiental local. Trata-se de uma questão na qual a luta pelo socialismo é absolutamente urgente.

Combatemos ilusões na burguesia “verde” e a expectativa de que a destruição ambiental pode ser revertida apenas por meio de disputas nos limites do Estado burguês, por meio de regulamentações. Uma revisão rápida e imediata da produção mundial, inclusive a produção de energia hoje dominada pelos combustíveis fósseis, está completamente fora de questão enquanto o capitalismo reinar. Esse caminho lento, nos limites do que é aprovado pelos gabinetes e parlamentos burgueses, está nos matando. Que alguns capitalistas, vendo um potencial de negócio na energia limpa, tenham investido pequenas quantidades de capital nisso, não significa que eles possam oferecer uma solução genuína para a crise climática. Investem com interesse no lucro, sem nenhuma intenção de mudança de matriz energética. De fato, muitas das companhias por trás das atuais fontes de energia “suja” – petróleo, carvão, etc. – estão elas próprias investindo em fontes de energia limpas.

Defendemos que o lucro das empresas petrolíferas e poluidoras seja expropriado para auxílio das populações que sofreram com desastres ambientais e para investimento em energias limpas e renováveis, em empresas controladas pelos trabalhadores. Defendemos a preservação da Amazônia como território e bioma, contra a predação de empresas extrativistas e do agronegócio, mas também contra os desejos de governos imperialistas, que falsamente se colocam como “protetores ambientais”. Lutamos pela demarcação e defesa de territórios dos povos originários e para que o movimento dos trabalhadores tome parte ativa nesse luta.

Rejeitamos vertentes (geralmente pequeno-burguesas) que alimentam ideias neomalthusianas, anti-humanistas e primitivistas, que apontam a própria humanidade, a ciência ou o desenvolvimento populacional como causas da destruição ambiental. É o modo de produção capitalista, protegido pelos Estados burgueses, na sua busca incessante por matérias-primas para produção de mais-valia, e na sua gana pela redução de custos de produção, que os leva a desconsiderar as necessidades humanas e dos ecossistemas, que é responsável pela destruição. O capitalismo pode e deve ser eliminado da relação da humanidade com a natureza. O ser humano é um animal, ainda que muito diferente dos demais pela profundidade com que o trabalho permite sua modificação do meio. Consciente desse fato, um modo de produção novo, comunista, pode buscar por meio do planejamento social a harmonização (num nível diferenciado) dos seres humanos com o mundo natural do qual são parte integrante.

A tecnologia pode e deve ser adaptada para o uso dos recursos de forma a considerar os interesses da humanidade e do seu metabolismo natural com a Terra em longo prazo, sem uma “data de validade”; as populações podem ser levadas a uma ocupação menos danosa do espaço, etc. Isso não significa que as experiências de transição socialista (estagnadas pelo isolamento e pelas deformações burocráticas) tenham cumprido bem tal papel. Ao longo da década de 1920, a União Soviética liderou o mundo em proteção ambiental e preocupação científica ecológica, mas esse debate foi enterrado em anos seguintes pela reação burocrática no interior do primeiro Estado proletário. Casos como o acidente de Chernobyl e a destruição do Mar de Aral apontam que somente o controle democrático dos trabalhadores sobre os meios de produção e distribuição, e sua participação e decisão em todo o ciclo produtivo pode confeccionar um plano que leve em conta o bem-estar dos humanos e dos outros seres vivos como prioridade.

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O movimento sindical

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Enquanto reúnem milhares ou milhões de trabalhadores sob uma mesma organização designada formalmente a defender seus interesses econômicos, os sindicatos têm um valor organizacional inegável. Mas na nossa época, eles não têm independência política e material, e estão submetidos por diferentes mecanismos ao Estado burguês. Os dirigentes dos sindicatos e seus funcionários – a burocracia sindical – são uma camada social que usa seus cargos como fonte de renda, prestígio e estabilidade, e costumam estar desconectados dos interesses e realidade das bases que afirmam representar. As lideranças burocráticas funcionam fundamentalmente como correias de pressão da conciliação com os patrões no interior do movimento, e muitas vezes trabalham para limitar e desorganizar as lutas dos trabalhadores em um nível aceitável ao capital.

No Brasil, o movimento sindical ressurgiu a partir das lutas operárias do ABC paulista no final da década de 1970, que naquele momento se enfrentavam com o autoritarismo da ditadura militar. O chamado “novo sindicalismo” criou-se no contexto de lutas operárias maciças, da realização de piquetes e de diversas táticas para paralisar a produção. As fortes greves que aconteceram em 1977-1980 enfrentaram o arrocho salarial, reivindicaram melhores condições de trabalho e direito de organizar livremente seus sindicados. Culminaram na construção do Partido dos Trabalhadores (PT) e na formação da Central única dos trabalhadores (CUT). Mesmo nesse início, diversas traições ocorreram devido às lideranças conciliadoras, como o próprio Lula, que já se pautavam pelo reformismo e pelo respeito à institucionalidade burguesa, e criaram métodos para deslocar a luta direta para as vias jurídicas e conciliação com os patrões.

Os governos do PT (2003-2015) foram o último prego no caixão de adaptação da CUT e de muitos de seus sindicatos ao Estado burguês. Esses 13 anos formaram decisivamente os dirigentes sindicais na arte de postergar e sabotar lutas, para não contrariar o governo petista e para tratar os trabalhadores como mera base eleitoral, e que mostra agora seu efeito na enorme perda de capacidade de mobilização diante dos maiores ataques aos trabalhadores em muitas décadas. Atualmente, o movimento sindical encontra-se majoritariamente dirigido pelas burocracias da CUT/PT, da CTB/PCdoB, além de setores nas mãos da Força Sindical e da UGT, controladas por máfias eleitorais. Cada uma atrela-se aos interesses eleitorais de seus partidos respectivos e não têm organizado qualquer expressão de revolta ou resistência séria dos trabalhadores.

A burocracia se caracteriza não só pelos privilégios materiais que ela tira do seu controle sobre o aparato sindical, mas também da sua incapacidade de apresentar um projeto político oposto ao da burguesia. Sem um projeto oposto, ela busca sempre submeter os trabalhadores à “realidade” da sociedade atual, servindo como base de apoio para algum governo, partido ou político capitalista, não raro prestando o papel de cabo eleitoral ou assistente, sem questionar a estrutura da exploração capitalista e do Estado burguês. Essa pressão política eventualmente atinge até os mais honestos militantes sindicalistas se estes não tiverem uma perspectiva revolucionária. Um movimento sindical que realmente defenda os interesses dos trabalhadores contra o capitalismo só pode existir sob uma liderança marxista, e uma liderança marxista só pode existir nos sindicatos apoiada na atividade militante dos membros da classe.

A greve é o mais importante meio de luta do proletariado, pois nela a nossa classe expressa sua capacidade de parar a produção até suas demandas serem atendidas, sendo um dos principais fatores que dá à classe trabalhadora poder social. Além disso, a greve tem um importante caráter pedagógico, pois mostra aos trabalhadores que eles são o elemento insubstituível da produção, que faz cada engrenagem da economia girar, e não o capital. O fracasso na organização de greves efetivas, bem preparadas, que não permitam fura-greves, que sejam mais do que greves simbólicas de um dia, e que unifiquem diferentes categorias dos trabalhadores de pelo menos alguns ramos estratégicos da indústria, comércio, transporte ou distribuição tem sido o traço mais distintivo do atual movimento sindical.

A burocracia reflete a passividade das massas em um determinado período e rapidamente se transforma, ela própria, em um poderoso entrave à organização das lutas quando o descontentamento explode. Sem a capacidade de parar a produção, revoltas populares têm força limitada. Nos últimos anos, grandes rebeliões de massa contra as “reformas” e “medidas de austeridade” em muitos países encontraram silêncio proposital dos sindicatos, apesar do clamor por ação entre muitos trabalhadores. Quando muito, foram realizadas “greves gerais” de um dia, mas que, com a antecipação e preparação dos patrões, pouco efeito tem sobre os seus lucros, que é onde eles sentem o impacto. Os sindicatos se alienam assim das questões candentes que atingem os trabalhadores.

É preciso ter em mente que o movimento sindical, especialmente no momento atual, não inclui uma enorme gama de trabalhadores precarizados e informalizados pela exploração capitalista e as novas formas que ela assume. Os trabalhadores terceirizados, via de regra, não são incluídos na luta pelos sindicatos por não serem “parte da categoria” mesmo quando trabalham lado a lado com os demais. Outras categorias novas de trabalhadores, como aqueles empregados por aplicativos (os chamados “uberizados”), sem uma relação direta com os seus patrões e outros trabalhadores, não possuem sindicatos ou existem apenas sindicatos fantasmas, ligados às empresas. Não há também uma cultura entre os sindicatos para representar os trabalhadores desempregados, mesmo aqueles que estiveram em um determinado ramo por muitos anos.

Nós queremos ser parte de uma insurgência dos trabalhadores contra essa realidade de fragmentação, apatia e controle burocrático no interior dos sindicatos. Defendemos sindicatos unificados e amplos, que tenham a gana de organizar todos os trabalhadores em um determinado setor ou indústria, incluindo os efetivos, contratados, informais e terceirizados; que realize ações de solidariedade, mas também de politização, junto aos desempregados, pressionando as empresas por contratações para reduzir as jornadas de trabalho sem redução de salário; que lute pela efetivação dos trabalhadores terceirizados com igualdade de direitos, contra a prática patronal de terceirizar demissões, cortes de direitos e salários dos setores mais precários dos trabalhadores.

O enorme exército de reserva – a massa de desempregados – é um dos trunfos na mão dos capitalistas para incutir medo e apatia na nossa classe. Sem lutar contra o desemprego, sem unificar os terceirizados e todos os informais de um determinado ramo, é impossível travar uma luta em pé de igualdade contra os patrões. Os marxistas irão pressionar para que os sindicatos assumam essas pautas concretamente e realizarão ações exemplares nesse sentido enquanto os sindicatos não o fizerem, para apontar o caminho. Defendemos também a organização de comitês por locais de trabalho como base dessas ações. A criação de novos sindicatos para as categorias surgidas da reformulação produtiva do capitalismo, como os trabalhadores de aplicativos, cumprirá também um papel significativo na organização do proletariado e no qual os marxistas devem buscar participar. Queremos que os sindicatos estejam na linha de frente das revoltas e rebeliões dos trabalhadores e do povo, para ganhar confiança de todas massas não-proletárias.

A regeneração do movimento sindical só pode se dar desde as entranhas do atual, a partir de saltos de consciência nas experiências de luta e, também, a partir do afluxo de uma geração nova de trabalhadores, que sejam formados com uma nova cultura militante. Os marxistas devem construir frações com sua própria bandeira (seja abertamente ou de forma clandestina, conforme a situação ditar) junto com os elementos mais militantes da base das organizações sindicais, apesar ou mesmo contra a burocracia. Essa fração sindical marxista incluirá os militantes da organização e também aqueles militantes que concordem com o seu programa naquela arena, sem que seja necessária, de imediato, sua adesão total ao programa político geral.

Defendemos que haja rotatividade dos dirigentes sindicais para frear as tendências de burocratização, ampla liberdade de participação para as diversas tendências políticas dos trabalhadores, contra o cerceamento de debates e práticas de gangsterismo/exclusão. Somos contra o imposto sindical controlado pelo Estado: defendemos que os sindicatos sejam autofinanciados diretamente com a contribuição de seus filiados. Somos também contra qualquer interferência da Justiça burguesa no interior dos sindicatos, arma frequentemente usada pela burocracia, mas que muitos na esquerda naturalizaram.

O foco dos marxistas não é o controle do aparato sindical, embora esse possa representar em alguns casos um auxílio à tarefa de organização dos trabalhadores, mas sim o enraizamento da consciência socialista entre o proletariado. Por esse motivo, especialmente nos primeiros passos da organização marxista, eleições sindicais não deverão ser o foco, embora postos de representantes por local de trabalho possam rapidamente ser ocupados. Defendemos que os sindicatos realizem ações de formação política para os membros, para auxiliar no processo de conscientização dos trabalhadores, não apenas sobre questões econômicas imediatas, mas para os interesses históricos da nossa classe de luta pelo socialismo.

Em alguns casos específicos, a divisão para a formação de um sindicato novo e mais militante contra um antigo será necessário.  Quando existirem as pré-condições para separar as massas de trabalhadores da burocracia sindical, a formação de um sindicato competidor mais combativo pode ser progressiva, ainda que este seja inicialmente minoritário. Mas a criação de “sindicatos” que sejam cascas vazias leva apenas à exclusão dos marxistas dos sindicatos reais e significa um verdadeiro “tiro no pé” da luta pela sua inserção no movimento dos trabalhadores.

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Partido e movimento

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O núcleo ou organização marxista que não está voltado para as organizações de luta e resistência atualmente existentes do movimento dos trabalhadores está condenado a se tornar uma seita, mesmo que essa não seja a intenção dos seus membros. Por mais frágeis e degeneradas que possam ser as organizações da classe trabalhadora, ignorar a sua existência é o mesmo que aceitar “começar do zero”. Os marxistas devem realizar as suas próprias atividades propagandísticas e sua própria agitação, encontros, manifestações, panfletagens. Mas um elemento chave da sua atividade deve ser intervir nas organizações existentes do proletariado.

Especialmente para uma organização jovem, construir-se no movimento dos trabalhadores é a tarefa de mais suma importância, para evitar, desde o seu nascedouro, que ela se torne uma seita ou fique restrita a círculos intelectuais e pequeno-burgueses. Isso não significa que os intelectuais não possam prestar um papel importante na construção das organizações, mas sim que seus olhos e seus esforços devem estar voltados para o movimento proletário.

A forma mais comum de organização do movimento dos trabalhadores em tempos de calmaria é o movimento sindical. Além disso, outras formas de organização existem, e também devem receber atenção dos marxistas, como as organizações de luta por bairro ou por moradia. Nesses casos, essas organizações não são necessariamente compostas apenas pelo proletariado e os marxistas devem enfatizar os interesses de classe do proletariado na sua intervenção.

A atuação dos marxistas no movimento não deve ser pautada nem pelo liquidacionismo nem pelo aparatismo. Os marxistas não entram no movimento para “dançar conforme a música”, mas sim ao contrário, para nadar contra a corrente. É um fato que devemos apoiar as lutas dos trabalhadores por melhorias em suas condições materiais, por menores e mais parciais que sejam. Mas em cada uma delas, é crucial apontar sempre a superação do sistema capitalista como o objetivo central da classe trabalhadora em nossa época.

Uma das melhores formas de fazer isso é o uso das demandas transitórias. São demandas que em si contém o germe dos elementos de transição ao socialismo. Não são o mesmo que defender simplesmente a revolução ou o socialismo. Significam ligar as necessidades atuais sentidas dos trabalhadores em cada conjuntura e em cada contexto com a solução que uma sociedade de transição ao socialismo, regida pela ditadura do proletariado, poderia realizar. Algumas demandas transitórias podem, temporariamente e de forma limitada, ser aceitas por governos burgueses. Mas eles buscarão revertê-las na primeira oportunidade.

Se as demandas transicionais não são, portanto, de caráter puramente propagandista, elas certamente tem como principal objetivo o educativo. Dentre algumas demandas transitórias estão: a distribuição das horas de trabalho entre todos os trabalhadores aptos, sem reduções salariais, para acabar com o desemprego; a elevação dos salários no mesmo ritmo da inflação (gatilho salarial), para impedir a erosão das condições de vida pela crise capitalista; a expropriação sem indenização de certos ramos capitalistas estratégicos, como os bancos, a terra e a grande indústria, sob o controle dos trabalhadores; a construção de comitês de gestão nas empresas, que busquem rivalizar com os patrões no controle delas; terra para quem nela vive e trabalha: expropriação do agronegócio e do latifúndio capitalista; e igual salário para igual trabalho, com objetivo de eliminar as reduções salariais dos setores oprimidos e que favorecem aos patrões.

Essas são apenas algumas, mas não esgotam as demandas de transição possíveis. Obviamente, isso não significa que os marxistas deixam de lado demandas mínimas ou demandas democráticas que sejam importantes no movimento, mas o programa de transição é o seu eixo de agitação mais importante, ainda que não possa ser alcançado em qualquer luta pequena ou parcial. O programa de transição emerge das necessidades reais do proletariado, não do seu atual nível de consciência. Portanto, é esperado que ele seja recebido com ceticismo pelos trabalhadores em certos momentos, mas a sua necessidade é imposta objetivamente tão logo a luta assume traços mais sérios.

É sintomático que muitos grupos da esquerda socialista que passaram à perspectiva de uma administração mais humana ou racional do Estado burguês e do sistema capitalista rejeitem o programa transitório e tenham adotado como suas bandeiras principais as da “taxação dos ricos” e a adoção de uma “renda básica universal” para a população, oriunda de uma parcela dos lucros. Como dito, os marxistas não recusam as reformas, e essas medidas poderiam ser arrancadas dos capitalistas. Mas ao contrário da perspectiva harmoniosa dos oportunistas, que concilia tais demandas isoladamente com a continuidade do capitalismo e da classe dominante no poder, nós afirmamos que elas só poderiam ser obtidas temporariamente, numa conjuntura de avanço das lutas, e que os capitalistas buscariam revertê-las tão logo fosse possível. É por isso que o programa transitório, ao contrário, não deve ser visto como um conjunto de reformas a serem alcançadas nos marcos do sistema, ou como um fim em si próprio. Ele tem o objetivo de cimentar o caminho para a compreensão da necessidade da ditadura do proletariado.

Aparatismo significa priorizar o controle sobre os cargos e posições de poder nas organizações dos trabalhadores acima da tarefa de agitar uma perspectiva revolucionária, e por vezes acima da influência real dos marxistas na base. Muitas correntes socialistas pequenas tentam participar de eleições sindicais ou de outros aparatos sem que tenham força, muitas vezes, para geri-los de forma efetiva caso ganhem. A luta pelo aparato também é o caminho mais fácil para um núcleo marxista deixar de lado o seu programa e os seus objetivos, pois passa a priorizar a manutenção dessas posições, realizando blocos espúrios com outras forças e acomodando seu discurso e seus objetivos. O objetivo principal de um pequeno núcleo marxista é alargar as suas bases de apoio, reconhecimento, autoridade e a consciência de classe no movimento dos trabalhadores.

Uma tática importante em muitos casos é a frente única ou frente unida. Trata-se de um acordo entre organizações do movimento para realizar uma campanha de luta e enfrentamentos contra a classe dominante ou contra um patrão ou inimigo particular sempre num interesse comum dos trabalhadores. É uma tática útil para o movimento, por exemplo, desbaratar grupos fascistas, ou derrotar uma imposição de uma medida contra a classe trabalhadora. Os marxistas aproveitam as frentes únicas para “jogar a base contra a direção” nas organizações burocráticas, reformistas ou oportunistas em geral. Nesses contextos, devemos ser os que levam mais a sério e nos dedicar ativamente aos esforços da luta, para mostrar a superioridade do programa marxista na teoria e na prática. Em frentes unidas, os marxistas não fazem propaganda comum de perspectivas políticas gerais com outras correntes, e se reservam o direito de criticar (e também o de serem criticados por) todos os participantes. O debate político franco não deve impedir a ação comum, a não ser para as seitas (sejam elas politicamente radicais ou moderadas). A explicação mais sucinta da frente única é “bater juntos por um objetivo comum, mas marchar separados”.

A frente unida não é, ao contrário do que alguns pensam, um acordo ou bloco de organizações para fazer propaganda conjunta, com a intenção de aparentar ser uma força maior ou mais influente, e que muitas vezes assume a forma de frente eleitoral. Tal prática é tanto desonesta, porque inevitavelmente envolve calar para os de fora sobre as diferenças políticas que separam as organizações, quanto liquidacionista. Em vez disso, caso haja proximidade real suficiente entre organizações no contexto de uma frente unida, os marxistas buscariam encaminhar a discussão para uma fusão ou reagrupamento, sem que isso impeça a continuidade da luta conjunta na frente com outros grupos.

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A necessidade de um grupo militante de propaganda

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Como a grande maioria das organizações que se reivindicam socialistas não têm mais a superação do capitalismo como uma perspectiva histórica concreta na sua ação cotidiana, embora afirmem isso em “dias de festa” ou em declarações puramente formais, elas adotam em sua prática a confiança aberta ou velada nas instituições burguesas, capitulando a um ou outro lado da política burguesa, ou às vezes a políticos populares da classe dominante. A expectativa e as ilusões colocadas nas variantes de “socialismo” burguês nas últimas duas décadas são apenas um exemplo disso, mesmo quando tais políticos são claros defensores da exploração assalariada, do domínio imperialista sobre o globo e das estruturas repressivas do Estado burguês.

A adaptação da esquerda ao sistema não se restringe à esquerda burguesa ou socialdemocrata, mas inclui também organizações que contraditoriamente se reivindicam revolucionárias. Décadas de isolamento, reação e derrotas moldaram as organizações existentes. Se durante todo o século 20 tal dinâmica já era recorrente – com ondas repetidas de derrotas que arruinavam organizações e as levavam a se refugiar junto a alguma saída adaptada ao Estado ou ao sistema, desde que vista como mais “realista”, no fim do milênio o cinismo, rotineirismo e mentalidade imediatista se generalizaram.

A defesa de partidos, figuras ou instituições da burguesia assume as mais diferentes formas, de acordo com a conjuntura política e as pressões sofridas por essas organizações, muitas das quais fazem isso enquanto afirmam contraditoriamente se basear nas lições históricas do marxismo revolucionário. Mas o apoio, o encantamento, a promoção ou mesmo dissolução dessas organizações nas esferas de influência desses políticos ou instituições burguesas está em contradição completa com a necessidade de um movimento proletário independente, pressuposto essencial da luta revolucionária. “O movimento proletário é o movimento independente da imensa maioria em proveito da imensa maioria” (Marx e Engels).

Esse fenômeno tem raízes sociais e históricas, e toma forma política na adaptação dos elementos mais conscientes e ativos da classe – sua vanguarda – ao capitalismo. Essa adaptação resulta na adoção, por esses setores da vanguarda, de uma consciência típica de outra classe, a pequena burguesia. Apesar de crítica às pressões e ataques do sistema, a pequena burguesia geralmente espera a melhoria de sua situação apelando para as instâncias do Estado burguês e na aprovação de reformas, recusando a via revolucionária e a transformação da base do modo de produção. A composição social hegemônica da maioria das organizações socialistas – graças tanto às ideias de seus dirigentes quanto ao estado de desorganização e desmoralização do movimento em geral – é também pequeno-burguesa, ou restrita a setores aristocráticos do proletariado, o que torna ainda mais difícil romper com as bases sociais e as fundações ideológicas do regime burguês.

Internamente, muitas organizações passam a reproduzir normas de funcionamento pequeno-burguesas. Em alguns casos, há falta de disciplina militante, desapego à necessidade de organização da classe trabalhadora. Em outros casos, reproduzem uma disciplina de comandismo típica do pequeno patrão, com uma liderança permanente encastelada por anos, que não busca elevar o conjunto da militância à plena participação, nem pelo esforço em uma formação teórica e política mais completa, nem na discussão consequente e democrática das diferenças políticas e metodológicas que surgem. Não é incomum que essas organizações tentem formar os militantes como meros tarefeiros, sem que os treinem para a elaboração e o pensamento político autônomo.

Queremos formar um núcleo marxista consistente e sólido que seja capaz de lutar pela construção de um partido revolucionário. Como a classe trabalhadora não é homogênea politicamente, e a ideologia burguesa cumpre um papel poderosíssimo de incutir na classe o pessimismo, a aceitação do status quo, a apatia, a ilusão em políticos burgueses, e toda uma série de ideias reacionárias, nem todos os trabalhadores devem ser parte do partido revolucionário, pois do contrário ele não seria um partido revolucionário. Defendemos um partido de vanguarda: um partido composto por aquela fração da classe que foi capaz de perceber a necessidade de organização dos trabalhadores para a superação do capitalismo e a construção do socialismo. A vanguarda deve estar ligada ao restante da classe, pressionando constantemente para a ampliação de suas fronteiras e seus círculos de influência.

Uma das tarefas mais importantes no próximo período é a formação de um núcleo internacional de trabalhadores marxistas, que intervenha para catalisar uma regeneração do movimento revolucionário ao reagrupar os elementos e grupos no combate à decadência política, organizacional e mesmo moral que toma forma na hegemonia da ideologia pequeno-burguesa entre os que se reivindicam socialistas e na adaptação das organizações socialistas à burguesia das mais diferentes formas. Esse núcleo buscará intervir como um setor bem definido nos movimentos da classe trabalhadora, realizar fusões com as tendências mais dinâmicas que estejam evoluindo para as ideias revolucionárias e também recrutar trabalhadores individuais que se aproximem de suas visões.

Ele precisa adotar a forma de um grupo militante de propaganda. Isso significa que deve combinar a tarefa de delimitação, discussão e polêmica ideológica com outras correntes, com uma verdadeira formação de militantes revolucionários capazes de pensar por si mesmos, e a construção e fortalecimento no interior das lutas dos trabalhadores e oprimidos. Um núcleo que, quando na liderança de algum movimento, construa lutas exemplares que quebrem o ciclo de derrotas e o fortalecimento do oportunismo, baseado no enfraquecimento do movimento por uma longa série de derrotas. Esse núcleo precisa fazer todos os esforços ao seu alcance, respeitando as proporções de seus números e sua situação conjuntural, para se estabelecer e se construir entre os setores mais estratégicos do proletariado em cada local onde esteja presente.

A formação teórica e política dos militantes é algo fundamental para a construção não só de uma organização democrática e funcional, mas também para dar a um partido marxista uma liderança ideológica e prática para revolução, em vez de meros vendedores de jornais, sindicalistas e setorialistas formados na escola do “possibilismo”.

O centralismo democrático é um princípio político, mas não tem uma aplicação prática atemporal ou independentemente de condições específicas. Em vez de repetir fórmulas de centralismo democrático de 100 anos atrás em condições muito diferentes, é preciso resgatar seus princípios ao reconhecer que uma organização marxista é tanto uma organização de luta, que precisa ter firme unidade de ação quando necessário, quanto uma organização historicamente consciente, onde deve haver abertura para debater as diferenças políticas e para formação temporária de tendências. É um processo que, se conduzido com clareza e lealdade de um lado, e sem métodos burocráticos de exclusão ou silenciamento do debate de outro, resulta tremendamente educativo para os membros da organização.

Uma organização com uma confiança tão frágil em seu próprio programa que se torna incapaz de resolver suas diferenças internas pela disputa política, e que ao invés disso precisa apelar para métodos organizacionais burocráticos, será completamente incapaz de contribuir para a construção de uma sociedade onde a maioria dos trabalhadores participe ativamente das decisões políticas e da administração. Ao mesmo tempo, uma organização onde não haja comprometimento dos militantes em agir conforme as decisões da maioria ou seguindo a direção eleita democraticamente e com autoridade para tal (excluem-se aqui as direções abusivas e burocráticas), não é capaz de dar um passo firme sequer na luta de classes.

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O período histórico em que vivemos

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A crise financeira de 2008 inaugurou um novo período na luta de classes. A cruzada contrarrevolucionária global da burguesia começara em meados dos anos 1970 e teve seu auge em 1991, com a destruição final da propriedade coletivizada e dos outros resquícios das conquistas da Revolução Russa nos países do antigo Pacto de Varsóvia. A destruição dessas conquistas que representavam, para os trabalhadores de todo o mundo, a existência de alguma alternativa ao sistema capitalista, junto com a pilhagem generalizada e sujeição econômica de quase um quinto da superfície do planeta pela burguesia imperialista, não só foi um golpe moral terrível nas correntes que se reivindicavam socialistas, sendo partidárias da URSS ou não, como salvou o capitalismo de uma grande crise por quase duas décadas.

A esquerda que se reivindica socialista já estava fragmentada e desorganizada pelas degenerações sucessivas da Segunda, Terceira e Quarta Internacionais. A “paz social” que se seguiu garantiu a marginalização dos grupos socialistas que ainda mantinham significância. Foi uma paz reacionária, com seus termos impostos pela hegemonia ideológica e pelas armas de uma classe burguesa que se considerava confiante o suficiente para anunciar o “Fim da História” e a “Vitória do Capitalismo”. A maioria dos declarados socialistas já havia abandonado, abertamente ou na prática, os fundamentos do marxismo, e se resignou ao papel de tentar corrigir esse ou aquele aspecto mais problemático do capitalismo. Restaram apenas punhados de grupos minúsculos de marxistas revolucionários, que foram incapazes de fazer muito mais do que tentar resguardar um ideal que se recusaram a abandonar.

O desencanto e exposição nítida do significado do capitalismo a partir da crise que se iniciou em 2008 nos centros imperialistas marcou também o retorno à cena da luta de classes como um fenômeno reconhecido e generalizado. Seguiram pesados ataques feitos pela burguesia contra as condições de vida e trabalho já deterioradas, por meio de “pacotes de austeridade” e “reformas” contra os trabalhadores para transferir recursos de magnitude inédita aos grandes capitalistas. Foi nessas condições que foi organizada, geralmente sem um caráter socialista na liderança, resistência dos trabalhadores e massas oprimidas contra a ofensiva da burguesia. Foi como resultado disso que a influência de organizações autodeclaradas socialistas voltou a crescer, embora se mantenha até agora, no início do que parece ser uma crise econômica ainda mais profunda, ainda em estado amorfo. As tradições marxistas de organização e pensamento não foram retomadas e atualizadas no decorrer desse processo.

Em cada país, o nível de organização particular da classe trabalhadora levou a expressões diferentes da luta de classes, tanto na sua forma e meios como na sua intensidade. O que unifica tais movimentos é o caráter global e inter-relacionado da economia capitalista e os seus eixos gerais de resistência contra a investida burguesa. Todos os problemas que vieram com a queda do bloco soviético não teriam sido tão fatais agora se tivéssemos herdado do século 20 uma tradição marxista consistente e com clara autoridade prática ao redor da qual os trabalhadores pudessem ter se organizado e se mobilizado. Mas como isso não era uma realidade, o período pós-soviético só piorou o estado de mais completa confusão, fragmentação, desmoralização e adaptação ao “possibilismo” do que é palatável dentro do sistema, que já era característica das organizações da esquerda dita socialista. Ocorrem no mundo sucessivas rebeliões que não avançam para se transformar em revoluções pela ausência de uma perspectiva marxista na política e na prática organizativa dos trabalhadores em luta. É a ausência de lideranças, perspectivas e tradições socialistas revolucionárias no movimento que causa tal impossibilidade de dar o passo adiante.

Entre as massas, o socialismo segue identificado difusamente como ditadura burocrática, governos burgueses de esquerda ou “Estado de bem-estar social”. O surgimento no início do século de figuras como Hugo Chávez e seu “Socialismo do Século XXI”; Bernie Sanders e seu “socialismo” aos moldes das socialdemocracias europeias; e de uma geração de propagandistas e reabilitadores da figura de Stálin e de seus métodos de “construção do socialismo” na URSS deu gás a tal confusão. A vanguarda da classe trabalhadora em nosso período é caracterizada pela confusão política e ideológica, com as organizações que se afirmam socialistas repercutindo tais ideias falsas, e se dividindo em campos distintos a cada questão diferente que a luta de classes traz à tona. O passado muitas vezes não clarifica as diferenças políticas, mas as obscurece, porque o que uma organização diz hoje, não dizia ontem; ou o legado histórico que diz reivindicar contradiz a sua ação concreta no presente. E isso não com relação a detalhes, mas a questões fundamentais da revolução e da luta de classes.

As organizações do movimento da classe trabalhadora padecem de clareza ideológica quanto às tarefas e os métodos necessários. Grupos de campos opostos na esquerda reivindicam, por vezes, as mesmas tradições, enquanto existem partidos onde coexistem membros de todo tipo de tradições, sem balanço algum das mesmas. Os eventos da ultima década provaram isso, mas contribuíram pouco para remediar a situação. Ao contrário: as organizações socialistas implodem e se racham, por vezes, sem justificativa política coerente, o que só confunde o movimento dos trabalhadores; se fundem sem clareza programática; giram a posições opostas às que diziam defender antes, em um baile completamente irracional e inexplicável do ponto de vista da necessidade urgente da luta pelo socialismo.

A nova geração de socialistas é colocada diante de uma crise de grande magnitude. Para resolvê-la, precisamos restabelecer entre a esquerda que se reivindica socialista uma base marxista e internacionalista, partindo de um balanço do que foi herdado do século 20 e desse longo período de recuo. É preciso começar reafirmando o essencial: a atualidade do marxismo, da luta de classes e a necessidade de uma revolução que instaure a ditadura do proletariado. Para poder sair da crise em que estão os revolucionários, é preciso primeiro de tudo clareza quanto às questões mais fundamentais que nos confrontam. Esse manifesto programático tem como objetivo servir como um ponto de partida para debates com outros revolucionários quanto às tarefas políticas e métodos que a revolução proletária exige dos marxistas.

Apesar de tudo o que foi e ainda é repetido até a exaustão pelos teóricos burgueses que falam da “vitória do capitalismo” e os teóricos “pós-modernos” que até mesmo negaram a existência da luta de classes, o sistema socioeconômico global encontrado no século 21, apesar de suas mudanças significativas, que precisam ser levadas em conta, ainda é aquele contra o qual Marx e Engels declararam guerra no Manifesto Comunista de 1848. O marxismo não estará superado enquanto o capitalismo não o for. A última década foi, em grande parte do planeta, de empobrecimento absoluto e ataques terríveis às condições de existência dos trabalhadores, para garantir a maximização dos lucros de um punhado cada vez menor de superbilionários. A crise climática causada pelo capitalismo bate às portas cada vez mais preocupantemente. Golpes e guerras se tornam cada vez mais parte do vocabulário corrente dos trabalhadores diante da sanha de potências imperialistas em manter seu poder. Somente a classe trabalhadora organizada e portando as lições essenciais do marxismo e da luta de classes pode pôr um fim ao futuro sombrio que a continuação do domínio da burguesia reserva para a humanidade.

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