“O Que é Liderança Revolucionária?”, de Cliff Slaughter (Arquivo Histórico)

Escrito por Cliff Slaughter. Originalmente publicado em Labour Review, revista da Socialist Labour League (Liga Trabalhista Socialista) inglesa, v.5, n.3, de outubro-novembro de 1960. Traduzido para o português pelo Reagrupamento Revolucionário em setembro de 2019 a partir da versão disponível em marxists.org.

“Um elemento importante na força de um partido ou de uma classe é a concepção que o partido ou a classe tem da relação de forças no país.” – Leon Trotsky, 1931.

“Mas é um absurdo falar de uma perspectiva puramente ‘objetiva’. A pessoa que tem uma perspectiva na verdade tem um ‘programa’ que ele quer ver triunfar, e tal perspectiva é precisamente um elemento nesse triunfo.” – Antônio Gramsci.

“O elemento decisivo em qualquer situação é a força, permanentemente organizada e construída durante um longo período, que se faz avançar quando considera que a situação é favorável (e ela é favorável apenas enquanto tal força exista e esteja cheio de fervor combativo); portanto, a tarefa essencial é visar de forma sistemática e paciente a formação e desenvolvimento dessa força, dando a ela um caráter mais homogêneo, compacto e consciente de si mesma.” – Antônio Gramsci.

“… toda insuficiência nessa tarefa histórica aumenta a desordem inerente e prepara catástrofes mais sérias.” – Antônio Gramsci.

(Nesse artigo eu me baseei em grande parte em Gramsci, em O Moderno Príncipe, e em menor grau em Lukács, em História e Consciência de Classe).

Gramsci, intelectual brilhante e fundador do Partido Comunista da Itália, e Trotsky, exemplo grandioso de liderança revolucionária na teoria e na prática, tinham boas razões para escrever as palavras citadas acima. Trotsky, exilado pela burocracia stalinista, insistia na urgência de uma política de Frente Única da parte do Partido Comunista da Alemanha como a única defesa contra a ameaça Nazista. Gramsci, depois da derrota do movimento dos Conselhos Operários na Itália, do qual ele era membro notório, acabou na cadeia de Mussolini. Trotsky eventualmente morreu, 20 anos atrás, pelas mãos dos agentes de Stalin; a saúde de Gramsci foi arruinada na prisão e ele morreu um homem jovem, poucos dias depois de ser posto em liberdade em 1937.

Nenhum desses dois homens, os pensadores marxistas mais originais desde Lenin, é visto positivamente pelo movimento “Comunista” oficial. Apesar da confissão de Kruschev de que as perseguições dos anos 30 eram baseadas em confissões extraídas por tortura, as calúnias como da conspiração de Trotsky contra a URSS, sua aliança com Hitler, etc. continuam partes integrantes da censura absoluta de suas obras que existe nos Partidos Comunistas. Em 1957, uma pequena seleção dos escritos de Gramsci foi publicada por Lawrence e Wishart. Porém, O Moderno Príncipe, o maior ensaio dessa seleção, foi extensivamente recortado, e pouco espaço foi dedicado à importante contribuição de Gramsci sobre os Conselhos Operários. É preciso apreciar o grande esforço feito por Dr. Louis Marks, o tradutor, por ter trazido este tanto de Gramsci ao público; ainda assim, deve ser dito que os cortes no O Moderno Príncipe não são reconhecidos, e que várias das seções omitidas (que abordavam Rosa Luxemburgo, o “Cesarismo”, etc.) teriam levantado algumas questões constrangedoras para os stalinistas.

Stalinismo e materialismo histórico

É característico que esses dois indivíduos tenham enfatizado o papel da consciência humana, e da liderança revolucionária. O stalinismo, assim como a socialdemocracia, não podem concordar com essa ênfase. Reformismo e oportunismo estão atados às estruturas existentes de poder: uma mistura confusa de noções de competição leal e praticidade é o mais perto que podem chegar da teoria. Suas linhas políticas se baseiam em ajustar os interesses imediatos e parciais da classe operária ao poder estatal e econômico existente. É por essa razão que os oportunistas abominam a teoria, já que a teoria insiste na compreensão de cada questão em termos do desenvolvimento geral da sociedade, com foco na época da luta da classe operária pelo poder estatal.

Os stalinistas não estão em condição melhor; no movimento “Comunista” a doutrina marxista é embrutecida em uma ideologia: isso é, frases soltas de Marx e Lenin são usadas para justificar a linha mais recente adotada pela burocracia soviética. A autoridade natural adquirida pelos comunistas russos após a Revolução de Outubro facilitou a propagação da degeneração do partido russo aos outros partidos da Internacional. Os partidos foram chacoalhados de cima abaixo, suas lideranças mudadas, sua estrutura reorganizada arbitrariamente (obviamente, em nome da “bolchevização”!) até que tinham se transformado em transmissores da política internacional da burocracia stalinista, em vez de partidos revolucionários da classe operária. [1] Nos últimos tempos, apesar da “renúncia” da figura de Stalin por Kruschev, as consequências políticas dessa relação foram aprofundadas, ainda que elas inevitavelmente acabem por produzir uma reação nos partidos estrangeiros, e eventualmente no Partido Soviético. A competição pacífica entre as economias soviética e estadunidense agora é definida como a principal forma do conflito entre imperialismo e socialismo. Para que isso seja possível, relações pacíficas devem ser preservadas com o resto do mundo. E dos partidos “Comunistas” é esperado que “tomem a dianteira na luta pela paz”.

Parte importante desse processo é cumprida por algumas distorções teóricas do marxismo. Acima de tudo, o marxismo é distorcido em uma forma de determinismo econômico. A relação dialética é abstraída da história e imposta sobre o desenvolvimento social em uma série de estágios fixos. Ao invés da variedade e riqueza de conflitos da história humana, temos etapas naturais do desenvolvimento entre escravismo, feudalismo, capitalismo e socialismo pelas quais todas as sociedades tem que passar. A estrutura presente da URSS é santificada como a sucessora “inevitável” do capitalismo e quaisquer “críticas” a sua estrutura sociopolítica devem ser consideradas “secundárias”. Uma forma aparentemente flexibilizada dessa perspectiva esquemática é a doutrina de que países diferentes vão encontrar seus “próprios” caminhos para o socialismo, se baseando na URSS, mas adaptando o processo a suas particularidades nacionais. Isso é uma caricatura mecanicista do materialismo histórico.

A conexão entre as lutas da classe operária pelo socialismo no Reino Unido, Rússia e Vietnã, por exemplo, não se dá pela similaridade maior ou menor da estrutura social desses países, mas pela interdependência orgânica de suas lutas. O capitalismo é um fenômeno internacional, e a classe operária é uma força internacional; a conquista do poder na URSS foi a primeira conquista da revolução mundial, uma conquista distorcida pelo desenvolvimento econômico particular da Rússia antes e após a Revolução de Outubro, e pelo impacto do imperialismo e o destino do movimento operário desde então. Trotsky estabeleceu uma base sólida para o estudo da relação entre o Estado operário soviético e a classe operária mundial em seus escritos, desde 1928, quando a tese do “Socialismo em um País” foi desenvolvida, até sua morte em 1940.

Muitos socialistas são naturalmente repelidos pelas distorções burocráticas da sociedade soviética e dos partidos stalinistas, assim como pela história vergonhosa da socialdemocracia, mas falham em escapar das distorções teóricas e metodológicas do stalinismo. Conservando as características fundamentais do stalinismo, ou seja, a falta de convicção na capacidade da classe operária de chegar ao poder nos países avançados, eles vestem essa falta de coragem com as ideias “teóricas” que tem estado na moda entre setores antibolcheviques da esquerda desde a Revolução de Outubro e até mesmo antes disso. Em outras partes desta publicação, Brian Pearce aborda algumas questões históricas relacionadas a essa frequente “descoberta” de que a URSS é um Estado burguês, descoberta que implica a renúncia de certas tarefas políticas desconfortáveis, como a defesa da URSS contra o imperialismo. Nesse artigo quero abordar outro argumento intimamente relacionado a essas mesmas ideias, isso é, que a raiz dos problemas se encontra na concepção leninista de liderança da classe operária por um partido centralizado e o “partido de novo tipo” de Lenin.

O papel da consciência na História

Embora esse argumento tome várias formas (“o partido leninista era adequado à Rússia autocrática, mas não ao Reino Unido democrático”; “a liderança vai surgir naturalmente da classe operária”; “o sucesso em 1917 foi um ‘acidente histórico’ aproveitado por uma elite bolchevique brilhante”; “Rosa Luxemburgo e Trotsky previram a degeneração do partido”, etc.), ele sempre se baseia em uma concepção incorreta do papel da teoria e consciência na história, uma tendência ao determinismo econômico, na noção que as leis do desenvolvimento social são algo “natural”, estando acima dos homens e determinando seus destinos. Eventos e tendências políticas são vistas como “naturais” e reflexos inevitáveis dos interesses econômicos; a concepção de Marx de superestrutura política-ideológica com uma base econômica se torna uma “mera superestrutura” de lutas econômicas, como um dos fundadores do novo “Partido Operário” colocou recentemente.

Isso sugere que a política é uma frivolidade histórica, enquanto Marx foi bem claro ao dizer que é pela esfera política que os homens se tornam mais ou menos conscientes das contradições econômicas e na luta sobre essas questões. É exatamente por meio da política, na luta o poder estatal, que o conflito decisivo é travado. Lutas sindicais e industriais são uma escola política para a classe operária, e em países capitalistas mais antigos, décadas de luta sindical foram pré-condições necessárias para uma luta de classes real, mas a conquista do poder estatal pela instituição da ditadura proletária é uma questão qualitativamente diferente.

Para isso, uma organização de um caráter mais avançado e, portanto, uma teoria de caráter muito mais abrangente e profundo se faz necessária. Isso significa um partido político que subordina todas as lutas parciais à construção de uma liderança firmemente ligada à classe operária e devotada à derrubada revolucionária do capitalismo. Essa tarefa exige a habilidade de absorver as lições de todas as lutas de classes que se passaram na história da sociedade, especialmente os fiascos e sucessos do movimento operário, e uma compreensão dessa história em relação à estrutura geral da sociedade, não só em relação à experiência diária da classe operária. A conscientização e organização necessárias para realizar a transformação social na história, essas são as razões básicas para o que veio a ser conhecido como centralismo democrático, o bicho-papão de tantos “esquerdistas”.

O partido revolucionário deve incorporar tanto quanto possível uma compreensão da sociedade capitalista derivada de todos os desenvolvimentos teóricos do passado e o teste prático dessas ideias pela classe operária durante a história. Nessa tradição e teoria reside uma verdade mais científica que aquela que a classe operária pode tirar da sua experiência de exploração e suas lutas diárias. Ao invés de reverenciar humildemente a experiência da classe nos seus locais de trabalho, ao invés de esperar que a própria experiência dos trabalhadores gere uma consciência revolucionária, os marxistas devem subordinar seu trabalho político e teórico ao partido revolucionário. Esse é o significado de disciplina revolucionária: que a forma de consciência representada pelo partido marxista constitui uma consciência mais elevada das tarefas históricas da classe operária do que a consciência mais imediata da classe em si. É só ao aceitar a disciplina do partido que um indivíduo marxista pode esperar ter um papel histórico independente.

Isso não tem nada em comum com a noção burguesa de indivíduos “livres” impondo sua própria razão sobre o mundo. Ao invés disso, uma análise objetiva da produção capitalista demonstra que a classe operária é seu coveiro; a classe operária é consequentemente a única força independente e decisiva na época moderna. Mas classes e movimentos sociais precisam se fundir como forças apenas enquanto entendam de forma consciente a sua situação e se organizem para derrubar as classes que estão em seu caminho. A relação entre partido e classe é um aspecto nesse processo; não é suficiente para os trabalhadores se constituírem enquanto classe “objetivamente”, por serem todos trabalhadores assalariados: de uma “classe em si” o proletariado deve se tornar uma “classe para si”.

A principal preocupação de Lenin era encontrar a forma organizativa e a estratégia que pudessem expressar essa independência política da classe operária. É verdade que seus oponentes na Rússia, os Mencheviques, eram vítimas da ideia mecanicista de que a burguesia estava destinada a chegar ao poder após a derrota do Czarismo; eles, portanto, discordavam da noção de Lenin do proletariado liderando a luta contra o Czarismo, e por isso a independência política da classe não surgiria para eles até depois da revolução burguesa. Porém, a convicção de Lenin de que a classe operária era a força independente de liderança na era moderna era parte de sua visão do “imperialismo” como estágio final do capitalismo. Os fundamentos organizacionais exigidos para uma classe operária politicamente independente não eram específicos às condições russas. Pelo contrário, a essência da posição de Lenin contra os Mencheviques deve ser muito mais imediatamente compreensível em um país altamente industrializado, onde uma grande classe proletária se confronta com uma burguesia solidamente consolidada no poder.

Imperialismo e a concepção leninista de partido

É importante ressaltar a conexão entre a caracterização de Lenin de nossa época e suas concepções organizacionais. O imperialismo, com sua expansão rápida de investimento de capital, sua organização da produção em uma escala cada vez maior, mais e mais dominada pelo capital financeiro, e a concentração de exércitos permanentes e forças repressivas equipadas com armas baseadas nos mais altos níveis de técnicas de produção em massa, deram origem a forças sociais e ideias que restringem e contém a atividade independente da classe operária. Nos próprios países imperialistas, um estrato considerável da classe operária identifica seus interesses com a própria expansão do capitalismo. O novo Estado burocrático provê um grande número de profissões administrativas para as altas camadas da classe operária e absorve a maioria da antiga classe média declinante. Um novo grupo social de funcionários, servidores, gestores, professores, etc. se desenvolveu e com base nesse grupo, junto com a classe operária especializada, uma poderosa tendência oportunista se desenvolveu no movimento operário.

No Reino Unido, a derrota precoce do cartismo (movimento operário por direitos sociais e trabalhistas) e o prolongado crescimento econômico que se seguiu levou ao desenvolvimento do sindicalismo por ofícios em detrimento da organização política. Quando os novos sindicatos gerais emergiram, e a necessidade de representação política foi reconhecida, não foram os revolucionários que se apresentaram como líderes, mas homens de uma perspectiva bem diferente. O fabianismo partiu não da concepção da classe operária como uma força revolucionária, com a luta por reformas fazendo parte da construção dessa força, mas da ideia que o Estado deveria intervir para aliviar as incertezas e pobreza causadas pela operação desenfreada do mercado capitalista. Os reformistas mais extremos achavam que a posse estatal de certas indústrias seria necessária para alcançar isso.

Na Alemanha, ainda que as frases marxistas do Programa de Erfurt continuassem a dominar as declarações dos líderes socialdemocratas, um desenvolvimento parecido também estava ocorrendo. O SPD (Partido Socialdemocrata da Alemanha) tornou-se uma igreja da classe operária ao invés de um partido revolucionário. Quando estourou a Primeira Guerra Mundial em 1914, os parlamentares do SPD não só votaram a favor de verbas para a guerra, como quase todo partido reformista na Europa, como se vangloriavam do serviço que tinham prestado à nação por ter ajudado a criar uma classe operária disciplinada, organizada e culta. Esse comportamento do SPD no estourar da guerra foi o fim de um capítulo na história do marxismo. A época das guerras imperialistas exige partidos de indivíduos solidamente opostos a todo patriotismo, que proclamem a necessidade de transformar as guerras imperialistas em guerras civis revolucionárias. A classe operária de cada país tinha o dever do “derrotismo revolucionário” já que a questão essencial era a quebrar a espinha dorsal do imperialismo.

Para muitos marxistas “ortodoxos” esse giro de Lenin era um pulo no escuro, aventureirismo, típico das tendências “blanquistas”, “voluntaristas” pelas quais ele sempre tinha sido criticado. Mas o “fantasioso” slogan de Lenin era mais profundo e correspondia mais às necessidades das massas do que todo o “realismo” da velha socialdemocracia. Os líderes socialdemocratas alemães acabaram, no ponto alto da revolução de 1918, não apoiando as demandas pela abdicação do Kaiser; e eles deram justificativas “marxistas” para isso: “Para a Socialdemocracia, a forma externa do Estado não importa”! E quando a pressão de baixo os forçou, eles publicaram uma declaração que basicamente dizia que “insistiam na abdicação motivados pela crença de que apenas a abdicação poderia preservar a ordem e impedir a difusão da anarquia”.

Sem dúvida, um fator importante no pavor da Socialdemocracia foi o fato de que os Bolcheviques russos já estavam no poder, e não havia como dizer para onde o processo levaria a Alemanha. Ainda assim, uma explicação “marxista” foi desenvolvida: Scheidemann disse depois que “Ações políticas essencialmente só podem confirmar um desenvolvimento econômico”. Era exatamente esse tipo de “marxismo” que Lenin teve que derrotar no curso da construção de um partido revolucionário na Rússia. Todos os seus esforços foram para estabelecer o papel dominante do proletariado na determinação do curso da história no século XX, determinação vinda não de um “voluntarismo”, mas da natureza da crise do capitalismo, da natureza do imperialismo como o estágio superior das contradições capitalistas.

Kautsky e outros na velha socialdemocracia falharam justo nesse ponto. Eles eram grandes porta-vozes do marxismo como uma teoria para explicar a história no passado, mas a conclusão de Marx sobre a necessidade de uma ditadura do proletariado baseada na socialização da produção moderna não foi inteiramente compreendida. Isso significava ver a classe operária, sua conscientização e sua organização, como fatores históricos decisivos em si, não só resultado da história. Esse é o significado das observações de Gramsci no cabeçalho desse artigo. É o oposto do “A ação política só pode confirmar um desenvolvimento econômico” de Scheidemann e todas as bobagens sobre a política ser “apenas a superestrutura da luta de classes”. Um exemplo interessante do método de Lenin sobre essas questões pode ser encontrado em seus escritos durante o período de reação que se seguiu à revolução de 1905. Um tal Levitsky, com uma disposição similar à dos nossos próprios esquerdistas “proletários”, contestou a estratégia Bolchevique da classe operária liderar a luta pela liberdade política contra o Czarismo. Ele considerava isso uma diluição de princípios, e promoveu o slogan “Não à hegemonia na luta nacional pela liberdade política, por um partido classista!”. Lenin condenou duramente essa bobagem sectária, que significava na prática abandonar o campo político para uma liderança burguesa. [2]

Espontaneidade e sectarismo

Recentemente na Socialist Labour League, uma pequena minoria desenvolveu a ideia de que o Partido Trabalhista estava girando rapidamente para a direita, e que o único modo para os marxistas preservarem sua integridade era construírem um partido totalmente independente do Partido Trabalhista de todas as formas. O Partido Trabalhista teria cessado de ser um partido operário em qualquer sentido, e precisaria ser formado um partido que se concentrasse na luta de classe “real”, “na base”, “no local de trabalho”. Behan e os outros não apenas demonstraram por essa tendência sua completa incompreensão da teoria marxista da sociedade e da política, mas sua conduta deu também uma lição valiosa sobre a importância política de fraquezas teóricas desse tipo, demonstrando como uma abordagem teórica incorreta e um método incorreto podem levar erros históricos de primeira categoria. Justo quando a crise no movimento operário britânico chega precisamente em seu ápice, justamente quando as contradições entre a socialdemocracia e as necessidades históricas da classe operária se expressam de forma mais intensa nas questões da propriedade pública, defesa e a relação entre a classe operária e o Partido Trabalhista – nesse momento ouvimos o chamado: abandonar o navio! A luta industrial é a mais importante! “É mais fácil expor o reformismo no local de trabalho”! – e novamente aqueles que falham em compreender a questão essencial da ação política explicam seus fiascos com frases “marxistas” retumbantes.

É justamente ao se prenderem a essas generalidades abstratas que indivíduos são deixados para trás pelo desenvolvimento histórico. A essência da dialética não é a habilidade de passivamente recitar o que é base e o que é superestrutura, mas saber quando, onde e como agir. Behan insiste na necessidade de voltar para o programa da Industrial Rank-and-File Conference (“Conferência Industrial de Base”) de Novembro de 1958, como se nada tivesse acontecido no movimento sindical e no Partido Trabalhista desde então. Confinar as exigências e a atividade da classe operária ao nível das fábricas no momento atual seria nada menos do que traição; isso é o que quisemos dizer na resposta ao grupo de Behan na Conferência da SLL. Nossa resistência ao sectarismo não é apenas doutrinária, mas parte das lições aprendidas da decapitação do movimento operário alemão, entre outras, quando o Partido Comunista foi incapaz de defender uma política de Frente Única operária de 1929 em diante.

Uma das características mais interessantes dos sectários é sua capacidade de adotar posições bem oportunistas em certas questões, particularmente em questões organizacionais. A fraqueza teórica básica aqui também é a incapacidade de compreender o papel da consciência. Criticar o jornal “Voz dos Trabalhadores” de Brian Behan incorreria no erro de polemizar contra os documentos mais fracos, ao invés dos mais fortes, entre aqueles que defendem a posição de um oponente, e por isso vou abordar alguns pontos levantados na primeira edição do jornal apenas como exemplos, e para introduzir algumas questões mais gerais.

Em sintonia com sua ideia de que a classe em si que deve liderar a revolução, Behan defende que qualquer organização operária, comitê de delegados sindicais, etc. possam apresentar emendas para a Constituição do Partido Trabalhista. Isso obviamente dá uma aparência de um partido aberto para a classe operária, não ditando algo a ela, mas sim dialogando com ela, etc. Mas isso é claramente apenas outro exemplo do velho “economicismo”. Certamente nenhum partido operário será bem sucedido se ele não responder a mudanças no estado de espírito da classe operária, mas isso é uma questão de táticas, de timing, da forma da propaganda, etc. e não uma questão de programa, política e constituição, que são determinadas com base na teoria. A retidão da política de um partido marxista não depende do quanto ela corresponde à consciência mais imediata dos trabalhadores. Mas sim uma questão da compreensão teórica correta de todas as forças sociais existentes em um dado período, inclusive o papel da classe e do partido em si.

Isso levanta a antiga questão da classe operária “formando sua própria liderança” em tempos de luta. É verdade que em toda seção da classe operária surgem militantes excelentes, com grande força organizativa e a habilidade de fazer avançar a consciência de seus colegas operários. Sem essa liderança espontânea que surge das bases, não poderíamos falar de uma revolução. Mas uma liderança revolucionária não é a soma dessas lideranças das bases, não é só a “ligação dos comitês de delegados sindicais”. É necessário algo acima disso, além desse nível, uma liderança política. Não é só uma questão da luta diária entre patrões e trabalhadores, que talvez possam até evoluir em uma grande greve geral, mas da conquista do poder estatal, de fazer valer o papel revolucionário da classe operária na transformação de cada aspecto da sociedade capitalista.

O lugar dos trabalhadores na produção capitalista é o fundamento de seu papel histórico revolucionário, mas para fazer valer esse papel eles precisam estar organizados politicamente, teoricamente, assim como nos locais de trabalho, e a teoria exigida para tal representa uma forma de conscientização mais elevada do que aquela que flui das experiências do proletariado. Se Lenin estava correto ao condenar os “economicistas” por não levar nenhuma teoria aos trabalhadores russos além da notícia de que suas lutas industriais eram vitais, é muito mais importante ainda insistirmos em defender a teoria que o movimento da classe trabalhadora britânico exige, diante de seus vários anos de organização industrial, sua liderança oportunista e os problemas internacionais complexos de liderança que se desenvolveram desde os dias de Lenin.

Isso realça outra fraqueza fundamental do sectarismo: sua tendência ao idealismo. Todo o papo sobre “nenhum acordo” e de se manter longe da putrefação do reformismo resulta do medo de se chocar com a realidade, que é seguida pela busca incessante de alguma seção de trabalhadores que continua pura apesar do boom econômico, como um trampolim de onde começar a luta ao reformismo. Sem dúvida alguma, insistir na militância nas bases da própria classe operária é uma reação saudável contra o reformismo burocrático, mas não existe substituto para a luta política. Não é suficiente saber que o reformismo é podre, condená-lo abertamente, e insistir em se separar do mesmo; a questão é toma-lo a sério como uma força na classe operária britânica e derrotá-lo na luta política. Nessa questão, o erro político do sectarismo está ligado ao erro teórico do determinismo econômico ou “economicismo”. Supõe-se que de alguma forma a classe operária vai desenvolver uma consciência revolucionária porque ela é explorada. Mas a luta ideológica dentro da classe operária é real, ela precisa ser travada com tenacidade e precisa ser vencida antes que a classe possa ser totalmente mobilizada para a batalha. Quando dizemos que a crise prolongada do imperialismo britânico leva à decomposição das bases sociais das políticas reformistas, isso não quer dizer que os reformistas simplesmente sairão de cena e deixarão um lugar vago para uma classe operária naturalmente radicalizada buscando criar um novo tipo de partido. Esse partido precisa ser construído no curso de lutas contra os reformistas, e ele precisa ser construído por aqueles que compreendem teoricamente o processo histórico; ele não cresce nem “naturalmente” nem “organicamente” da base econômica.

Teoria e ideologia no interior da classe trabalhadora

Quando dizemos que ideais políticos e movimentos refletem a base econômica devemos lembrar que essa reflexão é uma série de atos conscientes. A consciência humana é formada em um ambiente de instituições sociais controladas pela classe dominante, instituições de repressão e instituições para o condicionamento educacional, dirigidas por indivíduos treinados para operar essas instituições como se fossem parte de um sistema instituído naturalmente e divinamente. A maioria das organizações operárias se encontra atada a essa estrutura de instituições bem firmadas, e são operadas pelos “representantes da burguesia no movimento operário”. A consciência do proletariado de seu próprio papel precisa ser conquistada na luta contra todas essas instituições e suas consequências ideológicas. Sem uma organização altamente centralizada, essas batalhas ideológicas não podem ser vencidas.

A crise do imperialismo, que é expressa nas lutas coloniais, na corrida armamentista e na guerra atômica, assim como na tendência à recessão, constantemente reforça a decadência e colapso cultural. Movimentos de extrema-direita, como o fascismo, conseguem apelar aos elementos mais perversos da intelectualidade para mobilizar pequeno-burgueses, lumpemproletários e até fileiras dos trabalhadores industriais sob a bandeira dos programas mais obscenos e monstruosos. A alternativa entre socialismo e barbarismo não foi colocada só após Hiroshima, mas estava claro mesmo para os Bolcheviques e para Rosa Luxemburgo durante a Primeira Guerra Mundial.

Estamos em uma época que foi corretamente caracterizada como a época da crise de liderança. O que precisamos acima de tudo é de uma liderança altamente disciplinada capaz de desenvolver a teoria do imperialismo, da Revolução Permanente, da relação entre Estados Operários e a revolução mundial, e de estabelecer sua liderança no seio da classe operária. Ao menos que essa crise de liderança seja resolvida, não haverá nenhum desenvolvimento “natural” em direção ao socialismo, mas sim todos os perigos da guerra e a barbárie. Nesse sentido vital, aqueles que protestam contra o “vanguardismo”, contra “centralização excessiva”, representam uma tendência reacionária no seio do movimento operário.

Os oponentes do centralismo democrático gostam de falar da inevitável crise do capitalismo como uma fonte de ação revolucionária na classe operária: isso é contraposto ao chamado “voluntarismo” dos leninistas, que supostamente acham possível criar uma situação revolucionária da sua cabeça. Mas a preparação da classe e do partido é fundamental em crises sociais. É verdade que periodicamente o capitalismo passa pelas crises mais profundas. Precisamos apenas mencionar o Grande Crash de 1929 e a resultante depressão, e a situação pós-guerra (1945) na Europa, quando para lá retornaram, particularmente para França e a Itália, capitalistas desmascarados pelas suas ações durante a guerra e tiveram que encarar uma classe trabalhadora armada. Nenhum desses casos levou a uma revolução. Em vez disso, auxiliados pelos traidores socialdemocratas e stalinistas, a burguesia conseguiu navegar a tempestade e no caso anterior conseguiu estabelecer regimes que destruíram a possibilidade de uma revolução por muitos anos.

O erro fundamental de supor que, na perspectiva marxista, conscientização e organização refletem a necessidade econômica, precisa ser superado se é que conseguiremos organizar uma revolução vitoriosa. O reflexo ideológico das mudanças econômicas está sempre atrasado. O mecanismo desse “atraso” é a estrutura e educação da classe dominante. É necessário um salto teórico no movimento operário, o desenvolvimento de uma liderança capaz de compreender o significado da crise estrutural da sociedade e injetar a atividade da classe com essa consciência. O importante para a classe revolucionária é que ela não pode continuar a ser determinada em seu pensamento pela economia e instituições existentes. Como Gramsci colocou: “É sempre necessária uma iniciativa política apropriada para libertar o desenvolvimento econômico dos entraves da política tradicional.” (ênfase minha, C.S.).

Aqui a diferença entre a classe operária e as outras classes revolucionárias na história adquire grande importância. Quando Lenin diz que a única arma da classe operária é a organização, ele quer dizer que enquanto a burguesia ascendente, por exemplo, desenvolveu sua própria base econômica, sua arte, sua religião, suas escolas, sua filosofia, e por aí vai, como a expressão e organização de sua consciência social, antes da deposição do sistema político feudal, o proletariado não constrói as instituições da nova sociedade dentro do capitalismo (ao contrário do que pensam os fabianos e a Nova Esquerda).

O capitalismo é o único sistema produtivo na histórica cuja dinâmica interna empurrou-o a desenvolver as forças produtivas sem cessar, e a eliminar todas as outras formas de produção. Para se mobilizarem na deposição do feudalismo, foi suficiente para a burguesia e seus aliados reconhecerem e sentirem as restrições políticas sobre sua crescente força econômica e cultural. Seu próprio desenvolvimento orgânico dentro do feudalismo levou suas “próprias” instituições a um conflito com o regime político que prevenia sua expansão natural. Mas o poder da burguesia é o poder social total: o capital domina todas as relações como uma força propulsora elementar. Para os trabalhadores poderem apreender conscientemente a natureza desse poder e se organizarem para sua deposição, é preciso uma consciência científica de todo o sistema de relações sociais, e não apenas uma compreensão do sentimento de degradação e exploração sofridos no processo produtivo, ou no conhecimento abstrato de que a produção planejada para o uso seria mais razoável. Não existe receptáculo para essa forma de consciência, e nenhuma garantia de seu necessário desenvolvimento constante na teoria e na prática, senão o partido operário. Falar da classe operária “em si” como uma unidade potencialmente revolucionária, sem diferenciação, é substituir a realidade pela mitologia.

Porque é explorada em um sistema desumano, comandada e rebaixada a serviço do capital, a classe operária tem um desenvolvimento desigual, e sob a maioria das circunstâncias permanece apática, se dividindo em seções diferentes, muitas vezes retrógradas em sua visão da maioria dos problemas culturais e sociais, a não ser que exista uma liderança consciente que se diferencie da classe em si, que não esteja a serviço do capital, e que esteja determinada a implodir as falsas consciências que os indivíduos usam para compreender a realidade sob o regime capitalista. Abdicar da responsabilidade de construir essa liderança, sob a desculpa de ter “fé nos próprios trabalhadores”, é capitular às forças que entorpecem a consciência da classe operária – as instituições da própria sociedade capitalista. Um partido centralizado é necessário para a classe operária, para levar a cabo a “ruptura da unidade baseada na ideologia tradicional, sem a qual a nova força (a classe operária) seria incapaz de se conscientizar de sua própria personalidade independente” (Gramsci).

A classe operária não pode se virar, como a burguesia em seu período revolucionário, com um empirismo cru ou um idealismo. Porque o todo da estrutura capitalista precisa ser compreendido conscientemente e porque esse todo e suas leis de desenvolvimento são diferentes da consciência e experiências imediatas do proletariado, a teoria dialética, a teoria avançada baseada na noção das contradições que se desenvolvem no mundo material, é o elemento básico da teoria revolucionária. A façanha de Marx foi demonstrar à classe operária um método de ação baseada nessa abordagem dialética da história. O conhecimento burguês tinha parado seu desenvolvimento justamente nesse período, e foi necessária a mais alta síntese de conhecimentos filosóficos e científicos para saltar adiante. É nesse sentido que precisa ser compreendida a insistência de Lenin que o programa e estratégia da revolução proletária sejam baseados na teoria, e de que essa teoria é introduzida á classe operária de fora, por intelectuais burgueses.

O desenvolvimento da teoria pelos próprios operários revolucionários, após o salto ter sido concretizado, é, obviamente, necessário para qualquer partido revolucionário. Enquanto a classe operária não tiver sido mobilizada pelo partido com base nessas concepções teóricas, a sua consciência continuará sendo determinada pela cultura burguesa, uma cultura que leva o indivíduo a ver a sociedade como um conjunto estabelecido de elementos alheios entre si, não estando sujeitos ao controle e superação, mas determinados naturalmente e com uma realidade independente. A teoria marxista explica, por outro lado, que o mundo dos homens foi criado pelos homens, e que os poderes que se colocam sobre a humanidade são produtos do trabalho, e que se todo esse sistema de exploração do trabalho for abolido, a humanidade será livre e dominará a realidade social ao invés de se colocar à sua mercê. Um partido revolucionário é revolucionário enquanto suas estratégias e táticas sejam derivadas dessa concepção geral. Sem ele, a classe operária luta só contra aspectos limitados da dominação burguesa e, incapaz de ver sua totalidade, tende a recuar após vitórias e derrotas parciais.

Crises revolucionárias e o partido de vanguarda

Obviamente, a construção de uma liderança dotada de solidez teórica e capaz de combater as tendências no movimento operário que refletem a influência de outras classes está longe de ser uma tarefa fácil. A verdadeira organização em uma crise revolucionária, os rápidos giros táticos necessários, o planejamento de insurreições e operações militares, tudo isso claramente exige uma autoridade central e disciplina férrea, e apenas uma disciplina forjada e preparada sobre um longo período de tempo terá a capacidade de cumprir essas tarefas.

Mesmo que não estejamos tratando diretamente dessa fase de desenvolvimento de uma liderança proletária, precisamos tecer alguns argumentos gerais. Certos grupos “antivanguardistas”, como aquele representado pelo jornal Socialismo ou Barbárie, defendem a noção de que, quanto mais próxima a revolução estiver, mais a própria classe operária vai ocupar o palco da história, e que portanto a liderança precisará “preparar a sua própria dissolução”. É difícil entender exatamente o que isso quer dizer, mas, na melhor das hipóteses, isso significa que, quanto mais a classe se aproxima de uma consciência revolucionária, mais a liderança pode se ausentar desse palco.

É óbvio que a característica mais notável das revoluções é o ascenso à atividade política das massas mais amplas, mas isso é uma noção bem diferente da suposição de que a consciência dos processos históricos está firmemente marcada na mentalidade popular. A possibilidade de vitória em crises desse tipo depende acima de tudo na preparação da liderança, e é indissociavelmente ligada com os estágios prévios discutidos nesse artigo. A intervenção das massas nas ações revolucionárias é o que Lenin chamou de forças não treinadas, não disciplinadas e não preparadas. A profundidade da crise levanta forças tremendas, mas a tarefa do partido, das “forças disciplinadas e treinadas”, é dar a essa força a sua capacidade máxima, assegurar que ela não vai se quebrar contra uma parede, se dissipar por canais infrutíferos, etc.

Rosa Luxemburgo, cujo ponto mais fraco é enfatizado pelos seus desprezíveis “amigos”, que são incapazes de aprender a força dela, encontrou esse dilema em janeiro de 1919. A classe operária de Berlim foi liderada por amotinadores e provocadores infiltrados, expondo-se à repressão sangrenta do governo socialdemocrata; o jovem Partido Comunista não teve tempo algum para organizar a insurreição ou para aglutinar seus partidários no resto da Alemanha. Tal situação poderia confrontar uma liderança mais madura; e a direção correta para os trabalhadores seria realizar um recuo tático, como fizeram os Bolcheviques nas “jornadas de julho” de 1917. Mas os comunistas alemães não tinham a autoridade e a confiança para oferecer tal liderança, e a supressão dos distúrbios em Berlim foi apenas o começo da terrível carnificina de 1919, quando os trabalhadores em cidade após cidade pegaram em armas contra o governo, apenas para serem esmagados e assassinados em milhares.

Rosa Luxemburgo havia criticado o centralismo de Lenin e a “superestimação da organização” e confiara demais no crescimento “orgânico” da luta da classe trabalhadora. Apesar de ter percebido antes de Lenin a tendência reacionária de Kautsky e da liderança socialdemocrata alemã, ela não tinha o sentido político e a iniciativa de Lenin para perceber a necessidade da expressão organizativa de uma tendência de oposição no movimento socialista europeu. Não se tratava apenas de a ala direita ter caído em hábitos conservadores de distorção do marxismo, mas da vitória de uma tendência de classe inimiga no interior do movimento. E desde que o mundo havia entrado no estágio final do capitalismo, a construção de uma liderança devotada inabalavelmente à independência política do proletariado era vital.

Como essa conclusão não foi tirada antes, porque Rosa se apegava à ideia de que uma luta ideológica (não organizacional) dentro do movimento seria suficiente para conquistar a classe trabalhadora, a virada à esquerda das massas em novembro de 1918 na Alemanha não resultou em apoio automático aos espartaquistas de Rosa, os futuros comunistas, mas aos socialistas “independentes”, que apareceram às massas como à esquerda da socialdemocracia. Em outras palavras, a mudança nas massas não se refletiu automaticamente na política revolucionária, mas foi “mediada” pelas organizações e formas de consciência existentes.

Uma das referências favoritas dos oponentes da concepção centralizada de “partido de vanguarda” é a Comuna de Paris de 1871. Foi como resultado da breve experiência do governo dos trabalhadores naquela cidade que Marx aguçou suas visões sobre o Estado e a revolução. Agora estava claro, disse ele, que o Estado burguês deve ser esmagado, não “dominado”, e que o novo Estado, a ditadura do proletariado, deve ser o governo dos próprios trabalhadores. Os críticos tardios do leninismo defendem essa perspectiva em oposição à “ditadura” centralizada do Estado de Stalin e do partido de Lenin, mas nesse processo eles cometem um erro que o próprio Marx nunca poderia ter cometido. As conclusões tiradas da Comuna sobre a forma da ditadura do proletariado não são de modo algum iguais às exigências de um partido revolucionário para conquistar o poder!

Socialismo ou Barbárie e tendências semelhantes derivam diretamente da forma do futuro Estado proletário o caráter do partido operário sob o capitalismo. Mas tal partido deve acima de tudo ser capaz de ação e liderança, e não ser idêntico à classe. Mencionamos o argumento de que, em situações revolucionárias, “a própria classe” vem à tona e torna a liderança cada vez mais supérflua. Talvez o melhor antídoto para esse argumento venha do próprio Marx. Em uma carta a Kugelmann, ele fez uma crítica à liderança política da Comuna, que o diferencia completamente daqueles que o invocam contra os leninistas. Ele criticou o Comitê Central da Guarda Nacional por realizar eleições democráticas em um momento em que deveria ter exercido sua autoridade, prolongando sua “ditadura”, a fim de esmagar o inimigo. Para isso, os melhores elementos proletários teriam que ir para o front, e assim um regime mais rigoroso teria sido necessário para manter a autoridade revolucionária na própria Paris. Mas na ausência de uma firme liderança revolucionária, decidiu-se que a democracia deveria ser priorizada; a Comuna foi derrotada. Esta foi apenas uma parte das consequências da falta de preparação e organização revolucionária antes da Comuna (Trotsky – Terrorismo e Comunismo).

Lenin e a luta interna do partido

A firmeza e a nitidez de Lenin na defesa de sua linha política e disciplina organizacional derivavam precisamente dessa necessidade de treinar um contingente que não seria “dominado” pelas tropas irregulares da revolução. De modo algum derivavam de qualquer ambição pessoal ou hábitos ditatoriais, como declaram seus oponentes incessantemente. Os bolcheviques são determinados a basear seu partido apenas nos princípios teóricos mais firmes e a subordinar todo o trabalho partidário a esses princípios. Um movimento desse tipo examina escrupulosamente todas as ideias politicas à luz das necessidades da classe trabalhadora e do partido, e luta impiedosamente contra todas as tendências que desviam o movimento de seu caminho revolucionário. O método de análise é sempre testar essas ideias diante das necessidades das classes da sociedade, tanto na argumentação teórica quanto no trabalho do partido.

No decorrer da conferência de 1903 do Partido Socialdemocrata da Rússia, cenário da famosa disputa entre Lenin e Martov sobre os requisitos de filiação ao partido, Trotsky e outros membros do grupo Iskra apoiaram originalmente a linha política de Lenin, mas acabaram atraídos para o lado dos oportunistas devido ao que consideraram uma rigidez organizacional de Lenin. Trotsky depois deu seu veredicto sobre esse episódio, e vale a pena citá-lo como um antídoto para aqueles que gostam de usar os primeiros escritos de Trotsky sobre a ideia de uma ditadura acima do partido.

“Não foi à toa”, diz Trotsky em Minha Vida, “que as palavras ‘inconciliável’ e ‘inigualável’ apareciam com tanta frequência no vocabulário de Lenin. Somente a mais alta concentração no objetivo da revolução, livre de toda mesquinharia pessoal, pode justificar esse tipo de dureza… Seu comportamento me pareceu inadmissível, terrível, chocante. No entanto, ao mesmo tempo, era politicamente correto e, portanto, indispensável do ponto de vista da organização”.

É nesse aspecto muito importante que as lições da construção do Partido Bolchevique são lições para todos os revolucionários. Todo o método de construção política do partido está envolvido. Lenin, que concordou com Martov sobre questões políticas no início do Congresso, reconheceu que sua diferença em relação às regras era pequena. Ela se tornou importante no decorrer do Congresso, pois ficou claro que, a partir dessa formulação oportunista, Martov cairia nas mãos dos oportunistas. A fim de preservar a atmosfera de unidade entre os marxistas emigrados, Martov estava preparado para se alinhar com os oportunistas em oposição a Lenin. Lenin não estava apenas insistindo em questões organizacionais quando enfatizou a autoridade do Congresso e o papel de liderança da maioria. Os partidários do Iskra, incluindo Martov, não tinham ido ao Congresso representando uma fração – o que negaria a autoridade suprema do Congresso, sempre tão valorizada por Lenin – mas o que eles concordaram, por insistência de Lenin, era aceitar todas as decisões do Congresso.

Isso parecia “inocente o suficiente” na época, como Lenin escreveu, mas uma vez que decisões “desfavoráveis” a eles (por exemplo, na composição do Conselho Editorial do Iskra) foram tomadas, a disciplina foi quebrada. Lenin, convencido de que sem um partido proletário com disciplina férrea não poderia haver revolução, estava preparado para subordinar tudo à insistência nessa tarefa. A indisciplina de Martov e a sua inclinação em direção aos oportunistas eram uma capitulação diante da tendência burguesa no partido, a tendência que se esquivou da mobilização independente da classe trabalhadora na luta pela liderança do movimento contra o czarismo; portanto, era necessária uma cisão.

Questões políticas e organizacionais, portanto, não podem ser separadas. Numa época em que a construção de uma liderança da classe trabalhadora é o problema histórico mais vital, é exatamente nas questões de planejamento e disciplina concretos do trabalho revolucionário que as diferenças políticas se tornam explícitas. Alguns marxistas parecem conceber o partido como simplesmente uma disciplina contratual para impedir que os indivíduos saiam dos trilhos quando eles reagem à pressão da classe. Mas é mais do que isso: deve se tornar a vanguarda da ação revolucionária, o representante do interesse geral da classe trabalhadora.

Na construção de um partido revolucionário, há uma necessidade constante de se esforçar para manter uma relação correta entre democracia e centralismo. O equilíbrio desse relacionamento tende a mudar com a situação objetiva. Durante os tempos em que o movimento revolucionário opera em condições legais, como hoje na Grã-Bretanha, é essencial ter uma discussão democrática completa sobre todas as questões relativas à classe trabalhadora e ao partido. Isso não significa, contudo, que a democracia seja livre para todos, com nada sendo decidido. Para os marxistas, a democracia é uma arma na luta contra o capitalismo. A discussão é necessária para chegar a decisões nas quais a atividade do partido pode ser baseada.

O treinamento constante de novos líderes no partido revolucionário exige a maior paciência da liderança. A autonomia e a iniciativa local, permitindo que os líderes e os membros de base aprendam com seus erros, são essenciais para os órgãos do partido revolucionário. Quanto mais experiente for a liderança revolucionária, mais flexível ela será para ajudar a base, pela teoria e pela prática, a entender a necessidade de um partido centralista democrático.

Em tal ambiente, as diferenças de opinião podem florescer, desde que não se proponham a jogar fora o programa e a política do movimento marxista. Diferenças fundamentais desse tipo, em uma situação objetiva desfavorável, geralmente levam a rompimentos. Cisões desse tipo não podem ser evitadas, e uma liderança madura fará com que as experiências de tais lutas sejam utilizadas para educar os membros sobre a superioridade do método democrático centralista. Qualquer tentativa de resolver a crise interna de forma rápida, baseada em excessivo centralismo e fracionalismo, terá sérias consequências para o partido revolucionário. É por isso que uma liderança revolucionária deve ser o guardião mais vigilante da democracia partidária e o mais firme defensor da disciplina e dos direitos do partido como um todo.

É a interrelação entre democracia e centralismo que constantemente confunde os oponentes idealistas da organização leninista. Em seu esforço para fugir do centralismo, eles adotam uma teoria da espontaneidade e passam a liquidar o partido na classe. A interpretação marxista do centralismo democrático é parte do fato de que ele tira suas conclusões políticas de um estudo histórico objetivo da situação política, e não apenas da consciência existente na classe. A relação entre democracia e centralismo para ele baseia-se nos constantes requisitos da luta de classes. O grande problema hoje na Grã-Bretanha é obter uma concepção marxista do partido. A propaganda capitalista procura constantemente equiparar a disciplina marxista ao stalinismo. Quando os oponentes “socialistas” da disciplina revolucionária fazem a mesma equação, estão refletindo a opinião pública capitalista. Independentemente de suas boas intenções nesse sentido, eles desempenham um papel claro em obstruir a solução da classe trabalhadora para sua necessidade mais premente.

Diferenças teóricas – consequências práticas

Um dos objetivos deste artigo é tornar um pouco mais claras as razões pelas quais os marxistas concentram tanta atenção na discussão teórica, mesmo em questões que às vezes parecem obscuras e afastadas da luta. Sempre há críticos que dizem: o importante é continuar com a luta e se afastar dessas disputas áridas e doutrinárias.

Um bom exemplo é a “questão russa”. A natureza da sociedade soviética é uma questão vital para os marxistas e só pode ser estudada historicamente. Após as revelações de Kruschev em 1956, certos ex-comunistas de destaque da “Nova Esquerda” disseram explicitamente que a Rússia dominava a esquerda havia muito tempo e que, no futuro, deveríamos nos concentrar nos problemas britânicos contemporâneos. Havia apenas zombarias com aqueles que queriam saber “o que Trotsky disse em 1924”, e, no entanto, sem um estudo das raízes sociais do stalinismo, em vez de lhe virarmos as costas horrorizados, não poderia haver uma renovação do marxismo. Mesmo que a década de 1920 na Rússia pareça irrelevante para os problemas britânicos em 1956, era uma pista essencial para a relação de forças na luta de classes e o jogo de tendências no movimento operário do mundo. Não apenas isso, mas a própria existência da URSS, o domínio da burocracia sobre grandes partidos em todo o mundo e sua relação com o imperialismo, criam situações o tempo todo em que a avaliação do sistema social soviético assume importância imediata, e que o movimento operário deixe a questão em aberto é inadmissível.

Uma tendência que atrai certo número de “marxistas” é aquela que considera a economia da URSS como “capitalismo de Estado”. Um debate aprofundado da “teoria” do “capitalismo de Estado” não cabe aqui, mas alguns de seus adeptos ilustram muito bem a conexão entre questões organizativas e questões políticas. A alegação de que a URSS é “capitalista de Estado” é geralmente acompanhada pela visão de que o capitalismo nos EUA, na Grã-Bretanha e em todos os países avançados está avançando para a mesma direção que a URSS – em direção a uma indústria burocrática, controlada pelo Estado, ou de propriedade estatal, com trabalhadores explorados em unidades produtivas cada vez maiores.

Como na Revolução Gerencial de Burnham (produto de uma cisão semelhante do marxismo revolucionário em 1940), a tendência de tais teorias é assumir que essa centralização burocrática (“estatização”, “gerencialismo”) realmente corresponde às necessidades da ciência e da técnica em seu atual nível de desenvolvimento, que representa um estágio naturalmente superior ao imperialismo. E, portanto, somos tentados a concluir que todo o discurso da classe trabalhadora como força revolucionária é um absurdo (Burnham) ou pelo menos que a era do imperialismo capitalista, com todas as conclusões políticas tiradas por Lenin, está no passado. No último caso, o que é necessário é uma análise completamente nova para nos dizer que tipo de contradição domina as novas sociedades e em que sentido uma classe revolucionária pode derrubá-la, se é que essa classe é a classe trabalhadora etc. O que geralmente é feito (e de forma muito insatisfatória) é se apegar à ideia da classe trabalhadora como revolucionária, enquanto se rejeita: (a) a base econômica (capitalismo e imperialismo) que a torna revolucionária; e (b) as consequências organizativas defendidas pelos marxistas.

Como resultado, obtemos entre os que defendem a tese do “capitalismo de Estado” um protesto geral muito abstrato contra a tirania e a opressão, em muitos casos com uma forte tendência ao “antitotalitarismo” ao estilo da Guerra Fria ou dos “socialistas antissoviéticos” dos EUA. As concepções organizativas de Lenin são vistas como desastrosas, pois abriram o caminho para a ditadura de Stalin, uma ditadura não é da classe trabalhadora, mas sobre a classe trabalhadora. A burocracia “em si” é vista como reacionária, uma vez que ofende a ideia de autogoverno da classe trabalhadora.

Atualmente anda circulando a tradução de uma declaração programática do grupo em torno da revista francesa Socialismo ou Barbárie. Este documento, intitulado Socialismo Reafirmado, chega às seguintes conclusões:

“Além disso, a existência objetiva da burocracia, como estrato explorador, torna óbvio que a vanguarda só pode se organizar com base em uma ideologia antiburocrática….
“As principais características de uma organização política que se conscientizou da necessidade de abolir a distinção na sociedade entre pessoas que decidem e pessoas que apenas executam é que essa organização deve, desde o início, procurar abolir essa distinção em suas próprias fileiras.”

Em lugar do desenvolvimento concreto de formas organizativas a partir do desenvolvimento específico de estágios da luta de classes e do tipo de crise social que surge no capitalismo, eles reagem de maneira bastante confusa à crescente concentração do poder estatal burguês, chegando à defesa abstrata de princípios gerais. Assim, como o objetivo é os trabalhadores assumirem o poder; os meios, o movimento, devem acabar com a autoridade. Mas como a classe trabalhadora pode combater tendências alheias à sua classe, consolidar suas vitórias e aprender com suas derrotas, se organizar para esmagar o poderoso inimigo, conduzir a luta política a cada momento, sem uma liderança, e uma liderança com autoridade? Toda a concentração e centralização do poder burguês, suas armas ideológicas e seu controle dos principais elementos políticos do movimento operário, tudo isso torna mais vital a necessidade de liderança revolucionária centralizada e com autoridade reconhecida. De alguma forma, somos convidados a aceitar que a autoridade em si é uma coisa ruim, na verdade o principal inimigo.

Isso é, na realidade, um recuo do marxismo. Não são os indivíduos burocráticos ou portadores de autoridade que governam a vida dos homens no capitalismo, mas a força do capital, produzida pelos homens, mas alienada deles em uma estrutura com sua própria lei de movimento, suas próprias exigências imperiosas em termos de vida e esforço humano. Nosso objetivo não é o abstrato de “abolir a distinção entre os que dão ordens e os que as seguem”, mas a derrubada política da classe cujos interesses residem na perpetuação da dominação do capital, para que as forças produzidas pelo homem sejam postas a seu serviço. Para essa tarefa, precisamos não de um abandono da disciplina e da autoridade centralizada, mas de um aumento sem precedentes das mesmas. Não faz sentido supor que, à medida que a própria classe trabalhadora entrar no cenário político, sua consciência se desenvolvendo a novos patamares, a necessidade de organização e disciplina diminuirá. Pelo contrário, um movimento operário mais ativo e politicamente consciente exigirá isso ainda mais insistentemente. Porque a ascensão da classe trabalhadora é a mais universal e abaladora de todas as transformações históricas, contra a classe dominante mais forte da história, de forma que exige um nível de consciência mais alto e um grau de organização mais alto do que qualquer classe anterior da história.

NOTAS

1. Ver A Terceira Internacional Depois de Lenin (Stalin, o Grande Organizador de Derrotas) e A Revolução Traída, de Leon Trotsky, e O Profeta Desarmado, de Isaac Deutscher sobre o processo através do qual o PC da URSS caiu sob o controle da facção de Stalin, que representava as pressões da pequena-burguesia na Rússia no contexto de derrotas internacionais da classe trabalhadora.

2. A propósito, a insistência de Lenin acerca do papel de liderança da classe trabalhadora mesmo durante o período de derrota torna sem sentido aqueles seus críticos que afirmam que apenas durante o período de levante revolucionário Lenin enfatizou esse papel do proletariado (por exemplo, H. Marcuse em Marxismo Soviético).

Os comentários estão desativados.